Conversações em Cebu trazem nova promessa de financiamento, sem montante anunciado
Os Estados Unidos prometeram financiamento adicional para modernizar as Forças Armadas das Filipinas, enquanto Manila prepara uma proposta de orçamento de 50 mil milhões de pesos filipinos para a modernização em 2027, 20 mil milhões abaixo do mínimo que o secretário da Defesa, Gilberto Teodoro Jr., afirma ser necessário para a fase final do programa.
Índice
- Conversações em Cebu trazem nova promessa de financiamento, sem montante anunciado
- Dois canais de financiamento dos EUA com regras distintas
- Aumento proposto por Manila continua aquém do necessário
- Pressão mais ampla sobre o orçamento da Defesa
- A lei da modernização aproxima-se do último ano
- O que mudaria o acordo de comando e controlo
- Nove instalações filipinas compõem a rede
- Quadro regional a par da promessa às Filipinas
- Conversações com o Japão e sequência de decisões
- Pontos-chave
O chefe da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou o aumento durante conversações com Teodoro, a 28 de outubro de 2026, na cidade de Lapu-Lapu, em Cebu. A reunião resultou também num acordo para melhorar os sistemas que permitem aos dois exércitos coordenar operações, além de conversações sobre infraestruturas e instalações de armazenamento em bases militares filipinas acessíveis às forças dos EUA.
O Departamento da Guerra dos EUA, como a administração Trump passou a chamar ao Pentágono, não revelou o montante do financiamento adicional, a data de disponibilização nem os projetos que receberão apoio. Também não indicou uma data de início ou o âmbito detalhado da iniciativa de comando e controlo. A falta destes pormenores deixa por resolver a situação orçamental imediata de Manila.
O relato das reuniões da Agência Filipina de Informação enquadra a promessa bilateral numa proposta mais ampla dos EUA de cooperação em matéria de defesa com o Sudeste Asiático. As Filipinas acolheram as reuniões dos ministros da Defesa da ASEAN a 28 e 29 de outubro, na qualidade de país que preside ao grupo regional em 2026.
Para as Filipinas, a questão central é a rapidez com que uma promessa de apoio pode traduzir-se em capacidade militar utilizável. As conversações em Cebu abrangeram financiamento, coordenação operacional e instalações, enquanto o debate orçamental interno expôs a dimensão das aquisições que Manila ainda espera financiar.
Dois canais de financiamento dos EUA com regras distintas
O financiamento de cooperação em matéria de segurança anunciado pelo Pentágono é distinto do Financiamento Militar Estrangeiro, ou FMF. As subvenções do FMF ajudam os governos parceiros a adquirir equipamento, serviços e formação de defesa, enquanto os empréstimos disponibilizam financiamento que tem de ser reembolsado.
A Lei de Autorização da Defesa Nacional dos EUA para 2026, assinada pelo presidente Donald Trump em dezembro de 2025, permite até 500 milhões de dólares anuais em FMF para as Filipinas entre 2026 e 2030, bem como até mil milhões de dólares em empréstimos diretos. Ao longo desses cinco anos, o montante anual autorizado para subvenções totaliza até 2,5 mil milhões de dólares.
O Congresso autorizou pelo menos 100 milhões de dólares em subvenções do FMF para as Filipinas no ano fiscal de 2026, segundo o Serviço de Investigação do Congresso. A diferença entre uma autorização e uma dotação é importante: a autorização permite um programa ou estabelece um limite de financiamento, enquanto a dotação confere autorização orçamental para gastar.
O limite anual de 500 milhões de dólares e a dotação de pelo menos 100 milhões descrevem, portanto, fases distintas do processo de financiamento. A nova promessa do Pentágono pertence a outro canal de financiamento, pelo que o montante final e as condições serão importantes para perceber quanto apoio adicional Manila receberá.
Aumento proposto por Manila continua aquém do necessário
A proposta de orçamento filipina atribui 50 mil milhões de pesos filipinos ao Programa Revisto de Modernização das Forças Armadas em 2027, em comparação com 40 mil milhões em fundos regulares em 2026. Trata-se de um aumento de 10 mil milhões de pesos, ou 25%, mas cobriria apenas cerca de 39% dos 126,97 mil milhões de pesos pedidos pelo Departamento da Defesa Nacional para a modernização.
A diferença entre esse pedido e a dotação proposta é de 76,97 mil milhões de pesos. Isto ajuda a explicar por que razão o aumento do apoio filipino e norte-americano pode coexistir com os alertas de responsáveis da Defesa de que continua a ser difícil financiar as aquisições previstas.
Teodoro apresentou uma medida mais específica da pressão imediata aos legisladores, numa audição da subcomissão de finanças do Senado, a 19 de outubro. Disse que o Horizonte 3, a terceira e última fase do programa de modernização, exige pelo menos 70 mil milhões de pesos. Se todos os projetos previstos fossem contratualizados, seriam necessários mais 20 mil milhões de pesos além dos 50 mil milhões propostos, para contratos com pagamentos ao longo de vários anos, afirmou.
Esses contratos distribuem os pagamentos por orçamentos sucessivos. Permitem ao governo adquirir equipamento dispendioso sem pagar de imediato o preço total, mas também comprometem parte do financiamento futuro com compras já acordadas. Para os responsáveis pelo planeamento militar, a questão orçamental abrange tanto novas encomendas como os pagamentos que delas decorrerão.
Pressão mais ampla sobre o orçamento da Defesa
A proposta de orçamento total do Departamento da Defesa Nacional para 2027 é de 324,63 mil milhões de pesos, face aos 572,79 mil milhões pedidos. A proposta fica cerca de 43% abaixo do montante solicitado, uma diferença de 248,16 mil milhões de pesos.
A dotação do departamento para despesas de capital, que abrange gastos com ativos como equipamento e instalações, foi fixada em 32,67 mil milhões de pesos, face aos 239,73 mil milhões pedidos. Isso corresponderia a cerca de 14% das despesas de capital solicitadas. Estes valores orçamentais do departamento abrangem categorias mais vastas do que o programa de modernização e devem ser entendidos no contexto das respetivas rubricas orçamentais.
O presidente do Senado, Sherwin Gatchalian, afirmou que estava a defender um orçamento maior para as Forças Armadas, a fim de apoiar a modernização, a prontidão e as capacidades militares, incluindo a capacidade de guerra cibernética. A sua posição relaciona o debate sobre navios, aeronaves e outro equipamento com a necessidade de proteger e operar sistemas digitais militares.
As dotações propostas para 2027 continuam sujeitas ao processo orçamental filipino. O anúncio dos EUA acrescenta uma potencial fonte de apoio, enquanto os legisladores ainda têm de decidir quanto financiamento nacional atribuir.
A lei da modernização aproxima-se do último ano
A Lei da República 10349, a Lei Revista de Modernização das Forças Armadas, foi aprovada em 2012 como um programa com a duração de 15 anos, dividido em três fases. A sua conclusão está prevista para 2027, o mesmo ano abrangido pelo orçamento agora em discussão.
Teodoro instou o Congresso a revogar a lei, argumentando que os seus ciclos fixos não conseguem acompanhar a evolução da tecnologia militar. Também afirmou que as remessas da Autoridade para a Conversão e o Desenvolvimento de Bases, destinadas a servir como fonte de financiamento, têm sido insuficientes e que foi necessário recorrer ao apoio do governo nacional.
Numa declaração de agosto, Teodoro contestou a duração do ciclo de planeamento:
Que entidade trabalha com horizontes de 15 anos nos dias de hoje?
A aproximação do fim do calendário previsto na lei acrescenta outra dimensão ao debate sobre o financiamento. O Congresso está a ponderar os recursos para o último ano previsto, enquanto o secretário da Defesa procura uma estrutura jurídica diferente para a modernização futura. As encomendas de equipamento feitas agora podem implicar pagamentos e apoio muito para além desse ano.
O que mudaria o acordo de comando e controlo
Hegseth e Teodoro acordaram lançar um programa acelerado de modernização do comando e controlo da aliança. Comando e controlo refere-se aos sistemas e procedimentos que os líderes militares usam para receber informações, tomar decisões e dirigir forças. Numa operação conjunta, estes mecanismos ajudam dois países a coordenar as ações das suas unidades.
O Pentágono descreveu a iniciativa como uma forma de melhorar a coordenação em tempo real e reforçar a capacidade da aliança para continuar a funcionar sob pressão. A interoperabilidade, outro dos objetivos declarados do aumento do financiamento, significa que diferentes forças armadas podem comunicar e operar eficazmente em conjunto.
A geografia ajuda a explicar este enfoque. A Primeira Cadeia de Ilhas estende-se do Japão, passando por Taiwan e pelas Filipinas, até ao Sudeste Asiático marítimo. O planeamento militar dos EUA considera este arco importante para dissuadir a China e tornar mais difícil e dispendiosa uma ação militar contra parceiros dos EUA.
Para Manila, a promessa surge num contexto de tensões persistentes com a China no mar das Filipinas Ocidentais. A melhoria da coordenação visa articular a modernização militar filipina com as exigências práticas de operar ao lado das forças dos EUA numa vasta área marítima.
Nove instalações filipinas compõem a rede
Os dois responsáveis pela Defesa também analisaram a execução do Acordo de Cooperação Reforçada em Matéria de Defesa, conhecido pela sigla EDCA, em particular o investimento em infraestruturas críticas e instalações de armazenamento. Assinado em 2014, o acordo permite o acesso rotativo das forças dos EUA a instalações militares filipinas acordadas e autoriza a construção e a realização de melhorias nessas instalações.
As Filipinas têm nove instalações abrangidas pelo EDCA, incluindo quatro localizações adicionais identificadas em 2023. Estas novas localizações alargaram a rede de cinco para nove instalações, aumentando em 80% o número de locais disponíveis ao abrigo do acordo.
As instalações de armazenamento e as infraestruturas têm uma função diferente da aquisição de equipamento militar. Permitem armazenar abastecimentos e apoiar as forças que utilizam as instalações. As conversações em Cebu abordaram, por isso, a rede física necessária à cooperação, bem como o financiamento e os sistemas usados para dirigir operações.
O acesso previsto no acordo assenta em instalações militares filipinas e na utilização rotativa por forças dos EUA. Esta estrutura é essencial para compreender o papel das instalações nos planos da aliança.
Quadro regional a par da promessa às Filipinas
Hegseth também propôs um quadro de cooperação em matéria de defesa entre os EUA e a ASEAN, durante uma reunião informal com ministros dos 11 países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático. A conversa decorreu à margem da 20.ª Reunião dos Ministros da Defesa da ASEAN.
Ao explicar a proposta, Hegseth afirmou:
«Propomos que trabalhemos em conjunto para desenvolver o quadro EUA-ASEAN de cooperação em matéria de defesa, um quadro prático que orientará a nossa cooperação nos próximos anos»,
Os países participantes escolheriam iniciativas com base nos interesses comuns e nas prioridades de segurança regional. Hegseth apontou a vigilância do domínio marítimo, a interoperabilidade e a cooperação entre as marinhas da região como áreas em que o trabalho poderia ser alargado. A vigilância do domínio marítimo consiste em saber o que se passa no mar, incluindo a localização e a atividade das embarcações.
A proposta surge antes do 50.º aniversário das relações entre a ASEAN e os EUA, em 2027. Teodoro apontou um exemplo de cooperação já existente: o segundo exercício marítimo ASEAN-EUA, realizado na Indonésia em dezembro de 2025, com a participação da Marinha filipina. Relacionou a segurança das rotas marítimas e a liberdade de navegação com a segurança e a prosperidade das comunidades que dependem do mar.
As reuniões mais amplas em Cebu incluíram os ministros da Defesa da ASEAN e os seus parceiros no formato ADMM-Plus. O responsável pela Defesa da China não compareceu, apesar de ter sido convidado, pelo que as iniciativas dos EUA foram apresentadas num encontro em que faltou o principal representante da Defesa de uma grande potência militar regional.
Conversações com o Japão e sequência de decisões
A reunião separada de Hegseth com o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, abordou uma utilização mais flexível das instalações militares e exercícios com forças a operar a partir de posições dispersas. Distribuir unidades por vários locais pode tornar as operações menos dependentes de uma única instalação.
As conversações com o Japão também abrangeram o alargamento do acesso e da presença dos EUA, bem como exercícios realistas, incluindo exercícios com fogo real. O Japão e as Filipinas participam, juntamente com os Estados Unidos e a Austrália, no agrupamento de defesa conhecido como Squad. Exercícios recentes dos EUA com a participação destes países incluíram sistemas de mísseis Typhon e sistemas de foguetes de artilharia de alta mobilidade, ou HIMARS.
Os anúncios de Cebu inserem-se numa sequência de decisões filipinas sobre modernização, acesso militar alargado e medidas de financiamento dos EUA:
- 2012: A Lei da República 10349 instituiu o programa revisto de modernização, com a duração de 15 anos.
- 2014: As Filipinas e os Estados Unidos assinaram o EDCA.
- 2023: Quatro localizações adicionais abrangidas pelo EDCA elevaram o total filipino para nove.
- Dezembro de 2025: Trump assinou a lei de autorização da defesa dos EUA para 2026, que inclui disposições de financiamento para as Filipinas.
- 19 de outubro de 2026: Teodoro disse a uma subcomissão do Senado que o Horizonte 3 precisa de pelo menos 70 mil milhões de pesos.
- 28 de outubro de 2026: Hegseth anunciou financiamento adicional para a cooperação em matéria de segurança e acordou com Teodoro melhorar o comando e controlo da aliança.
- 2027: A proposta de orçamento filipina atribui 50 mil milhões de pesos à modernização, no ano em que o programa atual chega ao fim previsto.
Para os responsáveis pelo planeamento da Defesa filipina, o desafio imediato é articular estas decisões distintas: dotações nacionais, assistência dos EUA, compromissos de aquisição de equipamento e instalações que permitam às forças operar em conjunto.
Pontos-chave
- Os Estados Unidos prometeram apoio adicional à modernização das Forças Armadas filipinas nas conversações de 28 de outubro em Cebu, sem anunciar um montante ou uma data de disponibilização.
- O novo financiamento do Pentágono é distinto das subvenções e dos empréstimos do Financiamento Militar Estrangeiro.
- Manila propõe 50 mil milhões de pesos para a modernização em 2027, mais 25% do que o financiamento regular de 2026, mas abaixo das necessidades indicadas pelos responsáveis da Defesa.
- Hegseth e Teodoro acordaram melhorar o comando e controlo e analisaram as infraestruturas das nove instalações abrangidas pelo EDCA.
- Um quadro de defesa proposto entre os EUA e a ASEAN permitiria aos países participantes escolher iniciativas de cooperação com base em prioridades comuns.
- O calendário previsto na lei filipina de modernização termina em 2027, enquanto Teodoro procura a sua revogação.






