Três manuscritos elevam para seis o total regional da Índia
Manuscritos preservados em Pune, Mysuru e Srinagar passaram a integrar o Registo Regional da Memória do Mundo para a Ásia e o Pacífico da UNESCO, elevando para seis o número total de inscrições da Índia. Os documentos agora reconhecidos são um manuscrito do Mahabharata em casca de bétula, um manuscrito do Arthashastra de Kautilya em folha de palmeira e um manuscrito do Rajatarangini de Kalhana, a crónica da Caxemira do século XII.
Índice
- Três manuscritos elevam para seis o total regional da Índia
- Que documentos foram reconhecidos?
- Rajatarangini coloca o passado da Caxemira em destaque
- Mahabharata analisa o dever e escolhas difíceis
- Arthashastra regista ideias sobre a governação de um Estado
- Como o registo passou de três para seis inscrições
- O que disseram as autoridades sobre a decisão
- Preservação e acesso passam a ser prioridades práticas
- Pontos-chave
A decisão foi tomada na 11.ª sessão do Comité da Memória do Mundo para a Ásia e o Pacífico, em Jacarta, na Indonésia. As autoridades indianas anunciaram as novas inscrições a 5 de novembro de 2026. A PIB Culture, o serviço de informação cultural do Governo, partilhou no X fotografias dos certificados da UNESCO.
Dr. Sachchidanand Joshi, secretário-membro do Indira Gandhi National Centre for the Arts (IGNCA), anunciou o reconhecimento. O centro ajudou a preparar os processos de candidatura, os documentos que fundamentam a inclusão de cada manuscrito no registo.
As três inscrições reúnem diferentes formas de compreender os assuntos humanos: registar o passado, analisar escolhas morais e organizar o governo. Chamam também a atenção para os documentos físicos através dos quais essas ideias chegaram às gerações seguintes. Cada manuscrito reconhecido tem uma instituição custodiante identificada, ligando o anúncio internacional a coleções de três cidades indianas.
Que documentos foram reconhecidos?
Os certificados identificam manuscritos específicos e as respetivas instituições custodiante. A inscrição do Mahabharata diz respeito a um manuscrito escrito em casca de bétula, também chamada burjapatra, guardado no Bhandarkar Oriental Research Institute, em Pune. O certificado descreve a obra como um épico perene do Sul da Ásia.
A inscrição do Arthashastra identifica um antigo manuscrito em folha de palmeira sobre governo e arte de governar, preservado no Oriental Research Institute, em Mysuru. O manuscrito do Rajatarangini encontra-se na Oriental Research Library, no complexo da Sri Pratap Singh Library, em Srinagar.
A casca de bétula e as folhas de palmeira são materiais utilizados para escrever textos. A sua menção ajuda a explicar o que significa património documental neste caso: tanto as ideias contidas numa obra como os objetos que as preservam. O anúncio não indica as datas de produção destes exemplares específicos nem um calendário para o acesso público.
Rajatarangini coloca o passado da Caxemira em destaque
Kalhana compôs o Rajatarangini no século XII. A obra apresenta um relato cronológico dos governantes da Caxemira, dos desenvolvimentos políticos e da vida social e cultural, ocupando um lugar singular entre os escritos históricos da Índia.
Uma crónica relata os acontecimentos pela ordem em que ocorreram. A obra de Kalhana combina provas, tradições transmitidas ao longo do tempo e investigação crítica para analisar o passado. Esta abordagem oferece aos leitores mais do que uma sucessão de governantes: relaciona os acontecimentos políticos com a sociedade em que ocorreram.
O manuscrito de Srinagar preserva, assim, uma obra dedicada à forma como a história é construída e compreendida. O seu reconhecimento coloca a escrita histórica da Caxemira ao lado da literatura épica e do pensamento político representados pelas outras duas novas inscrições.
Mahabharata analisa o dever e escolhas difíceis
O manuscrito do Mahabharata guardado no Bhandarkar Oriental Research Institute representa um dos grandes épicos da civilização indiana. A sua influência estende-se à literatura, à filosofia e às tradições culturais, tornando-o parte da memória cultural partilhada do Sul da Ásia.
O épico explora o Dharma, o dever, a justiça, o poder e as relações humanas. Neste contexto, Dharma pode ser entendido como o conjunto de responsabilidades e a conduta correta esperadas de uma pessoa, embora possa ser difícil conciliar essas responsabilidades. O dever para com a família, por exemplo, pode entrar em conflito com a obrigação de agir com justiça.
Estas tensões ajudam a explicar a importância intelectual duradoura da obra. As personagens enfrentam escolhas que envolvem lealdades contraditórias e as consequências do poder. As questões filosóficas nascem das relações humanas, tornando problemas éticos complexos compreensíveis através de uma narrativa.
O documento reconhecido dá forma física a essas ideias: um manuscrito em casca de bétula guardado em Pune. A inscrição liga o amplo alcance cultural do épico à preservação de um testemunho concreto que sobreviveu até aos nossos dias.
Arthashastra regista ideias sobre a governação de um Estado
O Arthashastra de Kautilya aborda a governação, a política económica, a diplomacia, a administração e os assuntos estratégicos. O manuscrito em folha de palmeira preservado em Mysuru contém uma obra dedicada ao funcionamento de um Estado e à forma como os seus dirigentes tomam decisões.
A arte de governar corresponde à prática da governação. Inclui organizar a administração pública, gerir recursos e conduzir relações com outros Estados. O Arthashastra reúne estes temas, refletindo o pensamento político e administrativo da Índia antiga.
As três novas inscrições podem, por isso, ser lidas em conjunto sem que se reduza o seu conteúdo a um único tema. O Rajatarangini analisa governantes e acontecimentos ao longo do tempo. O Mahabharata explora o dever, a justiça e as relações humanas. O Arthashastra debruça-se sobre a organização e o exercício da autoridade política.
Esta abrangência é o aspeto central do mais recente reconhecimento. O património documental da Índia inclui obras que questionam como devem agir as pessoas, como devem funcionar os governos e como devem as gerações seguintes compreender o passado.
Como o registo passou de três para seis inscrições
As três inscrições indianas anteriores no registo regional foram incluídas em 2024. Entre elas estavam manuscritos ilustrados do Ramcharitmanas de Tulsidas, com elaboradas pinturas em miniatura; um raro manuscrito do Panchatantra do século XV; e um manuscrito do Sahrdayaloka-Locana, uma obra sobre poética indiana.
O manuscrito do Panchatantra preserva fábulas e histórias morais. O Sahrdayaloka-Locana trata do estudo e da interpretação da poesia. A par do Ramcharitmanas ilustrado, estas inscrições já refletiam diversas formas de atividade literária e intelectual antes das mais recentes adições.
A sequência de reconhecimentos é a seguinte:
- 2024: Ramcharitmanas, Panchatantra e Sahrdayaloka-Locana passam a integrar o registo regional da Ásia-Pacífico.
- 11.ª sessão do comité, em Jacarta: os manuscritos do Mahabharata, do Arthashastra e do Rajatarangini são aprovados para inscrição.
- 5 de novembro de 2026: as autoridades indianas anunciam as novas inscrições e a PIB Culture partilha fotografias dos certificados.
As três novas entradas duplicam o total regional da Índia, que passa de três para seis. Representam metade desse total e alargam o leque temático, incluindo a escrita histórica da Caxemira e uma importante obra sobre governação.
O que disseram as autoridades sobre a decisão
O ministro da Cultura da União, Gajendra Singh Shekhawat, descreveu as inscrições como um reconhecimento marcante do património documental e civilizacional da Índia. Na sua declaração no X, associou as três obras à investigação histórica, ao pensamento filosófico e à arte de governar.
Estas obras intemporais representam as nossas ricas tradições de investigação histórica, pensamento filosófico e arte de governar, cuja sabedoria continua a inspirar a humanidade.
O contributo do IGNCA consistiu na preparação dos processos de candidatura das três obras. Esta etapa administrativa liga os manuscritos guardados por instituições individuais à análise da sua importância documental pelo comité regional.
As inscrições colocam os documentos no registo da UNESCO para a Ásia e o Pacífico, uma plataforma regional de reconhecimento e preservação do património documental. Os certificados identificam tanto as obras como as instituições responsáveis pela guarda dos manuscritos reconhecidos.
Preservação e acesso passam a ser prioridades práticas
O anúncio surge no âmbito da Gyan Bharatam Mission da Índia, que procura identificar, conservar, promover e digitalizar manuscritos em todo o país. Entre os objetivos declarados está tornar o património manuscrito acessível às gerações futuras e à comunidade internacional.
A conservação e a digitalização respondem a necessidades diferentes. A conservação protege o manuscrito físico. A digitalização cria um registo digital que pode ser consultado e estudado. No caso de obras preservadas em casca de bétula e folhas de palmeira, cuidar do objeto e permitir o acesso ao seu conteúdo são aspetos interligados da preservação do património documental.
A localização das instituições dá uma dimensão concreta a essa tarefa. Pune guarda o manuscrito reconhecido do Mahabharata, Mysuru o manuscrito do Arthashastra e Srinagar o manuscrito do Rajatarangini. Os respetivos custodiantes preservam registos que ligam coleções locais a uma história muito mais vasta da literatura, da ética e da governação.
As seis inscrições regionais abrangem agora literatura ilustrada, fábulas, poética, pensamento épico, escrita histórica e arte de governar. O mais recente reconhecimento dá visibilidade internacional a mais três documentos, enquanto a missão indiana dedicada aos manuscritos prossegue o trabalho de identificar, preservar e divulgar estas coleções.
Pontos-chave
- A UNESCO acrescentou manuscritos do Mahabharata, do Arthashastra e do Rajatarangini ao seu Registo Regional da Memória do Mundo para a Ásia e o Pacífico.
- A decisão foi tomada em Jacarta e anunciada pelas autoridades indianas a 5 de novembro de 2026.
- Os manuscritos reconhecidos encontram-se, respetivamente, em Pune, Mysuru e Srinagar.
- O IGNCA ajudou a preparar os processos de candidatura das três inscrições.
- O total regional da Índia duplicou, passando de três para seis, após três inscrições em 2024.
- O anúncio surge no âmbito do trabalho da Gyan Bharatam Mission para preservar e digitalizar o património manuscrito da Índia e alargar o acesso ao mesmo.






