Um plano nacional para as crianças vítimas de violência
O Paquistão lançou a sua primeira Estratégia Nacional para Pôr Fim à Violência contra as Crianças em 14 de outubro de 2026, em Islamabad, definindo um quadro para proteger os 120 milhões de crianças do país entre 2026 e 2031. O Ministério dos Direitos Humanos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentaram a estratégia enquanto o Paquistão se preparava para uma conferência ministerial mundial em Manila, em novembro.
Índice
- Um plano nacional para as crianças vítimas de violência
- As crianças falam do medo em casa, na escola e na Internet
- A prevenção começa antes de uma criança ser vítima
- O contributo do quadro INSPIRE
- Como foi desenvolvida a estratégia
- Os números anteriores revelam lacunas no retrato nacional
- O que revelam os registos de financiamento e compromissos
- Quem vai transformar o quadro em ações?
- A violência é também um problema de saúde pública
- Pontos-chave
Os números divulgados no lançamento mostram a dimensão da violência na infância. Segundo a estratégia, até oito em cada 10 crianças são sujeitas a disciplina violenta. Entre os utilizadores da Internet dos 12 aos 17 anos, um em cada 16 é vítima de exploração ou abuso através da tecnologia. Cerca de 840 000 crianças dos 10 aos 17 anos já foram casadas, e 8,6 milhões de crianças trabalham.
A declaração de lançamento da ONU refere também que mais de 57% das crianças com menos de cinco anos não estão registadas junto de uma autoridade civil. Sem um registo oficial, as crianças enfrentam maiores dificuldades no acesso à proteção e a serviços essenciais, o que acrescenta mais uma camada de vulnerabilidade.
A estratégia reúne num único quadro nacional a prevenção, a proteção, a resposta, a recuperação, a reintegração e a justiça. Em termos simples, pretende impedir a violência antes de acontecer, ajudar as crianças quando são vítimas, apoiar a sua recuperação e assegurar o acesso à justiça. O objetivo declarado é chegar a todas as crianças, independentemente do rendimento familiar ou da condição social.
O secretário federal dos Direitos Humanos, Abdul Khalique Shaikh, afirmou que o lançamento seria avaliado pelo que se lhe seguisse. Descreveu a estratégia como o início do trabalho do Governo:
«Esta estratégia é apenas o início. O sucesso será medido pelas nossas ações e pela nossa capacidade de proteger as crianças da violência»,
As crianças falam do medo em casa, na escola e na Internet
A dirigente das Guias Qurat Ul Ain Safdar Khan colocou no centro do lançamento as experiências quotidianas das crianças. Falou de bullying na escola, castigos que causam dor e humilhação, assédio, ameaças nos ecrãs dos telemóveis, trabalho forçado e casamento na infância.
A sua mensagem abordou também a dificuldade de procurar proteção quando a pessoa que causa dano é alguém próximo. Disse que a maioria das crianças é vítima de abuso por parte de alguém que conhece e em quem confia, o que torna especialmente importante poder falar em segurança.
Khan apelou a que a ajuda chegue durante a infância, em vez de se fazerem promessas para um futuro distante:
«Ouvimos muitas vezes dizer que as crianças são o futuro, mas a nossa infância está a acontecer agora. A segurança e a proteção que merecemos, bem como o apoio de que precisamos, não podem esperar até sermos adultos»,
A estratégia abrange homicídios violentos, violência física, violência sexual, violência psicológica e negligência, bem como violência, exploração e abuso relacionados com a tecnologia. Este âmbito liga danos que podem ocorrer em diferentes lugares, mas afetar a mesma criança, em casa, na escola, no trabalho ou na Internet.
A prevenção começa antes de uma criança ser vítima
A representante interina adjunta da UNICEF no Paquistão, Jennifer Melton, destacou uma mensagem transmitida pelas crianças: a violência continua a ser encarada como disciplina. Com até 80% das crianças sujeitas a disciplina violenta, mudar o tratamento que recebem no dia a dia é central para os objetivos da estratégia.
Melton afirmou que a prevenção exige apoio aos pais e cuidadores, ambientes de aprendizagem seguros e positivos, medidas contra normas sociais prejudiciais e conhecimento, por parte das crianças, dos seus direitos e de onde podem pedir ajuda. As normas prejudiciais são crenças partilhadas que fazem comportamentos nocivos parecer aceitáveis, incluindo a ideia de que causar dor é uma forma necessária de educar uma criança.
Por isso, pais, escolas e serviços de proteção têm funções interligadas. O apoio aos cuidadores pode ajudar a corrigir comportamentos antes de os castigos se tornarem violentos; ambientes de aprendizagem seguros podem reduzir a exposição a danos; e serviços acessíveis podem ajudar as crianças que precisam de proteção. Estas são as áreas que a UNICEF identificou como necessárias para pôr fim à violência, juntamente com a resposta aos casos de abuso.
O contributo do quadro INSPIRE
A estratégia do Paquistão assenta na Convenção sobre os Direitos da Criança e no INSPIRE, um conjunto de medidas desenvolvido por 10 organizações internacionais sob a liderança da OMS. O INSPIRE agrupa em sete áreas as abordagens que reduziram a violência contra as crianças em muitos países.
- Leis que protegem as crianças.
- Normas sociais que promovem a segurança em vez da violência.
- Ambientes seguros onde as crianças vivem e passam o seu tempo.
- Apoio aos pais e cuidadores.
- Estabilidade financeira para as famílias.
- Serviços de resposta e apoio.
- Competências para a vida que ajudam as crianças a lidar com riscos.
O quadro liga os serviços públicos às circunstâncias familiares. Uma criança vítima de exploração pode precisar de proteção contra um agressor, de ajuda para regressar à escola e de apoio a um agregado familiar sob pressão financeira. Uma criança vítima de violência em casa pode precisar tanto de segurança imediata como de assistência continuada.
A abordagem declarada pelo Paquistão abrange a recuperação e a reintegração, além da prevenção e da resposta. Recuperar significa ajudar as crianças a restabelecer a saúde e o bem-estar após sofrerem danos. Reintegrar significa apoiar o regresso a uma vida segura em família, na escola ou na comunidade.
Como foi desenvolvida a estratégia
O lançamento de outubro de 2026 foi precedido de consultas que envolveram autoridades e parceiros de todo o Paquistão. O processo liga também a nova estratégia aos compromissos assumidos na primeira Conferência Ministerial Mundial para Pôr Fim à Violência contra as Crianças, realizada em Bogotá, na Colômbia, em 2024.
- 1 de novembro de 2024: O Ministério dos Direitos Humanos apresentou compromissos relativos a recursos para a proteção infantil, quadros jurídicos e políticos, serviços de resposta e apoio a pais e cuidadores.
- 1 de outubro de 2025: O principal compromisso de proteção infantil foi atualizado no registo de acompanhamento da conferência.
- Novembro de 2025: As consultas começaram em Carachi e terminaram em Islamabad, em 14 de novembro, com a participação de todas as províncias e áreas autónomas.
- 14 de outubro de 2026: O ministério e a OMS lançaram a estratégia nacional em Islamabad.
- 14 a 15 de outubro de 2026: Uma consulta preparatória nacional reuniu mais de 100 participantes para analisar os progressos e identificar medidas concretas e mensuráveis.
- Novembro de 2026: A segunda conferência ministerial mundial está prevista para Manila, nas Filipinas.
- 2027: Este ano consta como prazo de execução do principal compromisso, enquanto a estratégia nacional se prolonga até 2031.
O ministério liderou a consulta de outubro em parceria com a UNICEF e a OMS. Entre os participantes estavam autoridades federais e provinciais, especialistas, representantes da sociedade civil, organizações juvenis e crianças. A sua tarefa incluiu analisar os compromissos anteriores do Paquistão e identificar soluções práticas.
Os números anteriores revelam lacunas no retrato nacional
A declaração da OMS sobre as consultas de novembro de 2025 descrevia um Plano de Ação Estratégico previsto para proteger 112 milhões de crianças. No lançamento de outubro de 2026, a população infantil é estimada em 120 milhões.
A estratégia de 2026 aponta para 8,6 milhões de crianças em situação de trabalho infantil; a declaração da OMS de 2025 referia mais de 12,5 milhões. Quanto ao registo, o lançamento afirma que mais de 57% das crianças com menos de cinco anos não estão registadas junto de uma autoridade civil, enquanto a declaração anterior da OMS dizia que apenas uma em cada três era registada à nascença.
As declarações não apresentam as datas, definições ou metodologias necessárias para explicar estas diferenças. Uma base estatística coerente será importante para as autoridades medirem os progressos face aos objetivos da estratégia.
Ambas as declarações identificam as crianças deslocadas, migrantes e residentes em bairros urbanos informais ou pobres como estando expostas a riscos desproporcionadamente elevados. Entre esses riscos estão a exploração, o casamento precoce, o tráfico e o trabalho infantil. Chegar a estes grupos será, por isso, um teste concreto à promessa da estratégia de proteger as crianças, independentemente do local onde vivem ou da sua situação económica.
O que revelam os registos de financiamento e compromissos
O registo dos compromissos da conferência do Paquistão classifica como «On Track» o principal compromisso do Ministério dos Direitos Humanos, com prazo até 2027. Os temas abrangidos incluem recursos humanos, financeiros e de infraestruturas, quadros jurídicos e políticos, e serviços de resposta e apoio.
O registo indica 10 170 000 beneficiários e um investimento estimado de 4,53 milhões de dólares. Tanto o número total de pessoas abrangidas como o montante atribuído até à data surgem como «Not reported». O valor financeiro é apresentado como investimento estimado para esse compromisso; a estratégia nacional abrange uma população mais vasta e prolonga-se até 2031.
Os beneficiários indicados correspondem a cerca de 8,5% das 120 milhões de crianças identificadas no lançamento da estratégia, um valor calculado dividindo 10,17 milhões por 120 milhões. Os números mostram a diferença de escala entre o compromisso registado e a ambição da estratégia nacional de proteger todas as crianças.
Um segundo compromisso, também apresentado em 1 de novembro de 2024, diz respeito ao apoio a pais e cuidadores. Não tem atualizações, prazo definido nem descrição dos progressos. O seu estado é indicado como «Not allocated».
Esta diferença é relevante porque o apoio aos cuidadores é uma das sete áreas do INSPIRE e uma parte central da mensagem da UNICEF sobre prevenção. O registo dos compromissos permite acompanhar se esse compromisso passa a ter um calendário e resultados comunicados.
Quem vai transformar o quadro em ações?
Durante as consultas de 2025, o secretário federal Shaikh definiu as modalidades de trabalho previstas. Apelou a uma atuação conjunta dos sistemas de educação, saúde, aplicação da lei e comunidade, apoiada por metas mensuráveis, responsabilidades institucionais claras e mecanismos de monitorização e avaliação.
Para as famílias, a coordenação significa que os serviços envolvidos na segurança de uma criança têm de estar ligados. Uma criança que precisa de cuidados médicos pode também precisar de proteção, apoio na escola e acesso à justiça. Responsabilidades claras ajudam a identificar qual a instituição que deve agir em cada fase.
O Dr. Muhammad Arif, diretor de Cooperação Internacional do Ministério dos Direitos Humanos, afirmou que as consultas faziam parte do desenvolvimento de uma abordagem coordenada, alinhada com a Constituição do Paquistão, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e os compromissos internacionais em matéria de direitos humanos. Apelou ao reforço e à integração dos quadros jurídicos e institucionais existentes.
No lançamento de 2026, a secretária parlamentar dos Direitos Humanos, Saba Sadiq, afirmou que o Governo do primeiro-ministro Shehbaz Sharif estava empenhado em reforçar a proteção infantil. Identificou políticas eficazes, instituições sólidas e esforços coletivos como necessários para salvaguardar os direitos, a dignidade e o futuro das crianças.
A violência é também um problema de saúde pública
O representante da OMS no Paquistão, o Dr. Luo Dapeng, afirmou que as consequências da violência podem prolongar-se muito para além de uma lesão imediata. Identificou efeitos na saúde mental, no desenvolvimento, na educação e nas relações, que podem persistir até à idade adulta.
Luo descreveu o alcance desses danos:
As consequências da violência podem ir muito além de uma lesão imediata. Podem afetar a saúde mental, o desenvolvimento, a educação e as relações de uma criança, e continuar a influenciar a saúde e o bem-estar na idade adulta.
A OMS estima que mil milhões de crianças em todo o mundo são vítimas de violência física, sexual ou emocional todos os anos. Uma criança morre em consequência da violência a cada cinco minutos. Segundo a OMS, estas mortes e os danos duradouros causados pela violência podem ser evitados.
O próximo marco internacional previsto para o Paquistão é a conferência de Manila, em novembro de 2026, seguida do prazo de 2027 para o principal compromisso. A estratégia estabelece um quadro até 2031; os dados sobre despesas, cobertura dos serviços e progressos face a metas mensuráveis mostrarão de que forma esse quadro transforma o quotidiano das crianças.
Pontos-chave
- O Paquistão lançou a sua primeira Estratégia Nacional para Pôr Fim à Violência contra as Crianças em 14 de outubro de 2026, para o período de 2026 a 2031.
- A estratégia pretende proteger 120 milhões de crianças através da prevenção, proteção, resposta, recuperação, reintegração e justiça.
- Refere que até 80% das crianças são sujeitas a disciplina violenta e que 8,6 milhões de crianças trabalham.
- A declaração da OMS de 2025 apresentou números diferentes sobre a população infantil, o trabalho infantil e o registo; as metodologias subjacentes não foram detalhadas.
- O principal compromisso da conferência indica 10,17 milhões de beneficiários, um investimento estimado de 4,53 milhões de dólares e um prazo até 2027; os montantes atribuídos e o número de pessoas abrangidas não foram comunicados.
- A próxima conferência ministerial mundial está prevista para Manila, em novembro de 2026.






