Recrutamento começa a 1 de abril de 2027
O Japão começará a recrutar trabalhadores do Bangladesh ao abrigo de um novo acordo de emprego e competências a 1 de abril de 2027. O Governo do Bangladesh promete proteção jurídica equivalente à dos trabalhadores japoneses e salvaguardas contra o despedimento por motivo de gravidez ou parto.
Índice
- Recrutamento começa a 1 de abril de 2027
- Quem assinou e o que acontece a seguir?
- Que proteção promete o Bangladesh?
- Porque é importante o antigo sistema de estágios
- Acordo japonês mostra como podem funcionar as salvaguardas
- Como funciona a atual via para trabalhadores qualificados
- Emprego mais longo e residência permanente
- A formação tem de corresponder a empregos reais
- Bangladesh integra um esforço de recrutamento mais amplo
- Pontos principais
O Memorando de Cooperação para o Desenvolvimento de Competências Profissionais, assinado a 17 de outubro de 2026, surge após quase um ano de negociações. Acompanha a substituição, pelo Japão, do Programa de Estágios Técnicos, através do qual as empresas empregavam estagiários estrangeiros, por um sistema destinado a aproximar mais o emprego do desenvolvimento de competências.
O acordo terá inicialmente a duração de cinco anos e será automaticamente prorrogado por mais cinco, segundo o Ministério do Bem-Estar dos Expatriados e do Emprego no Estrangeiro do Bangladesh. O ministério espera que contribua para salários mais elevados e períodos de emprego mais longos no Japão, à medida que os trabalhadores adquirem competências.
O Japão planeia recrutar 426 200 trabalhadores estrangeiros ao abrigo do novo programa, entre 1 de abril de 2027 e março de 2029, oriundos de 17 países, incluindo o Bangladesh, segundo dados atribuídos ao Ministério da Justiça japonês. A quota do Bangladesh nesse total, os encargos de recrutamento e os requisitos de candidatura detalhados para esta nova via ainda não foram anunciados.
Mais de 55 000 bangladeshianos já trabalham no Japão, segundo a embaixada do Bangladesh no país. Trabalham em setores como a construção, a prestação de cuidados, a construção naval, os serviços de assistência em terra nos aeroportos, o vestuário e a agricultura. O número divulgado pela embaixada não inclui mais de 2 000 pessoas de origem bangladeshiana que adquiriram a nacionalidade japonesa.
Para quem pretende trabalhar no Japão, o acordo define uma data para o início do recrutamento e promete maior proteção. Transformar essas promessas em emprego estável exigirá também preparação em língua japonesa, uma correspondência fiável entre candidatos e empregos e contratos claros.
Quem assinou e o que acontece a seguir?
Mokhtar Ahmed, secretário do Ministério do Bem-Estar dos Expatriados e do Emprego no Estrangeiro do Bangladesh, assinou em nome do país. Representantes dos ministérios japoneses da Justiça, dos Negócios Estrangeiros e da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, bem como da Agência Nacional de Polícia, assinaram em nome do Japão, nos respetivos países.
Está prevista a troca formal de cópias do acordo durante a visita do primeiro-ministro Tarique Rahman ao Japão, de 26 a 29 de outubro. Um responsável da embaixada do Bangladesh no Japão afirmou que se esperava que cerca de 60 empresas privadas envolvidas no envio e acolhimento de trabalhadores assinassem acordos comerciais durante a visita.
O calendário distingue a assinatura, a troca diplomática e o início do recrutamento:
- 17 de outubro de 2026: o Bangladesh e o Japão assinaram o memorando sobre emprego e competências, após quase um ano de trabalho.
- 26 a 29 de outubro de 2026: a visita prevista de Rahman ao Japão incluirá a troca formal dos documentos do acordo.
- 1 de abril de 2027: deverá começar o recrutamento ao abrigo do novo acordo.
- Março de 2029: termina o período abrangido pelo plano de recrutamento japonês anunciado para 426 200 trabalhadores.
Os acordos com as empresas poderão ajudar a pôr empregadores em contacto com organizações de recrutamento. Os trabalhadores continuarão a precisar de ofertas de emprego individuais e das autorizações de imigração exigidas para a respetiva via de emprego.
Que proteção promete o Bangladesh?
Ariful Haque Chowdhury, ministro do Bem-Estar dos Expatriados e do Emprego no Estrangeiro, afirmou que os trabalhadores bangladeshianos abrangidos pelo acordo terão proteção jurídica equivalente à concedida aos trabalhadores japoneses. Disse também que mulheres e homens terão oportunidades iguais no local de trabalho.
O ministro apontou a gravidez e o parto como motivos específicos em relação aos quais as trabalhadoras estrangeiras devem ser protegidas contra o despedimento ou o tratamento discriminatório. O ministério afirmou que o acordo não contém nenhuma disposição obrigatória que imponha o regresso forçado das mulheres ao Bangladesh por engravidarem ou darem à luz.
Para uma trabalhadora que planeie constituir família, estas salvaguardas dizem respeito tanto ao seu emprego como à possibilidade de continuar a viver no Japão ao abrigo das regras de imigração aplicáveis. Visam responder ao risco de um empregador ou de uma organização de recrutamento a pressionar a sair devido à maternidade.
Chowdhury apresentou também o desenvolvimento de competências como parte do conjunto de medidas de proteção. O objetivo do Governo é que o emprego desenvolva as capacidades dos trabalhadores e melhore as suas perspetivas de obter melhores salários e de continuarem a trabalhar, em vez de os deixar dependentes de um único contrato temporário.
Porque é importante o antigo sistema de estágios
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico analisou as fragilidades da via de estágios japonesa na sua análise da migração no Japão, publicada em 2024. Os estagiários técnicos podiam permanecer no país até cinco anos, mas, em geral, só podiam mudar de empregador em circunstâncias excecionais.
A OCDE identificou os intermediários de recrutamento e as dívidas geradas por comissões excessivas como vulnerabilidades persistentes. Um trabalhador que contraia uma dívida avultada para conseguir uma colocação poderá sentir-se pressionado a permanecer num emprego inadequado, pois os pagamentos continuam mesmo quando os rendimentos ficam aquém das expectativas.
As restrições à mudança de empregador aumentam essa pressão. Encontrar outro local de trabalho torna-se especialmente difícil quando o emprego e a situação migratória de uma pessoa estão estreitamente ligados à colocação inicial.
O economista Abdullah Shibli, que escreveu sobre os preparativos do Bangladesh para o recrutamento destinado ao Japão, também referiu preocupações relacionadas com taxas de inscrição ocultas, poupanças obrigatórias retidas, salários abaixo do mínimo legal e horários de trabalho excessivos. Os novos mecanismos de recrutamento terão de responder a estas questões práticas através de encargos transparentes, contratos compreensíveis e acesso a apoio.
A OCDE concluiu que a cooperação com os países de origem dos trabalhadores tinha contribuído para algumas melhorias nas práticas de recrutamento, embora as comissões excessivas persistissem em alguns países. O acordo com o Bangladesh entra, assim, num contexto em que a gestão dos custos de recrutamento é tão importante como a redação das proteções laborais.
Acordo japonês mostra como podem funcionar as salvaguardas
O memorando japonês sobre competências com o Sri Lanka, publicado pelo Japão, apresenta um exemplo detalhado das proteções previstas no quadro do Emprego para o Desenvolvimento de Competências. O Japão e o Sri Lanka assinaram o documento em Tóquio, a 20 de maio de 2026, e em Colombo, a 23 de julho de 2026, tendo a cooperação começado nesta última data.
O memorando com o Sri Lanka exige que as condições de trabalho sejam explicadas presencialmente ou em linha antes de o trabalhador assinar um contrato de trabalho. Refere a proteção prevista na Lei das Normas Laborais, na Lei da Segurança e Saúde no Trabalho e na Lei da Igualdade de Oportunidades e Tratamento entre Homens e Mulheres no Emprego do Japão.
As disposições incluem salários iguais aos dos trabalhadores japoneses que desempenhem funções equivalentes, acesso a mecanismos de apresentação de queixas e a responsabilidade do empregador pelas despesas de repatriamento quando a rescisão não esteja relacionada com conduta indevida do trabalhador. O memorando recomenda ainda vivamente que os contratos sejam redigidos em japonês e na língua materna do trabalhador.
O documento estabelece um período máximo de três anos para o desenvolvimento de competências e limita os pagamentos a uma organização de envio aprovada ao equivalente a dois meses da remuneração indicada no plano de desenvolvimento do trabalhador. Os trabalhadores também devem estar protegidos contra o pagamento direto ou indireto de taxas de supervisão e apoio.
Os encargos com alimentação e alojamento devem ser compreendidos e aceites pelo trabalhador, e os valores devem refletir os custos efetivos ou outro montante adequado. Estas disposições pertencem ao acordo entre o Japão e o Sri Lanka; os compromissos anunciados pelo Bangladesh centram-se na igualdade da proteção jurídica, na igualdade de oportunidades no local de trabalho e nas salvaguardas relativas à maternidade.
Como funciona a atual via para trabalhadores qualificados
Atualmente, os bangladeshianos chegam ao Japão por várias vias, incluindo estágios técnicos, estudos de japonês e o programa de Trabalhadores Qualificados Especificados. A Agência dos Serviços de Imigração do Japão inclui o Bangladesh entre os países com acordos no âmbito do atual sistema para trabalhadores qualificados.
Os procedimentos para trabalhadores qualificados da agência explicam os passos concretos para recrutar um cidadão bangladeshiano no Bangladesh. A organização japonesa que acolhe o trabalhador tem primeiro de apresentar uma carta de pedido à embaixada do Bangladesh no Japão e obter a respetiva autenticação.
Em seguida, o trabalhador em perspetiva ou uma organização de envio aprovada deve apresentar os documentos relevantes, incluindo o visto japonês, ao Gabinete de Recursos Humanos, Emprego e Formação do Bangladesh, conhecido pela sigla BMET. Depois de analisar o pedido, o BMET emite um cartão de autorização de emigração, necessário para o trabalhador poder partir.
A agência indica que a emissão do cartão demora cerca de dois dias úteis após a apresentação do pedido. Esta estimativa diz respeito ao cartão; o recrutamento, a formação, os contratos e os vistos implicam etapas próprias.
Para os bangladeshianos que entram no Japão ao abrigo desta via já existente para trabalhadores qualificados, não é obrigatório recorrer a uma organização de envio. Quando é utilizada uma organização, esta tem de ser aprovada pelo Governo do Bangladesh. A agência afirma também que os empregadores e os intermediários de recrutamento devem cumprir a legislação japonesa relativa à colocação de trabalhadores.
Estes procedimentos dão a quem pretende emigrar uma ideia útil da divisão de responsabilidades: os empregadores autenticam os pedidos de recrutamento, o Bangladesh verifica os documentos de partida e o Japão trata das autorizações de imigração. O novo programa de competências precisará dos seus próprios mecanismos operacionais quando o recrutamento começar.
Emprego mais longo e residência permanente
O Governo do Bangladesh espera que o novo acordo crie oportunidades de emprego e residência mais prolongados no Japão. Um responsável da embaixada alertou também para a dificuldade de obter residência permanente.
A OCDE descreve o atual programa de Trabalhadores Qualificados Especificados, lançado em 2019, como uma possível via para continuar a trabalhar para quem possui qualificações profissionais. O programa tem dois níveis. O nível de qualificações mais elevadas permite o reagrupamento familiar e abre caminho à residência permanente.
Segundo a OCDE, os candidatos podem entrar no programa passando no teste de competências pertinente ou concluindo um estágio técnico no mesmo setor. Por isso, a ligação entre a formação e a etapa profissional seguinte é especialmente relevante para quem espera construir uma carreira no Japão.
Em geral, o Japão exige que os migrantes tenham vivido no país durante dez anos antes de poderem requerer a residência permanente, embora algumas categorias permitam obtê-la mais rapidamente. A situação migratória de cada trabalhador determina as opções disponíveis para continuar a residir no país e organizar a vida familiar.
Os cinco anos iniciais do acordo bilateral e a prorrogação automática por mais cinco anos definem a duração da cooperação entre os Governos. A permanência autorizada de cada trabalhador será determinada pela categoria de imigração ao abrigo da qual for admitido.
A formação tem de corresponder a empregos reais
O Bangladesh anunciou anteriormente o objetivo de enviar 100 000 jovens para o Japão ao longo de cinco anos. Numa reunião com uma delegação parlamentar japonesa, o então conselheiro-chefe, professor Muhammad Yunus, descreveu a preparação prevista para esses jovens:
Planeamos enviar 100 000 jovens para o Japão. Terão formação linguística, desenvolvimento de competências, aulas de etiqueta e até algum ensino de história.
Esse objetivo anterior coloca a formação no centro do recrutamento. Além das competências práticas exigidas pelo emprego, o trabalhador precisa de vocabulário para compreender instruções, falar sobre o salário, comunicar uma lesão e recorrer a serviços médicos.
O Bangladesh criou um Balcão Japão no ministério responsável pelo bem-estar dos expatriados. Entre as suas funções estão avaliar a procura no mercado de trabalho japonês, identificar empregos, organizar formação em língua japonesa e testes digitais, coordenar instituições dos dois países e apoiar centros de certificação de qualidade.
Adequar a formação às vagas reais pode reduzir o risco de as pessoas gastarem dinheiro em qualificações que não conduzem a um emprego adequado. A OCDE recomenda parcerias em que empregadores, organismos públicos ou associações empresariais apoiem instituições de formação nos países de origem dos trabalhadores.
A OCDE recomenda também que a formação seja útil para o emprego no país de origem. Assim, quem aprende uma profissão mas não se desloca ao Japão mantém competências que o podem ajudar a encontrar trabalho no Bangladesh.
Bangladesh integra um esforço de recrutamento mais amplo
O plano japonês de recrutamento de 426 200 trabalhadores abrange 17 países. Além do Bangladesh, inclui o Butão, o Camboja, as Fiji, a Índia, a Indonésia, o Laos, a Mongólia, Myanmar, o Nepal, o Paquistão, as Filipinas, o Sri Lanka, a Tailândia, Timor-Leste, o Usbequistão e o Vietname.
A procura japonesa de trabalhadores insere-se numa mudança mais ampla da sua abordagem à migração. Segundo a OCDE, a migração laboral tornou-se uma resposta ao envelhecimento da população, a par dos esforços para melhorar a produtividade e aumentar o emprego entre as pessoas que já vivem no Japão.
Em 2021, a população nascida no estrangeiro representava 2,2% da população japonesa, face a uma média de 10,4% nos países da OCDE. A diferença de 8,2 pontos percentuais ilustra o peso bastante menor da imigração no Japão em comparação com o conjunto dos países membros da organização.
Segundo a OCDE, são os empregadores japoneses que impulsionam o recrutamento ao oferecerem postos de trabalho. Para o Bangladesh, a tarefa imediata consiste em fazer corresponder essa procura a trabalhadores com as competências linguísticas e profissionais adequadas, mantendo claros desde o início os custos de recrutamento e as condições de emprego.
Pontos principais
- O recrutamento ao abrigo do acordo de emprego e competências entre o Bangladesh e o Japão deverá começar a 1 de abril de 2027.
- O acordo foi assinado a 17 de outubro de 2026, tem uma duração inicial de cinco anos e será automaticamente prorrogado por mais cinco.
- O Bangladesh afirma que os trabalhadores terão proteção jurídica equivalente à dos trabalhadores japoneses e oportunidades iguais no local de trabalho, independentemente do género.
- As trabalhadoras terão proteção contra o despedimento, a discriminação e o regresso forçado por motivo de gravidez ou parto.
- O plano de recrutamento anunciado pelo Japão prevê a contratação de 426 200 trabalhadores de 17 países até março de 2029.
- Mais de 55 000 bangladeshianos já trabalham no Japão, segundo a embaixada do Bangladesh.
- A preparação linguística, as organizações de recrutamento aprovadas, os contratos claros e os encargos comportáveis serão determinantes para a experiência dos trabalhadores.






