Três variantes regionais colocam a investigação sobre a tuberculose em foco
O Ministério da Saúde da Indonésia identificou três variantes genómicas da tuberculose (TB) geograficamente distintas num estudo que envolveu 7.000 doentes, anunciou o ministro da Saúde, Budi Gunadi Sadikin, a 5 de novembro de 2026. Os resultados estão a levar o Governo a investigar se as diferenças entre as bactérias encontradas no oeste, no centro e no leste da Indonésia afetam a eficácia de novas vacinas e medicamentos.
Índice
- Três variantes regionais colocam a investigação sobre a tuberculose em foco
- O que revelou o estudo genómico
- Porque são importantes as diferenças regionais para os doentes
- Ponto de situação do ensaio da vacina M72
- BPOM prepara uma via de avaliação mais rápida
- Como interpretar os primeiros valores de eficácia
- Encurtar o tratamento é outra prioridade
- Da participação no ensaio à possibilidade de 2028
- Budi apela à ação para lá das reuniões
- Principais pontos
Budi anunciou os resultados na 40.ª reunião do Conselho de Administração da Parceria Stop TB, em Badung, Bali. A investigação foi financiada pelo Fundo Global e recorreu a tecnologias de sequenciação genómica da Illumina e da Oxford Nanopore para examinar a composição genética das bactérias responsáveis pela TB.
O anúncio surge numa altura em que a Indonésia participa num ensaio de fase 3 da vacina candidata M72 e prepara um ensaio clínico de um novo medicamento contra a TB, destinado a encurtar o tratamento. Em conjunto, estes projetos dão ao Governo uma razão prática para compreender como as bactérias variam no país.
Budi afirmou que a próxima etapa da investigação seria analisar se as diferenças genéticas regionais influenciam a sensibilidade ao tratamento ou a eficácia das vacinas. O ministério ainda não anunciou resultados que respondam a essa questão.
O que está em jogo é significativo. Budi referiu que a TB causa 136.000 mortes por ano e afirmou que a Indonésia tem o segundo maior número de novos casos de TB do mundo, depois da Índia. Esta classificação diz respeito à incidência da doença, ou seja, aos novos casos, enquanto o número de mortes traduz o custo humano da doença.
O que revelou o estudo genómico
O estudo agrupou os resultados em três variantes associadas ao oeste, ao centro e ao leste da Indonésia. Budi descreveu diferenças genéticas claras entre estes grupos regionais e agradeceu ao Fundo Global o apoio à análise de amostras de 7.000 doentes.
A sequenciação genómica permite ler as instruções genéticas de um organismo. No caso da TB, os investigadores analisam o ADN das bactérias que causam a doença. A comparação dessas instruções ajuda a identificar semelhanças e diferenças entre bactérias recolhidas em diferentes doentes e locais.
A Illumina e a Oxford Nanopore forneceram as tecnologias de sequenciação utilizadas na investigação. Ambas permitem aos cientistas ler o ADN, dando ao ministério uma forma de mapear as diferenças entre bactérias em toda a Indonésia, em vez de se basear apenas no local de residência dos doentes ou na forma como a doença se manifesta.
O padrão geográfico dá aos investigadores um ponto de partida para aprofundar o estudo. Podem analisar se os grupos genéticos respondem de forma diferente aos medicamentos e se a proteção conferida pelas vacinas varia entre as pessoas expostas a essas bactérias. São estas as questões a que Budi pretende que o trabalho de sequenciação concluído ajude a responder.
Porque são importantes as diferenças regionais para os doentes
Budi quer que o desenvolvimento de novas vacinas e tratamentos tenha em conta as bactérias em circulação na Indonésia. Um medicamento atua sobre determinadas características de uma bactéria, enquanto uma vacina prepara o sistema imunitário do organismo para reconhecer uma ameaça. Por isso, as diferenças genéticas podem ser relevantes para as questões investigadas pelos cientistas.
Para um doente, a preocupação prática é simples: saber se o tratamento prescrito vai funcionar e se uma futura vacina lhe dará proteção. Cruzar os resultados genéticos com a investigação clínica ajudaria os cientistas a analisar esses resultados nas regiões identificadas pelo estudo.
A sensibilidade aos medicamentos descreve o grau de suscetibilidade das bactérias a um medicamento. Se as bactérias continuarem a sobreviver apesar da ação de um fármaco, o tratamento torna-se mais difícil. Os investigadores precisam de relacionar a informação genética com resultados laboratoriais e clínicos para compreender como responde uma determinada variante bacteriana.
A participação da Indonésia no desenvolvimento de vacinas e medicamentos cria uma oportunidade para estabelecer essa ligação. O projeto de sequenciação descreve as bactérias presentes no país; os ensaios clínicos analisam o desempenho de um produto candidato em pessoas. A proposta de Budi é reunir estas linhas de investigação, para que as decisões futuras reflitam os padrões da doença na Indonésia.
Ponto de situação do ensaio da vacina M72
A Indonésia participa no ensaio internacional de fase 3 da M72, juntamente com a África do Sul, o Quénia, a Zâmbia e o Malawi. Entre os parceiros indonésios de investigação estão a Universitas Indonesia e a Universitas Padjadjaran.
A 9 de maio de 2025, Budi afirmou que a Indonésia tinha inscrito 2.095 adolescentes e adultos no ensaio e que mais de 2.000 já tinham recebido uma injeção. Estes números referem-se à participação numa fase anterior do estudo.
Os ensaios clínicos decorrem por fases que avaliam a segurança, as respostas imunitárias e a eficácia. A fase 3 envolve, em geral, grupos maiores e compara resultados para determinar se o produto candidato proporciona a proteção pretendida, mantendo-se a monitorização da segurança. No caso de uma vacina preventiva contra a TB, a questão central é saber se a vacinação reduz o risco de desenvolver a doença.
Em maio de 2025, Budi afirmou que, se o desenvolvimento fosse bem-sucedido até 2028, a M72 poderia integrar o programa nacional de vacinação da Indonésia. Essa possibilidade depende dos resultados do ensaio e das decisões que se seguirem. A participação dá também às instituições indonésias experiência com a vacina candidata e fornece dados de pessoas que vivem num país com uma elevada carga de TB.
BPOM prepara uma via de avaliação mais rápida
A Agência de Supervisão de Alimentos e Medicamentos da Indonésia, conhecida como BPOM, está a ponderar como acelerar a avaliação da M72. Tri Asti Isnariani, diretora de registo de medicamentos da BPOM, afirmou que a agência tinha coordenado com a Agência Europeia de Medicamentos uma avaliação conjunta.
Na reunião de Bali, Tri Asti descreveu a colaboração prevista:
No caso da vacina M72, coordenámos com a Agência Europeia de Medicamentos. Vamos realizar uma avaliação conjunta para acelerar o processo.
Uma avaliação conjunta permite que as entidades reguladoras colaborem na análise das provas relativas a um produto médico. O objetivo é reduzir a duplicação de trabalho e tornar a avaliação mais eficiente. A BPOM está também a tratar de normas internas para a aprovação condicional, uma via que poderá permitir um acesso mais rápido em condições específicas, enquanto se recolhem mais dados.
Tri Asti afirmou que, após a reunião, informaria a direção da BPOM sobre a possibilidade de recorrer a essa via para a M72. Ainda não foi anunciada qualquer decisão ou data de aprovação. A BPOM afirmou que continuará a avaliar a segurança e a qualidade do produto, procurando simultaneamente acelerar a análise.
O trabalho internacional da agência inclui também o seu estatuto de Autoridade Listada pela OMS e a colocação de dois especialistas na Organização Mundial da Saúde, nas áreas da autorização de introdução de medicamentos no mercado e dos laboratórios. Estas iniciativas apoiam a comunicação e a cooperação técnica com outras autoridades de saúde.
Como interpretar os primeiros valores de eficácia
Na sua análise da M72, Tri Asti referiu valores preliminares de eficácia entre cerca de 54% e 57%, após a investigação de fase 2. A eficácia mede a redução do risco de doença entre os participantes vacinados, em comparação com um grupo de comparação, nas condições do ensaio.
Uma vacina com uma eficácia de cerca de 55% significaria que, durante o estudo, o grupo vacinado teve um risco aproximadamente 55% inferior de apresentar o resultado clínico medido, em comparação com o grupo de comparação. A percentagem diz respeito à diferença de risco entre grupos; a proteção individual pode variar.
A discussão regulatória referiu também um valor de referência de eficácia de 55% definido pela OMS. O intervalo indicado, de 54% a 57%, inclui esse valor, pelo que a estimativa precisa do ensaio, a sua margem de incerteza e o resultado clínico medido são elementos importantes da avaliação.
O estudo de fase 3 destina-se a dar uma visão mais completa da eficácia. Para a Indonésia, os resultados genómicos de Budi levantam outra questão de investigação: saber se o desempenho da vacina candidata é consistente entre os grupos bacterianos identificados nas diferentes regiões. Para responder, serão necessários dados clínicos relacionados com os resultados genéticos.
Encurtar o tratamento é outra prioridade
A Indonésia está também a preparar um ensaio clínico de um novo medicamento contra a TB que, esperam as autoridades, permitirá encurtar o tratamento. Budi apresentou esta iniciativa, a par do desenvolvimento de vacinas, como parte da resposta do país à doença.
O tratamento da TB pode exigir que os doentes tomem medicamentos durante um período prolongado. Um tratamento eficaz mais curto poderia reduzir o tempo que as pessoas passam a gerir as doses, a deslocar-se a consultas e a conciliar o tratamento com o trabalho ou os estudos. O ensaio proposto terá de determinar o desempenho do novo medicamento.
A investigação de sequenciação poderá ajudar a formular questões sobre a ação do medicamento contra bactérias de diferentes regiões da Indonésia. Budi quer que o país tenha estas diferenças em conta no desenvolvimento de tratamentos, em vez de analisar a genética e o desempenho clínico como temas sem relação entre si.
Os projetos relativos à vacina e ao medicamento respondem a necessidades diferentes. A vacinação procura prevenir a doença, enquanto o tratamento medicamentoso ajuda quem já está doente. O rastreio liga os doentes aos cuidados de saúde, identificando quem precisa de mais exames e tratamento.
Da participação no ensaio à possibilidade de 2028
O trabalho da Indonésia no domínio das vacinas e o novo anúncio genómico abrangem várias etapas. As datas mostram como se articulam a participação na investigação, o planeamento regulatório e a possível utilização pública:
- 9 de maio de 2025: Budi afirmou que a Indonésia tinha inscrito 2.095 participantes no ensaio internacional da M72 e que mais de 2.000 já tinham recebido uma injeção.
- 5 de novembro de 2026: Na reunião de Bali, Budi anunciou as três variantes genómicas regionais identificadas numa investigação que envolveu 7.000 doentes com TB.
- 5 de novembro de 2026: Tri Asti apresentou os planos para uma avaliação conjunta da M72 com a Agência Europeia de Medicamentos e a análise da possibilidade de aprovação condicional.
- 2028: Nas suas declarações anteriores, Budi apontou este ano como uma data possível para a conclusão bem-sucedida do desenvolvimento da vacina, o que poderia permitir a sua inclusão no programa nacional de vacinação.
O trabalho imediato consiste em avaliar a vacina, preparar o ensaio do medicamento e investigar a relação entre as diferenças bacterianas regionais e os resultados clínicos. Um programa público de vacinação exigiria também medidas para adquirir e distribuir doses às pessoas elegíveis.
Budi apela à ação para lá das reuniões
Budi invocou as 136.000 mortes anuais para defender que a Indonésia tem de avançar mais depressa. Para ilustrar a urgência, afirmou que morrem cerca de dois indonésios de TB por cada cinco minutos que passa a falar no fórum.
O ministro alertou para o custo que um atraso regulatório de um ano poderia ter para a segurança pública. Pediu à sua equipa que passasse menos tempo em discussões e processos administrativos e mais tempo a executar programas, incluindo a obtenção das aprovações necessárias para aproximar dos doentes os produtos promissores.
Ao falar do trabalho necessário para transformar o desenvolvimento médico em cuidados de saúde, Budi afirmou:
Nada chega aos doentes por acaso. Temos de os rastrear, prestar-lhes tratamento e administrar-lhes vacinas.
A sua mensagem relaciona o projeto genómico com as exigências práticas do combate à TB. Os investigadores precisam de compreender as bactérias, as entidades reguladoras têm de avaliar os produtos e os serviços de saúde têm de identificar e tratar os doentes. A próxima tarefa da Indonésia é fazer avançar estas atividades em conjunto, enquanto os estudos sobre a vacina e o medicamento produzem os dados necessários para tomar decisões.
Principais pontos
- Uma investigação que envolveu 7.000 doentes com TB identificou três variantes genómicas associadas ao oeste, ao centro e ao leste da Indonésia.
- O trabalho foi financiado pelo Fundo Global e recorreu a tecnologias de sequenciação da Illumina e da Oxford Nanopore.
- Os investigadores vão analisar se as diferenças regionais afetam o desempenho das vacinas ou as respostas ao tratamento.
- A Indonésia participa no ensaio internacional de fase 3 da vacina M72 e prepara um ensaio de um novo medicamento contra a TB.
- A BPOM planeia uma avaliação conjunta da M72 com a Agência Europeia de Medicamentos e está a ponderar a aprovação condicional.
- Budi referiu 136.000 mortes anuais por TB e apelou a decisões regulatórias e à execução de programas mais rápidas.






