RSF afirma que o Gabinete 015 dos talibãs recorre à detenção, à tortura e à propaganda online para silenciar o jornalismo afegão

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RSF Says Taliban Bureau 015 Uses Detention, Torture and Online Propaganda to Silence Afghan Journalism

77 jornalistas detidos enquanto a unidade de informações reforça o controlo

Os talibãs detiveram 77 jornalistas por períodos entre uma semana e dois anos desde que regressaram ao poder, em agosto de 2021, segundo os Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Numa investigação publicada a 4 de novembro de 2026, a organização de defesa da liberdade de imprensa identificou o Gabinete 015, uma unidade dos serviços de informações talibãs, como um centro de vigilância, intimidação e alegada tortura dirigida a profissionais dos meios de comunicação social afegãos.

Índice
  1. 77 jornalistas detidos enquanto a unidade de informações reforça o controlo
  2. Como o Gabinete 015 chega às redações
  3. Farhad descreve agressões e choques elétricos
  4. Ahmad relata uma execução simulada e a prisão
  5. Mulheres, pobreza e notícias sobre segurança enfrentam restrições
  6. Lista de convidados aprovados e ameaças para lá do Afeganistão
  7. Programa de influência proposto, no valor de 70,7 milhões de afeganes
  8. Cinco anos de restrições e operações de influência
  9. Os talibãs negam detenções arbitrárias e maus-tratos
  10. Pontos principais

Jornalistas entrevistados pelos RSF descreveram agressões, choques elétricos, pressão para identificar colegas e uma execução simulada. A organização analisou também mensagens áudio com instruções dirigidas às redações e ameaças contra jornalistas, incluindo alguns que tinham saído do Afeganistão. Os RSF alteraram os nomes dos jornalistas cujas identidades os poderiam pôr em risco.

A investigação descreve dois esforços interligados para controlar aquilo que os afegãos ouvem e leem: restringir a informação independente e produzir conteúdos que promovam o governo talibã. O Gabinete 015 alegadamente vigia a cobertura noticiosa, ajuda a organizar rusgas, regista confissões forçadas e participa em operações de influência online.

Hamdullah Fitrat, porta-voz-adjunto dos talibãs, rejeitou as alegações de detenções arbitrárias e maus-tratos. Disse aos RSF que os serviços de informações, incluindo o Gabinete 015, atuam dentro da lei.

Célia Mercier, responsável pela secção dos RSF para a Ásia do Sul, descreveu o lugar do gabinete na campanha mais ampla contra o jornalismo independente:

Os talibãs construíram um verdadeiro sistema de vigilância, intimidação e repressão para silenciar os meios de comunicação social no Afeganistão. A Direção 015 está no centro deste sistema, no qual os jornalistas são tratados como inimigos do regime apenas por cumprirem os seus deveres profissionais.

Como o Gabinete 015 chega às redações

O Gabinete 015, também chamado Direção 015 ou Unidade 015, funciona sob a alçada da Direção-Geral dos Serviços de Informações (GDI) dos talibãs. Os RSF afirmaram que opera sob o governo talibã desde agosto de 2021, com pessoal em Cabul e nas províncias.

Os agentes vigiam a rádio, a televisão e outros meios de comunicação, assinalam conteúdos que consideram censuráveis e convocam jornalistas para interrogatório. A secção operacional realiza rusgas, detém profissionais dos meios de comunicação social e apreende equipamento, frequentemente em coordenação com o Ministério para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício.

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Os RSF referiram operações contra as instalações da Federação de Jornalistas e Organizações de Comunicação Social do Afeganistão, em julho de 2025, e da estação televisiva TOLOnews, em maio de 2026. Estes exemplos mostram como o escrutínio de reportagens individuais pode levar a ações contra as organizações que as produzem.

O processo descrito pelos jornalistas dá aos agentes dos serviços de informações influência sobre decisões editoriais de rotina. Uma reportagem sobre o quotidiano pode levar a uma convocatória; a escolha de um entrevistado pela redação pode dar origem a ameaças. Assim, os editores enfrentam pressão antes da publicação, bem como punições posteriores.

Farhad descreve agressões e choques elétricos

Farhad, um jornalista identificado por um pseudónimo, disse aos RSF que, após a sua detenção, agentes dos serviços de informações lhe cobriram a cabeça com um saco preto e o levaram para uma instalação dos serviços em Cabul. Revistaram o telemóvel e o computador e acusaram-no de espionagem por causa das suas reportagens sobre a vida das pessoas comuns.

Alguns dias depois, afirmou, foi transferido para o Gabinete 015 e mantido durante duas semanas numa cela pequena. Diferentes interrogadores questionavam-no a qualquer hora e pressionavam-no para identificar outros jornalistas.

Farhad descreveu as agressões físicas sofridas durante os interrogatórios:

Bateram-me com muita força nas costas e nos pés e também usaram uma arma de eletrochoque.

Disse que continuou a ter problemas de saúde depois disso. O seu relato descreve também o isolamento da detenção: estava sozinho na cela e, por vezes, ouvia vozes sem ver os outros presos.

O número de 77 jornalistas detidos indicado pelos RSF abrange o período desde a tomada do poder pelos talibãs. A organização indicou períodos de detenção entre uma semana e dois anos, mostrando que a pressão incluiu tanto períodos mais curtos de reclusão como prisões prolongadas.

Ahmad relata uma execução simulada e a prisão

Ahmad, outro jornalista cujo nome foi alterado, disse que agentes o levaram à força para o Gabinete 015 e o acusaram de espionagem. Disse aos RSF que as agressões durante o interrogatório foram tão violentas que perdeu os sentidos.

Foi depois transferido para outra unidade dos serviços de informações. Segundo os RSF, o Gabinete 015 não tem prisão própria e a maioria dos detidos é transferida, após o interrogatório, para as Direções 40 ou 90 da GDI. O relato de Farhad descreve uma detenção temporária no Gabinete 015, enquanto o de Ahmad segue um percurso mais longo pelos serviços de informações e pela prisão.

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Ahmad disse que agentes o levaram para uma colina às duas da manhã, encostaram-lhe uma arma à têmpora e disseram-lhe que ali tinham matado outras pessoas como ele. Descreveu o episódio como uma execução simulada, uma ameaça encenada para fazer um preso acreditar que a morte é iminente.

Disse que um tribunal o condenou posteriormente a prisão por "propaganda contra o regime". Após vários meses, foi transferido para a prisão de Bagram, cerca de 60 quilómetros a norte de Cabul. Disse que continuou com as mãos e os pés presos mesmo quando ia à casa de banho e descreveu castigos com água fria.

Ahmad disse que só viu a família duas vezes durante a detenção. Saiu do Afeganistão depois de ser libertado.

Mulheres, pobreza e notícias sobre segurança enfrentam restrições

Ahmad disse que a pressão sobre a sua estação de televisão começou com a proibição de programas e a exclusão gradual das jornalistas. Pouco depois de os talibãs regressarem ao poder, a organização teve de se comprometer perante o Ministério da Informação e da Cultura quanto a quem iria pôr no ar.

A estação prometeu não transmitir programas com homens e mulheres em conjunto nem entrevistar pessoas que expressassem opiniões contrárias ao governo talibã, afirmou. Estas condições afetaram tanto quem produzia os programas como a variedade de vozes que o público podia ouvir.

Outro jornalista, atualmente no exílio, disse aos RSF que agentes o instruíram a não fazer reportagens sobre os direitos das mulheres, incidentes de segurança ou pobreza. Ordenaram-lhe também que convidasse apoiantes das autoridades, em vez de pessoas que consideravam contrárias aos interesses nacionais.

Os RSF afirmaram ter identificado mais de 20 diretivas de âmbito nacional, além de um número crescente de ordens provinciais, que restringem a liberdade de imprensa. As redações enfrentam, por isso, restrições impostas por vários níveis de autoridade, bem como exigências diretas dos serviços de informações.

Os temas que os jornalistas disseram estar sujeitos a restrições dizem respeito a decisões do quotidiano: se um local é seguro, como as famílias estão a lidar com as dificuldades financeiras e o que as mulheres podem fazer. Excluir esses temas da cobertura reduz a informação disponível para quem vive estas realidades.

Lista de convidados aprovados e ameaças para lá do Afeganistão

As mensagens áudio analisadas pelos RSF continham exigências para que os jornalistas excluíssem convidados que questionassem as políticas talibãs e convidassem, em vez disso, comentadores de uma lista aprovada pelas autoridades. Um jornalista disse que a lista tinha cerca de 50 nomes, no máximo.

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As gravações incluíam também exigências de reportagens e entrevistas sobre temas escolhidos por responsáveis talibãs. Numa mensagem, um agente descreveu a relação entre as autoridades e os jornalistas como exigindo cooperação mútua e, em seguida, instruiu os meios de comunicação a produzir determinados conteúdos.

Uma lista de comentadores aprovados dá às autoridades controlo sobre mais do que as participações individuais. Os debates televisivos podem manter a aparência de pluralismo, embora os participantes sejam escolhidos de um grupo restrito, aceitável para quem está no poder.

Jornalistas disseram aos RSF que sair do Afeganistão nem sempre pôs fim à intimidação. Uma mensagem ameaçadora citada na investigação advertia um jornalista exilado:

Vamos encontrar-te, onde quer que estejas, onde quer que te escondas.

O relato dos RSF coloca estas mensagens a par da pressão exercida dentro do Afeganistão: convocatórias, restrições aos convidados, exigências de cobertura favorável e ameaças dirigidas a pessoas que continuam a trabalhar no estrangeiro.

Programa de influência proposto, no valor de 70,7 milhões de afeganes

As responsabilidades do Gabinete 015 abrangem também as redes sociais, segundo os RSF. A organização afirmou que a unidade tem pessoal que vigia conteúdos online, uma secção responsável por propaganda e desinformação e um estúdio usado para produzir vídeos e gravar confissões forçadas de detidos.

Documentos divulgados em setembro de 2026, apresentados como provenientes dos serviços de informações talibãs, descreviam um programa de influência proposto com um orçamento de 70,7 milhões de afeganes, equivalente a mais de 900 000 euros. Referiam quase 1500 contas nas redes sociais alegadamente utilizadas para promover as autoridades talibãs e desacreditar os opositores.

Tratava-se de um orçamento proposto; a investigação não apurou se foi aprovado ou executado. O programa descrito nos documentos daria às autoridades um vasto conjunto de contas através das quais poderiam repetir mensagens e atacar críticos.

Os RSF analisaram publicações divulgadas em agosto de 2026 por contas da rede X identificadas nos documentos. Encontraram mensagens repetidas de apoio aos talibãs, incluindo publicações idênticas ou muito semelhantes, divulgadas com poucos minutos de intervalo.

Alguns perfis usavam identidades femininas ou afirmavam ser de Panjshir, antigo centro de resistência ao governo talibã. Estas identidades podem fazer parecer que uma mensagem provém de pessoas cujo apoio os leitores poderiam considerar improvável. Os RSF afirmaram que os padrões eram semelhantes aos identificados numa investigação de maio de 2025 sobre mensagens coordenadas e falsas identidades femininas.

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Cinco anos de restrições e operações de influência

A investigação reúne acontecimentos desde o regresso dos talibãs ao poder, ações contra organizações dos meios de comunicação social e a análise posterior da atividade online. As principais datas são:

  • Agosto de 2021: Os talibãs regressaram ao poder. Os RSF situam neste período o início da atividade do Gabinete 015 sob o governo talibã.
  • Maio de 2025: Uma investigação identificou mensagens coordenadas de apoio aos talibãs e contas que usavam falsas identidades femininas.
  • Julho de 2025: Os RSF referiram uma operação contra as instalações da Federação de Jornalistas e Organizações de Comunicação Social do Afeganistão.
  • Maio de 2026: Os RSF referiram uma operação dirigida à TOLOnews.
  • Agosto de 2026: Contas posteriormente analisadas pelos RSF publicaram mensagens repetidas de apoio ao governo talibã.
  • Setembro de 2026: Foram divulgados documentos que descreviam o programa de influência proposto.
  • 4 de novembro de 2026: Os RSF publicaram a sua investigação sobre o Gabinete 015.

A cronologia relaciona a pressão sobre os jornalistas com os esforços para moldar a discussão online. As restrições impostas às redações determinam que temas e vozes chegam ao público interno, enquanto as contas coordenadas ajudam a divulgar mensagens favoráveis às autoridades.

Os talibãs negam detenções arbitrárias e maus-tratos

Hamdullah Fitrat, porta-voz-adjunto dos talibãs, disse aos RSF que os serviços de informações em causa, incluindo o Gabinete 015, atuavam no quadro da lei. Rejeitou as alegações de detenções e tratamentos arbitrários:

Ninguém é sujeito a tratamento arbitrário e ninguém é detido arbitrariamente.

A sua negação contrasta com os testemunhos detalhados de jornalistas sobre o tratamento que receberam sob custódia e com as mensagens áudio que, segundo os RSF, analisaram. Os relatos dos jornalistas incluem lesões físicas, isolamento, ameaças contra colegas e separação da família, a par das restrições às reportagens que podiam produzir.

Para o público afegão, as consequências vão além da detenção de jornalistas individuais. Excluir as mulheres, restringir a cobertura da pobreza e da segurança, limitar os convidados das entrevistas e encomendar reportagens favoráveis altera a imagem do país que chega ao público.

A investigação dos RSF descreve um sistema em que a mesma unidade dos serviços de informações alegadamente ajuda a suprimir relatos independentes e a produzir mensagens ao serviço das autoridades. Esta ligação está no centro do alerta da organização sobre o futuro do jornalismo independente sob o governo talibã.

Pontos principais

  • Os RSF afirmaram que 77 jornalistas foram detidos desde agosto de 2021, por períodos entre uma semana e dois anos.
  • Jornalistas acusaram agentes do Gabinete 015 de agressões, choques elétricos, ameaças e interrogatórios coercivos.
  • Os RSF documentaram mais de 20 diretivas de âmbito nacional que restringem a liberdade de imprensa, além de ordens provinciais.
  • As redações enfrentaram exigências para excluir convidados críticos e restringir a cobertura dos direitos das mulheres, da pobreza e da segurança.
  • Documentos descreviam um programa de influência proposto, no valor de 70,7 milhões de afeganes, que envolvia quase 1500 contas nas redes sociais.
  • Hamdullah Fitrat, porta-voz-adjunto dos talibãs, negou detenções arbitrárias e maus-tratos.
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