Um acordo para ligar a investigação em IA aos chips que a alimentam
A AMD acordou adquirir a World Labs, empresa de inteligência artificial de São Francisco liderada por Fei-Fei Li, numa operação avaliada em cerca de 8,2 mil milhões de dólares e paga integralmente em ações. O acordo poderá trazer para a liderança de uma empresa que fabrica os processadores que executam IA uma investigadora conhecida por ajudar os computadores a reconhecer imagens.
Índice
- Um acordo para ligar a investigação em IA aos chips que a alimentam
- O que a AMD paga pela World Labs
- O que faz realmente um modelo do mundo
- Porque quer uma fabricante de chips uma equipa de investigação de modelos
- Uma parceria antecedeu o acordo de aquisição
- De uma lavandaria a seco em Nova Jérsia à investigação científica
- O ImageNet mudou a escala da visão computacional
- Os marcos que antecedem o novo cargo de Li
- O que muda após a conclusão
- Principais pontos
O anúncio da aquisição da AMD, publicado a 28 de setembro de 2026, indica que Li será vice-presidente executiva e cientista-chefe após a conclusão da operação. Responderá diretamente à presidente do conselho de administração e diretora-executiva da AMD, Lisa Su. A empresa prevê concluir a aquisição até ao final de 2026, sujeita a aprovações regulamentares e a outras condições habituais de fecho.
A World Labs desenvolve modelos de inteligência espacial: sistemas de IA concebidos para trabalhar com a forma, a disposição e o comportamento de ambientes tridimensionais. A sua tecnologia consegue gerar, reconstruir e simular ambientes interativos a partir de texto, fotografias e vídeo. A empresa também desenvolve tecnologia para aprendizagem e simulação robóticas.
A AMD está a adquirir conhecimentos especializados que poderão ajudá-la a antecipar as necessidades de hardware dos futuros sistemas de IA. Fundada em 2024, a World Labs passaria a dispor dos recursos de uma grande empresa de chips, mantendo o foco na investigação de modelos de IA.
Para Li, o acordo liga duas etapas de uma carreira dedicada a ajudar as máquinas a compreender o mundo visual. O seu anterior projeto ImageNet contribuiu para transformar o reconhecimento de imagens. A World Labs aborda um desafio mais vasto: representar espaços que as máquinas possam explorar e utilizar, em vez de simplesmente identificar objetos em fotografias.
O anúncio da AMD em Taiwan, datado de 29 de setembro, também avalia a operação em cerca de 8,2 mil milhões de dólares americanos. O acordo já foi assinado; a transferência da propriedade e a nomeação de Li para o novo cargo executivo terão lugar quando a operação estiver concluída.
O que a AMD paga pela World Labs
A aquisição por 8,2 mil milhões de dólares seria a segunda maior da AMD, depois da compra da Xilinx, em 2022, por cerca de 50 mil milhões de dólares. Com base nesses dois valores, o preço da World Labs corresponde a cerca de 16,4% do valor daquela operação.
Segundo notícias, a World Labs estava avaliada em 5 mil milhões de dólares sete meses antes do acordo. O preço proposto pela AMD é 3,2 mil milhões de dólares superior, um aumento de 64%. Desde a sua fundação, a startup angariou mais de 1,2 mil milhões de dólares.
O pagamento integral em ações da AMD significa que a contrapartida pela aquisição será em participações na fabricante de chips, e não em dinheiro. A emissão de ações também dispersa a propriedade por um maior número de títulos, reduzindo a percentagem detida pelos investidores atuais, a menos que adquiram mais ações.
No final do segundo trimestre de 2026, a AMD tinha 13,11 mil milhões de dólares em caixa, equivalentes de caixa e investimentos de curto prazo, face a 3,23 mil milhões de dólares em dívida. O pagamento em ações preservaria esses recursos para outras utilizações. O anúncio indica o valor aproximado da operação, mas não apresenta um calendário detalhado das ações a emitir.
O que faz realmente um modelo do mundo
A World Labs está a desenvolver aquilo a que os investigadores chamam modelos do mundo. Estes sistemas representam ambientes e a sua estrutura, permitindo à IA trabalhar com espaços, e não apenas com linguagem. Uma fotografia mostra uma sala a partir de um ponto de vista; uma representação tridimensional útil permite a um sistema explorar a disposição dessa sala.
O Marble, um modelo da World Labs demonstrado por Li e Su no início de 2026, criou uma cena tridimensional a partir de algumas imagens. A investigação mais ampla da empresa abrange o raciocínio espacial e a simulação, com potenciais aplicações na robótica, nos veículos e noutros sistemas que operam em ambientes físicos.
Durante essa apresentação, Li, cofundadora e diretora-executiva da World Labs, descreveu o benefício pretendido em matéria de segurança:
«Os agentes inteligentes, sejam robôs, veículos ou até ferramentas, podem aprender em mundos digitais muito ricos e conscientes da física antes de precisarem sequer de ser utilizados no mundo real, tornando-os muito mais seguros», afirmou Li.
Um ambiente simulado permite praticar antes de uma máquina atuar perto de pessoas ou de equipamento físico. No caso de um robô, aprender implica perceber onde estão os objetos e de que forma as ações alteram o que o rodeia. Criar ambientes digitais que representem essas relações é fundamental para o trabalho da World Labs.
Porque quer uma fabricante de chips uma equipa de investigação de modelos
A AMD afirma que a IA está a expandir-se para áreas como o raciocínio, a robótica, a simulação e a IA física, ou seja, sistemas que interagem com o mundo físico. Estas aplicações criam diferentes exigências em matéria de infraestrutura informática. Compreender os modelos que lhes estão subjacentes pode ajudar uma fabricante de chips a decidir o que deve desenvolver a seguir.
Su, presidente do conselho de administração e diretora-executiva da AMD, explicou a ligação entre a investigação e o planeamento de produtos no anúncio da empresa:
Construir as plataformas de computação para a próxima geração de IA exige uma compreensão profunda da evolução dos modelos», afirmou a Dra. Lisa Su, presidente do conselho de administração e diretora-executiva da AMD. «Fei-Fei e a equipa da World Labs trazem uma liderança de investigação excecional e conhecimentos especializados em modelos. Em conjunto, podemos usar essa perspetiva para desenvolver o hardware, o software e os sistemas que alimentarão a próxima geração de IA e reforçarão o ecossistema aberto de IA.
A AMD fornece processadores, unidades de processamento gráfico, tecnologia de rede e software. As unidades de processamento gráfico, habitualmente conhecidas como GPU, executam muitos cálculos em simultâneo e são amplamente utilizadas para treinar e executar modelos de IA. O software determina a eficácia com que um modelo consegue utilizar esse hardware.
Atif Malik, analista do Citi, afirmou que a aquisição daria à AMD maior visibilidade sobre o desenvolvimento de modelos, enquanto compete com a Nvidia. A vantagem prática é conhecer mais cedo a evolução das necessidades de computação, o que pode orientar decisões sobre futuros chips e os sistemas construídos em torno deles.
Uma parceria antecedeu o acordo de aquisição
A AMD já tinha investido na World Labs antes de acordar comprá-la. As empresas estabeleceram também uma parceria técnica em 2025 para melhorar o desempenho do treino e da inferência dos modelos da World Labs em GPU da AMD.
O treino é o processo através do qual um modelo de IA aprende padrões a partir de dados. A inferência consiste em utilizar um modelo já treinado para produzir uma resposta, gerar uma cena ou executar outra tarefa. Melhorar qualquer um dos processos pode afetar o tempo de computação e o equipamento de que uma aplicação necessita.
Li afirmou que a aquisição aproximaria a investigação e a engenharia. No anúncio da AMD, a cofundadora e diretora-executiva da World Labs declarou:
O avanço da próxima geração de tecnologia de IA exige uma colaboração estreita entre a investigação de modelos, os sistemas e a computação», afirmou a Dra. Fei-Fei Li, cofundadora e diretora-executiva da World Labs. «A integração na AMD dará à nossa equipa os recursos e a capacidade de engenharia necessários para acelerar a investigação e ajudar a definir a infraestrutura exigida pela próxima era da IA.
A World Labs permanecerá separada da atividade de fabrico de chips da AMD até à conclusão da operação. A AMD afirma que, depois disso, a equipa continuará a fazer avançar a investigação de modelos de IA. A empresa também declarou que não pretende concorrer com os seus próprios clientes de IA, uma preocupação importante para as empresas que compram equipamento informático enquanto desenvolvem os seus próprios modelos.
De uma lavandaria a seco em Nova Jérsia à investigação científica
Li nasceu em Pequim, em 1976, e cresceu em Chengdu, na província de Sichuan. O pai era engenheiro e a mãe, professora. Em criança, gostava de desmontar eletrodomésticos antigos e de experimentar componentes eletrónicos para perceber como funcionavam.
A sua biografia da bolsa Soros regista que se mudou para os Estados Unidos com a família aos 15 anos. Instalaram-se em Parsippany, Nova Jérsia, onde Li enfrentou dificuldades financeiras e limitações no domínio do inglês. Trabalhou num restaurante chinês antes de iniciar uma carreira universitária que a levaria, mais tarde, a Princeton e ao Caltech.
Quando a saúde da mãe piorou, a família abriu uma lavandaria a seco para se sustentar. Li conciliava os trabalhos de física com o atendimento de chamadas telefónicas, o serviço aos clientes, o pagamento de contas e o acompanhamento de inspeções. O seu domínio do inglês tornou-a fundamental para gerir a loja.
Li continuou a ajudar a gerir o negócio à distância durante o doutoramento, afastando-se apenas a meio do programa. Descreveu essa experiência como uma fonte de resiliência, uma qualidade que considera necessária tanto na ciência como na vida.
A loja e o laboratório exigiam competências diferentes, mas ambos requeriam trabalho persistente em condições de incerteza. Mais tarde, a sua carreira de investigação implicou convencer outras pessoas a apoiar uma ideia de que muitos duvidavam inicialmente: coleções de imagens muito maiores poderiam ajudar os computadores a aprender a ver.
O ImageNet mudou a escala da visão computacional
Li começou a desenvolver o ImageNet em 2007, quando muitos projetos de visão computacional treinavam sistemas com conjuntos de dados que continham apenas algumas centenas de imagens. Inspirou-se na psicologia, na linguística e na investigação sobre a forma como as pessoas organizam a sua compreensão do mundo.
O argumento central era simples. As pessoas aprendem através de uma enorme variedade de experiências. Os computadores também poderiam precisar de dados muito mais diversificados para reconhecer objetos de forma fiável. Na altura, muitos investigadores centravam-se antes em melhorar os algoritmos, os procedimentos matemáticos utilizados para aprender a partir desses exemplos.
Li e os seus alunos criaram uma coleção de imagens que acabou por conter mais de 14 milhões de fotografias. O ImageNet tornou-se também uma referência de avaliação, um teste comum que permitia aos investigadores comparar a precisão com que os seus sistemas identificavam imagens.
Em 2012, a AlexNet, uma rede neuronal desenvolvida por Geoffrey Hinton e pelos seus alunos na Universidade de Toronto, alcançou um resultado revolucionário na competição ImageNet. O seu sucesso ajudou a impulsionar o rápido desenvolvimento da aprendizagem profunda, na qual as redes neuronais aprendem padrões cada vez mais complexos através de múltiplas camadas de computação.
O ImageNet disponibilizou tanto um vasto recurso de aprendizagem como uma medida comum do progresso. A World Labs prolonga o interesse de Li pela compreensão visual, aplicando-o a ambientes com profundidade e relações espaciais. O desafio da investigação alargou-se: passou de reconhecer o que surge numa imagem a representar um mundo sobre o qual um sistema de IA possa raciocinar e com o qual possa interagir.
Os marcos que antecedem o novo cargo de Li
A carreira académica e empresarial de Li abrange a física, a engenharia elétrica, a visão computacional e a liderança em IA. A biografia da bolsa regista quase 200 publicações científicas e identifica-a como inventora do ImageNet e do ImageNet Challenge.
Os principais marcos mostram como essas funções se desenvolveram antes da proposta de integração na AMD:
- 1999: Li licenciou-se em Física pela Universidade de Princeton.
- 2005: Doutorou-se em Engenharia Elétrica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia.
- 2007: Começou a desenvolver o ImageNet enquanto era docente em Princeton.
- 2009: Ingressou na Universidade de Stanford como professora assistente.
- 2013 a 2018: Dirigiu o Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford.
- Janeiro de 2017 a setembro de 2018: Durante um período sabático em Stanford, foi vice-presidente da Google e cientista-chefe de IA e aprendizagem automática na Google Cloud.
- 2024: Cofundou a World Labs.
- 2025: A World Labs e a AMD estabeleceram uma parceria técnica.
- 28 de setembro de 2026: A AMD anunciou o acordo de aquisição, cuja conclusão está prevista até ao final do ano.
Li também cofundou e preside à AI4ALL, uma organização sem fins lucrativos que procura promover a inclusão e a diversidade no ensino da IA. Este trabalho decorre em paralelo com a sua investigação e com a liderança do Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano de Stanford.
Frequentemente chamada «madrinha da IA», Li afirmou que inicialmente se sentia desconfortável com o rótulo. Mais tarde, aceitou-o, em parte porque os homens na tecnologia há muito recebem títulos como «pais fundadores» e «padrinhos», e queria que as mulheres tivessem uma voz pública comparável.
O que muda após a conclusão
Os investigadores da World Labs teriam acesso aos recursos de engenharia da AMD, enquanto o seu trabalho ajudaria a orientar o planeamento de hardware, software e sistemas da empresa. A ligação hierárquica direta de Li a Su colocaria a investigação de modelos perto dos principais centros de decisão da fabricante de chips.
A AMD apresenta a aquisição como parte da sua estratégia para apoiar um ecossistema aberto de IA. Para os clientes, o objetivo prático é dispor de equipamento informático e software concebidos tendo em conta as necessidades das aplicações emergentes, incluindo a simulação e a robótica. Para a World Labs, o objetivo é acelerar a investigação com o apoio de uma maior capacidade de engenharia.
O anúncio da AMD inclui uma advertência ao abrigo da Lei de Reforma do Contencioso sobre Títulos Privados dos Estados Unidos, de 1995, relativa aos benefícios previstos e ao calendário. Entre os riscos identificados estão medidas regulamentares, regras de exportação, limitações de fabrico, concorrência, retenção de trabalhadores essenciais e integração de empresas adquiridas.
O próximo marco é a conclusão da operação, prevista para o final de 2026. Até lá, a AMD e a World Labs continuam a ser empresas separadas. A combinação proposta coloca no centro da estratégia de IA da AMD uma aposta específica: compreender os futuros modelos com antecedência suficiente para construir os sistemas informáticos de que necessitarão.
Principais pontos
- A AMD assinou um acordo para adquirir a World Labs por cerca de 8,2 mil milhões de dólares, pagos integralmente em ações.
- A conclusão está prevista para o final de 2026, sujeita a aprovações regulamentares e a outras condições de fecho.
- Fei-Fei Li será vice-presidente executiva e cientista-chefe da AMD, respondendo diretamente a Lisa Su.
- A World Labs desenvolve modelos de inteligência espacial, ambientes tridimensionais interativos e tecnologia para aprendizagem robótica.
- As empresas já tinham colaborado para melhorar o treino e a inferência de modelos em GPU da AMD.
- A aquisição seria a segunda maior da AMD, depois da compra da Xilinx.
- O projeto ImageNet de Li ajudou a impulsionar os avanços da aprendizagem profunda que transformaram a visão computacional.






