Uma lacuna dispendiosa no debate sobre a comparticipação de medicamentos para a diabetes
O Serviço Nacional de Seguro de Saúde da Coreia do Sul pagou 394,1 mil milhões de won pelos cuidados prestados a 601 063 pessoas com complicações graves da diabetes em 2025. No entanto, o Ministério da Saúde e do Bem-Estar não dispõe de uma análise sobre quanto poderia poupar com o tratamento mais precoce com medicamentos mais recentes para a diabetes, ao prevenir complicações, segundo informações divulgadas pelo deputado So Byeong-hoon a 2 de outubro de 2026.
Índice
- Uma lacuna dispendiosa no debate sobre a comparticipação de medicamentos para a diabetes
- O que revelam os números da despesa de 2025
- O ministério não calculou as poupanças potenciais
- As avaliações para comparticipação já avançaram
- O que demonstram as provas sobre os tratamentos
- Os resultados cardiovasculares exigem uma interpretação cuidadosa
- Outros países oferecem acesso condicionado
- Porque é que a despesa com complicações não é uma previsão de poupanças
- Principais pontos
Os números dão um valor concreto ao debate sobre a comparticipação do tirzepatido, comercializado como Mounjaro, e do semaglutido, comercializado como Ozempic. Ambos os medicamentos podem melhorar o controlo da glicemia. Há também provas de benefícios cardiovasculares ou renais para alguns medicamentos e grupos de doentes, embora esses resultados não possam ser considerados iguais entre fármacos nem como prova de que uma comparticipação mais alargada se pagaria a si própria.
A questão torna-se mais premente porque as avaliações para comparticipação já avançaram. O Mounjaro recebeu uma avaliação favorável do Serviço de Análise e Avaliação do Seguro de Saúde (HIRA) em dezembro de 2025, enquanto o Ozempic passou pela análise de uma comissão nesse outubro. Estas etapas são distintas de uma decisão final que estabeleça os preços, os critérios de elegibilidade e o início da comparticipação pelo seguro.
So, deputado do Partido Democrático da Coreia eleito por Gwangju, na província de Gyeonggi, e membro da Comissão de Saúde e Bem-Estar da Assembleia Nacional, defende critérios de comparticipação para doentes cuja diabetes não possa ser adequadamente controlada com os medicamentos existentes. As suas críticas dizem respeito à falta de uma avaliação orçamental, não à existência de provas de que os medicamentos mais recentes reduziriam a despesa total.
O que revelam os números da despesa de 2025
Os dados fornecidos a So pelo Serviço Nacional de Seguro de Saúde, pelo Ministério da Saúde e pelo HIRA registaram 3 731 549 pessoas a receber tratamento para a diabetes tipo 2 em 2025. Nos números, o diagnóstico foi identificado pelo código E11, a classificação usada para a diabetes tipo 2.
As despesas médicas totalizaram 3,4996 biliões de won, aproximadamente 2,57 mil milhões de dólares, segundo a conversão indicada com os dados. O Serviço Nacional de Seguro de Saúde cobriu 2,4382 biliões de won, ou cerca de 69,7% do total. A diferença entre as despesas totais e a contribuição da entidade seguradora não deve ser automaticamente considerada uma medida de todos os custos pagos diretamente pelos doentes.
Os 601 063 doentes tratados por complicações graves representavam cerca de 16,1% da população diabética registada, aproximadamente uma pessoa em cada seis. As complicações referidas na divulgação incluíam úlceras do pé diabético, complicações renais e retinopatia, que afeta a retina e pode prejudicar a visão.
Os 394,1 mil milhões de won pagos pelos cuidados prestados a estes doentes, aproximadamente 289 milhões de dólares, equivaliam a cerca de 16,2% dos 2,4382 biliões de won da contribuição do Serviço Nacional de Seguro de Saúde para o tratamento da diabetes tipo 2. Dividindo o valor das complicações pelo número de doentes afetados, obtém-se uma média anual de cerca de 655 000 won por pessoa.
Essa média descreve a despesa do grupo registado, não o custo do tratamento de uma úlcera individual, de um ciclo de diálise ou de uma doença ocular específica. Também não permite determinar quanta despesa poderia ser evitada com uma política terapêutica diferente. A divulgação não apresenta uma discriminação por complicação, gravidade ou tratamento.
O ministério não calculou as poupanças potenciais
O gabinete de So pediu ao Ministério da Saúde e do Bem-Estar uma análise dos custos médicos que poderiam ser poupados através da prevenção de complicações da diabetes com tratamento medicamentoso mais precoce. O ministério respondeu que não dispunha de dados com essa análise. Também afirmou ser difícil estimar o custo orçamental da comparticipação dos medicamentos.
Estas são duas lacunas interligadas. Sem uma previsão do número de doentes elegíveis, do custo dos medicamentos e da forma como os padrões de tratamento mudariam, o Governo não pode determinar a despesa adicional com medicamentos. Sem uma estimativa das complicações evitadas ao longo do tempo, também não pode determinar as potenciais poupanças compensatórias.
So defendeu que o Governo deveria avaliar a despesa a médio e longo prazo, dado que cerca de 600 000 doentes recebem anualmente cuidados por complicações. Pediu a definição célere de critérios de comparticipação para casos graves de diabetes que continuem inadequadamente controlados com tratamentos existentes, como a metformina, mantendo controlos rigorosos para impedir a utilização com fins estéticos fora da cobertura do seguro.
Esta distinção é importante para o debate político. Uma proposta destinada a doentes com diabetes difícil de controlar é diferente da comparticipação sem restrições para perda de peso. Os critérios de elegibilidade determinariam tanto quem teria acesso como a dimensão do compromisso financeiro do seguro.
As avaliações para comparticipação já avançaram
A ausência de uma análise orçamental das poupanças não significa que os medicamentos nunca tenham entrado no processo de comparticipação da Coreia do Sul. A Eli Lilly Korea apresentou um pedido para o Mounjaro na indicação para a diabetes e, a 22 de agosto de 2025, o processo avançava para análise pela Comissão de Avaliação da Comparticipação de Medicamentos do HIRA.
A 4 de dezembro de 2025, o HIRA anunciou que a caneta pré-cheia Mounjaro era adequada para comparticipação como complemento da dieta e do exercício físico, para melhorar o controlo da glicemia em adultos com diabetes tipo 2. O Ozempic tinha passado pela análise da comissão em outubro de 2025 e, segundo foi noticiado, encontrava-se em negociações de preços com o Serviço Nacional de Seguro de Saúde.
A sequência distingue vários desenvolvimentos que, de outro modo, poderiam ser confundidos:
- 22 de agosto de 2025: foi noticiado que o pedido de comparticipação do Mounjaro avançava para análise pela comissão do HIRA.
- Outubro de 2025: o Ozempic passou pela análise da comissão de comparticipação.
- 4 de dezembro de 2025: o HIRA considerou o Mounjaro adequado para comparticipação no tratamento da diabetes tipo 2 em adultos, como complemento da dieta e do exercício físico.
- 2 de outubro de 2026: So divulgou os números de tratamento e despesa de 2025, bem como a resposta do ministério sobre a ausência de uma análise das poupanças.
Uma avaliação favorável da comissão não equivale à confirmação de que os doentes podem obter um medicamento ao abrigo de condições de seguro já definidas. A informação de dezembro de 2025 deixava em aberto o calendário das decisões finais de comparticipação para ambos os medicamentos. A divulgação de outubro de 2026 não permite determinar o estado posterior das negociações, os preços finais ou a data de início da comparticipação.
O que demonstram as provas sobre os tratamentos
O Mounjaro é uma injeção semanal que atua nos recetores de duas hormonas, a GIP e a GLP-1, envolvidas na regulação da glicemia. O Ozempic atua no recetor da GLP-1. Estes medicamentos ajudam a regular a glicemia através de mecanismos que incluem o estímulo da libertação de insulina e efeitos sobre a digestão e o apetite.
A informação sobre o pedido do Mounjaro descreveu cinco ensaios de fase III do programa SURPASS, que envolveram 6 278 participantes. No conjunto dos ensaios, foram feitas comparações com placebo, semaglutido, insulina degludec e insulina glargina. O tirzepatido melhorou a HbA1c em comparação com os tratamentos de controlo pertinentes e com os valores iniciais.
A HbA1c é uma análise ao sangue que reflete os níveis médios de glicemia ao longo dos dois a três meses anteriores, aproximadamente. Ajuda a avaliar se o tratamento está a controlar a diabetes para além das variações captadas por uma única medição da glicemia. Melhores resultados de HbA1c sustentam o papel de um medicamento no controlo da glicemia, mas não constituem, por si só, um cálculo dos custos hospitalares evitados.
Esta distinção é essencial quando se usam resultados clínicos para justificar a comparticipação. Um medicamento pode melhorar o controlo da glicemia sem que uma análise económica tenha demonstrado como essas melhorias se traduzem em menos complicações, maior duração do tratamento ou menor despesa do seguro na Coreia do Sul.
Os resultados cardiovasculares exigem uma interpretação cuidadosa
A informação sobre o pedido de comparticipação também descreveu resultados do SURPASS-CVOT, um ensaio de resultados cardiovasculares que comparou o Mounjaro com o Trulicity, nome comercial da dulaglutida. O Mounjaro cumpriu o objetivo primário do ensaio, ao demonstrar não inferioridade numa medida combinada de morte cardiovascular, ataque cardíaco e acidente vascular cerebral.
Não inferioridade significa que um tratamento cumpriu o critério predefinido pelo estudo para não ser inaceitavelmente pior do que o comparador. Por si só, não demonstra que o Mounjaro tenha prevenido mais desses eventos do que o Trulicity. O comparador era outro medicamento ativo, não a ausência de tratamento para a diabetes.
A informação sobre o ensaio também referiu melhorias na HbA1c, no peso, na função renal e na mortalidade por todas as causas, mas não apresentou os valores detalhados dos efeitos ou os resultados estatísticos necessários para quantificar essas conclusões neste contexto. Por isso, não permitem sustentar uma estimativa numérica das poupanças para o seguro de saúde coreano.
As provas mais amplas citadas no debate sobre a comparticipação apontam para benefícios cardiovasculares e renais de alguns medicamentos mais recentes em determinados grupos de doentes. Isso não demonstra uma proteção equivalente contra todas as complicações incluídas nos dados de despesa da Coreia do Sul. As úlceras do pé diabético, a doença renal e a retinopatia têm resultados clínicos distintos, e cada uma exige provas adequadas ao medicamento e aos doentes em causa.
Outros países oferecem acesso condicionado
As informações do HIRA fornecidas a So apontavam para regimes de comparticipação pública ou recomendações do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do Reino Unido, do Comité Consultivo de Benefícios Farmacêuticos da Austrália e da Agência de Medicamentos do Canadá, a CDA-AMC. Estes dizem respeito ao tirzepatido ou ao semaglutido para determinados doentes com diabetes tipo 2, sujeitos aos critérios de cada país.
A comparação internacional sustenta a necessidade de analisar grupos de doentes definidos, em vez de tratar a comparticipação como uma escolha sem restrições. A divulgação coreana refere o acesso de alguns doentes cuja glicemia não é adequadamente controlada com os medicamentos existentes.
Não demonstra que os três países comparticipem ambos os medicamentos em condições idênticas. Também não apresenta os preços negociados, as restrições exatas aplicáveis a cada produto ou uma estimativa que possa ser diretamente transposta para a Coreia do Sul.
Para os decisores políticos coreanos, a comparação útil é a existência de vias de acesso condicionado. A possibilidade de um regime específico ser financeiramente viável no país continuaria a depender da população elegível, das opções de tratamento, dos preços e dos resultados de saúde esperados na Coreia do Sul.
Porque é que a despesa com complicações não é uma previsão de poupanças
O valor de 394,1 mil milhões de won fornece um ponto de partida para o debate, mas não representa uma despesa que os medicamentos mais recentes pudessem necessariamente eliminar. Alguns doentes já têm complicações instaladas. Outros poderão precisar de cuidados apesar de um melhor controlo da glicemia, e o total divulgado não distingue os futuros eventos evitáveis do tratamento de doenças já existentes.
Também há uma diferença entre um tratamento eficaz, um tratamento com uma boa relação custo-benefício e um tratamento que poupa dinheiro. Melhores resultados de saúde podem justificar uma despesa adicional sem reduzir a fatura total da entidade seguradora. Afirmar que há poupanças líquidas exige provas de que os custos evitados excedem os custos adicionais do tratamento ao longo de um período definido.
Uma avaliação útil teria de especificar quem é elegível, o preço negociado do medicamento, durante quanto tempo os doentes permanecem em tratamento e que medicamentos existentes são substituídos ou mantidos. Teria depois de estimar as reduções de complicações específicas e o momento em que estas ocorreriam. Trata-se de requisitos analíticos, não de valores estabelecidos pela divulgação.
Os totais da despesa explicam por que razão So insiste nessa análise. A entidade seguradora já contribui com mais de 2,4 biliões de won por ano para os cuidados da população registada com diabetes tipo 2, enquanto os tratamentos relacionados com complicações graves representam centenas de milhares de milhões de won. Ainda assim, estes totais, por si só, não permitem determinar que regras de comparticipação proporcionariam o melhor equilíbrio entre acesso, benefícios para a saúde e despesa.
Não é indicada qualquer data para a conclusão de uma análise governamental das poupanças, a publicação dos critérios finais de elegibilidade ou o início da comparticipação de qualquer um dos medicamentos. A questão por resolver é, por isso, tanto clínica como orçamental: como identificar os doentes com maior probabilidade de beneficiar e como comparar o custo do seu tratamento com o custo das complicações que poderiam ser evitadas.
Principais pontos
- Em 2025, a Coreia do Sul registou 3 731 549 doentes a receber tratamento para a diabetes tipo 2, com despesas médicas de 3,4996 biliões de won.
- O Serviço Nacional de Seguro de Saúde pagou 2,4382 biliões de won por esses cuidados, incluindo 394,1 mil milhões de won para doentes com complicações graves.
- Os 601 063 doentes tratados por complicações representavam aproximadamente um em cada seis doentes diabéticos registados.
- O Ministério da Saúde afirmou não dispor de uma análise das poupanças potenciais decorrentes de um tratamento medicamentoso preventivo mais precoce e que era difícil estimar os custos da comparticipação.
- O Ozempic passou pela análise da comissão em outubro de 2025; o Mounjaro recebeu uma avaliação favorável para comparticipação a 4 de dezembro de 2025.
- Os benefícios clínicos não demonstram automaticamente poupanças líquidas para o seguro, e as divulgações não estabelecem as condições finais de comparticipação nem as datas de início.






