As meninas que faltam no Vietname: desequilíbrio à nascença persiste, com províncias do Norte a aproximarem-se dos 120 rapazes por cada 100 raparigas

15 min de leitura
Vietnam's Missing Girls: Birth Imbalance Persists as Northern Provinces Near 120 Boys per 100 Girls

Um desequilíbrio persistente com consequências que durarão décadas

O Relatório Nacional do Vietname sobre Registo Civil e Estatísticas indica um rácio entre sexos à nascença de 109,8 rapazes por cada 100 raparigas entre 2021 e 2024, com uma estimativa de 110,7 para 2024. Em Bac Ninh, o rácio comunicado chegou aos 119,6. Estes números mostram como um desequilíbrio nacional se agrava em algumas zonas do Norte, onde a pressão para ter um filho continua a influenciar as decisões reprodutivas.

Índice
  1. Um desequilíbrio persistente com consequências que durarão décadas
  2. O que revelam os diferentes números de nascimentos
  3. O Norte concentra o maior desequilíbrio
  4. Como se desenvolveu o desequilíbrio
  5. Porque menos nascimentos podem aumentar a pressão para ter filhos
  6. Tecnologia e estimativa de raparigas em falta
  7. Uma previsão de recuperação não é uma garantia
  8. O desequilíbrio entre adultos persistirá para lá das mudanças à nascença
  9. Mudar mentalidades e reforçar a fiscalização
  10. São necessários registos melhores para medir os progressos
  11. Principais conclusões

Um valor separado do Serviço de Estatística coloca o rácio à nascença no Vietname em 2024 nos 111,4 rapazes por cada 100 raparigas. A diferença entre esse valor e a estimativa do registo civil deve ser preservada, em vez de ser tratada como uma única medição consensual. Ambos estão acima do nível biologicamente típico, de cerca de 105 rapazes por cada 100 raparigas.

Em 2020, o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) estimou que faltavam anualmente 40 800 nascimentos de raparigas no Vietname. Trata-se de uma estimativa estatística das raparigas que seria de esperar que nascessem na ausência de seleção com base no sexo, não de uma contagem de abortos ou procedimentos de seleção de embriões documentados individualmente.

As consequências já são visíveis para lá das maternidades. O recenseamento populacional intercalar de 2024 do Vietname contabilizou cerca de mais 415 200 homens do que mulheres entre os 20 e os 39 anos. As autoridades alertam que, se o desequilíbrio persistir, poderá haver um excedente de 1,5 milhões de homens no grupo etário dos 15 aos 49 anos até 2034, que aumentará para 1,8 milhões até 2059. Corrigir o rácio entre os recém-nascidos não eliminaria de imediato o desequilíbrio entre as pessoas que já nasceram.

O que revelam os diferentes números de nascimentos

Os resultados do registo civil foram apresentados num seminário em Hanói, a 25 de abril de 2025. Nguyen Thi Thanh Mai, subdiretora do Departamento de Estatísticas e Dinâmica da População, indicou um rácio de 109,8 entre 2021 e 2024 e descreveu o valor de 110,7 para 2024 como uma estimativa. O relatório foi compilado pelo Serviço Geral de Estatística com base na base de dados nacional do registo civil eletrónico, com o apoio do UNFPA e de uma organização de saúde pública.

Publicidade

A sequência anual comunicada foi de 109,5 em 2021 e 2022, 109,7 em 2023 e 110,7 em 2024. Segundo esta medição, o rácio aumentou 1,2 rapazes por cada 100 raparigas entre 2021 e 2024. A estimativa separada de 111,4 para 2024 fica 0,7 acima da projeção do registo civil. Nos relatos destes resultados publicados não foi apresentada qualquer explicação que esclareça a diferença entre as duas medições.

Os rácios à nascença também diferem do equilíbrio entre os sexos num grupo etário completo. O valor comunicado de 109,7 rapazes por cada 100 raparigas entre as crianças dos 0 aos 14 anos agrega várias coortes de nascimento e é influenciado pela sobrevivência e pela migração. Não deve ser usado em substituição do rácio entre os recém-nascidos num determinado ano.

O documento de orientação de 2018 do UNFPA indica como intervalo biologicamente normal 102 a 106 rapazes por cada 100 raparigas. É, portanto, esperado que nasça um pouco mais de rapazes. O problema do Vietname é o excesso persistente para lá desse intervalo, e não qualquer desvio em relação a uma paridade exata de 100 rapazes e 100 raparigas.

O Norte concentra o maior desequilíbrio

Os dados do registo civil mostram que dez das onze localidades do delta do Rio Vermelho têm rácios acima de 110. O valor de 119,6 em Bac Ninh foi seguido pelos de Vinh Phuc, com 118,5, Hanói, com 118,1, e Hung Yen, com 116,7. Estes números identificam uma concentração em torno da capital e nas províncias setentrionais próximas, em vez de um padrão distribuído uniformemente pelo país.

Também foram comunicados rácios elevados em Bac Giang, com 116,3, Son La, com 115, Lang Son, com 114,5, e Phu Tho, com 113,6. Em geral, as províncias e cidades do Sul registaram valores entre 105 e 108, mais próximos do intervalo biológico esperado, embora alguns continuem acima dele.

Os valores regionais apresentados separadamente colocam o delta do Rio Vermelho nos 113,2 e as regiões montanhosas e centrais do Norte nos 115,3. As médias regionais e os rácios de províncias individuais medem populações diferentes, pelo que uma província próxima de 120 pode coexistir com um valor regional mais baixo. O Serviço Geral de Estatística recomendou que as regiões do Norte fossem prioritárias na conceção de políticas para reduzir o desequilíbrio.

Como se desenvolveu o desequilíbrio

A mudança no Vietname foi relativamente tardia em comparação com vários outros países asiáticos. O UNFPA afirma que o desequilíbrio foi identificado pela primeira vez em 2004 e aumentou rapidamente a partir de 2005. O documento de orientação de 2018 regista uma subida de um nível biologicamente normal em 2000 para 110,5 em 2009 e 112,2 em 2016.

Publicidade

A evolução é mais fácil de compreender quando se mantêm separados os indicadores e as respetivas datas:

  • 2000: O UNFPA descreve o rácio à nascença no Vietname como estando ainda dentro do intervalo biológico.
  • 2004 a 2005: O desequilíbrio foi identificado, seguindo-se um aumento rápido.
  • 2009: O rácio nacional atingiu 110,5 rapazes por cada 100 raparigas.
  • 2016: O UNFPA regista um rácio nacional de 112,2.
  • 2019: Uma declaração do UNFPA cita o valor de 111,5 do recenseamento.
  • 2021 a 2024: Os valores do registo civil passam de 109,5 para uma estimativa de 110,7.
  • 25 de abril de 2025: O relatório do registo civil foi apresentado em Hanói.

Estes valores não descrevem uma subida contínua. A projeção do registo civil para 2024 é inferior ao valor de 2016 indicado no documento do UNFPA, enquanto a sequência anual recente mostra um aumento. Como as séries provêm de sistemas estatísticos diferentes, demonstram a persistência do fenómeno com mais segurança do que a dimensão exata das variações entre cada ano.

Porque menos nascimentos podem aumentar a pressão para ter filhos

Um estudo académico regional identifica três fatores que interagem na seleção do sexo: a preferência por filhos, o acesso à deteção pré-natal do sexo e ao aborto, e a diminuição da fecundidade. As famílias mais pequenas não criam a preferência por filhos, mas reduzem o número de oportunidades para os pais terem um rapaz sem recorrer a uma intervenção.

O estudo situa a fecundidade em cerca de 2,1 filhos por mulher no recenseamento de 2019. Dados mais recentes citados em notícias apontam para 1,91, abaixo desse nível de substituição. A fecundidade de substituição é a média aproximada necessária para que uma geração se substitua ao longo do tempo, sem migração. Para as famílias que estão determinadas a ter um filho, decidir ter apenas um ou dois filhos pode aumentar a pressão para selecionar o sexo da criança.

Mai Xuan Phuong, subdiretor de comunicação e educação do Departamento da População, associou essa pressão às expectativas de que os filhos assegurem a continuidade da linhagem familiar e realizem os rituais de culto dos antepassados. Phuong referiu também o baixo valor atribuído às mulheres nas famílias e na sociedade, bem como o fácil acesso a serviços que identificam ou selecionam o sexo do feto.

O estudo académico descreve tradições familiares em que os casais vivem com a família do marido, se espera que os filhos sustentem os pais na velhice e a propriedade ou identidade familiar passa pela linhagem masculina. São expectativas sociais, não provas de que as filhas não possam prestar cuidados ou apoio. A sua persistência ajuda a explicar por que razão o aumento dos rendimentos e o acesso à medicina moderna não acabaram automaticamente com a preferência por rapazes.

Tecnologia e estimativa de raparigas em falta

Os médicos descrevem casais que procuram serviços de reprodução assistida para selecionar embriões masculinos, nomeadamente durante tratamentos de fertilização in vitro (FIV) para a infertilidade. A FIV consiste em fecundar óvulos fora do corpo antes de transferir um embrião para o útero. A análise cromossómica dos embriões pode revelar os cromossomas sexuais, criando a possibilidade de seleção quando os resultados são usados para esse fim.

Publicidade

As notícias descrevem esta procura como mais comum no Norte do Vietname, embora também haja casos no Sul. Não determinam que parte do desequilíbrio nacional se deve à seleção de embriões, por oposição à interrupção de gravidezes após a identificação do sexo do feto. Atribuir todo o défice estimado à FIV seria, por isso, uma descrição incorreta do que se sabe.

A declaração de lançamento de 2020 do UNFPA associa a estimativa anual de 40 800 nascimentos de raparigas em falta ao rácio de 111,5 do recenseamento. O valor deve ser entendido como uma estimativa publicada nessa altura, não como um total novamente verificado para 2024 ou 2025.

As comparações internacionais também exigem cautela. Um estudo de 2019 estimou que, entre 1970 e 2017, faltaram 11,9 milhões de raparigas na China e 10,6 milhões na Índia. A estimativa global de 140 milhões de pessoas do sexo feminino em falta apresentada pelo UNFPA em 2020 incluía tanto a seleção do sexo como as mortes associadas a negligência extrema. Não é possível comparar diretamente esses indicadores cumulativos com a estimativa anual de nascimentos de raparigas em falta no Vietname.

Uma previsão de recuperação não é uma garantia

O estudo de modelização regional combinou 526 observações, abrangendo pelo menos 2 933 093 registos de nascimento entre 1972 e 2019. Recorreu a recenseamentos, inquéritos demográficos e de saúde, ao Inquérito por Amostragem de Indicadores Múltiplos e a inquéritos sobre população e planeamento familiar para estimar tendências regionais e projetá-las até 2050.

Os investigadores encontraram indícios de desequilíbrio em quatro das seis regiões do Vietname: as regiões montanhosas e centrais do Norte, as regiões costeiras do Norte Central e Centro, o delta do Rio Vermelho e o Sudeste. O delta do Rio Vermelho registou a subida estimada mais rápida, atingindo um pico de 114,6 rapazes por cada 100 raparigas em 2013. O intervalo de credibilidade de 95% do estudo foi de 112,9 a 116,3, expressando a incerteza em torno dessa estimativa.

O modelo projetou um regresso ao seu valor de referência nacional de 106,3 em meados da década de 2030, com o delta do Rio Vermelho e o Sudeste a atingirem esse valor em 2034. Esse valor de referência difere do limiar de 105 frequentemente citado, por ser a referência específica utilizada no modelo.

Um modelo bayesiano combina observações e pressupostos ao estimar a incerteza. Neste caso, os investigadores modelaram uma subida, um período de estabilização e uma descida posterior. A recuperação projetada é, por conseguinte, um resultado estatístico, não um compromisso nem um resultado observado. Os dados recentes do registo civil, que mostram um aumento entre 2021 e 2024, significam que a evolução rumo à descida projetada deve ser verificada com dados mais recentes.

O desequilíbrio entre adultos persistirá para lá das mudanças à nascença

O vice-ministro da Saúde, Tran Van Thuan, abordou o problema no lançamento do Mês Nacional de Ação para a População, a 10 de dezembro de 2024. Descreveu as pressões demográficas que o Vietname enfrenta:

taxas de natalidade em queda, excesso de homens e falta de mulheres.

Publicidade

Thuan alertou que, se o desequilíbrio se mantiver elevado, o Vietname poderá ter mais 1,5 milhões de homens do que mulheres entre os 15 e os 49 anos em 2034 e mais 1,8 milhões em 2059. O intervalo etário é importante: estas projeções referem-se a um grupo populacional alargado, não a uma contagem de homens que ficarão necessariamente solteiros.

O excedente atual de cerca de 415 200 homens entre os 20 e os 39 anos é outro indicador, que abrange um grupo etário mais restrito num momento anterior. Não pode ser subtraído diretamente à projeção para 2034 para calcular quantos homens adicionais ficarão solteiros no Vietname.

Os alertas sobre dificuldades em encontrar parceiros, adiamento ou renúncia ao casamento, violência contra as mulheres e tráfico de seres humanos descrevem riscos potenciais, não resultados inevitáveis. Os padrões matrimoniais também dependem da migração, da diferença de idade entre os parceiros e das escolhas pessoais. O facto demográfico central é mais simples: as coortes que nascem com um número desproporcionadamente baixo de raparigas transportam esse desequilíbrio até à idade adulta, mesmo que os rácios à nascença melhorem mais tarde.

Mudar mentalidades e reforçar a fiscalização

A meta comunicada pelo Governo é reduzir o rácio para menos de 109 rapazes por cada 100 raparigas até 2030. Embora algumas declarações a descrevam como um regresso aos níveis naturais, 109 continua acima do intervalo biológico de 102 a 106 indicado pelo UNFPA. Outras mensagens governamentais descrevem o objetivo para 2030 como o restabelecimento do rácio natural, sem indicar esse limiar numérico. Estas formulações não devem ser tratadas como equivalentes.

O estudo regional aborda a Lei da Igualdade de Género de 2006, a Estratégia para a Saúde Reprodutiva de 2011 a 2020 e os regulamentos do setor da saúde introduzidos em 2013 e 2014. Não determina a eficácia dessas medidas. Entre as recomendações atuais contam-se a monitorização da análise cromossómica de embriões, o controlo da comunicação dos resultados e a aplicação de fiscalização e sanções contra a utilização indevida para seleção do sexo.

A comunicação pública é outra vertente da resposta. Uma competição online do Ministério da Saúde, realizada, segundo as informações divulgadas, entre 20 de agosto e 20 de setembro de 2026, contou com 94 752 participantes e 86 715 participações válidas. O vice-ministro da Saúde, Do Xuan Tuyen, afirmou que a iniciativa alcançou quase 16 milhões de visualizações nas redes sociais. Estes números medem a participação e o alcance, não demonstram uma redução mensurável da seleção do sexo.

A vencedora indicada, La Thi Hue, trabalhadora na área da população em Hoanh Mo, uma comuna fronteiriça de Quang Ninh, descreveu a pressão sobre as mães para terem filhos e o acolhimento desigual que algumas raparigas recebem à nascença. Hue referiu também que cada vez mais pais manifestam orgulho nas filhas. Esta experiência local aponta para as decisões quotidianas das famílias que as metas nacionais procuram mudar.

Naomi Kitahara, representante do UNFPA no Vietname aquando do lançamento de 2020, apelou aos homens para assumirem a responsabilidade por um tratamento igualitário:

Apelo aos homens vietnamitas para que valorizem as raparigas e exijam igualdade de tratamento e de direitos. Em particular, precisamos do apoio dos homens e dos rapazes a este esforço.

São necessários registos melhores para medir os progressos

O relatório do registo civil indica que 84,9% dos nascimentos de 2024 foram registados no prazo de 60 dias. Os restantes 15,1% ficam fora da categoria de registo atempado, mas isso não significa que nunca tenham sido registados. Entre alguns grupos de minorias étnicas, a proporção de registos tardios chegou, segundo os dados, aos 56%.

Publicidade

A rapidez do registo é importante para interpretar as estatísticas anuais. Um nascimento registado tardiamente pode entrar no sistema administrativo depois do período em que ocorreu, dependendo da forma como as estatísticas são compiladas. Os investigadores académicos também alertaram que o registo incompleto dos nascimentos e as diferenças entre recenseamentos e inquéritos complicavam as estimativas, sobretudo onde as amostras regionais eram pequenas.

O relatório recomenda a modernização do registo eletrónico, a formação dos agentes locais de registo, a melhoria do acesso para grupos vulneráveis e a ligação do registo civil às bases de dados da população, da saúde e da educação. Estas medidas ajudariam a distinguir alterações reais nos nascimentos de alterações na rapidez com que são registados.

O próximo marco político anunciado é 2030, seguindo-se o regresso projetado pelo modelo regional ao valor de referência em meados da década de 2030. Não há aqui uma explicação estabelecida para os diferentes números nacionais de 2024, não foi quantificada a proporção atribuível à FIV e não foi demonstrado qualquer efeito da campanha de comunicação no rácio à nascença. Acompanhar estas lacunas é essencial para avaliar se o Vietname está a reduzir a seleção do sexo ou apenas a mudar a forma como a mede ou aborda.

Principais conclusões

  • Os dados do registo civil colocam o rácio à nascença no Vietname entre 2021 e 2024 nos 109,8 rapazes por cada 100 raparigas, com uma estimativa de 110,7 para 2024.
  • Um valor separado do Serviço de Estatística indica 111,4 para 2024; a diferença não foi esclarecida.
  • O rácio comunicado de 119,6 em Bac Ninh ilustra o desequilíbrio mais acentuado nas províncias do Norte.
  • Em 2020, o UNFPA estimou que faltavam anualmente 40 800 nascimentos de raparigas no Vietname.
  • As autoridades alertam para um excedente de 1,5 milhões de homens entre os 15 e os 49 anos até 2034 se o desequilíbrio se mantiver elevado.
  • A meta comunicada para 2030, de menos de 109, continua acima do intervalo biológico de 102 a 106 indicado pelo UNFPA.
  • A fiscalização médica, o tratamento igualitário das filhas e o registo mais atempado dos nascimentos são elementos centrais da resposta proposta.
Partilhar este artigo

Também pode gostar