O crescimento chega mais depressa do que as estradas conseguem absorvê-lo
Os três municípios em redor da primeira fábrica da TSMC em Kumamoto registaram 38 pontos de congestionamento grave em 2025, cerca de 40% mais do que em 2021, quando a fabricante taiwanesa de chips anunciou a sua entrada na província. Kikuyo, Koshi e Ozu ganharam também, no conjunto, 5.465 habitantes face ao recenseamento de 2020, ocupando os primeiros lugares na classificação de crescimento populacional de Kumamoto.
Índice
- O crescimento chega mais depressa do que as estradas conseguem absorvê-lo
- Os dados oficiais de trânsito mostram onde a pressão está a aumentar
- As deslocações para as fábricas coincidem com as viagens pendulares dos residentes
- As melhorias rodoviárias estendem-se por vários anos fiscais
- A expansão planeada das fábricas dá a dimensão da procura
- O aumento da população estende-se para além do município da fábrica
- As finanças municipais melhoram, mas os ganhos são desiguais
- A subida dos preços dos terrenos pressiona as empresas locais
- A maioria das empresas inquiridas não refere um efeito positivo nem negativo claro
- Principais pontos
Estes dois números refletem as pressões concorrentes que estão a transformar a região. O investimento no setor dos semicondutores atrai pessoas, reforça as finanças municipais e aumenta a procura de alojamento e refeições. Também faz circular mais veículos em estradas que não foram construídas para servir um polo industrial em expansão, enquanto a subida dos custos imobiliários e a concorrência por trabalhadores apertam algumas empresas locais.
Desde que a TSMC anunciou a sua chegada, a província assinou 71 acordos de instalação com empresas ligadas aos semicondutores, segundo os dados divulgados no final de março. Estes acordos mostram a amplitude do interesse pelo investimento, mas não devem ser interpretados como um registo de 71 fábricas concluídas.
A expansão está longe de terminar. A iniciativa do parque científico de Kumamoto procura atrair empresas utilizadoras de semicondutores, universidades e instituições de investigação para a zona do Semicon Technopark. Prevê-se que cinco novas zonas industriais em Kikuyo e nos municípios vizinhos comecem a disponibilizar lotes até ao ano fiscal de 2031.
A questão central é, por isso, mais específica do que saber se a TSMC trouxe crescimento. Os dados demográficos e orçamentais mostram ganhos, mas o inquérito às empresas revela que relativamente poucos inquiridos referem benefícios diretos. Entretanto, a análise oficial dos transportes identifica um agravamento do trânsito pendular em várias rotas que servem o bairro fabril.
Os dados oficiais de trânsito mostram onde a pressão está a aumentar
O Gabinete Regional de Desenvolvimento de Kyushu do Ministério da Terra, Infraestruturas, Transportes e Turismo explica na sua página sobre pontos de congestionamento que identifica os principais pontos críticos com recurso a tecnologia de tráfego e avaliações locais. O quadro de seleção data de janeiro de 2013, e a página apresenta edições de setembro de 2025 para Kumamoto e as restantes províncias de Kyushu.
A classificação contabiliza locais identificados como pontos de congestionamento grave, não mede a extensão de todas as filas nem o tempo total perdido pelos passageiros. Ainda assim, o aumento para 38 pontos em Kikuyo, Koshi e Ozu indica que a pressão sobre o trânsito se estendeu para além de estradas isoladas.
Numa decisão distinta, tomada a 16 de dezembro de 2024, foram acrescentados 12 cruzamentos destes três municípios à lista de pontos de congestionamento grave da província. O conselho provincial de congestionamento, que inclui responsáveis nacionais pelos transportes, a província de Kumamoto, a cidade de Kumamoto e a polícia, elevou então o total provincial para 285 pontos. O número de 285 abrange toda a província; o de 38 diz respeito aos três municípios em 2025.
Há dados mais pormenorizados nos documentos de coordenação rodoviária publicados para uma reunião realizada a 26 de fevereiro de 2025, com a participação do Gabinete Regional de Desenvolvimento de Kyushu, da província de Kumamoto e da cidade de Kumamoto. A análise compara o trânsito em dias úteis nas horas das 7h00 e das 18h00, em abril de 2016, abril de 2019 e abril de 2024.
Com base nos dados de sondagem de veículos ETC2.0, que registam os movimentos e as velocidades dos veículos, o documento identifica uma deterioração progressiva das velocidades matinais em direção ao Semicon Technopark, na Estrada Nacional 57 e na Estrada Provincial 30, a rota Ozu Ueki. Aponta o aumento do trânsito associado à chegada de empresas, à expansão das instalações e ao crescimento do emprego como um dos fatores contribuintes.
As deslocações para as fábricas coincidem com as viagens pendulares dos residentes
A análise oficial mostra que o problema do trânsito não se limita à entrada de uma fábrica. Nas imediações de Hikari no Mori, os veículos que seguem em direção ao Semicon Technopark cruzam-se com os passageiros que se deslocam para a cidade de Kumamoto. Ao fim do dia, o trânsito que regressa do polo industrial coincide com as deslocações para as zonas residenciais próximas.
Às 18h00, a redução das velocidades é particularmente evidente nas rotas em direção à cidade de Kumamoto, incluindo as Estradas Nacionais 57 e 387. Este aspeto é relevante para o planeamento rodoviário, pois melhorias num único cruzamento podem não resolver o congestionamento em toda a rede de deslocações pendulares.
Kikuyo está a alargar estradas e a ponderar alterações aos horários de entrada no trabalho, em paralelo com as obras. Um responsável não identificado do departamento de obras do município descreveu esta abordagem. Traduzido do japonês, afirmou:
Além das melhorias rodoviárias, vamos também adotar medidas como escalonar os horários de entrada no trabalho.
O escalonamento dos horários de entrada distribuiria as deslocações por um período mais alargado, em vez de aumentar a capacidade rodoviária. Os relatos não especificam quantas empresas participariam, quando começaria um programa coordenado ou quanto trânsito poderia ser desviado das horas de maior movimento.
As melhorias rodoviárias estendem-se por vários anos fiscais
O documento de coordenação de fevereiro de 2025 apresenta projetos com datas previstas entre os anos fiscais de 2024 e 2029. O calendário ajuda a explicar por que motivo as empresas podem instalar-se mais depressa do que a rede de transportes consegue adaptar-se: o alargamento de estradas, a construção de variantes, a aquisição de terrenos e a elaboração de projetos avançam em várias vias e sob a responsabilidade de diferentes entidades.
As principais datas e etapas incluem:
- 2021: A TSMC anunciou a sua entrada na província de Kumamoto.
- 6 de fevereiro de 2024: A TSMC anunciou uma segunda fábrica da JASM em Kumamoto.
- 16 de dezembro de 2024: O conselho provincial de congestionamento acrescentou 12 cruzamentos de Kikuyo, Koshi e Ozu à sua lista.
- 26 de fevereiro de 2025: A reunião de coordenação rodoviária documentou o agravamento do trânsito e propôs novas medidas rodoviárias.
- Ano fiscal de 2026: O documento previa a abertura da estrada Takinomurozaka e de dois projetos rodoviários locais na zona de Haramizu.
- Ano fiscal de 2028: Vários projetos de alargamento e de vias de acesso tinham datas previstas, incluindo obras na rota Ozu Ueki e na via de acesso ao nó de Koshi.
- Ano fiscal de 2029: O alargamento das rotas Takezako e Second Techno, em Koshi, tinha uma data prevista.
- Ano fiscal de 2031: Prevê-se que já tenha começado a venda de lotes nas cinco novas zonas industriais.
Estas são datas previstas nos planos, não uma confirmação de que todos os projetos estejam concluídos ou abram dentro do calendário. O documento também enumera troços da Estrada Ozu Kumamoto ainda em fase de projeto, aquisição de terrenos ou construção, sem indicar uma única data de conclusão para toda a rede.
A província de Kumamoto e a cidade de Kumamoto pediram que se avançasse rapidamente com a estrada de ligação circular de Kumamoto, para que esta não ficasse atrasada em relação à abertura da Estrada Ozu Kumamoto. Propuseram também a introdução de portagens no troço entre Ozu Nishi e Shimomikawa para acelerar o desenvolvimento.
Entre os exemplos de portagens para automóveis ligeiros figuravam 720 ienes entre os nós de Ueki e Koshi e 850 ienes entre os de Ueki e Ozu Nishi. O documento adverte expressamente que estas estimativas, calculadas com base em mapas de ordenamento urbano, podem não corresponder às tarifas que o futuro operador venha a cobrar. São exemplos propostos, não tarifas definitivas.
A expansão planeada das fábricas dá a dimensão da procura
O anúncio da expansão da JASM feito pela TSMC a 6 de fevereiro de 2024 previa um investimento conjunto de mais de 20 mil milhões de dólares norte-americanos nas duas fábricas de Kumamoto, com apoio do Governo japonês. A JASM, Japan Advanced Semiconductor Manufacturing, é a subsidiária de produção maioritariamente detida pela TSMC no Japão.
O anúncio previa que a segunda fábrica começasse a operar até ao final de 2027 e que a construção tivesse início até ao final de 2024. Estas datas descrevem o plano da empresa na altura em que emitiu o comunicado. Não permitem determinar o estado atual da construção nem confirmar se o prazo para o início das operações se mantém.
Esperava-se que as duas fábricas produzissem, em conjunto, mais de 100.000 bolachas de silício com 12 polegadas de diâmetro por mês e criassem diretamente mais de 3.400 empregos tecnológicos especializados. Uma bolacha de silício é o disco de material no qual se fabricam muitos chips antes de serem separados em componentes individuais.
As tecnologias de produção previstas abrangem processos de 40 nanómetros a 6 e 7 nanómetros, destinados a aplicações automóveis, industriais, de consumo e de computação de alto desempenho. Estas designações referem-se às tecnologias de fabrico de chips; a empresa afirmou que o seu plano de capacidade poderia ser ajustado em função da procura dos clientes.
As participações previstas eram de aproximadamente 86,5% para a TSMC, 6% para a Sony Semiconductor Solutions, 5,5% para a DENSO e 2% para a Toyota, sujeitas ao cumprimento das condições de conclusão do negócio. Os 3.400 postos de trabalho previstos dizem respeito ao emprego direto nas duas fábricas, não a um total medido de fornecedores, empresas de construção e outros negócios em Kumamoto.
O aumento da população estende-se para além do município da fábrica
Koshi registou o maior aumento populacional da província, com mais 2.542 habitantes face ao recenseamento de 2020. Ozu ganhou 1.728 habitantes e Kikuyo, 1.195. No conjunto, o aumento foi de 5.465 pessoas, das quais cerca de 47% em Koshi.
Os dados do recenseamento mostram onde a população aumentou, mas não isolam quantas pessoas se mudaram por causa da TSMC. As autoridades de Koshi atribuem as chegadas, em parte, ao investimento no setor dos semicondutores e, em parte, ao papel da cidade como zona residencial para quem trabalha na cidade de Kumamoto. Entre os recém-chegados estão famílias com filhos.
Koshi prevê um novo aumento populacional. Os planos industriais da província poderão sustentar a procura de habitação nas proximidades, embora os relatos não incluam qualquer previsão demográfica quantificada. As cinco zonas industriais planeadas, cada uma com cerca de 10 a 25 hectares, distribuem-se por Kikuyo, Kikuchi, Koshi e Ozu.
A iniciativa do parque científico, anunciada em 2025, pretende atrair empresas utilizadoras de semicondutores e atividades de investigação para a zona do Semicon Technopark. A estratégia de desenvolvimento vai, assim, além da atração de fábricas. Significa também que a futura procura de transportes dependerá da localização e do calendário de vários tipos de instituições, não apenas da expansão da TSMC.
As finanças municipais melhoram, mas os ganhos são desiguais
O índice de solidez financeira de Kikuyo atingiu 0,95 no ano fiscal de 2024, o valor mais elevado entre os municípios de Kumamoto. Ozu registou 0,73 e Koshi, 0,63, face a uma média de 0,36 para os municípios da província.
O índice compara a capacidade normalizada de receita de um município com as suas necessidades orçamentais normalizadas, recorrendo, em geral, a uma média de três anos. Um valor mais elevado indica maior capacidade para financiar serviços com receitas próprias. Não mede a riqueza das famílias nem prova que todas as empresas estejam a ganhar mais.
O índice de Kikuyo foi cerca de 2,6 vezes superior à média provincial; o de Ozu, aproximadamente o dobro; e o de Koshi, cerca de 1,8 vezes superior. A partir do ano fiscal de 2025, Kikuyo deixou de receber a subvenção ordinária de afetação local, utilizada para ajudar a compensar diferenças na capacidade de receita dos municípios.
O índice de 0,95 e a alteração do estatuto em matéria de subvenções não devem ser considerados contraditórios. O índice publicado reflete uma medida baseada numa média, enquanto a elegibilidade para a subvenção ordinária depende do cálculo orçamental do ano em causa. Uma situação financeira mais sólida dá ao município maior capacidade, mas a expansão das estradas e a instalação de novos residentes também criam necessidades de despesa.
A subida dos preços dos terrenos pressiona as empresas locais
Em Kikuyo, Koshi e Ozu, os preços médios dos terrenos residenciais subiram cerca de 30% a 50% nos cinco anos até 2026. Os preços dos terrenos comerciais atingiram entre 1,3 e 2,2 vezes os níveis anteriores, o equivalente a aumentos de 30% a 120%.
Estes valores referem-se aos preços dos terrenos, não a um aumento medido de todas as rendas residenciais ou comerciais. Ainda assim, coincidem com relatos de operadores locais afetados pelo aumento das rendas. A associação comercial de Ozu afirma que algumas empresas deixaram de ser suas associadas ou encerraram, devido às rendas mais elevadas e a outras pressões.
A associação refere também que os trabalhadores estão a sair para empregos mais bem pagos em empresas ligadas aos semicondutores. Para uma pequena empresa, isto traduz-se numa experiência diferente do auge do investimento: podem chegar mais potenciais clientes, mas torna-se mais difícil manter os trabalhadores e mais caro ocupar instalações.
Yukihisa Matsunaga, presidente da associação comercial de Ozu, afirmou que as pequenas empresas precisam de se tornar mais atrativas para competir por trabalhadores. Traduzido do japonês, disse:
Para garantir trabalhadores, as pequenas e médias empresas têm de se esforçar por aumentar a sua atratividade.
Não é indicado o número de encerramentos ou de empresas que abandonaram a associação, e os relatos não demonstram que tenham sido causados apenas pela TSMC. Os dados sustentam uma conclusão mais limitada: algumas empresas referem custos crescentes e dificuldades de recrutamento durante a expansão do setor dos semicondutores.
A maioria das empresas inquiridas não refere um efeito positivo nem negativo claro
Um inquérito realizado em março pela Federação das Associações de Comércio e Indústria da Província de Kumamoto abrangeu 489 estabelecimentos. A repartição divulgada foi de 88% sem efeito positivo nem negativo, 9% com efeito positivo e 3% com efeito negativo. As respostas positivas mencionaram despesas em alojamento e alimentação de visitantes taiwaneses e trabalhadores da construção; as negativas incluíram custos de pessoal mais elevados e escassez de mão de obra.
Os dados pormenorizados foram de 434 respostas neutras, 40 positivas e 15 negativas. O total é de 489, mas as percentagens apresentadas não correspondem exatamente a esses valores. Calculadas a partir das contagens, as proporções são de aproximadamente 88,8%, 8,2% e 3,1%, respetivamente. Qualquer uma das apresentações conduz à mesma conclusão principal: a grande maioria não identificou um efeito positivo ou negativo claro.
As respostas neutras não devem ser interpretadas como prova de que essas empresas não tenham sentido mudanças. Indicam que os inquiridos não classificaram o efeito como claramente favorável ou desfavorável. O inquérito também não mostra como os ganhos e as perdas variam consoante a dimensão, a localização ou o setor da empresa.
As próximas etapas são concretas, mas condicionais: os projetos rodoviários têm prazos previstos até ao ano fiscal de 2029, a venda de lotes industriais está planeada para começar até ao ano fiscal de 2031 e o comunicado da TSMC de 2024 previa que a segunda fábrica entrasse em funcionamento até ao final de 2027. Continua por quantificar até que ponto estas medidas reduzirão os atrasos nas deslocações pendulares, aliviarão a pressão sobre o recrutamento ou distribuirão os benefícios das despesas pelas empresas já instaladas.
Principais pontos
- Kikuyo, Koshi e Ozu tinham 38 pontos de congestionamento grave em 2025, cerca de 40% mais do que em 2021.
- Os três municípios ganharam, no conjunto, 5.465 habitantes face ao recenseamento de 2020.
- A análise oficial do trânsito identificou um agravamento das deslocações matinais para o Semicon Technopark e das deslocações ao fim do dia para a cidade de Kumamoto.
- Os projetos rodoviários têm datas previstas até ao ano fiscal de 2029; os exemplos de portagens propostos não correspondem a tarifas definitivas.
- O plano de expansão da TSMC de 2024 previa um investimento superior a 20 mil milhões de dólares norte-americanos e mais de 3.400 empregos diretos nas duas fábricas.
- O índice de solidez financeira de Kikuyo atingiu 0,95, enquanto os preços dos terrenos residenciais e comerciais subiram na região envolvente.
- A maioria das 489 empresas inquiridas não identificou um efeito positivo ou negativo claro, embora algumas tenham referido ganhos com despesas e aumento dos custos de emprego.






