Conversações em Tashkent dão prioridade aos transportes e ao investimento
O Uzbequistão e a China procuram transformar uma carteira de projetos próxima dos 60 mil milhões de dólares em empresas em atividade, ligações de transporte mais fortes e maior comércio, com uma ferrovia através do Quirguistão no centro dos seus planos. O presidente Shavkat Mirziyoyev recebeu o primeiro-ministro chinês Li Qiang em Tashkent, a 17 de outubro de 2026, para conversações sobre investimento, energia, tecnologia e cooperação política.
Índice
- Conversações em Tashkent dão prioridade aos transportes e ao investimento
- Uma ferrovia com meta para 2030
- Crescimento do comércio e aposta em mais exportações uzbeques
- Planos de investimento vão além dos transportes
- Um projeto eólico dá um exemplo local da agenda energética
- Tecnologia e serviços públicos na agenda
- Apoio político acompanha os planos económicos
- Voos, isenção de vistos e centros culturais
- Dos compromissos anteriores às próximas etapas
- Pontos-chave
O encontro reuniu vários indicadores de uma relação em expansão: mais de 6.000 empresas em sociedade com participação chinesa, comércio bilateral de 16,1 mil milhões de dólares em 2025 e uma quota chinesa de 23% do comércio externo do Uzbequistão nos primeiros oito meses de 2026. O valor de quase 60 mil milhões de dólares refere-se a projetos apoiados por acordos firmes, com obras e atividade empresarial a avançarem em vários setores.
Li também conversou com o primeiro-ministro uzbeque Abdulla Aripov, após o que os líderes assistiram à assinatura de documentos de cooperação nas áreas do comércio, educação, alfândegas, saúde e redução da pobreza. Outros documentos assinados durante a visita abrangeram o comércio eletrónico, o clima e os meios de comunicação social.
Mirziyoyev e Li centraram-se na execução dos acordos alcançados pelo presidente uzbeque e pelo presidente chinês Xi Jinping em Bishkek, em agosto. Li transmitiu cumprimentos de Xi e apelou a uma coordenação mais estreita entre os dois governos.
O encontro presidencial e as conversações com Aripov foram datados de 17 de outubro, embora o início da visita de Li também tenha sido indicado como 18 de outubro. A visita foi descrita como tendo a duração de dois dias. Ambos os encontros colocaram a cooperação económica prática a par do renovado apoio do Uzbequistão às posições da China sobre Taiwan e segurança.
Uma ferrovia com meta para 2030
A ferrovia China–Quirguistão–Uzbequistão é o projeto de infraestruturas regionais mais concreto em discussão. O traçado previsto tem cerca de 532 quilómetros, um custo estimado de 4,7 mil milhões de dólares e deverá entrar em funcionamento até 2030.
A construção foi oficialmente iniciada em dezembro de 2024. Em setembro de 2026, tinham começado os trabalhos em 27 dos 29 túneis previstos no troço quirguiz, ou seja, cerca de 93% do total. Estes números dizem respeito a túneis onde os trabalhos já tinham começado; a escavação, a construção de pontes e a preparação da plataforma ferroviária continuavam a fazer parte do programa de obras.
Mirziyoyev afirmou que o Uzbequistão estava pronto para acelerar a construção. Li manifestou a disponibilidade da China para garantir que a ferrovia fosse construída segundo padrões elevados. Aripov também se comprometeu a fazer avançar a linha e outros projetos no âmbito da iniciativa «Uma Faixa, Uma Rota», o programa chinês de cooperação económica e infraestruturas internacionais.
O traçado ligaria a China ao Uzbequistão através do Quirguistão, criando uma ligação de transporte direta entre os três países. Os líderes esperam que a sua entrada em funcionamento impulsione o comércio e os transportes regionais. As empresas ao longo do percurso poderão beneficiar de oportunidades no tratamento de mercadorias, na armazenagem e noutros serviços necessários ao transporte de bens.
Eldor Tulyakov, diretor executivo do Centro de Estratégia de Desenvolvimento do Uzbequistão, descreveu o objetivo económico comum da ferrovia:
A ferrovia «liga os interesses de vários países em torno de um projeto comum», afirmou.
Crescimento do comércio e aposta em mais exportações uzbeques
Os números oficiais chineses apontam para um comércio bilateral de 16,1 mil milhões de dólares em 2025, um aumento de 17,9% face ao ano anterior. Esta taxa de crescimento implica um total de cerca de 13,7 mil milhões de dólares em 2024, o que significa que o comércio anual aumentou aproximadamente 2,4 mil milhões de dólares.
Os números oficiais uzbeques mostram que a China representou 23% do volume de comércio externo do Uzbequistão nos primeiros oito meses de 2026, a maior quota entre todos os parceiros comerciais. Em termos simples, quase um dólar em cada quatro do comércio de bens do Uzbequistão nesse período envolveu a China.
Li afirmou que a China estava disposta a importar mais produtos uzbeques, em particular bens valorizados pela sua qualidade ou características distintivas. Incentivou o Uzbequistão a participar na Exposição Internacional de Importação da China, uma importante feira onde fornecedores estrangeiros podem apresentar os seus produtos a compradores chineses.
A China já é uma importante fonte das importações do Uzbequistão. Um mercado maior para os produtos uzbeques daria aos produtores outra forma de beneficiarem da relação, a par do investimento em fábricas e infraestruturas. As conversações abrangeram a agricultura moderna, a cooperação aduaneira e o comércio eletrónico, áreas relevantes para a venda e o transporte de bens através das fronteiras.
Planos de investimento vão além dos transportes
A carteira de projetos do Uzbequistão apoiados por acordos firmes atingiu quase 60 mil milhões de dólares. Mais de 6.000 empresas em sociedade com participação chinesa constituem uma base empresarial já existente para os planos de investimento mais amplos.
Li afirmou que Pequim apoiava o investimento e a atividade no Uzbequistão de empresas chinesas com maior capacidade. Apelou também à criação de condições favoráveis para essas empresas. Mirziyoyev saudou novos investimentos chineses, enquanto Aripov manifestou apreço pelo apoio da China às reformas e ao desenvolvimento do Uzbequistão.
A agenda de investimento inclui os setores químico, geológico, mineiro, metalúrgico, de fabrico de veículos e de produção de equipamentos, bem como a modernização das infraestruturas. Também foi discutido o financiamento, a par das ligações físicas necessárias para transportar mercadorias e apoiar a atividade empresarial.
Os líderes propuseram uma maior articulação entre as respetivas estratégias de desenvolvimento. Na prática, isso significa procurar alinhar as prioridades do Uzbequistão para a indústria, a energia e as infraestruturas com o financiamento, os equipamentos e a capacidade empresarial que os parceiros chineses podem disponibilizar.
Um projeto eólico dá um exemplo local da agenda energética
Um projeto de energia eólica apoiado pela China ficou concluído em agosto, no distrito de Bostanlyk, na região de Tashkent. Quando estiver em pleno funcionamento, deverá permitir poupar cerca de 12 milhões de metros cúbicos de gás natural e reduzir as emissões de dióxido de carbono em aproximadamente 24.000 toneladas por ano.
Estas poupanças previstas ilustram o propósito local da parceria energética mais ampla. A eletricidade produzida a partir do vento pode reduzir a quantidade de gás necessária para a produção de energia. Os valores relativos a Bostanlyk são estimativas para o funcionamento em plena capacidade.
Centrais solares e parques eólicos construídos por empresas chinesas já fornecem eletricidade às redes de várias regiões uzbeques. As conversações procuraram alargar essa cooperação e abordaram também as utilizações pacíficas da energia nuclear, uma vertente distinta da proposta de agenda energética.
Tulyakov destacou o fabrico de veículos elétricos e a energia verde como áreas em que a cooperação contribuía para os objetivos de desenvolvimento do Uzbequistão. Descreveu a relação entre os acordos políticos e a atividade económica:
«A confiança política cria condições favoráveis, e o trabalho prático dá-lhe substância», afirmou.
Tecnologia e serviços públicos na agenda
A inteligência artificial, as tecnologias digitais, a robótica, a indústria aeroespacial e a investigação científica estiveram entre as áreas propostas para uma cooperação mais estreita. A inteligência artificial utiliza sistemas informáticos para realizar tarefas como reconhecer padrões e analisar informação, enquanto a robótica aplica máquinas a tarefas físicas.
Os líderes discutiram estas áreas a par do fabrico de equipamentos e da agricultura moderna. A agenda abrange, assim, desde atividades industriais consolidadas, como a mineração e a indústria química, até tecnologias que poderão ser utilizadas nas fábricas, na agricultura e nos transportes.
Os documentos de cooperação assinados também foram além do investimento comercial. A saúde, a educação e a redução da pobreza foram incluídas no pacote testemunhado por Li e Aripov, enquanto a cooperação climática fez parte da visita mais ampla.
O Uzbequistão e a China têm partilhado experiências na redução da pobreza. Não foram anunciados calendários de execução pormenorizados, discriminações do financiamento ou metas mensuráveis para as iniciativas específicas nas áreas da tecnologia e dos serviços públicos, ficando esses detalhes para trabalhos posteriores entre os organismos responsáveis.
Apoio político acompanha os planos económicos
Mirziyoyev reafirmou o compromisso do Uzbequistão com a política de Uma Só China e o apoio a Pequim na defesa do que a China designa como os seus interesses fundamentais. Taiwan está no centro dessa posição: Pequim considera a ilha parte da China e opõe-se à sua independência.
O compromisso do Uzbequistão dá seguimento a uma declaração conjunta emitida em 2024, na qual Tashkent afirmou que não estabeleceria relações oficiais nem manteria contactos oficiais com Taiwan. As conversações de outubro renovaram este alinhamento político enquanto os dois governos discutiam a expansão dos laços económicos.
Mirziyoyev manifestou também disponibilidade para dar continuidade à cooperação contra o terrorismo, o separatismo e o extremismo, as três categorias que as autoridades chinesas agrupam sob a expressão «três forças do mal». Li apelou a uma comunicação estratégica mais forte e à manutenção do apoio aos interesses fundamentais de cada país.
Os dois governos discutiram ainda a coordenação através da Organização de Cooperação de Xangai, do quadro China–Ásia Central e das Nações Unidas. A China e o Uzbequistão foram membros fundadores da OCS em 2001. A organização conta agora com 10 membros, após a adesão da Índia e do Paquistão em 2017, do Irão em 2023 e da Bielorrússia em 2024.
Voos, isenção de vistos e centros culturais
Li instou ambos os países a aproveitarem melhor o acordo mútuo de isenção de vistos para aumentar as viagens. Os líderes discutiram também o reforço das ligações aéreas entre cidades chinesas e uzbeques, juntando a capacidade de transporte à simplificação dos procedimentos de entrada.
O número de turistas chineses que visitam o Uzbequistão está a aumentar. Mais voos apoiariam essas viagens e serviriam também os visitantes em negócios, os estudantes e as pessoas que participam em intercâmbios culturais. Os intercâmbios de jovens e a cooperação entre regiões e cidades estiveram entre as áreas que Li propôs alargar.
Os Dias da Cultura do Uzbequistão deveriam decorrer na China nos dias seguintes ao encontro. Os dois governos também planeavam abrir centros culturais nos respetivos países, e Li apelou à sua rápida criação.
Estes intercâmbios fazem parte dos preparativos para o 35.º aniversário das relações diplomáticas, em 2027. Li afirmou que a China pretendia aproveitar a efeméride para aprofundar a confiança política e a cooperação prática. Durante a visita, depositou também uma coroa de flores no Monumento da Independência do Uzbequistão.
Dos compromissos anteriores às próximas etapas
Os encontros de outubro ligaram vários anos de acordos a obras já em curso. As próximas etapas mais concretas são o aniversário diplomático, em 2027, e a entrada em funcionamento prevista da ferrovia até 2030.
- 2024: Numa declaração conjunta, o Uzbequistão reafirmou que não estabeleceria relações oficiais nem manteria contactos oficiais com Taiwan.
- Dezembro de 2024: O projeto da ferrovia China–Quirguistão–Uzbequistão foi oficialmente lançado.
- 2025: O comércio bilateral atingiu 16,1 mil milhões de dólares, mais 17,9% do que no ano anterior.
- Agosto de 2026: Xi e Mirziyoyev reuniram-se em Bishkek. Nesse mês, ficou também concluído no distrito uzbeque de Bostanlyk um projeto eólico apoiado pela China.
- Setembro de 2026: Tinham começado os trabalhos de construção em 27 dos 29 túneis previstos no troço quirguiz da ferrovia.
- 17 de outubro de 2026: Li conversou em Tashkent com Mirziyoyev e Aripov, e foram assinados documentos de cooperação durante a visita.
- 2027: A China e o Uzbequistão assinalarão 35 anos de relações diplomáticas.
- 2030: Está previsto que a ferrovia entre em funcionamento.
Para os produtores uzbeques, a oportunidade comercial imediata é a disponibilidade declarada da China para comprar mais produtos locais. Para as empresas de construção e as comunidades ao longo da ferrovia, o foco está na continuação das obras. Os projetos energéticos oferecem outro indicador prático do progresso: eletricidade fornecida, gás poupado e equipamento em funcionamento.
Pontos-chave
- Mirziyoyev e Li discutiram uma carteira de projetos próxima dos 60 mil milhões de dólares e mais de 6.000 empresas em sociedade com participação chinesa.
- O comércio bilateral atingiu 16,1 mil milhões de dólares em 2025, enquanto a China representou 23% do comércio externo do Uzbequistão nos primeiros oito meses de 2026.
- O custo previsto da ferrovia através do Quirguistão é de 4,7 mil milhões de dólares; terá cerca de 532 quilómetros e deverá entrar em funcionamento até 2030.
- Os documentos de cooperação abrangeram o comércio, a educação, as alfândegas, a saúde, a redução da pobreza, o comércio eletrónico, o clima e os meios de comunicação social.
- Quando estiver em pleno funcionamento, o projeto eólico de Bostanlyk deverá permitir poupar cerca de 12 milhões de metros cúbicos de gás e reduzir as emissões de dióxido de carbono em aproximadamente 24.000 toneladas por ano.
- O Uzbequistão renovou o seu compromisso com a política de Uma Só China, enquanto ambos os governos procuraram alargar as viagens e os intercâmbios culturais e reforçar a coordenação através de organizações internacionais.






