Formaldeído detetado em todos os produtos de tabaco aquecido testados
A Coreia do Sul publicou os primeiros resultados detalhados de análises químicas a 465 produtos do tabaco. Foi detetado formaldeído em todos os 104 produtos de tabaco aquecido analisados e no líquido de 99 dos 105 cigarros eletrónicos. A divulgação, anunciada a 29 de outubro de 2026, é acompanhada por um plano para alargar os testes, exigir que as empresas expliquem a utilização de cada ingrediente e antecipar até 17 meses os pedidos de análise de novos produtos.
Índice
- Formaldeído detetado em todos os produtos de tabaco aquecido testados
- O que revelaram as análises aos cigarros
- O tabaco aquecido e os produtos líquidos apresentaram padrões diferentes
- Porque podem os valores diferir dos indicados nos maços
- A lei que enquadra a divulgação
- As empresas terão de justificar os ingredientes
- Mais produtos e aditivos passam a ser abrangidos pelo programa
- Principais datas da implementação dos testes
- A evolução do consumo de tabaco intensifica o debate sobre as políticas
- O que muda para os consumidores e as empresas do tabaco
- Principais pontos
O Ministério da Saúde e do Bem-Estar e o Ministério da Segurança Alimentar e dos Medicamentos aprovaram o Primeiro Plano Diretor para a Gestão da Nocividade do Tabaco para 2027 a 2031, após análise pelo Comité de Política de Gestão da Nocividade do Tabaco. Até 2030, as autoridades tencionam analisar cerca de 50 substâncias nos cigarros convencionais e nos produtos de tabaco aquecido, contra 44 atualmente, e cerca de 30 nos cigarros eletrónicos com líquido, contra 20.
A divulgação inicial abrange produtos de 20 fabricantes e importadores: 256 cigarros convencionais, 104 produtos de tabaco aquecido e 105 cigarros eletrónicos com líquido. Os cigarros convencionais representaram cerca de 55% dos produtos analisados, valor calculado a partir de 256 em 465.
Os consumidores podem agora consultar, para além dos valores de nicotina e alcatrão impressos nos maços, informações sobre produtos específicos e substâncias químicas como o benzeno, o cádmio e o formaldeído. A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro classifica estas substâncias como cancerígenas do Grupo 1, o que significa que existem provas científicas suficientes de que causam cancro em seres humanos.
Oh Yu-kyung, ministra da Segurança Alimentar e dos Medicamentos, descreveu o objetivo da divulgação:
Esta divulgação é o primeiro passo para informar o público de forma transparente sobre as substâncias nocivas presentes nos produtos do tabaco, com base em resultados de análises científicas.
O que revelaram as análises aos cigarros
As autoridades identificaram 11 substâncias cancerígenas do Grupo 1 nos 256 produtos de cigarros convencionais. Quatro substâncias — formaldeído, benzeno, cádmio e 1,3-butadieno — estavam presentes em todos os produtos analisados. A NNN e a NNK, substâncias cancerígenas associadas ao tabaco, e o benzo[a]pireno foram detetados, cada um, em 255 produtos.
Os valores de formaldeído variaram entre 39,5 e 181 microgramas por cigarro. A nicotina variou entre 0,8 e 2,6 miligramas por cigarro, enquanto o alcatrão variou entre 11,7 e 40,4 miligramas. Um miligrama corresponde a um milésimo de grama; um micrograma, a um milionésimo.
O alcatrão é uma medição laboratorial das partículas que permanecem nas emissões do tabaco depois de removidas a nicotina e a água. Reúne muitas substâncias num único valor. A divulgação alargada fornece aos consumidores informação sobre substâncias químicas individuais, além dessa medição agregada.
Até agora, as embalagens de cigarros indicavam as quantidades de nicotina e alcatrão, bem como a presença de seis substâncias cancerígenas. O novo sistema acrescenta as concentrações medidas e explicações sobre os efeitos de cada substância no organismo. O benzeno, por exemplo, pode causar leucemia após exposição prolongada, enquanto o formaldeído pode irritar os olhos, o nariz e a garganta.
O tabaco aquecido e os produtos líquidos apresentaram padrões diferentes
As emissões de todos os 104 produtos de tabaco aquecido continham formaldeído, entre 5,4 e 12,1 microgramas por unidade. Nas condições de análise, os valores medidos foram inferiores aos 39,5 a 181 microgramas encontrados nas emissões dos cigarros convencionais.
A NNN foi detetada em 87 produtos de tabaco aquecido e a NNK em 88. Um produto continha benzo[a]pireno, na concentração de 3,6 nanogramas por unidade. Um nanograma corresponde a um milésimo de milionésimo de grama. A nicotina variou entre 0,1 e 1,2 miligramas por unidade e o alcatrão entre 10,3 e 32,0 miligramas.
Entre os 105 produtos de cigarros eletrónicos com líquido, o formaldeído foi detetado em 99, ou cerca de 94%. As concentrações variaram entre 3,0 e 83,8 microgramas por grama de líquido. A NNN foi detetada em dois produtos, a NNK num e o arsénio em dois. Os valores de arsénio situaram-se entre 27,3 e 28,6 nanogramas por grama.
Todos os produtos líquidos continham nicotina, propilenoglicol e glicerina. Estes dois últimos são ingredientes líquidos principais que servem de veículo a outras substâncias. As concentrações de nicotina variaram entre 5,7 e 20,0 miligramas por grama de líquido.
A distinção entre líquido e emissões é importante: as autoridades analisaram o líquido no interior destes produtos, enquanto os cigarros convencionais e os produtos de tabaco aquecido foram avaliados através das emissões produzidas durante a utilização. Os investigadores do Governo tencionam também desenvolver dispositivos e métodos normalizados para analisar as emissões dos cigarros eletrónicos.
Porque podem os valores diferir dos indicados nos maços
Os laboratórios utilizaram um método de recolha intensificada recomendado pela Organização Mundial da Saúde e incluído nas normas da Organização Internacional de Normalização. Nos cigarros convencionais, o procedimento tapa os pequenos orifícios de ventilação do filtro durante a recolha do fumo, procurando aproximar a análise do comportamento real de quem fuma.
Os valores de nicotina e alcatrão impressos nos maços resultam de outro método de recolha. O procedimento intensificado pode produzir valores mais elevados, pelo que os consumidores poderão notar uma diferença considerável entre a nova base de dados e a embalagem do mesmo produto. As autoridades tencionam ponderar alterações que tornem as duas formas de informação mais coerentes.
No conjunto do programa de análises, os laboratórios examinaram 46 substâncias distintas, depois de eliminadas as repetições entre as listas das diferentes categorias de produtos. Os cigarros convencionais e os produtos de tabaco aquecido tinham, cada um, uma lista de 44 substâncias; os cigarros eletrónicos com líquido, uma lista de 20. As listas anteriores incluíam monóxido de carbono para os cigarros e o tabaco aquecido, e propilenoglicol para os líquidos.
Em algumas medições de benzeno, 1,3-butadieno e cádmio nos produtos de tabaco aquecido, os valores ficaram abaixo do limite de quantificação. Isto significa que a quantidade era inferior ao nível a partir do qual o equipamento conseguia determinar um valor preciso com fiabilidade.
O risco para a saúde depende da exposição a várias substâncias químicas em simultâneo, da quantidade de tabaco consumida, da duração do consumo e da forma como é inalado. Kim Heon-joo, presidente do Instituto de Promoção da Saúde da Coreia, salientou também a importância do consumo de mais do que um produto do tabaco para explicar as diferenças de exposição efetiva entre as pessoas.
A lei que enquadra a divulgação
A lei sobre a nocividade do tabaco, formalmente denominada Lei sobre a Gestão da Nocividade do Tabaco, foi promulgada como Lei n.º 19815 a 31 de outubro de 2023. Entre os seus objetivos declarados estão a proteção da saúde pública e a garantia do direito à informação sobre os malefícios do tabaco. O sistema de divulgação começou a funcionar a 1 de novembro de 2025.
O artigo 5.º exige que os ministros da Saúde e da Segurança Alimentar elaborem em conjunto um plano diretor de cinco em cinco anos. O artigo 6.º prevê planos anuais de execução, permitindo ao Governo traduzir o programa geral em medidas anuais.
O artigo 11.º estabelece inspeções regulares de dois em dois anos e exige novas análises sem demora sempre que os ingredientes nocivos se alterem após a emissão de um relatório de inspeção. Os laboratórios têm de conservar os relatórios durante três anos. O artigo 12.º exige que os fabricantes e importadores apresentem os nomes dos ingredientes e os resultados das inspeções.
O artigo 14.º determina que o ministro da Segurança Alimentar analise a informação e divulgue os ingredientes nocivos de cada produto do tabaco de forma facilmente acessível ao público. O artigo 15.º permite que esses resultados sejam utilizados nas políticas de promoção da saúde.
O comité de política reúne representantes do Governo, cientistas e representantes dos consumidores. Os seus 15 membros analisam os métodos de teste, as substâncias abrangidas e a forma de divulgação dos resultados. A lei também estabelece requisitos para os laboratórios, incluindo equipamento, instalações e pessoal.
As empresas terão de justificar os ingredientes
Ao abrigo do novo plano, os fabricantes e importadores estarão sujeitos a um sistema de declaração mais detalhado. Além dos nomes dos ingredientes e dos resultados das análises, as empresas terão de explicar a finalidade de cada ingrediente. Assim, os reguladores ficarão a saber por que motivo é utilizada uma substância, e não apenas se consta da lista de ingredientes.
As autoridades tencionam realizar inspeções sem aviso prévio para verificar se as quantidades são subdeclaradas e se as declarações de ingredientes são falsas. O artigo 21.º já confere às autoridades poderes para inspecionar instalações comerciais, examinar documentos relevantes e recolher amostras.
O Governo pretende também exigir que os pedidos de análise de novos produtos sejam apresentados no prazo de um mês após o início das vendas. De acordo com o regime atual descrito pelos ministérios, as empresas podiam aguardar até ao primeiro semestre do ano civil seguinte. A redução do prazo poderá antecipar o pedido de análise até 17 meses. O prazo diz respeito ao pedido de análise; a análise laboratorial e a avaliação do Governo são fases posteriores.
A lei prevê ordens de correção para as empresas que não solicitem inspeções ou não apresentem resultados. O incumprimento continuado, quando acompanhado de danos efetivos ou prováveis para a saúde pública, pode levar a ordens de recolha ou destruição dos produtos. Algumas infrações, incluindo a apresentação de relatórios de inspeção falsos e o desrespeito por ordens de correção, são puníveis com até um ano de prisão ou uma multa de 10 milhões de won.
As autoridades tencionam também vigiar a publicidade que utiliza seletivamente valores de análises químicas para induzir os consumidores em erro. O enquadramento jurídico relevante inclui a Lei da Atividade do Tabaco, a Lei Nacional de Promoção da Saúde e a Lei da Rotulagem e Publicidade Justas.
Mais produtos e aditivos passam a ser abrangidos pelo programa
Os produtos com nicotina sintética ficaram fora da primeira ronda de análises por não se enquadrarem na definição legal de tabaco quando o sistema de divulgação começou a funcionar. Uma alteração à Lei da Atividade do Tabaco, em vigor desde 24 de abril de 2026, passou a incluí-los nessa definição. Está previsto que as análises e a divulgação pública destes produtos comecem em 2027.
Os produtos rotulados como isentos de nicotina e os que utilizam substitutos da nicotina também ficaram fora do inquérito inicial. As autoridades tencionam concluir uma avaliação da nocividade dos substitutos da nicotina até dezembro de 2026, antes de debater a sua regulamentação a nível governamental.
O tabaco sem combustão, os charutos e o tabaco para cachimbo de água serão integrados no programa de análises previsto no plano diretor. Os investigadores estudarão também as substâncias químicas produzidas especificamente pelo tabaco aquecido e desenvolverão métodos para identificar outras substâncias potencialmente nocivas.
O mentol é um foco específico, por ter sido indicado como aditivo principal nas declarações das empresas. O Governo analisará os efeitos dos aditivos na atratividade dos produtos, na dependência e na saúde. As orientações da OMS descrevem como a inalação conjunta de mentol e nicotina pode intensificar os efeitos desta última.
As restrições a determinados ingredientes, incluindo eventuais proibições, continuam em análise. As autoridades tencionam também alargar o número de instituições de análise, apoiar o controlo da qualidade de acordo com normas internacionais e cooperar com a OMS em métodos de análise comuns.
Principais datas da implementação dos testes
O programa liga a legislação aprovada em 2023 a alterações nos testes que se prolongarão até 2031. A primeira divulgação foi precedida por um prazo inicial para a apresentação de pedidos de análise de produtos existentes e por trabalho laboratorial realizado em 2026.
- 31 de outubro de 2023: Foi promulgada a Lei sobre a Gestão da Nocividade do Tabaco.
- 1 de novembro de 2025: O sistema de divulgação começou a funcionar.
- 31 de janeiro de 2026: Terminou o prazo inicial para os fabricantes e importadores solicitarem a análise dos produtos existentes.
- 24 de abril de 2026: Uma alteração alargou a definição de tabaco para incluir produtos com nicotina sintética.
- 29 de outubro de 2026: As autoridades divulgaram os resultados relativos a 465 produtos e anunciaram o plano diretor para 2027 a 2031.
- Dezembro de 2026: Está prevista a conclusão da avaliação dos substitutos da nicotina.
- 2027: Está previsto o início das análises e da divulgação dos produtos com nicotina sintética.
- 2030: As autoridades pretendem aplicar as listas alargadas de análises químicas e reduzir o consumo de tabaco entre os adultos.
Inicialmente, o Governo previa que as primeiras inspeções terminassem por volta de julho de 2026. A publicação de outubro tornou públicos os resultados analisados, através do sítio do Ministério da Segurança Alimentar e dos Medicamentos.
A evolução do consumo de tabaco intensifica o debate sobre as políticas
A percentagem de fumadores de cigarros convencionais na Coreia do Sul desceu de 20,3% em 2019 para 17,9% em 2025, uma diminuição de 2,4 pontos percentuais. No mesmo período, a utilização de qualquer produto do tabaco subiu de 21,6% para 22,1%, um aumento de 0,5 pontos percentuais. Estes valores ajudam a explicar por que razão as metas do Governo abrangem produtos do tabaco para além dos cigarros convencionais.
Também diminuíram as tentativas de deixar de fumar: a percentagem de pessoas que tentou fazê-lo passou de 46,8% em 2020 para 40,6% em 2025. O novo plano diretor estabelece, para 2030, metas de consumo atual de produtos do tabaco entre os adultos de 29,0% para os homens e 6,0% para as mulheres.
Myung Seung-kwon, presidente da Associação Coreana contra o Tabagismo e pela Saúde, defendeu que o preço dos cigarros suba para, pelo menos, 10 000 won por maço. Kim Yeol, professor de medicina familiar no Centro Nacional do Cancro, defendeu que a divulgação de informações químicas seja combinada com políticas de preços e que as receitas dos impostos sobre o tabaco apoiem quem pretende deixar de fumar.
O preço normal de um maço subiu de 2 500 para 4 500 won em 2015 e mantém-se nesse valor. O Sexto Plano Nacional de Promoção da Saúde para 2026 a 2030 aponta para um preço médio equivalente ao da OCDE, de 9 869 won. A 29 de outubro, Jeon Eun-jeong, diretor da divisão de promoção da saúde do Ministério da Saúde, afirmou que o Governo não estava atualmente a ponderar um aumento de preços. Não foi decidido qualquer valor ou data de aplicação.
O que muda para os consumidores e as empresas do tabaco
Os consumidores podem consultar os resultados no sítio do Ministério da Segurança Alimentar e dos Medicamentos, nas secções de informação sobre políticas, riscos e nocividade do tabaco. As autoridades tencionam apresentar os resultados em linguagem acessível e utilizá-los na educação para a prevenção do tabagismo e em campanhas de apoio a quem pretende deixar de fumar.
O apoio inclui a linha nacional de aconselhamento para deixar de fumar, através do número 1544-9030, consultas em centros de saúde pública e serviços de tratamento em instituições médicas. Estes serviços ligam o programa de divulgação a ajuda prática para quem consome tabaco.
As empresas do tabaco continuam a alargar a oferta de produtos que aquecem tabaco ou líquido. A Philip Morris Korea lançou o VEEV em agosto de 2026, enquanto a BAT Rothmans lançou o glo Hyper Pro Plus no mesmo mês. As escolhas de ingredientes e os calendários de lançamento estarão sujeitos a um escrutínio mais apertado à medida que se alargarem os requisitos de análise e declaração.
Kim Heon-joo enquadrou o programa coreano num movimento internacional mais amplo, referindo os 183 países que ratificaram a Convenção-Quadro da OMS para o Controlo do Tabaco e o alargamento da lista de constituintes nocivos e potencialmente nocivos da Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA, de 93 para 111 substâncias. O plano da Coreia centra-se no reforço da capacidade de análise, no alargamento da cobertura e na utilização dos resultados nas políticas de saúde pública.
O desafio prático passa agora por garantir que as inspeções periódicas sejam úteis: acompanhar as alterações na composição química dos produtos, explicar as medições de forma coerente e ligar a informação pública aos serviços de prevenção e apoio para deixar de fumar. Os planos anuais de execução servirão de enquadramento para cumprir esses compromissos.
Principais pontos
- A Coreia do Sul divulgou os primeiros resultados detalhados sobre substâncias nocivas em 465 produtos do tabaco de 20 empresas.
- Foi detetado formaldeído em todos os 104 produtos de tabaco aquecido e em 99 dos 105 líquidos de cigarros eletrónicos analisados.
- As análises abrangeram 46 substâncias distintas nas três categorias de produtos.
- O Governo prevê alargar as análises químicas e incluir o tabaco sem combustão, os charutos e o tabaco para cachimbo de água.
- As empresas terão de justificar a finalidade dos ingredientes, e os pedidos de análise de novos produtos terão de ser apresentados no prazo de um mês após o lançamento.
- As análises e a divulgação de produtos com nicotina sintética deverão começar em 2027.
- As restrições a ingredientes estão em análise; o Governo afirma que não está atualmente a ponderar um aumento do preço dos cigarros.






