Sindh enfrenta défice de trigo enquanto o preço da farinha sobe
Os moleiros paquistaneses estão a exigir autorização imediata para importar trigo por iniciativa própria, numa altura em que preços recorde da farinha, reservas públicas de cereais contestadas e uma escassez de 22% na água para irrigação ameaçam o abastecimento antes da próxima colheita, em março e abril de 2027. Em Sindh, Yaser Malik, representante do sector, estima que a disponibilidade de trigo seja de 4,84 milhões de toneladas, face a uma procura de 6,53 milhões de toneladas, o que deixa um défice de 1,69 milhões de toneladas, cerca de 26% das necessidades da província.
Índice
- Sindh enfrenta défice de trigo enquanto o preço da farinha sobe
- Quanto pagam os consumidores em Karachi
- Por que razão os moleiros rejeitaram o trigo do Governo
- Quanto trigo falta realmente?
- Os alertas começaram meses antes de outubro
- A discussão sobre as compras públicas
- Planos de importação em disputa e a promessa das 130 rupias
- Menos água ameaça a próxima colheita
- Atrasos nas barragens agravam os desafios do abastecimento
- Principais pontos
Malik, antigo presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Jamshoro e presidente da Subcomissão dos Moinhos de Farinha da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria do Paquistão, fez o apelo a 17 de outubro de 2026. Disse que as importações privadas poderiam permitir vender farinha aos consumidores a 130 rupias por quilograma, em comparação com os preços indicados pelo sector de 161 rupias para farinha n.º 2,5, 180 rupias para farinha chakki e 173 rupias para maida.
Em setembro, os preços da farinha nos mercados urbanos estavam 31,7% acima dos registados um ano antes e, nas zonas rurais, 34,3% mais elevados. Para as famílias que compram farinha regularmente, estes aumentos significam gastar substancialmente mais para adquirir a mesma quantidade de um alimento básico.
Malik alertou para a possibilidade de a escassez se tornar particularmente grave antes da chegada da nova colheita. A resposta que propõe combina importações imediatas, a separação dos cereais aproveitáveis das antigas reservas públicas e uma política de importação clara para os próximos seis meses.
A pressão tem vindo a aumentar pelo menos desde julho, quando Punjab e Sindh pediram trigo das reservas federais, apesar de estimativas anteriores indicarem que o abastecimento nacional se aproximava das necessidades anuais. Em outubro, as estimativas mais baixas da colheita e a redução das reservas nas albufeiras agravaram as preocupações com o abastecimento actual e com a próxima colheita.
Quanto pagam os consumidores em Karachi
Os preços indicados por grossistas e retalhistas em Karachi mostram como o custo pode variar bastante entre o mercado de cereais, os moinhos de farinha e as lojas. Abdul Rauf Ibrahim, dirigente da Associação de Grossistas de Produtos Alimentares, indicou um preço de 156 rupias por quilograma para a farinha n.º 2,5 no grossista e de 170 rupias no retalho, em comparação com o preço de mercado de 161 rupias citado pelos moleiros.
Ibrahim indicou que a farinha chakki custava entre 190 e 200 rupias por quilograma no grossista e entre 215 e 220 rupias no retalho, acima das 180 rupias indicadas pelos moleiros. A farinha chakki é moída em moinhos de pedra e vendida habitualmente como farinha de trigo integral. O dirigente indicou ainda que a farinha fina custava 170 rupias no grossista e 190 rupias no retalho.
Ibrahim disse também que o trigo comum custava entre 145 e 150 rupias por quilograma, enquanto o trigo limpo fornecido a pequenos moinhos custava 160 rupias. Estes preços dos cereais ajudam a explicar a pressão sobre os produtores de farinha: os moinhos têm de pagar o trigo antes de cobrir os custos de limpeza, moagem, transporte e outras despesas.
A associação pediu medidas contra os especuladores de trigo, acusando os detentores de reservas de reter o produto enquanto os preços subiam. Ibrahim apelou também ao Governo para que tivesse em conta os custos de produção dos agricultores ao fixar o preço de apoio ao trigo, concebido para garantir aos produtores um rendimento estável.
Por que razão os moleiros rejeitaram o trigo do Governo
O chefe do Governo de Sindh, Syed Murad Ali Shah, aprovou a libertação de trigo das reservas públicas a 7 de outubro, ao preço de 12 500 rupias por saco de 100 quilogramas, com efeitos a partir de 15 de outubro. Isso corresponde a 125 rupias por quilograma de cereal. A medida destinava-se a estabilizar os preços da farinha e a melhorar a disponibilidade.
Segundo Chaudhry Aamir Abdullah, antigo presidente da delegação de Sindh da Associação dos Moinhos de Farinha do Paquistão, os membros da associação votaram, numa assembleia-geral, contra a aceitação dos cereais. Os moleiros disseram que, após inspeccionarem o armazém de Landhi, concluíram que apenas cerca de 15% dos seus 1,3 milhões de sacos estavam próprios para consumo.
Os sacos contêm 130 000 toneladas de trigo. Aplicando a estimativa dos moleiros, restariam cerca de 19 500 toneladas aproveitáveis. Abdullah suspeitou que o armazém continha os mesmos cereais, com cerca de quatro anos, que os moinhos já tinham rejeitado anteriormente; Malik descreveu grande parte das reservas como tendo três a quatro anos.
O estado do trigo armazenado em Landhi continua a ser uma alegação dos moleiros; a queixa não foi acompanhada por resultados de análises independentes nem por uma resposta de responsáveis do Departamento de Alimentação de Sindh. Ambos os representantes pediram ao departamento que separasse o trigo antigo ou impróprio e libertasse apenas os cereais adequados à moagem.
Quanto trigo falta realmente?
Malik estima a produção nacional em 27,5 milhões de toneladas, face a uma meta de 29,7 milhões, o que representa um défice de 2,2 milhões de toneladas. Outra estimativa da colheita, atribuída à Comissão de Investigação Espacial e da Alta Atmosfera do Paquistão, SUPARCO, situou a produção em 27,48 milhões de toneladas, em termos gerais de acordo com essa avaliação.
Os números anteriores traçavam um quadro diferente. Uma estimativa do Ministério da Alimentação, de julho, apontava para uma produção de 29,78 milhões de toneladas, acrescida de 2 milhões de toneladas transitadas do ano anterior, face a necessidades de 31,66 milhões de toneladas. Representantes dos agricultores também falaram numa produção de 29,6 milhões de toneladas, descrita como 4,3% superior à do ano anterior. Os relatos da crise não explicam publicamente a razão da diferença entre estas estimativas de produção e o valor posterior de cerca de 27,5 milhões de toneladas.
As estimativas do consumo anual também variam entre cerca de 30 milhões e 31,9 milhões de toneladas. Com base no valor posterior de 27,5 milhões de toneladas para a produção, o défice entre a colheita e o consumo seria, portanto, de cerca de 2,5 milhões a 4,4 milhões de toneladas, antes de contabilizar as reservas aproveitáveis transitadas de anos anteriores.
O cálculo das reservas imediatas de Sindh é mais específico. Malik disse que a província tinha 346 414 toneladas de trigo do Governo. Juntando 190 000 toneladas da Corporação do Paquistão para o Armazenamento e Serviços Agrícolas, ou PASSCO, e 300 000 toneladas de importações previstas, o total ascenderia a 836 414 toneladas.
Malik disse que nem esse total combinado seria suficiente para cobrir os meses que faltam até à próxima colheita. As reservas públicas são importantes porque as autoridades podem libertá-las quando o abastecimento comercial escasseia, fazendo chegar mais cereais aos moinhos e ajudando a conter os preços.
Os alertas começaram meses antes de outubro
Em julho, responsáveis federais e provinciais já discutiam o abastecimento de emergência. Punjab pediu um milhão de toneladas à PASSCO, enquanto Sindh solicitou entre 220 000 e 700 000 toneladas. Khyber Pakhtunkhwa pediu cerca de 100 000 toneladas para abastecimento público e outras 700 000 toneladas para abastecimento privado.
Nessa altura, a PASSCO tinha 1,7 milhões de toneladas. Os responsáveis alertaram que satisfazer os pedidos das províncias poderia esgotar as reservas federais e obrigar à importação de 500 000 a um milhão de toneladas. Sindh pediu também que se facilitasse o transporte de trigo de Punjab, que invocou as suas próprias necessidades de gestão do abastecimento.
Os principais desenvolvimentos revelam um fosso crescente entre estimativas de abastecimento tranquilizadoras e uma pressão cada vez maior no mercado:
- 17 de abril: O Comité de Ligação dos Camponeses do Paquistão realizou mais de 100 protestos em 68 distritos, exigindo o restabelecimento das compras públicas e um preço de apoio de 4 000 rupias por maund.
- 11 de junho a 9 de julho: O preço do trigo subiu de 4 188 para 4 423 rupias por 40 quilogramas em Punjab e de 4 188 para 4 625 rupias em Sindh.
- 21 de julho: Foram divulgados pormenores de uma segunda reunião federal e provincial sobre o abastecimento de trigo, na qual as províncias pediram a libertação de reservas da PASSCO.
- 6 de outubro: A Autoridade do Sistema do Rio Indo aprovou uma escassez de água de 22% para Punjab e Sindh durante a época de Rabi.
- 15 de outubro: Entrou em vigor a libertação de trigo das reservas públicas de Sindh, a 12 500 rupias por saco de 100 quilogramas.
- 17 de outubro: Malik pediu a autorização imediata de importações privadas e alertou para um agravamento da escassez em dezembro e janeiro.
O aumento do preço do trigo em Sindh entre junho e julho foi de cerca de 10,4%, em comparação com 5,6% em Punjab. Os números mostram que a pressão já aumentava muito antes da disputa de outubro sobre as reservas do armazém.
A discussão sobre as compras públicas
As compras públicas de Punjab atingiram 480 000 toneladas, face a uma meta de 3 milhões, segundo os números discutidos nas conversações sobre o abastecimento em julho. Isso corresponde a 16% da meta. Sindh comprou pouco mais de 200 000 toneladas.
Os representantes dos agricultores apresentaram um balanço muito inferior das compras realizadas ao abrigo de acordos que atribuíam as aquisições a 11 empresas privadas: disseram que foram compradas apenas alguns milhares de toneladas, face a uma meta de 3 milhões. Os seus dados e os números de julho descrevem diferentes níveis de compras, sem explicar a relação entre os totais.
O Comité de Ligação dos Camponeses do Paquistão quer que a PASSCO retome as compras. Os representantes dos agricultores disseram que os produtores receberam 3 500 rupias por maund, uma unidade que corresponde habitualmente a 40 quilogramas, enquanto o preço no mercado livre chegou mais tarde às 5 000 rupias. Isso representa uma subida de cerca de 43%, com os consumidores a enfrentarem preços mais elevados depois de os agricultores terem vendido a colheita.
O ministro dos Assuntos Económicos, Ahad Cheema, disse que as decisões sobre importações seriam tomadas após uma avaliação das condições do mercado interno e das necessidades das províncias, dando prioridade à protecção dos produtores locais. Um comunicado ministerial de julho descreveu os mercados como estáveis, apesar de os governos provinciais pedirem mais trigo. O ministro federal da Segurança Alimentar, Rana Tanveer Hussain, disse que a PASSCO estava a apoiar o abastecimento das províncias.
O conselheiro financeiro de Khyber Pakhtunkhwa, Muzzammil Aslam, apresentou uma avaliação mais urgente durante as conversações de julho. Associou as baixas reservas da província à necessidade de importar.
As reservas provinciais estão em níveis extremamente baixos. A disponibilidade é uma preocupação importante e a única forma possível de reduzir os preços é importar trigo.
Planos de importação em disputa e a promessa das 130 rupias
O Governo federal aprovou a importação de emergência de um milhão de toneladas, ficando a Corporação Comercial do Paquistão responsável pelas compras. A meta inicial de aquisição, de 750 000 toneladas, foi posteriormente reduzida para 550 000 toneladas, depois de Punjab e Sindh reverem as suas necessidades. Outro relato do calendário do Governo previa a entrega de 750 000 toneladas na primeira fase, em novembro.
A TCP lançou também um concurso para 185 000 toneladas, com propostas a entregar até ao final de setembro. A 13 de outubro, tinham sido comunicadas compras de 365 000 toneladas a 348,83 dólares por tonelada, sendo o custo estimado de um programa para 550 000 toneladas de cerca de 192 milhões de dólares.
Malik defendeu um programa muito maior, de 4 milhões de toneladas, com importações faseadas, em vez de depender da meta de compra de 550 000 toneladas. Pretende que as empresas privadas possam importar sem direitos aduaneiros nem subsídios e sem depender exclusivamente da TCP.
Malik e Abdullah estimaram ambos em 105 rupias por quilograma o custo de importação, já com transporte e encargos, e disseram que a farinha poderia ser vendida a retalho por 130 rupias. Face ao preço de 161 rupias indicado pelos moleiros para a farinha n.º 2,5, esse valor proposto seria 31 rupias inferior, uma redução de cerca de 19%. Trata-se de uma estimativa do sector que depende da autorização para importar, não de um preço de retalho já praticado.
Malik, em representação do sector da farinha de Sindh, explicou a sua oposição a depender da agência estatal de comércio:
As importações da TCP são lentas, dispendiosas e provocam perdas para o erário público. O sector privado deve poder importar em condições abertas, transparentes e não discriminatórias.
Menos água ameaça a próxima colheita
A Autoridade do Sistema do Rio Indo, presidida por Amjad Saeed, aprovou uma escassez de 22% para Punjab e Sindh durante a época de Rabi, que decorre de 1 de outubro de 2026 a 31 de março de 2027. Rabi é a época de cultivo de Inverno, durante a qual o trigo é a principal cultura do Paquistão. A autoridade disse que as dotações poderiam ser revistas à medida que as condições evoluíssem.
A escassez aprovada pela IRSA foi inferior às estimativas de 26% atribuídas aos seus cálculos internos, a Punjab e à Autoridade para o Desenvolvimento da Água e da Energia, WAPDA. O sistema de distribuição aplica cortes no abastecimento a Punjab e Sindh, isentando Balochistão e Khyber Pakhtunkhwa. Sindh opôs-se a essa abordagem e pediu uma dotação ao abrigo do parágrafo 2 do Acordo sobre a Água de 1991.
Em 30 de setembro, as reservas nas albufeiras eram de 9,343 milhões de acres-pés, abaixo dos 13,214 milhões registados um ano antes, uma diminuição de cerca de 29%. Um acre-pé é a quantidade de água necessária para cobrir um acre de terreno até à profundidade de um pé. As reservas estavam também abaixo da média de 9,938 milhões de acres-pés dos dez anos anteriores.
A IRSA previa entradas de 21,268 milhões de acres-pés e retiradas provinciais de 29,183 milhões, com a água armazenada a ajudar a cobrir a diferença. A Sindh foram atribuídos 11,748 milhões de acres-pés e a Punjab, 15,564 milhões. Embora as retiradas totais previstas fossem ligeiramente superiores à média recente, continuavam abaixo dos cerca de 38 milhões de acres-pés previstos no acordo de 1991.
As entradas de água no Verão já tinham diminuído: as entradas de Kharif 2026, de 95,44 milhões de acres-pés, ficaram 8% abaixo das expectativas, 7% abaixo da média de dez anos e 22% abaixo das do ano anterior. Os agricultores afectados pela redução do abastecimento dos canais poderão ter de recorrer mais à captação de águas subterrâneas ou arriscar-se a obter colheitas menores, aumentando a pressão sobre a produção que deverá repor as reservas de trigo.
Atrasos nas barragens agravam os desafios do abastecimento
As restrições à construção em Tarbela terão impedido o armazenamento de mais de 3 milhões de acres-pés de água. A IRSA instou a WAPDA a concluir a saída de baixo nível do Túnel 4 e as obras hidroeléctricas do Túnel 5, afirmando que os atrasos prolongados estavam a causar escassez nas províncias durante as épocas de Kharif.
A saída do Túnel 4 devia estar concluída em 2022 e o Túnel 5 em julho de 2025. Os atrasos poderão prolongar-se até ao início de 2028, enquanto a capacidade total de Tarbela poderá continuar limitada durante os Verões de 2027 e 2028. As restrições em Tarbela também aumentaram a dependência das descargas de Mangla, limitando a possibilidade de encher essa albufeira antes do Inverno.
A IRSA aprovou provisoriamente o encerramento da Barragem de Chashma entre 26 de dezembro de 2026 e 14 de janeiro de 2027, em coordenação com os programas anuais provinciais de encerramento dos canais. As entregas de trigo em novembro, a gestão das albufeiras durante o Inverno e a colheita de março a abril são, por isso, os próximos marcos importantes para o abastecimento.
Para os consumidores, a questão imediata é saber se o trigo aproveitável chegará aos moinhos a tempo de aliviar os preços. Para os produtores, a próxima colheita depende da irrigação e de uma política de compras que garanta uma remuneração viável. Os moleiros de Sindh dizem estar prontos para cooperar com os governos, mas alertam que os moinhos poderão fechar se não conseguirem obter cereais.
Principais pontos
- Em setembro, os preços da farinha subiram 31,7% em termos homólogos nos mercados urbanos e 34,3% nas zonas rurais.
- Malik estima que o défice de trigo de Sindh seja de 1,69 milhões de toneladas, cerca de 26% da procura provincial.
- Os moleiros rejeitaram as reservas públicas de Landhi, alegando má qualidade, e pediram que os cereais aproveitáveis fossem separados.
- O Governo aprovou a importação de emergência de um milhão de toneladas; os moleiros querem que sejam importadas 4 milhões de toneladas por fases.
- Representantes do sector afirmam que as importações privadas poderiam permitir vender farinha a 130 rupias por quilograma.
- Punjab e Sindh enfrentam cortes de 22% na água para irrigação, aprovados antes da próxima colheita de trigo, em março e abril de 2027.






