Unidade a pé numa nação diversa
Durante meio século, as cenas de ruas cheias na Kuala Lumpur e noutras cidades transmitiram uma mensagem simples. Pessoas a mover-se lado a lado podem construir um país mais forte. O homem por trás desse movimento é S Vegiyathuman, um organizador incansável que tratou os eventos de participação massiva como um projeto nacional, e não apenas como um calendário de corridas. No Dia da Malásia, quando a unidade está no foco, a sua história lica-se como uma lição de cidadania transmitida com sapatilhas de corrida e de caminhada.
Índice
- Unidade a pé numa nação diversa
- De campeão escolar a arquiteto de eventos massivos
- O que tornou a Big Walk num ritual nacional
- A primeira meia maratona e o surgimento da corrida urbana
- Dentro do seu método: segurança e detalhe primeiro
- Construindo atletas de bancos e escritórios para as equipas nacionais
- Uma voz malasiana no palco mundial
- Serviço, liderança e honras conquistadas pelo caminho
- Vida hoje e o que o legado significa para ele
- Porque o desporto comunitário ainda importa numa nação diversa
- Pontos-Chave
Vegiyathuman, amplamente celebrado como o Rei das Caminhadas e Corridas, via o desporto como uma ponte que qualquer um poderia atravessar. Não se fixava no pódio. Preocupava-se mais com quem aparecia, com quem se sentia bem-vindo e com como uma cidade ganhava vida quando milhares partiam juntos. A sua abordagem transformou fins de semana normais em encontros onde malasianos de várias origens treinavam, torciam e riam juntos.
Ele explicou uma vez a filosofia que guiava tudo o que construía. Acreditava que o patriotismo podia ser visível não apenas em medalhas de elite, mas em quilómetros partilhados nas estradas abertas. Falou de ritmo, de andamento e de como desconhecidos se tornavam vizinhos durante uma longa caminhada de manhã.
Ao introduzir essa ideia, Vegiyathuman formulou-a assim:
Tratava-se também de caminhar lado a lado com desconhecidos, avançar em uníssono e celebrar o ritmo partilhado de ser malasiano.
De campeão escolar a arquiteto de eventos massivos
Nascido em 1941, em Bukit Mertajam, Vegiyathuman marcou inicialmente a sua presença como jovem corredor. A representar a Bukit Mertajam High School, venceu títulos de cross-country em Penang no final da década de 1950. O seu treinador nessa altura era KS Nijhar, que mais tarde ingressou na política nacional. Esses anos formativos ensinaram-lhe a disciplina do treino e a comunidade que o desporto pode criar.
Crédito ao antivo administrador de atletismo A Vaithilingam por moldar a sua ofício como organizador. Desde o traçado do percurso até às regras, dos sistemas de cronometragem aos briefing dos voluntários, aprendeu a espinha dorsal técnica de um evento. Essa formação tornou-se a base de um movimento que se estenderia durante décadas.
Na década de 1960, servia como examinador de impressões digitais na polícia, em Bukit Aman. Era um trabalho estável, mas o seu coração permanecia na pista e nas ruas. Na década de 1980, o prefeito da Kuala Lumpur, Elyas Omar, pediu-lhe que organizasse corridas dominicais nos parques da cidade para promover a aptidão física. As multidões responderam. Ver milhares a reunir-se deu-lhe confiança para planear empreendimentos maiores, incluindo corridas de estrada que transformaram o centro da Kuala Lumpur num festival de movimento.
O que tornou a Big Walk num ritual nacional
Dentre os muitos eventos que moldou, a Malay Mail Big Walk, carinhosamente conhecida como Biggie, destaca-se. Começou em 1960 com menos de 3.000 caminhantes. Sob a sua tutela, cresceu até se tornar um carnaval. Dezenas de milhares juntaram-se durante os seus anos de apogeu. Escritórios formavam equipas. Famílias planeavam os fins de semana à volta dela. Bairros apareciam para assistir.
A Biggie também se tornou um terreno de treino para a marcha atlética, que é uma prova técnica do atletismo. Na marcha atlética, um pé deve parecer sempre em contacto com o solo, e a perna avançada deve estar reta desde o momento do primeiro contacto até passar por baixo do corpo. Acertar isso exige anos de prática, treino cuidadoso e apurada arbitragem. O evento deu espaço para esse percurso crescer.
Os talentos que surgiram incluíram K Thirumal, a quem Vegiyathuman designou como o pai da marcha atlética da Malásia. Os nomes que se seguiram incluíram V Subramaniam, Khoo Chong Beng, G Saravanan, Anastasia Karen Raj e Yuan Yufang. Eles não surgiram do nada. Treinavam à vista do público, rodeados por cidadãos que viram que a excelência pode começar numa rua da cidade quando existem oportunidades.
A primeira meia maratona e o surgimento da corrida urbana
Em 1989, Vegiyathuman organizou aquilo que é considerado a primeira meia maratona de 21 quilómetros da Malásia. Não procurava manchetes. Queria dar às pessoas comuns um novo desafio, um que exigisse preparação e paciência e que, uma vez concluído, construísse confiança. O formato de meia maratona oferecia algo grande o suficiente para se sentir épico, mas alcançável com alguns meses de treino consistente.
Desses passos nasceram ambições maiores. Fundou a Maratona Internacional de Kuala Lumpur, que mais tarde preparou o terreno para o que é hoje a Standard Chartered KL Marathon. Até 2013, o evento atraía dezenas de milhares e oferecia um dos maiores montantes de prémios do país na época. Celebrou o património da cidade com largadas e chegadas no Dataran Merdeka. Os organizadores construíram um evento que acolhia iniciantes, famílias, equipas corporativas e atletas de elite. Os parceiros de caridade beneficiaram à medida que os corredores angariavam fundos enquanto treinavam.
Eventos de massas desta escala não surgem por acaso. Requerem licenças, cobertura médica, coordenação do trânsito, sistemas de cronometragem, pontos de hidratação e milhares de voluntários. Atrás dos estandartes estava um homem que valorizava os detalhes e a segurança acima de tudo.
Dentro do seu método: segurança e detalhe primeiro
Os que com ele trabalharam descrevem um líder que verificava o traçado do percurso ao amanhecer, ensaiava protocolos de emergência e treinava as equipas no tempo preciso dos encerramentos de estrada e das largadas. O antigo corredor de barreiras nacional Anto Keney Martin, que fez parte da equipa na RHB Centennial Run em 2013, recordou o padrão que Vegiyathuman estabeleceu para as equipas e voluntários.
Ao introduzir o relato de Martin, os colegas destacam a ênfase dele na segurança e numa execução fluida do início ao fim. Martin recordou como o evento se manteve no caminho mesmo quando a chuva ameaçou os horários.
Ele era preciso em todos os aspetos da segurança e da proteção. Não havia espaço para erros. Mesmo quando a chuva caía a jorrar antes do amanhecer, era ele o primeiro no local, garantindo que a largada corresse sem problemas. O seu vasto conhecimento guiou-nos a todos.
Essa abordagem, consistente ao longo de décadas, ajudou o público a confiar nestes encontros. Corredores e caminhantes sabiam que estavam em boas mãos. Os órgãos municipais sabiam que os planos eram realistas e claramente comunicados. Os patrocinadores viam que as suas marcas estavam ligadas a eventos conduzidos com cuidado.
Construindo atletas de bancos e escritórios para as equipas nacionais
Vegiyathuman não separava a participação comunitária da alta performance. Acreditava que ambas podiam crescer em conjunto. Uma das suas criações de que mais se orgulhava foi o circuito de atletismo interbancário. Trabalhadores de escritório competiam regularmente, encontravam treinadores e construíam disciplina à volta dos treinos semanais. O circuito alimentou as seleções nacionais de uma forma que poucos esperavam. Numa dada altura, disse que esses encontros produziam uma grande parte da equipa nacional.
Ao introduzir a sua perspetiva, descreveu como empregados de empresas podiam tornar-se concorrentes internacionais com a estrutura certa no lugar.
No seu auge, estes encontros produziam a maior parte da equipa nacional. Estes empregados de bancos ainda podiam treinar e brilhar pela Malásia.
O defensor de base Dina Rizal credita-lhe o lançamento das bases para um trabalho juvenil mais forte na Associação de Atletismo do Território Federal. Os programas, o mentoring e o contacto constante semearam uma cultura que continua a atrair jovens para as provas de pista e de estrada. À medida que esses adolescentes ganham confiança, todo o sistema beneficia.
Uma voz malasiana no palco mundial
A sua influência não terminou nos limites da cidade. Vegiyathuman serviu como juiz de marcha nos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004 e nos Campeonatos Mundiais de Atletismo, em Sevilha, em 1999. Também arbitraram nos Jogos Paralímpicos. Arbitrar a esse nível exige domínio técnico, nervos firmes e um julgamento que resiste ao escrutínio. É um voto de confiança da comunidade global do atletismo.
Também conduziu cursos e clínicas por toda a Ásia, partilhando a sua abordagem prática com jovens árbitros e organizadores. Essas sessões centravam-se nas coisas que podem fazer ou estragar um evento: planeamento de segurança, treino de marshallers, desenho de percursos, serviços aos atletas e resolução de conflitos no dia da corrida. Muitos dos que agora organizam eventos na região aprenderam esses fundamentos com ele.
Serviço, liderança e honras conquistadas pelo caminho
Dentro da Malásia, o seu serviço foi longo e constante. Serviu como secretário-geral da Associação de Atletismo do Território Federal (FTAA) de 1985 a 2016 e assumiu depois a presidência em 2017. Deixou o cargo em 2020, depois de moldar a associação numa casa tanto para as corridas de base como para a competição de elite. Muitos no desporto descrevem a FTAA como uma família que cuida dos seus e acolhe os recém-chegados com o mesmo calor.
Recebeu um datukship durante o Dia dos Territórios Federais, em 2014. Em 2024, foi incluído no Hall of Fame do Conselho Olímpico da Malásia, uma distinção partilhada com outros dirigentes e atletas que construíram o registo desportivo da nação. A honra refletiu uma carreira que combinou conhecimento técnico com um espírito público que jamais se apagou.
Os que o viram trabalhar recordam as longas noites, as chamadas telefónicas aos fornecedores, as verificações de última hora aos pontos de hidratação e as palavras silenciosas de encorajamento aos novatos nervosos. A sua presença tranquilia as equipas e elevou as expectativas em todo o calendário de corridas e caminhadas de estrada.
Vida hoje e o que o legado significa para ele
Hoje, aos 84 anos, usa uma cadeira de rodas após uma lesão na medula espinhal e vive numa residência assistida desde 2020. O seu ritmo abrandou, mas o orgulho que retira dos jovens atletas permanece vívido. Quando observa os programas conduzidos pela FTAA e pelos seus parceiros, vê um eco do trabalho que nutriu durante décadas.
Ao introduzir esse sentimento de continuidade, descreveu como a próxima geração está a assumir a propriedade da missão e a faz avançar.
Quando vejo hoje os programas de base na FT, e a forma como os jovens são descobertos e apoiados, os meus esforços não foram em vão. A nova geração de dirigentes está a fazer um bom trabalho, e orgulho-me daquilo que está a ser continuado.
Disse muitas vezes que o projeto nunca foi sobre ele. Foi sobre dar às pessoas um lugar a que pertencer, fossem futuros campeões ou inscritos de primeira vez que caminhavam mais do que corriam.
Para mim, nunca se tratou de glória pessoal. Tratava-se de dar aos malasianos a hipótese de fazer parte de algo maior. Sejas um futuro campeão ou apenas alguém que queria terminar uma caminhada, pertencias.
Esse sentido de propósito nem sempre acalma a dor da distância. Amigos do círculo do atletismo preencheram os seus dias, e sente a falta deles.
Sinto-me sozinho aqui por vezes. Echo de menos os meus amigos na irmandade do atletismo.
O presidente da FTAA, V Pulanthiran, traduziu a forma como muitos no desporto encaram a contribuição do seu mentor.
Ele inspirou muitos dirigentes e atletas, atuou como mentor deles e foi amigo de todos os que conheceu. Durante quatro décadas, Vegiyathuman foi o motor da vida do atletismo malasiano. Foi a mão invisível que manteve vivo o batimento do desporto comunitário.
Porque o desporto comunitário ainda importa numa nação diversa
Eventos como a Biggie e as maratonas de Kuala Lumpur são mais do que um dia ao ar livre. Transformam as ruas em terreno comum. Um corredor de Shah Alam acaba a marcar o passo ao lado de um caminhante de Batu Caves, e a distância entre eles encurta. Os voluntários entregam copos das mesmas mesas a pessoas que vestem muitas cores e brasões. Esse contacto, repetido ano após ano, constrói respeito e um sentido de espaço partilhado.
Os eventos de participação massiva também trazem benefícios práticos. O treino empurra as pessoas para hábitos diários melhores. Os grupos que se formam em torno de uma corrida ou caminhada semanal tendem a manter-se. Os participantes encontram-se através de idades, línguas e profissões. Os jovens voluntários aprendem sobre logística e responsabilidade pública. Os órgãos municipais aprendem a gerir multidões com calma e precisão, o que ajuda em emergências ou eventos nacionais. Estas competências acumulam-se ao longo do tempo.
Há também um ângulo de saúde pública. Caminhar é acessível e de baixo custo, e reduz barreiras de entrada que frequentemente afastam as pessoas do desporto. Quando os eventos parecem seguros e acolhedores, as famílias participam juntas. As crianças veem os adultos a mostrar esforço e paciência. Aprendem que terminar pode ser tão importante como vencer.
O legado de Vegiyathuman assenta nessa verdade simples. Uma caminhada ou corrida bem organizada pode ser uma pequena escola de cidadania. Ensina pontualidade, apoio mútuo, respeito pelas regras e orgulho na conquista partilhada. Também dá às pessoas uma memória para guardar. Muitos malasianos ainda recordam a sua primeira medalha, a sua primeira chegada ao Dataran Merdeka, ou a primeira vez que apareceram nervosos e saíram a fazer parte de uma equipa. Esse sentimento traz-os de volta e traz consigo os amigos.
Pontos-Chave
- S Vegiyathuman defendeu a participação massiva como caminho para a unidade, transformando corridas e caminhadas urbanas em encontros nacionais
- Ajudou a fazer crescer a Malay Mail Big Walk de um pequeno evento para um carnaval de dezenas de milhares e um trampolim para talentos da marcha atlética
- Organizou a primeira meia maratona de 21 quilómetros da Malásia em 1989 e fundou a Maratona Internacional de Kuala Lumpur, que preparou o terreno para a moderna KL Marathon
- O seu modelo de eventos valorizou a segurança, a precisão e o acolhimento comunitário, elevando os padrões dos organizadores em todo o país
- Os encontros de atletismo interbancários que lançou desenvolveram um canal que alimentou as seleções nacionais de atletismo
- No plano internacional, serviu como juiz de marcha nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e nos Campeonatos Mundiais de Atletismo de Sevilha em 1999
- Liderou a Associação de Atletismo do Território Federal durante décadas e recebeu um datukship em 2014, vindo depois a integrar o Hall of Fame do OCM em 2024
- Hoje, com 84 anos e a usar uma cadeira de rodas, continua a inspirar dirigentes e jovens atletas com uma mensagem de pertença e propósito partilhado






