Karki quer recuperar o comando, não um novo cargo
Dan Bahadur Karki tinha ainda 17 meses de mandato como chefe da Polícia do Nepal quando o Conselho de Ministros o substituiu por Manoj Kumar KC. Até quinta-feira, 5 de novembro, Karki tinha apresentado uma petição ao Supremo Tribunal a pedir a sua reintegração, em vez de levantar a carta de nomeação para o novo cargo de conselheiro especial de segurança do primeiro-ministro.
Índice
- Karki quer recuperar o comando, não um novo cargo
- Uma decisão do Conselho de Ministros cria dois cargos
- Quem pediu a substituição do chefe da polícia?
- A investigação a Sapkota envolve figuras poderosas
- Gravações trazem rivalidade privada para a esfera pública
- Detenção de jornalistas expõe falhas na cadeia de responsabilidades
- O que está em causa na contestação apresentada ao Supremo Tribunal
- Um precedente de 1997 regressa ao centro da discussão
- KC herda edifícios danificados e agentes insatisfeitos
- Pontos principais
Segundo informações, no gabinete do primeiro-ministro, em Singha Durbar, os funcionários tinham preparado para ele a sala n.º 207, com gabinete, viatura e condições de segurança equivalentes às concedidas a um secretário do Governo. Karki optou, em vez disso, por contestar a decisão que o afastou do comando da polícia.
O seu advogado, Tikabahadur Kunwar, afirmou que a petição continuava em análise administrativa e não tinha sido registada na quinta-feira. O registo poderia ocorrer na sexta-feira, sendo de esperar uma audiência preliminar apenas depois do feriado de Tihar, caso o processo avançasse. Não tinha sido anunciada qualquer data para a audiência.
O confronto envolve agora três controvérsias: se o Governo substituiu legalmente um chefe da polícia em funções, quem ordenou à polícia que interrogasse jornalistas e como uma investigação sobre o alegado intermediário Inam Sapkota acabou por envolver altos responsáveis policiais e pessoas próximas do primeiro-ministro Balendra Shah.
Os líderes do Governo e do partido no poder também apresentaram explicações contraditórias para a mudança. O porta-voz do Governo afirmou que o Partido Nacional Independente, ou RSP, tinha dado instruções ao Governo para agir. O porta-voz do partido negou ter dado instruções para substituir Karki. Na quinta-feira, o presidente do partido, Rabi Lamichhane, afirmou que cabe ao próprio Governo justificar a decisão.
Uma decisão do Conselho de Ministros cria dois cargos
A reunião extraordinária do Conselho de Ministros de quarta-feira afastou Karki da chefia da polícia, nomeou o inspector-geral-adjunto Manoj Kumar KC para o substituir e criou para Karki um cargo de conselheiro com a categoria de inspector-geral. KC recebeu as insígnias e assumiu o comando nessa noite. O ministro do Interior, Sudan Gurung, entregou-lhe pessoalmente as insígnias, uma tarefa normalmente desempenhada pelo secretário do Interior.
O Conselho de Ministros descreveu o novo cargo de Karki como o de prestar aconselhamento, recomendações e consultoria ao primeiro-ministro em matéria de segurança, com vista a reforçar a paz e a segurança. O Governo sustentou que a transferência não era uma punição, mas não explicou em pormenor as funções do conselheiro nem os motivos para substituir Karki antes do fim do seu mandato.
Hem Raj Aryal, porta-voz do Gabinete do Primeiro-Ministro, confirmou que tinham sido preparadas instalações para o novo cargo. Um funcionário desse gabinete afirmou que Karki recusou tanto a carta de nomeação como as condições associadas. Na petição, contesta o seu afastamento e a nomeação de KC, argumentando que a decisão do Governo foi ilegal e injusta.
Karki e KC ingressaram na polícia no mesmo grupo. Quando Karki foi nomeado chefe, KC ocupava o terceiro lugar na hierarquia e Rajan Adhikari o segundo. A promoção de KC coloca, assim, um antigo colega no comando, enquanto Karki contesta a legalidade da sua transferência para outro cargo.
Quem pediu a substituição do chefe da polícia?
O ministro da Educação, Sasmit Pokhrel, porta-voz do Governo, associou a decisão de quarta-feira a instruções do partido no poder e a questões sensíveis que não especificou. Ao explicar a transferência, afirmou:
As circunstâncias mudaram. O partido tinha dado instruções ao Governo para que se fizesse alguma coisa relativamente a questões sensíveis. As responsabilidades dele foram alteradas. Mas aconselhar o primeiro-ministro também é uma responsabilidade sensível.
Jagadish Kharel, porta-voz do RSP, rejeitou essa explicação. A sua resposta atribuiu ao Governo, e não ao partido, a responsabilidade pela decisão relativa à nomeação:
O partido não deu qualquer directiva sobre quem deve ser afastado ou nomeado. Não pedimos a destituição do inspector-geral.
Em declarações aos jornalistas em Chitwan, na quinta-feira, Lamichhane afirmou também que o partido não instruiu o Governo a substituir responsáveis policiais. Negou que houvesse uma ruptura de coordenação, dizendo que o partido podia pedir explicações e questionar decisões do Governo sem aprovar todas as suas acções.
Lamichhane confirmou que o RSP tinha pedido esclarecimentos depois de a polícia ter entrado em redacções. Deixou ao Governo a explicação sobre se essa intervenção estava relacionada com a mudança do chefe da polícia. A sua posição distingue o pedido de responsabilização do partido pelo tratamento dado aos jornalistas de uma instrução para afastar Karki.
A investigação a Sapkota envolve figuras poderosas
Inam Sapkota está sob custódia policial, acusado de branqueamento de capitais e infracções bancárias. As alegações sobre os seus contactos com agentes da polícia, juízes e figuras políticas estão na origem da disputa pela liderança. A investigação sobre essas relações continua por resolver.
Relatos atribuídos a responsáveis do Governo descrevem uma crescente irritação no Gabinete do Primeiro-Ministro com a divulgação de informações sobre os contactos de Sapkota. Mereceu particular atenção uma alegação segundo a qual Kumar, também conhecido por Ben, Byanjankar, conselheiro de Shah, teria ficado com o telemóvel de Sapkota durante dois dias após a detenção deste.
Alguns responsáveis atribuíram o afastamento de Karki à suspeita de que teria divulgado informações relacionadas com o conselheiro. Outros descreveram a resistência de Karki a instruções de detenção que consideravam juridicamente insustentáveis. O Governo não apresentou publicamente um relato pormenorizado que ligue qualquer uma destas alegações à sua decisão.
Também se tornaram públicas mensagens atribuídas a Karki e Sapkota, incluindo uma troca em que Sapkota se oferecia para trazer algo dos Estados Unidos. A divulgação aumentou o escrutínio sobre Karki, ao mesmo tempo que se levantavam questões sobre o acesso de Sapkota a pessoas próximas do primeiro-ministro.
Para os investigadores, a questão concreta é saber como analisar esses contactos, protegendo as provas e tomando decisões de acordo com a lei. Para a liderança policial, o desafio é ainda maior, porque as informações da investigação passaram a fazer parte de uma disputa sobre quem comanda a instituição.
Gravações trazem rivalidade privada para a esfera pública
Uma gravação de um minuto e 56 segundos, divulgada na segunda-feira, terá captado KC a falar com um homem identificado como Nirajan Bhandari. A conversa referia alegadas ligações entre Sapkota e altos responsáveis, incluindo Karki e o inspector-geral-adjunto Rajan Adhikari, e a possibilidade de Karki se demitir.
Mais tarde, surgiu um breve vídeo que mostrava aquilo que foi descrito como um encontro entre Bhandari e Karki num hotel de Catmandu. O teor da conversa não foi divulgado. Nem Karki nem KC comentaram publicamente as gravações.
As trocas públicas surgiram após uma reunião invulgarmente alargada do Comité de Coordenação da Polícia, realizada a 29 de outubro. Além dos altos responsáveis do vale de Catmandu, Karki convocou vice-inspectores-gerais das sete províncias. A reunião durou quase seis horas e terá incluído fortes divergências entre Karki e KC.
Karki instou os agentes a manterem-se unidos e criticou colegas que não identificou por se deslocarem ao ministério e agirem contra o chefe da instituição. KC defendeu que as pessoas alvo de alegações deveriam responder individualmente, em vez de responsabilizarem toda a instituição. Os participantes descreveram uma reunião que expôs divisões em vez de produzir uma abordagem comum.
O antigo inspector-geral Sarbendra Khanal alertou para que divergências pessoais não destruíssem a unidade institucional. Ao descrever o impacto nos agentes em funções, afirmou:
Estes incidentes afectam o moral de toda a instituição.
Detenção de jornalistas expõe falhas na cadeia de responsabilidades
A polícia entrou numa redacção e deteve jornalistas na sexta-feira anterior ao afastamento de Karki. Posteriormente, o Secretariado do Primeiro-Ministro afirmou que não tinha sido informado. Deepa Dahal, conselheira de imprensa de Shah, disse que o primeiro-ministro ordenou a libertação dos jornalistas depois de saber o que tinha acontecido.
A Polícia do Nepal apresentou uma explicação diferente. O porta-voz e vice-inspector-geral Abinarayan Kafle associou o interrogatório a preocupações manifestadas pelo Gabinete do Primeiro-Ministro. Na sua declaração, Kafle afirmou:
Em resposta à preocupação manifestada pelo Gabinete do Primeiro-Ministro, o Gabinete de Cibercrime da Polícia do Nepal chamou alguns jornalistas às suas instalações, com o propósito legítimo de obter informações gerais sobre a veracidade, a base factual e os fundamentos jurídicos da divulgação de informações sobre o caso. Esta foi uma das funções oficiais da polícia.
Pokhrel descreveu o interrogatório como uma questão policial relacionada com informações alegadamente enganadoras sobre o iminente afastamento de Karki. Nos relatos do incidente, o ministro do Interior, Gurung, não apresentou qualquer explicação pública.
As declarações contraditórias deixam por esclarecer quem foi responsável pela operação. O Secretariado do Primeiro-Ministro descreveu uma intervenção para garantir a libertação dos jornalistas, enquanto a polícia afirmou que as preocupações daquele gabinete foram o motivo do interrogatório. O pedido de esclarecimentos do RSP aumentou a pressão sobre o Governo para explicar quem autorizou a acção.
O que está em causa na contestação apresentada ao Supremo Tribunal
Os advogados de Karki pedem a sua reintegração através de uma petição de mandado, um pedido para que o Supremo Tribunal examine se uma autoridade pública agiu legalmente. A apresentação dá início a um processo administrativo; no final de quinta-feira, a petição continuava em análise para efeitos de registo.
A disputa jurídica prende-se com a diferença entre nomear alguém para um cargo vago e afastar do cargo um chefe em funções para criar essa vaga. A Lei da Polícia de 2012 BS e o Regulamento da Polícia de 2071 BS regem os poderes relevantes. Estas datas seguem o calendário Bikram Sambat do Nepal; o regulamento corresponde a 2014 no calendário gregoriano.
O artigo 9.º, n.º 2, da Lei da Polícia prevê que os agentes exerçam funções enquanto o Governo assim o entender. O regulamento classifica o inspector-geral e os inspectores-gerais-adjuntos como funcionários da classe especial. A regra 18(1)(a) confere ao Governo poderes para preencher vagas nesses escalões, enquanto a regra 48 trata dos poderes de transferência, incluindo as transferências de inspectores-gerais-adjuntos.
Uma análise jurídica do antigo secretário-adjunto do Ministério do Interior Kanel sustenta que estas disposições obrigam o Governo a identificar uma base legal e um motivo objectivo para afastar um inspector-geral em funções. A questão prática é saber se a criação de outro cargo constituiu uma transferência legal ou uma forma de afastar Karki sem seguir o procedimento necessário.
O advogado sénior Tikaram Bhattarai, que representou o antigo chefe da polícia Achyut Krishna Kharel numa disputa anterior, afirmou que os princípios jurídicos aplicáveis continuam a ser relevantes:
O Governo não pode afastar um titular do cargo ao seu bel-prazer. Precisa de fundamentos e motivos objectivos, e a pessoa em causa tem de ter oportunidade de ser ouvida.
Um precedente de 1997 regressa ao centro da discussão
O caso de Achyut Krishna Kharel é a comparação histórica mais próxima. Em abril de 1997, o Governo transferiu-o do cargo de chefe da polícia para a direcção do Departamento Nacional de Investigação e nomeou Dhruva Bahadur Pradhan inspector-geral. Kharel contestou a transferência e recusou assumir o cargo nos serviços de informações.
Kharel regressou à liderança da polícia em novembro de 1997. O relato jurídico pormenorizado situa a sua reintegração antes da decisão final do Supremo Tribunal, em vez de a apresentar como execução dessa decisão. A sentença, publicada na Nepal Kanoon Patrika 2055, n.º 11, decisão n.º 6624, abordou os perigos de mudanças arbitrárias na liderança policial.
O Supremo Tribunal explicou assim as suas preocupações quanto ao controlo político das forças policiais:
Se a administração policial ficar dependente de favores políticos, a imparcialidade e o sentido do dever dos serviços policiais deteriorar-se-ão, comprometendo a paz e a segurança internas do país.
A história destas nomeações remonta a antes. Em 1992, um novo limite de 30 anos de serviço abriu caminho à saída de Ratna Shumsher e de outros 48 agentes, seguindo-se a nomeação de Motilal Bohara. Uma disposição que permitia prorrogar o serviço possibilitou, posteriormente, que Bohara continuasse em funções até 1996.
O cargo de conselheiro também tem precedentes. Pradhan foi colocado numa função semelhante depois de Kharel regressar. Em 2011, Ramesh Chand Thakuri foi transferido para um cargo de conselheiro de segurança no contexto do escândalo de aquisições relativo ao Sudão e Darfur; foi posteriormente suspenso, depois de instaurado um processo de corrupção, e acabou condenado.
A sequência mais recente desenrolou-se rapidamente:
- 29 de outubro: Karki convocou uma reunião de coordenação alargada, com altos responsáveis, incluindo dirigentes policiais provinciais.
- Segunda-feira anterior à substituição: Foi divulgada uma gravação que alegadamente envolvia KC e Bhandari.
- Quarta-feira: O Conselho de Ministros substituiu Karki por KC e criou para Karki um cargo de conselheiro especial de segurança.
- Quinta-feira, 5 de novembro: Os representantes de Karki apresentaram a petição ao Supremo Tribunal, que não foi registada nesse dia.
KC herda edifícios danificados e agentes insatisfeitos
Manoj Kumar KC, 34.º inspector-geral da Polícia do Nepal, assume o comando de uma instituição ainda a recuperar dos protestos da Geração Z. Um relatório interno da polícia registou 74 edifícios totalmente danificados e 222 parcialmente danificados. No total, são 296 edifícios, um quarto dos quais ficou completamente destruído.
As reparações permitiram voltar a utilizar as instalações afectadas, mas os agentes afirmam que ainda são necessários edifícios de substituição. A polícia também enfrenta falta de equipamento adequado para controlar multidões. Estes problemas práticos disputam atenção com a controvérsia sobre a liderança e a necessidade de reter pessoal experiente.
Segundo fontes policiais, agentes de escalões inferiores que completaram 20 anos de serviço têm apresentado pedidos de demissão. Não foi divulgado qualquer total. Antigos altos responsáveis descrevem um moral baixo tanto nos escalões inferiores como nos superiores, atribuindo a insatisfação entre os dirigentes à intervenção política.
KC é doutorado em transformação de conflitos e dirigiu anteriormente o Gabinete de Investigação Criminal do Vale de Catmandu, onde abriu a investigação sobre o caso dos refugiados butaneses. Ao assumir o comando, prometeu criar um mecanismo específico para tratar as queixas dos agentes dos escalões inferiores e aumentar a transparência nas transferências e promoções.
Essas promessas dizem respeito a uma das principais causas de insatisfação: a convicção de que o acesso a pessoas poderosas determina as carreiras. KC comprometeu-se também a trabalhar em conjunto com os altos responsáveis. Garantir decisões previsíveis sobre o pessoal, enquanto a sua própria nomeação é contestada em tribunal, será um teste imediato.
Umesh Mainali, antigo secretário do Interior, considerou que a forma como o Governo conduziu a substituição prejudicou a sua credibilidade e o moral da polícia. Descreveu directamente a relação da instituição com o poder político:
A Polícia do Nepal não é a guarda privada de ninguém. É uma instituição mais antiga do que a administração pública. Em vez de a fortalecer, mudar a sua liderança para colocar alguém da sua preferência compromete a credibilidade e o moral da instituição.
Para os agentes em funções, as consequências vão além de saber quem ocupa o gabinete do chefe. As investigações precisam de provas protegidas, instruções claras e da confiança de que as decisões legais terão apoio institucional. O Governo terá agora de defender a decisão relativa à nomeação, enquanto KC gere a recuperação, as queixas do pessoal e uma chefia dividida.
Pontos principais
- Dan Bahadur Karki pede a reintegração depois de ter sido substituído quando ainda faltavam 17 meses para o fim do seu mandato.
- A petição de Karki ao Supremo Tribunal continuava em análise administrativa e não foi registada na quinta-feira, 5 de novembro.
- Karki não levantou a carta de nomeação para o recém-criado cargo de conselheiro especial de segurança.
- Os porta-vozes do Governo e do RSP apresentaram versões contraditórias sobre se o partido tinha instruído a mudança na liderança.
- A disputa envolve a investigação a Sapkota, gravações divulgadas publicamente e explicações contraditórias para a detenção de jornalistas.
- O caso Kharel de 1997 constitui um precedente sobre afastamentos arbitrários e influência política na liderança policial.
- KC assumiu o comando e prometeu tratar as queixas do pessoal e tornar mais transparentes as transferências e promoções.






