Uma via para trabalhar em Itália sem a corrida anual às quotas
Os trabalhadores do Bangladesh que concluam formação aprovada no seu país podem candidatar-se a empregos em Itália fora das quotas anuais de imigração, ao abrigo de uma via legal explicada num seminário em Daca, a 3 de novembro de 2026. A formação é gratuita para os participantes e combina aulas de italiano, educação cívica e preparação prática para o trabalho.
Índice
- Uma via para trabalhar em Itália sem a corrida anual às quotas
- O que muda com o artigo 23.º
- Cursos gratuitos abrangem língua, direitos e segurança
- Quem verifica os programas de formação?
- Prazos para o empregador, o visto e a chegada
- Taxas de visto e custos com intermediários
- Formandos de hotelaria e têxteis já estão a preparar-se
- Como se integra esta via nos planos de recrutamento mais amplos de Itália
- O Bangladesh quer alargar o modelo
- Pontos principais
Esta via rege-se pelo artigo 23.º da lei italiana da imigração. Permite o recrutamento ao longo de todo o ano, sem o período de abertura de candidaturas designado «click day». O empregador italiano tem ainda de pedir autorização para contratar o trabalhador, seguindo-se um pedido de visto decidido pela missão diplomática italiana.
No Dhaka Regency Hotel and Resort, os responsáveis descreveram ações de formação já em curso nos setores da hotelaria e dos têxteis. Mahdi Amin, conselheiro para o bem-estar dos expatriados e o emprego no estrangeiro e porta-voz do Gabinete do Primeiro-Ministro, afirmou que a iniciativa começaria em breve, numa escala limitada.
Amin descreveu assim o lançamento previsto:
«O processo começará muito em breve, numa escala limitada»,
A oportunidade surge a par de um plano distinto de Itália, apresentado no seminário, para admitir 497 550 trabalhadores estrangeiros através do sistema regular de quotas entre 2026 e 2028. O artigo 23.º oferece outra via aos trabalhadores que concluam programas aprovados, com formação ligada às necessidades de emprego, em vez da concorrência por essas vagas anuais.
O que muda com o artigo 23.º
O Ministério do Trabalho e das Políticas Sociais de Itália identifica como base legal o artigo 23.º do Decreto Legislativo 286/1998, alterado pelo Decreto-Lei 20/2023 e convertido na Lei 50/2023. As alterações excluem das quotas do Decreto Flussi a entrada de trabalhadores que concluam programas profissionais e de língua e educação cívica aprovados pelo ministério.
O Decreto Flussi é o sistema através do qual Itália define o número de trabalhadores estrangeiros admitidos em várias categorias. O artigo 23.º, por sua vez, associa a formação aprovada no estrangeiro ao recrutamento por um empregador. Os trabalhadores podem recorrer a esta via em qualquer altura do ano, embora cada curso tenha o seu próprio calendário de seleção e formação.
O quadro de formação no estrangeiro do ministério define a base legal e as etapas entre a conclusão do curso e o emprego. Para um potencial trabalhador, a sequência é a formação, o pedido de contratação por parte de um empregador, o processamento do visto e as formalidades de residência após a chegada.
Os organizadores do seminário afirmaram que o Bangladesh também tem uma quota reservada no sistema regular, invocando a cooperação do país no repatriamento de migrantes em situação irregular. Não indicaram o número de vagas reservadas ao Bangladesh nem anunciaram um prazo de inscrição na iniciativa de formação.
Cursos gratuitos abrangem língua, direitos e segurança
A Embaixada de Itália afirmou que os programas aprovados exigem conhecimentos básicos de italiano, conhecimentos sobre a sociedade italiana e as responsabilidades cívicas, bem como qualificações profissionais relevantes para o emprego pretendido. Os participantes concluem esta preparação no Bangladesh antes de viajar.
As orientações do ministério para os programas de formação, adotadas e publicadas a 7 de julho de 2023, especificam um conjunto mais alargado de matérias obrigatórias. Além da língua, da educação cívica e das competências profissionais, os cursos têm de incluir direitos dos trabalhadores, regras laborais e saúde e segurança no trabalho.
Para quem se prepara para trabalhar num restaurante ou numa fábrica, estas matérias estão diretamente ligadas às tarefas do dia a dia: compreender instruções, conhecer os direitos laborais e identificar os requisitos de segurança. O ensino da língua faz, assim, parte da preparação para o emprego, a par da formação prática.
Amin afirmou que os formandos estavam a dedicar cinco a seis meses à preparação e à aprendizagem do italiano como terceira língua, além do bengali e do inglês. Os organizadores disseram que os participantes não teriam quaisquer custos com a formação.
Antonio Milo, representante de uma entidade de formação que apresentou as vantagens desta via, afirmou que os participantes adquiririam competências que também poderiam utilizar no Bangladesh, caso acabassem por ficar no país. As orientações do ministério incluem igualmente, entre os objetivos dos programas, o desenvolvimento de atividades produtivas e empresariais nos países de origem.
Quem verifica os programas de formação?
As organizações de formação têm de obter aprovação através da Piattaforma Ingressi Formati all'estero, conhecida como PIF, no portal governamental Servizi Lavoro. Esta é a plataforma onde são submetidos os projetos de formação para avaliação.
Uma comissão interministerial coordenada pelo Ministério do Trabalho analisa os projetos. Integram-na representantes responsáveis pelos negócios estrangeiros, assuntos internos, educação, agricultura e relações com as regiões e províncias autónomas de Itália.
A avaliação considera as organizações que propõem a formação, a correspondência entre o curso e a procura de trabalhadores, e a forma como o ensino será organizado. As orientações preveem também a coordenação com as autoridades locais e o apoio da rede diplomática e consular italiana.
Os potenciais participantes têm, por isso, uma questão concreta a confirmar junto da Embaixada de Itália e do Bureau of Manpower, Employment and Training do Bangladesh (BMET): se o programa em causa tem a aprovação ministerial exigida. Os organizadores aconselharam os trabalhadores a recorrer a esses canais oficiais para verificar oportunidades de migração.
Prazos para o empregador, o visto e a chegada
O processo de contratação começa quando um empregador italiano pede um Nulla Osta através do Portale Ali do Ministério do Interior. Um Nulla Osta é uma autorização para contratar um trabalhador estrangeiro identificado. Em seguida, a missão diplomática italiana decide o pedido de visto de entrada do trabalhador.
O Ministério do Trabalho afirma que o Balcão Único para a Imigração emite a autorização de contratação no prazo de 30 dias, ao abrigo de um procedimento que permite a aprovação caso a administração não responda dentro do prazo estabelecido. Há exceções para pedidos relativos a países abrangidos por disposições especiais de risco, e os inspetores do trabalho podem realizar verificações por amostragem posteriormente.
Os trabalhadores podem apresentar o pedido de visto no prazo de 12 meses após a conclusão do curso. O ministério indica que a missão diplomática ou consular italiana deve emitir o visto no prazo de 90 dias. São etapas distintas, pelo que a contratação e a documentação de imigração têm de ser coordenadas após a formação.
Segundo os procedimentos explicados no seminário, após a chegada os trabalhadores têm de pedir uma autorização de residência no prazo de oito dias. Os pedidos podem ser apresentados nos correios designados ou junto das autoridades de imigração competentes; a autorização é emitida pela Questura competente, a autoridade policial responsável pelas autorizações de residência.
O ministério exige também que o empregador e o trabalhador assinem o contrato de residência no prazo de 15 dias após a entrada no país. As orientações permitem que o trabalhador comece a trabalhar enquanto o pedido de autorização de residência está a ser processado, nos termos legais aplicáveis.
Os oradores do seminário afirmaram que as autorizações poderiam ter uma validade máxima de dois anos, consoante o contrato de trabalho, e ser renovadas. Referiram ainda a possibilidade de obter uma autorização sem prazo de validade fixo após cinco anos de residência legal, desde que sejam cumpridos os requisitos desse estatuto.
Taxas de visto e custos com intermediários
Os organizadores alertaram que os intermediários cobravam entre 10 000 e 15 000 dólares por processos de visto, recorrendo por vezes a documentos falsos e a promessas. Compararam esses valores com as taxas oficiais de visto, entre 50 e 116 euros, e uma taxa de serviço da VFS de 38 euros, num total máximo de 154 euros pelas despesas apresentadas.
Esta distinção é importante para as famílias que fazem contas aos custos da migração. Os valores indicados cobrem as taxas de visto e de serviço de candidatura mencionadas. Os trabalhadores precisam também de informações claras sobre quem paga a viagem e quaisquer outras despesas associadas ao respetivo contrato de trabalho.
Amin descreveu o objetivo do Governo como a redução dos custos da migração a zero sempre que possível. A garantia específica da Embaixada de Itália foi a de que os participantes não pagariam pela formação aprovada. Quem estiver a ponderar inscrever-se pode pedir ao programa e ao empregador uma discriminação detalhada dos custos antes de assumir compromissos financeiros.
A autorização do empregador e a decisão da embaixada sobre o visto continuam a ser etapas necessárias após a formação. Os organizadores aconselharam os potenciais migrantes a obter informações confirmadas junto da Embaixada de Itália e do BMET, em vez de pagarem a intermediários que prometem atalhos no processo.
Formandos de hotelaria e têxteis já estão a preparar-se
Dois projetos discutidos no seminário de Daca mostram como está a ser aplicado o modelo de formação. O projeto TASTE, da Frontiere Skills, prepara os participantes para trabalhar em restaurantes e na hotelaria, com formandos a receber instrução no Dhaka Regency Hotel. A Format está a realizar formação para o setor têxtil.
Formandos dos dois projetos participaram no evento. A sua presença deu à discussão um caráter prático: os participantes já estavam a aprender competências para setores específicos, enquanto os responsáveis explicavam o processo legal que liga essa preparação ao recrutamento em Itália.
O embaixador de Itália, Antonio Alessandro, e o chefe-adjunto de missão da embaixada, Federico Zamparelli, intervieram no seminário. O conselheiro da embaixada para a migração, Giuseppe Di Giovanni, apresentou as regras de entrada para trabalhar, enquanto a chefe-adjunta da Delegação da União Europeia, Baiba Zarina, falou sobre a iniciativa Parcerias para o Talento da UE.
Participaram também representantes de organizações de formação, da agência de recrutamento UP Recruitment Agency, da Organização Internacional do Trabalho e da Organização Internacional para as Migrações. Os projetos reúnem entidades formadoras, empregadores e autoridades públicas, cada qual com um papel distinto na preparação dos trabalhadores e no processamento do recrutamento.
Como se integra esta via nos planos de recrutamento mais amplos de Itália
Os números de quotas apresentados em Daca totalizam 497 550 admissões ao longo de três anos. O contingente anual previsto aumenta de 164 850 em 2026 para 166 850 em 2028, mais 2 000 vagas. Estas quotas abrangem trabalhadores de vários países e setores de atividade.
As principais datas e números são:
- 7 de julho de 2023: Itália adotou as orientações de formação através do Decreto Diretorial n.º 27.
- 2026: O número de trabalhadores indicado no seminário para a quota regular foi de 164 850.
- 3 de novembro de 2026: O seminário de Daca explicou o artigo 23.º e os primeiros projetos de formação no Bangladesh.
- 2027: O número de trabalhadores indicado para a quota regular foi de 165 850.
- 2028: O número de trabalhadores indicado para a quota regular foi de 166 850.
Os números apresentados no seminário apontaram para cerca de 217 000 cidadãos do Bangladesh com residência legal em Itália, incluindo 80 000 titulares de autorização de trabalho. Amin referiu uma comunidade bangladeshiana mais alargada, com mais de 250 000 pessoas. Os números dizem respeito a categorias populacionais diferentes: residentes legais, segundo a apresentação no seminário, e a comunidade em sentido mais amplo, segundo Amin.
Para os potenciais trabalhadores, a mudança prática é o acesso a uma via de emprego fora da atribuição anual de quotas. O enfoque na formação aprovada proporciona aos participantes um período de preparação definido antes das etapas de contratação e de obtenção do visto.
O Bangladesh quer alargar o modelo
Amin afirmou que o Bangladesh procuraria adaptar o currículo aos centros de formação técnica e às instituições de ensino profissional. O Governo pretende também desenvolver acordos semelhantes para outros destinos de emprego no estrangeiro, incluindo o ensino de línguas estrangeiras nos programas de formação profissional.
Ao explicar a sua perspetiva sobre a abordagem à formação, Amin afirmou:
«Queremos considerar isto um modelo»,
A Bangladesh Overseas Employment and Services Limited (BOESL) e outras instituições públicas apoiariam a migração de trabalhadores qualificados, afirmou. Propôs também a emissão de cartões de expatriado antes da partida, para ajudar os trabalhadores a aceder a serviços, enviar remessas e manter os laços familiares.
O plano imediato é iniciar o programa numa escala limitada e, depois, procurar integrar as partes úteis da formação no sistema educativo mais amplo. Para os trabalhadores participantes, as primeiras decisões são mais concretas: confirmar que o curso está aprovado, cumprir os seus requisitos e conseguir ser contratado por um empregador italiano.
Pontos principais
- O artigo 23.º permite que trabalhadores que concluam formação aprovada no estrangeiro se candidatem a empregos em Itália fora das quotas anuais de imigração.
- A formação no Bangladesh é gratuita para os participantes e abrange italiano, educação cívica, competências profissionais, direitos laborais e segurança.
- Um empregador tem de pedir autorização para contratar, e a missão diplomática italiana decide o pedido de visto.
- Os pedidos de visto podem ser apresentados no prazo de 12 meses após a conclusão do curso.
- Os trabalhadores têm de pedir uma autorização de residência no prazo de oito dias após a chegada e assinar o contrato de residência no prazo de 15 dias.
- Os projetos de hotelaria e têxteis já estão a formar participantes, enquanto o Bangladesh planeia lançar a iniciativa numa escala limitada e alargar o uso do modelo.






