Uma diferença de seis anos entre a meta e as entregas previstas
As Filipinas pretendem começar a produzir eletricidade nuclear com uma capacidade de 1 200 megawatts em 2032, mas o calendário de contratação proposto aponta para as primeiras entregas em 2038. William D. Magwood IV, diretor-geral da Agência para a Energia Nuclear da OCDE, afirma que é pouco provável cumprir o prazo mais ambicioso, uma vez que a preparação de um projeto nuclear demora mais de seis anos.
Índice
- Uma diferença de seis anos entre a meta e as entregas previstas
- O que o Governo pretende realmente alcançar
- Como funcionaria o concurso proposto
- É necessário pôr em funcionamento um novo regulador
- A rede elétrica faz parte do calendário de construção
- Quem pagaria e como seriam fixados os preços?
- Apoio público elevado, com diferenças entre localidades
- A decisão sobre a eliminação dos resíduos continua pendente
- Em resumo
A diferença está a tornar-se mais evidente à medida que o Departamento de Energia desenvolve regras para a contratação da primeira capacidade de produção nuclear do país. Um projeto de enquadramento para o concurso prevê entregas de eletricidade faseadas entre 2038 e 2047, enquanto a nova Autoridade Reguladora da Energia Atómica das Filipinas, conhecida como PhilATOM, continua à espera de nomeações para os cargos de direção e da conclusão das suas normas de execução.
O presidente Ferdinand Marcos Jr. descreveu a meta de 2032 como exequível. Os responsáveis do setor da energia mantêm essa meta, reconhecendo, ao mesmo tempo, que os projetos abrangidos pelo concurso proposto poderão começar a fornecer eletricidade em 2038. Os projetos desenvolvidos através de outros mecanismos poderão, eventualmente, arrancar mais cedo, pelo que o calendário do concurso se aplica a uma via específica de desenvolvimento da energia nuclear.
Magwood, que falou à margem do Workshop sobre o Quadro Regulamentar Nuclear das Filipinas, explicou por que considera difícil cumprir o prazo:
Não creio que o primeiro reator esteja a funcionar dentro de seis anos. Simplesmente, demora mais tempo. Daqui a seis anos, poderá haver uma decisão. É um processo muito complexo.
Para os consumidores de eletricidade, a diferença prática é de seis anos entre a meta inicial do Governo e as primeiras entregas previstas no projeto de concurso. Durante esse período, o país continuaria a precisar de outras fontes de eletricidade para satisfazer a procura.
O que o Governo pretende realmente alcançar
O objetivo inicial do Governo é atingir 1 200 MW em 2032. Os megawatts medem a capacidade de produção, ou seja, a quantidade de energia que uma central pode produzir num dado momento. A quantidade de eletricidade fornecida ao longo de um ano também depende da frequência com que a central funciona.
A atualização de setembro sobre o concurso do DOE define uma meta subsequente de 2 400 MW até 2035 e de 4 800 MW até 2050. Uma descrição anterior do Plano Energético das Filipinas situava o marco dos 2 400 MW em 2045, dez anos mais tarde. A declaração de setembro apresenta o calendário mais recente indicado pelo DOE.
Os valores mostram a dimensão da ambição: 2 400 MW correspondem ao dobro da meta inicial de capacidade, enquanto 4 800 MW são quatro vezes esse nível de partida. Alcançar estes aumentos exigiria projetos sucessivos e as instituições, ligações à rede de transporte e financiamento necessários para os apoiar.
Patrick T. Aquino, diretor do Gabinete de Gestão da Utilização de Energia do DOE, afirmou que as metas pretendem incentivar as agências a acelerar os preparativos. Reconheceu que o fornecimento efetivo de eletricidade poderá começar em 2038, explicando, ao mesmo tempo, que o Governo não alterou formalmente a sua meta.
Aquino descreveu assim a posição do departamento:
Os projetos de energia nuclear demoram muito tempo e exigem um grande impulso. Ainda não estamos a alterar oficialmente a meta (mas continuamos) esperançosos de a concretizar.
Como funcionaria o concurso proposto
O DOE planeia contratar capacidade de produção nuclear através de um concurso competitivo, no qual os potenciais promotores apresentam propostas de acordo com regras definidas pelo Governo. O processo selecionaria projetos para fornecer capacidade, sendo os preços e os requisitos técnicos determinantes para a qualificação das propostas.
O memorando jurídico de julho da Baker McKenzie descreve um calendário preliminar que prevê o concurso para junho de 2027, a notificação da adjudicação até dezembro de 2027 e as primeiras entregas de eletricidade em 2038. As entregas seguintes seriam faseadas até 2047.
O DOE apresentou as orientações preliminares revistas numa segunda consulta pública, a 25 de setembro de 2026, no seu auditório em Bonifacio Global City, Taguig. Aquino apresentou alterações que incorporam comentários da National Grid Corporation of the Philippines, da Meralco e de outros intervenientes do setor.
As principais datas mostram como se prevê que decorram a política, a contratação e a construção:
- 18 de setembro de 2025: Foi promulgada a Lei da Segurança da Energia Nuclear Nacional das Filipinas, Republic Act n.º 12305.
- 6 de julho de 2026: O memorando da Baker McKenzie descreveu o projeto de enquadramento do concurso e o calendário de entregas proposto.
- 25 de setembro de 2026: O DOE realizou a segunda consulta pública sobre as orientações revistas para o concurso.
- Junho de 2027: O calendário preliminar prevê a realização do concurso para a capacidade nuclear.
- Dezembro de 2027: O calendário preliminar prevê a notificação da adjudicação.
- 2032: O Governo estabelece como meta inicial 1 200 MW de capacidade nuclear.
- 2038 a 2047: O concurso preliminar prevê entregas de eletricidade faseadas.
A circular continua em consulta, pelo que as datas do concurso e das entregas são propostas. O DOE afirmou que avaliará os comentários recebidos na consulta antes de finalizar as orientações.
É necessário pôr em funcionamento um novo regulador
A Republic Act n.º 12305 criou a PhilATOM como entidade reguladora independente, responsável pelas atividades nucleares e relacionadas com a radiação. Promulgada a 18 de setembro de 2025, a Lei da Segurança da Energia Nuclear Nacional das Filipinas estabelece as bases institucionais para os planos nucleares do país.
A lei exigia a publicação das normas de execução no prazo de 180 dias a contar da sua entrada em vigor. Essas normas continuam por concluir e as nomeações para o Conselho da PhilATOM ainda estão pendentes. Aquino afirmou que a secretária da Energia, Sharon S. Garin, tinha recordado à Presidência a necessidade de nomear os responsáveis.
A PhilATOM supervisionaria as decisões de segurança relativas à escolha do local, à construção, à entrada em serviço e à operação. A entrada em serviço é a fase em que os equipamentos e sistemas são testados antes de uma central iniciar a operação regular.
O DOE conduziria o processo de contratação competitiva. O adjudicatário continuaria a precisar da autorização da PhilATOM, bem como de outras licenças e aprovações exigidas, antes de iniciar a construção ou outras atividades regulamentadas.
O recrutamento de pessoal é outra tarefa importante. Magwood afirmou que é difícil recrutar especialistas qualificados, mesmo nos países da OCDE. As Filipinas precisam de profissionais capazes de avaliar projetos técnicos, inspecionar instalações e assegurar uma supervisão de segurança independente ao longo de toda a vida útil de uma central.
O DOE afirma estar a trabalhar na formação de profissionais e na cooperação técnica com países que já operam instalações nucleares. Estes preparativos têm de avançar em paralelo com os projetos, uma vez que tanto os promotores como a entidade reguladora precisam de pessoal qualificado.
A rede elétrica faz parte do calendário de construção
As revisões preliminares de setembro atribuem um papel central ao planeamento da rede de transporte. Quando aplicável, a avaliação preliminar da viabilidade da rede ajudaria a determinar a capacidade disponibilizada pelo DOE em cada ronda do concurso.
Um reator precisa de uma ligação fiável à rede elétrica para poder abastecer os consumidores. Por isso, os requisitos propostos para as propostas abrangem subestações, pontos de ligação, necessidades de transporte e sincronização com a rede. Sincronização significa ajustar a produção elétrica de um gerador às condições da rede a que se liga.
O DOE propõe contratar capacidade por fases, com calendários de entrega que tenham em conta o desenvolvimento do local, a tecnologia do reator, o financiamento, o licenciamento e a preparação da rede. Os calendários de construção dependeriam da tecnologia escolhida e da proposta aprovada do adjudicatário.
O alerta de Magwood também reflete as negociações necessárias entre governos, empresas de eletricidade e fornecedores antes do início da construção. Um promotor precisa de chegar a acordo sobre o que será construído, onde será ligado, quem o financiará e como obterá autorização para funcionar.
As Filipinas estão a estudar tanto a reativação da Central Nuclear de Bataan, que está inativa, como a construção de reatores mais pequenos. Estas opções implicam decisões de desenvolvimento diferentes, pelo que a escolha do projeto e da tecnologia é importante para estabelecer um calendário exequível.
Quem pagaria e como seriam fixados os preços?
O projeto de enquadramento atribui à Comissão Reguladora da Energia a responsabilidade de determinar, para cada ronda do concurso, o limite de preço aplicável, o preço de reserva, o intervalo tarifário ou a metodologia de fixação de preços. Estes são os limites ou métodos utilizados para avaliar os preços apresentados pelos promotores.
As propostas que ultrapassem o preço ou o limite máximo aplicável ao concurso seriam desqualificadas nos termos do concurso e da regulamentação relevante. Para os promotores, o preço permitido influencia a possibilidade de recuperar os custos do projeto. Para os consumidores, ajuda a determinar o custo da eletricidade contratada.
O projeto de julho também permite que o adjudicatário solicite negociações sobre apoio soberano ou uma garantia. Uma garantia soberana é um compromisso do Governo de cobrir determinadas obrigações caso se verifiquem as condições acordadas. O seu efeito financeiro dependerá dos termos negociados em definitivo.
Ao abrigo da proposta, o Governo poderia adquirir até 10% do capital da sociedade do projeto. Uma participação no capital corresponde a uma quota de propriedade, que dá ao Governo uma participação financeira na empresa. O memorando jurídico também referiu a possibilidade de tratamento preferencial para os promotores que aderissem primeiro ao programa.
Os termos finais do financiamento, os compromissos do Governo e os preços da eletricidade ainda não foram definidos. Em conjunto com os requisitos de construção e licenciamento, estas decisões determinarão quais os projetos que podem avançar e quando.
Apoio público elevado, com diferenças entre localidades
Os inquéritos do DOE mostram que o apoio à energia nuclear a nível nacional aumentou de 79% em 2019 para 82% em 2024, uma subida de três pontos percentuais. O Governo dispõe assim de uma base significativa de apoio público enquanto prepara o programa.
O apoio nas comunidades consideradas para o desenvolvimento nuclear tem variado entre 60% e 90%. Entre as localidades avaliadas estão Bataan, Palawan, Masbate, Pangasinan e Camarines Norte. Este intervalo mostra que a aceitação varia consideravelmente de local para local.
As decisões locais aproximarão o programa dos residentes que viveriam perto das instalações. A escolha dos locais, as medidas de segurança e a gestão dos resíduos darão a essas comunidades propostas concretas a avaliar, para além da questão nacional de saber se as Filipinas devem recorrer à energia nuclear.
Magwood manifestou confiança na capacidade do país para desenvolver um programa nuclear, apesar das suas reservas quanto ao prazo. Apontou as pessoas, os conhecimentos especializados e a liderança já existentes como razões para acreditar que o país poderá ter sucesso.
A decisão sobre a eliminação dos resíduos continua pendente
O combustível nuclear usado continua a ser uma preocupação para as comunidades que poderão acolher as instalações. O combustível retirado de um reator continua radioativo e produz calor, pelo que exige manuseamento e armazenamento controlados.
Magwood afirmou que contentores especializados permitem armazenar com segurança o combustível usado durante décadas, antes da sua deposição em repositórios geológicos. Um repositório geológico é uma instalação subterrânea profunda, concebida para isolar resíduos radioativos durante períodos muito longos.
As Filipinas ainda não decidiram como proceder à deposição definitiva, o que dificulta a estimativa dos custos futuros. A decisão terá impacto nas instalações necessárias, na sua localização e nas responsabilidades a longo prazo associadas à operação de centrais nucleares.
Magwood reconheceu também que os resíduos são uma questão sensível para as comunidades que se espera que os acolham. O Governo enfrenta, por isso, uma tarefa prática paralelamente ao calendário de contratação: desenvolver uma política para os resíduos que os residentes possam avaliar e que os responsáveis pelo planeamento dos projetos possam incluir nos cálculos de custos.
Os próximos marcos são a conclusão das regras do concurso, a nomeação da direção da PhilATOM e o reforço da capacidade reguladora. O concurso proposto para junho de 2027 e a notificação da adjudicação em dezembro de 2027 permitirão então avaliar se as ambições nucleares do país estão a traduzir-se em projetos com promotores, calendários e obrigações definidos.
Em resumo
- As Filipinas mantêm a meta de atingir 1 200 MW de capacidade nuclear em 2032, mas Magwood considera pouco provável cumprir esse prazo.
- O concurso preliminar prevê as primeiras entregas de eletricidade em 2038, com entregas seguintes até 2047.
- A declaração de setembro do DOE estabelece metas de 2 400 MW até 2035 e de 4 800 MW até 2050.
- O concurso proposto está previsto para junho de 2027, esperando-se a notificação da adjudicação até dezembro de 2027.
- A PhilATOM continua a precisar de nomeações para a direção e da conclusão das normas de execução.
- A adjudicação do concurso continuaria a exigir autorizações de segurança nuclear independentes e outras licenças.
- O apoio público atingiu 82% em 2024, enquanto as soluções para a deposição definitiva dos resíduos continuam por decidir.






