Uma queda acentuada por detrás do alerta sobre as remessas
O Paquistão registou 50.506 trabalhadores a partir para empregos no estrangeiro em março de 2026, menos do que os 75.663 registados em janeiro, segundo uma ficha informativa do programa Gulf Labour Markets, Migration and Population, baseada em dados governamentais. A queda de 33,2% dá uma medida concreta da perturbação subjacente a um alerta feito em Lahore: entradas robustas de remessas podem ocultar um enfraquecimento do mercado para a próxima geração de trabalhadores migrantes.
Índice
- Uma queda acentuada por detrás do alerta sobre as remessas
- Qual é o grau de exposição do Paquistão ao Golfo?
- Os trabalhadores qualificados também sentiram o choque imediato
- O que poderá mudar no recrutamento no Golfo?
- Porque podem as remessas ocultar um mercado de trabalho em enfraquecimento?
- A Europa oferece uma alternativa mais restritiva
- As comunidades e o género influenciam as decisões migratórias
- O Nepal e as Filipinas mostram o que está em jogo
- Emprego no país e cooperação no estrangeiro
- Pontos principais
A publicação de maio, da autoria de Nasra Shah, diretora científica do programa e professora na Lahore School of Economics, situou a queda após o ataque dos EUA e de Israel ao Irão. Os números mostram que as partidas diminuíram em várias profissões e destinos, com reduções particularmente acentuadas em vários Estados do Golfo.
Em novembro, investigadores reunidos na Lahore School of Economics debatiam uma ameaça mais ampla. Os conflitos, as regras de imigração mais rigorosas e a inteligência artificial estavam a alterar tanto o número de trabalhadores pretendidos pelos países como as competências exigidas.
O Dr. Nasir Iqbal, economista e investigador de políticas no Pakistan Institute of Development Economics, alertou que a IA e a mudança das políticas laborais no Golfo poderiam afetar sete em cada dez empregos tradicionalmente ocupados por migrantes. A sua avaliação dizia respeito a potenciais alterações nas oportunidades de emprego; a queda registada entre janeiro e março dizia respeito aos trabalhadores que saíram do Paquistão.
O alerta foi feito na quarta conferência internacional organizada pelo Centre on International Migration, Remittances and Diaspora (CIMRAD), subordinada ao tema «Fatores que moldarão o futuro da migração internacional a partir da Ásia». Os dois dias de debate relacionaram a perturbação imediata com mudanças mais profundas no recrutamento, nas rotas migratórias e na dependência das famílias dos rendimentos provenientes do estrangeiro.
Qual é o grau de exposição do Paquistão ao Golfo?
A dependência paquistanesa do emprego no Golfo é visível nos números relativos aos destinos. A ficha informativa de maio de 2026 do programa GLMM, baseada em conjuntos de dados do Pakistan Bureau of Emigration and Overseas Employment, registou 762.499 partidas de trabalhadores em 2025. A Arábia Saudita recebeu 70%, os restantes países do Conselho de Cooperação do Golfo receberam 23% e os destinos fora do CCG representaram 7%.
No conjunto, os destinos do Golfo representaram, portanto, 93% das partidas registadas. Só a Arábia Saudita recebeu sete em cada dez trabalhadores. Uma mudança no recrutamento em toda a região afeta diretamente o principal mercado de emprego no estrangeiro para o Paquistão.
Omã, Barém e Kuwait registaram, em conjunto, uma queda de quase 60% na chegada de trabalhadores paquistaneses entre janeiro e março de 2026. As partidas para destinos fora do CCG diminuíram 15%, mostrando que a contração foi mais acentuada nesses três mercados do Golfo.
Os principais acontecimentos sucederam-se ao longo do ano:
- Em 2025, o Paquistão registou 762.499 trabalhadores a partir para empregos no estrangeiro, dos quais 93% se dirigiram para países do CCG.
- Em janeiro de 2026, as partidas registadas totalizaram 75.663.
- Em março, no mês seguinte ao ataque dos EUA e de Israel ao Irão, as partidas caíram para 50.506.
- Em maio, a ficha informativa do GLMM alertou para as consequências nos rendimentos das famílias, nas remessas, no desemprego e nos custos de recrutamento.
- A 3 e 4 de novembro, a conferência de Lahore analisou como os conflitos, a tecnologia e as políticas migratórias poderiam transformar o emprego no futuro.
Os trabalhadores qualificados também sentiram o choque imediato
Entre os trabalhadores não qualificados em geral, que a ficha informativa descreve como representando cerca de metade dos trabalhadores migrantes paquistaneses, as partidas caíram de cerca de 46.000 para 32.000 entre janeiro e março. As partidas de motoristas e trabalhadores da construção diminuíram 35%.
Entre os trabalhadores qualificados e altamente qualificados, a queda foi de cerca de 40%, face a aproximadamente 30% entre os trabalhadores não qualificados. A perturbação imediata atingiu, portanto, trabalhadores de todos os níveis de qualificação, incluindo pessoas cujas habilitações poderiam, de outro modo, dar-lhes acesso a uma gama mais ampla de empregos.
Françoise De Bel-Air, investigadora sénior do programa GLMM, descreveu na conferência uma tendência de longo prazo: as oportunidades para profissionais qualificados estavam a aumentar na América do Norte, na Europa e no Golfo, enquanto as rotas tradicionais para trabalhadores com qualificações baixas ou intermédias se tornavam mais restritas.
As duas tendências podem coexistir. Um destino pode dar cada vez mais preferência a determinadas qualificações e, ao mesmo tempo, contratar menos pessoas durante um conflito. Para os trabalhadores, possuir uma competência procurada e encontrar um empregador disposto a contratar são requisitos distintos.
O que poderá mudar no recrutamento no Golfo?
Iqbal afirmou que os países do Golfo estavam a selecionar cada vez mais os trabalhadores com base em competências, profissões e vias migratórias específicas. Os países de origem dos trabalhadores também estavam a tornar-se parceiros ativos na seleção dos candidatos e na sua preparação para o emprego no estrangeiro.
A inteligência artificial acrescenta outra fonte de mudança, pois pode alterar as tarefas que os empregadores precisam que as pessoas desempenhem. Iqbal relacionou a sua rápida adoção com a mudança das políticas laborais e os conflitos geopolíticos, ao alertar que sete em cada dez empregos tradicionalmente ocupados por migrantes poderiam ser afetados. Essa estimativa não foi acompanhada por um calendário nem por uma discriminação detalhada por profissão.
Para quem planeia migrar, um sistema mais seletivo torna mais importante a correspondência entre a formação e uma vaga específica. As habilitações, a experiência profissional e a autorização para utilizar uma via migratória podem ser determinantes para conseguir emprego.
Froilan Malit, especialista em migração laboral na Ásia e no Médio Oriente, descreveu o corredor entre a Ásia e o Golfo como um dos sistemas de migração laboral mais resilientes do Sul Global. Defendeu que se desse mais atenção a sistemas de reconhecimento de competências e que estes fossem incluídos nos acordos de política externa que regem a migração laboral entre países em desenvolvimento.
O reconhecimento de competências significa que um país de destino aceita a formação ou as qualificações de um trabalhador. A proposta de Malit integraria essa aceitação na cooperação entre governos, aproximando a preparação dos trabalhadores no país de origem dos requisitos de emprego no estrangeiro.
Porque podem as remessas ocultar um mercado de trabalho em enfraquecimento?
As remessas são o dinheiro que os migrantes enviam para o seu país. Ajudam as famílias a pagar as despesas do dia a dia e trazem divisas para o país. As partidas de trabalhadores medem algo diferente: o fluxo de pessoas que saem para trabalhar no estrangeiro.
As pessoas já empregadas no estrangeiro podem continuar a enviar dinheiro, mesmo que menos novos trabalhadores consigam emprego. Isso explica a preocupação expressa em Lahore de que as atuais entradas robustas possam coexistir com uma diminuição das oportunidades de emprego futuras.
Shah, diretora científica do GLMM e autora da ficha informativa de maio, alertou para as consequências nas famílias caso a diminuição das partidas prosseguisse:
As famílias perderão o rendimento de que dependem para sobreviver e o seu nível de vida diminuirá; o país perderá divisas de que tanto precisa se as remessas diminuírem; e o desemprego poderá aumentar, sobrecarregando ainda mais o mercado de trabalho.
A ficha informativa também alertou que os custos de recrutamento poderiam aumentar se a procura de trabalhadores no Golfo diminuísse, mantendo-se inalterado o número de pessoas à procura de empregos no estrangeiro. As famílias poderiam então enfrentar menos vagas e maiores despesas para tentar conseguir uma.
A Europa oferece uma alternativa mais restritiva
A Europa e outras regiões poderiam atrair mais interesse dos trabalhadores paquistaneses caso as oportunidades no Golfo diminuíssem, refere a ficha informativa. Esta identificou a possibilidade de migração tanto por vias legais como irregulares.
Marco Mogiani, investigador no International Centre for Migration Policy Development, disse à conferência que os controlos fronteiriços mais rigorosos da União Europeia, a vigilância biométrica e as medidas de regresso já tinham influenciado os padrões migratórios do Paquistão e do Bangladexe.
Os sistemas biométricos utilizam características de identificação, como impressões digitais ou imagens faciais, para confirmar a identidade. As medidas de regresso dizem respeito ao envio de pessoas de volta quando não têm autorização para permanecer. Em conjunto com os controlos fronteiriços, estas políticas afetam as rotas que as pessoas tentam utilizar e as possibilidades de permanecerem.
A conferência analisou também de que forma as medidas contra o tráfico ilícito de migrantes e as políticas migratórias nacionais afetavam as partidas, as rotas e as mortes de migrantes. Uma mudança para destinos fora do Golfo levaria, portanto, os trabalhadores para outro contexto de políticas restritivas, e não para um mercado alternativo simples.
As comunidades e o género influenciam as decisões migratórias
A Dra. Fareeha Zafar, da Lahore School of Economics, identificou a instabilidade política, a insegurança económica, o desemprego e o acesso limitado a uma educação de qualidade como principais fatores da migração irregular a partir da Ásia. Destacou também os maiores riscos enfrentados pelas mulheres nas rotas de trânsito irregulares, incluindo o tráfico de seres humanos.
A migração irregular envolve deslocação ou residência fora dos requisitos legais aplicáveis. O tráfico de seres humanos envolve exploração. O alerta de Zafar relacionou a pressão para partir com os perigos que as pessoas à procura de meios de subsistência podem enfrentar durante a viagem.
A Dra. Shahida Aman, presidente do Departamento de Ciência Política da University of Peshawar, instou os investigadores a analisarem as relações sociais e a influência das comunidades nas aspirações e decisões migratórias.
O Dr. Gennaro Errichiello, professor auxiliar na Habib University, analisou as redes sociais no corredor entre o Paquistão e os Emirados Árabes Unidos. A sua apresentação abordou a forma como essas redes ajudam os migrantes a lidar com as oportunidades de emprego e as restrições associadas à residência temporária.
Estas discussões colocaram as ligações familiares e comunitárias a par das regras governamentais e da procura dos empregadores. As pessoas tomam decisões migratórias através das relações pessoais, além dos sistemas formais de recrutamento, e a possibilidade de permanecerem no estrangeiro pode depender das condições de uma autorização de residência temporária.
O Nepal e as Filipinas mostram o que está em jogo
A experiência do Nepal ilustrou a importância que os rendimentos provenientes do estrangeiro podem ter para uma economia nacional. A Dra. Richa Shivakoti disse à conferência que as remessas representavam cerca de 33% do produto interno bruto do Nepal, uma medida do valor dos bens e serviços produzidos no país.
Essa percentagem corresponde aproximadamente a um terço. Shivakoti identificou o desemprego, a incerteza política e económica, as catástrofes associadas às condições climáticas e uma cultura migratória cada vez mais enraizada entre os jovens como fatores que incentivam as partidas.
A Dra. Maruja M.B. Asis afirmou que a migração das Filipinas era impulsionada pela escassez de emprego digno no país e pela procura constante no estrangeiro. Abordou também o papel crescente das mulheres e a diversificação dos padrões migratórios.
O envelhecimento da população, a diminuição da fertilidade e a digitalização estiveram entre as tendências emergentes identificadas por Asis. Estas mudanças afetam tanto o número de pessoas disponíveis para trabalhar como os tipos de trabalho de que os destinos necessitam.
O Dr. G.M. Arif descreveu o Paquistão como um país onde coexistem continuidade e mudança: a migração laboral tradicional para os países do CCG prosseguia, a par de um aumento da migração qualificada para países ocidentais. A instabilidade económica e as políticas governamentais de promoção do emprego no estrangeiro continuavam a impulsionar a migração, enquanto as discrepâncias entre as competências dos trabalhadores e os empregos disponíveis, bem como os conflitos geopolíticos, colocavam desafios.
Emprego no país e cooperação no estrangeiro
O reitor da Lahore School of Economics, Dr. Shahid Amjad Chaudhry, abriu a conferência apelando a uma cooperação mais estreita entre países de origem e de destino, para tornar a migração humana, ordenada e sustentável. Instou também o Paquistão a diversificar a economia e a expandir os serviços que geram maior valor.
Educação, saúde e tecnologias da informação foram os setores que identificou como prioritários para melhorar o emprego e a produtividade no país. As suas propostas abordaram a dimensão interna da mesma pressão descrita pelos investigadores da migração: as pessoas continuam a procurar trabalho no estrangeiro quando as oportunidades locais são limitadas.
O Dr. Naved Hamid defendeu uma avaliação das futuras necessidades de competências a nível mundial, a par das prioridades de desenvolvimento dos países de origem e de destino. Afirmou que as mudanças demográficas e as oportunidades internas limitadas deveriam manter elevada a pressão migratória no Paquistão e no Nepal.
A Dra. Anna Triandafyllidou, da Toronto Metropolitan University, titular da Canada Excellence Research Chair em Migração e Integração, defendeu abordagens que tenham em conta as diferenças entre as escolhas, as oportunidades e as limitações das pessoas. Na sua palestra, descreveu as decisões migratórias como cada vez mais complexas e moldadas por mudanças sociais, económicas, políticas e tecnológicas.
A conferência terminou com uma sessão sobre o potencial impacto do conflito entre os EUA, o Irão e Israel na futura migração a partir da Ásia, presidida pelo Dr. Rashid Amjad. A Dra. Nasra M. Shah proferiu as palavras de agradecimento. Ao longo dos debates, as prioridades práticas estiveram interligadas: preparar os trabalhadores para vagas específicas, melhorar o reconhecimento das suas competências, proteger as pessoas que percorrem rotas de risco e expandir o emprego no país.
Pontos principais
- As partidas de trabalhadores paquistaneses registadas caíram 33,2%, de 75.663 em janeiro de 2026 para 50.506 em março.
- Os países do CCG receberam 93% das 762.499 partidas de trabalhadores paquistaneses registadas em 2025.
- As partidas para Omã, Barém e Kuwait diminuíram, em conjunto, quase 60% entre janeiro e março.
- As partidas de trabalhadores qualificados e altamente qualificados caíram cerca de 40%, face a aproximadamente 30% entre os trabalhadores não qualificados.
- O Dr. Nasir Iqbal alertou que a IA e as mudanças nas políticas do Golfo poderiam afetar sete em cada dez empregos tradicionalmente ocupados por migrantes.
- Os oradores da conferência defenderam uma melhor preparação dos trabalhadores, o reconhecimento das competências, a cooperação internacional e mais oportunidades de emprego no país.






