Maioria parlamentar põe fim a sete anos de transição
Abdulraof "Sammy Gambar" Macacua venceu por 51 votos contra 27 do antigo líder Ahod "Al Haj Murad" Ebrahim, a 30 de outubro de 2026, tornando-se ministro-chefe ao abrigo do primeiro Parlamento eleito da Região Autónoma de Bangsamoro no Mindanau Muçulmano. A votação, na cidade de Cotabato, pôs fim a mais de sete anos de administração por uma autoridade de transição nomeada.
Índice
- Maioria parlamentar põe fim a sete anos de transição
- Como os deputados escolheram o governo
- Uma coligação que ultrapassa as lealdades partidárias
- Da luta armada a campos políticos rivais
- As promessas de inclusão enfrentam um primeiro teste
- Arrancam a formação do Governo e os trabalhos legislativos
- Os compromissos de paz vão além das eleições
- Emprego, educação e financiamento da autonomia
- A sociedade civil exige garantias para a autonomia
- Pontos principais
Macacua, de 69 anos, antigo comandante do braço armado da Frente Moro de Libertação Islâmica, obteve mais 10 votos do que os 41 necessários na câmara de 80 membros. Um deputado absteve-se e outro esteve ausente por doença. O seu apoio representou 63,75 por cento do Parlamento na sua totalidade.
O comunicado do Parlamento de Bangsamoro regista que 79 deputados participaram na sessão inaugural e que os membros tomaram posse ao meio-dia. O mandato termina a 30 de junho de 2031.
Macacua já chefiava o governo interino. O que mudou foi a base da sua autoridade: deputados escolhidos nas eleições regionais de 14 de setembro elegeram-no para liderar o governo regular, substituindo uma administração cujos membros tinham sido nomeados pelo presidente das Filipinas.
Amer Zaakaria Rakim, da Grande Coligação de BARMM, venceu a presidência do Parlamento pela mesma margem, derrotando Mohammad Yacob por 51–27. Os dois resultados deram à coligação governante o controlo da liderança executiva e da presidência do Parlamento, deixando ainda os apoiantes de Ebrahim com uma presença significativa na câmara.
Como os deputados escolheram o governo
O deputado Kitem Kadatuan nomeou Macacua, presidente do Partido Federalista de Bangsamoro, enquanto o deputado Mohagher Iqbal nomeou Ebrahim, do Partido da Justiça do Bangsamoro Unido. Ishak Mastura, presidente interino da sessão, supervisionou as nomeações e a eleição.
Os deputados votaram de pé para indicar o candidato da sua preferência. A Lei da República n.º 11054, a Lei Orgânica de Bangsamoro, exige o apoio da maioria de todos os deputados, e não apenas da maioria dos presentes. Com 80 lugares, o limiar para vencer manteve-se nos 41, apesar da ausência de um membro.
Macacua prestou juramento perante Sheikh Muslim Guiamaden, o wali de Bangsamoro, ou chefe cerimonial, e presidiu em seguida à eleição do presidente do Parlamento. Abdulrahman Mangudadatu, o deputado ausente, tinha informado a secretaria parlamentar de que estava doente.
Os eleitores de Bangsamoro escolhem representantes que, por sua vez, elegem o ministro-chefe entre si. Na antiga Região Autónoma do Mindanau Muçulmano, os eleitores elegiam diretamente um governador regional. O novo sistema torna o apoio dentro do Parlamento central para formar e dirigir o governo regional.
A câmara é composta por 40 representantes de partidos, 32 representantes distritais e oito representantes sectoriais. Os lugares sectoriais representam mulheres, jovens, líderes tradicionais, estudiosos religiosos muçulmanos conhecidos como Ulama, povos indígenas não moro e comunidades de colonos. O Conselho Regional de Apuramento da Comissão Eleitoral registou 2 018 478 eleitores nas eleições de setembro, com uma afluência de 84,34 por cento.
Uma coligação que ultrapassa as lealdades partidárias
O partido de Macacua saiu das eleições regionais sem os 41 lugares necessários para governar sozinho. As negociações entre partidos e deputados individuais determinaram, por isso, quem conseguiria reunir uma maioria. Antes da sessão inaugural, o Partido Federalista de Bangsamoro tinha declarado contar com o apoio de 46 deputados; Macacua acabou por receber 51 votos.
A derrota de Ebrahim também revelou divisões no movimento político que tinha liderado a transição. Quatro representantes distritais do seu Partido da Justiça do Bangsamoro Unido votaram contra ele: Tawakal Midtimbang, de Maguindanao del Sur, e Hamza Gauraki, Lampa Pandi e Ahmad Amir Balindong, de Lanao del Sur. Ebrahim recebeu o apoio de Ali Sangki, da Grande Coligação de BARMM.
O presidente Ferdinand Marcos Jr., que se dirigiu ao Parlamento antes do início da votação, afirmou que a maioria e a liderança parlamentar já tinham sido acordadas. Falou brevemente com Macacua antes de abandonar a sala da sessão.
A vitória idêntica de Rakim, por 51–27, mostrou que a coligação se manteve unida nas duas principais disputas pela liderança. As suas responsabilidades diferem das de Macacua: o ministro-chefe dirige a administração executiva, enquanto o presidente conduz os trabalhos da instituição que debate leis, aprova orçamentos e escrutina as despesas do governo.
Da luta armada a campos políticos rivais
Macacua combateu as forças governamentais na adolescência, durante o governo do pai do presidente Marcos. Mais tarde, tornou-se chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Islâmicas de Bangsamoro, o braço militar da Frente Moro de Libertação Islâmica, antes de assumir funções nas negociações de paz e na administração civil.
O perfil de liderança do governo regional afirma que Macacua integrou o Painel de Negociação de Paz da Frente Moro de Libertação Islâmica e a Comissão de Transição de Bangsamoro, que redigiu a Lei Orgânica de Bangsamoro. Durante a transição, também ajudou a desenvolver legislação eleitoral regional e sobre governação local.
Macacua foi ministro do Ambiente, dos Recursos Naturais e da Energia entre 2019 e 2022, tornou-se mais tarde ministro sénior sob Ebrahim e foi nomeado responsável interino pela recém-criada província de Maguindanao del Norte em 2023. Representa agora o terceiro distrito parlamentar dessa província.
A decisão de Marcos de substituir Ebrahim por Macacua como ministro-chefe interino em 2025 foi contestada por dirigentes séniores da Frente Moro de Libertação Islâmica. O perfil do governo regional situa a nomeação em fevereiro de 2025; o comunicado do Parlamento indica que o mandato interino começou em março de 2025.
Macacua rompeu posteriormente com a liderança do Partido da Justiça do Bangsamoro Unido e passou a chefiar o Partido Federalista de Bangsamoro. O comité central da Frente Moro de Libertação Islâmica acusou-o de aceitar o cargo interino sem consulta, e Macacua perdeu o seu cargo de liderança militar antes das eleições. A disputa parlamentar tornou pública essa cisão através de nomeações e votos concorrentes.
Os marcos que conduziram ao novo governo estendem-se por mais de uma década:
- 2014: O governo e a Frente Moro de Libertação Islâmica assinaram o Acordo Abrangente sobre Bangsamoro.
- 2019: Foi criada BARMM, com Ebrahim à frente de um governo de transição nomeado.
- 2023: Macacua tornou-se responsável interino por Maguindanao del Norte.
- 2025: Macacua sucedeu a Ebrahim como ministro-chefe interino.
- 14 de setembro de 2026: Os eleitores escolheram o primeiro Parlamento regular de Bangsamoro.
- 30 de outubro de 2026: O Parlamento elegeu Macacua ministro-chefe e Rakim presidente.
- 30 de junho de 2031: Está previsto que termine o mandato do primeiro Parlamento eleito.
As promessas de inclusão enfrentam um primeiro teste
Macacua descreveu o seu mandato como uma amanah, palavra árabe que significa confiança ou responsabilidade. Prometeu servir os seus eleitores independentemente das suas lealdades políticas e dar continuidade à Agenda de Governação Moral associada a Ebrahim.
No discurso de tomada de posse, Macacua falou sobre o significado de assumir o cargo:
Hoje não se trata apenas de assumir a liderança. Trata-se de dar continuidade ao cumprimento de uma promessa.
Ebrahim aproximou-se para felicitar e abraçar Macacua após a eleição. Numa declaração posterior, o presidente da Frente Moro de Libertação Islâmica e do Partido da Justiça do Bangsamoro Unido prometeu continuar a trabalhar nas reformas, na paz e no desenvolvimento, incentivando os residentes a participar na construção da região.
A cooperação enfrentou um primeiro teste processual durante a escolha dos dirigentes parlamentares. A deputada Mary Ann Arnado, representante da comunidade de colonos alinhada com o Partido da Justiça do Bangsamoro Unido, pediu que fosse permitido à minoria nomear o seu líder parlamentar e os seus vice-líderes. A sessão terminou sem a eleição de um líder parlamentar da minoria.
O deputado Naguib Sinarimbo defendeu o direito da maioria a organizar o governo formado pela sua coligação. A disputa deixou por resolver a organização da liderança minoritária quando a nova administração iniciou o mandato.
Arrancam a formação do Governo e os trabalhos legislativos
Macacua tem de formar um Governo, com a maioria dos membros escolhida entre os deputados, e apresentar um programa governamental para aprovação parlamentar. Ao abrigo da Lei Orgânica de Bangsamoro, nomeia também dois vice-ministros-chefes, sujeitos a eleição pela câmara.
Na sessão inaugural, os deputados elegeram Hadjimar Matba vice-ministro-chefe para o Sudoeste de Mindanau e Mamintal Adiong III vice-ministro-chefe para o Centro-Norte de Mindanau. Escolheram também 10 vice-presidentes, um líder parlamentar da maioria e Bantuas Lucman como secretário-geral.
Foram designados presidentes das comissões para que o Parlamento pudesse começar a analisar legislação, realizar audições públicas e rever os programas do governo. Essas comissões permitirão escrutinar a forma como os ministérios gastam o dinheiro e prestam serviços.
A educação, os cuidados de saúde, as infraestruturas, a agricultura e o emprego passam agora a integrar o trabalho legislativo, orçamental e de fiscalização do governo regular. Para os residentes, a passagem a um governo eleito será sentida através de decisões concretas: que estradas recebem financiamento, se as escolas e clínicas dispõem de recursos suficientes e como chega a assistência aos agregados familiares vulneráveis.
Marcos instou os deputados a aprovar legislação que responda às necessidades, melhorar os serviços e utilizar os recursos públicos com responsabilidade. Disse que o objetivo era garantir que os benefícios da paz chegassem às famílias de Bangsamoro no seu quotidiano.
Os compromissos de paz vão além das eleições
O acordo de 2014 abriu caminho à passagem do conflito armado para um governo autónomo parlamentar. As estimativas do governo apontam para pelo menos 150 000 combatentes e civis mortos no conflito, e milhões de deslocados antes do acordo de paz.
A Frente Moro de Libertação Islâmica afirma que mais de 14 000 combatentes ainda aguardam desmobilização, o processo de abandono do serviço armado organizado previsto no acordo de paz. Segundo o movimento, ainda não foi prestada parte da assistência social e económica prometida a grupos anteriores de antigos combatentes.
A violência também afetou as eleições de 14 de setembro. Houve tiroteios e explosões, e o Partido da Justiça do Bangsamoro Unido afirmou que cinco dos seus apoiantes morreram. A conclusão da transição política deixa o governo e a Frente Moro de Libertação Islâmica com responsabilidades contínuas em matéria de segurança e de cumprimento dos compromissos de paz ainda pendentes.
Burhan Undalayan, de 57 anos, antigo combatente da Frente Moro de Libertação Islâmica de Nabalawag, é um exemplo concreto do impacto desses compromissos nas famílias. Depois de uma doença o ter levado a amputar uma perna e posto fim à sua participação no conflito, tornou-se pescador. Durante a administração interina, recebeu próteses para as pernas e assistência financeira através de um programa de apoio a pessoas com deficiência, o que o ajudou a pagar os estudos dos filhos.
Undalayan afirmou que tinha desencorajado os filhos e os netos de se juntarem à rebelião armada:
para que possam simplesmente ir à escola.
Raissa Jajurie, antiga ministra dos Serviços Sociais e do Desenvolvimento, que entrou no novo Parlamento como representante do Partido da Justiça do Bangsamoro Unido, apelou à continuação da cooperação entre o governo regional, as autoridades nacionais e os parceiros internacionais de desenvolvimento. Relacionou a assistência às pessoas vulneráveis com a manutenção da confiança na paz.
Emprego, educação e financiamento da autonomia
BARMM tem mais de 4,5 milhões de habitantes. A sua economia cresceu 5,0 por cento em 2025, impulsionada pelos serviços, enquanto a incidência da pobreza nos agregados familiares caiu para 12,8 por cento, face a 26 por cento em 2023. Trata-se de uma descida de 13,2 pontos percentuais em dois anos, deixando a taxa registada em menos de metade do nível anterior.
A região é descrita há muito como a mais pobre do país e como aquela que apresenta as taxas de literacia mais baixas. Os dados mais recentes sobre a pobreza dos agregados familiares revelam uma melhoria substancial, tornando a continuação dos progressos nos rendimentos e na educação uma prioridade central para a administração eleita.
A Divisão de Economia do governo interino instou a nova liderança a reforçar a produção local e a acelerar o investimento público. Essas prioridades ligam o crescimento económico ao emprego, aos transportes e ao acesso a serviços nas comunidades que viveram décadas de conflito.
O financiamento nacional continuará a ser central para o orçamento regional. A proposta de orçamento filipino para 2027 prevê provisoriamente transferências para BARMM superiores a 115 mil milhões de pesos, cerca de 1,8 mil milhões de dólares. Trata-se de uma proposta; o financiamento final dependerá do processo orçamental nacional.
Hessa Ladiasan, estudante universitária de 21 anos de Datu Odin Sinsuat, disse querer mais oportunidades de aprendizagem para os jovens, incluindo estudar no estrangeiro. A irmã mais nova, Heisei, de 15 anos, desejava um ambiente mais seguro e a aplicação rigorosa da lei. As suas expectativas colocam a educação e a segurança quotidiana a par das tarefas institucionais do novo governo.
A sociedade civil exige garantias para a autonomia
A Katungod Bangsamoro e organizações da sociedade civil aliadas saudaram o Parlamento eleito, mas pediram maior proteção contra a corrupção, as dinastias políticas e a interferência do governo nacional. Apelaram à transparência nas despesas, à fiscalização independente e a uma participação pública mais ampla.
O consórcio instou também os deputados a abordar as reivindicações sobre terras ancestrais, a apropriação de terras, a exploração de recursos e a desigualdade nas oportunidades económicas. A Aliança dos Povos Moro-Cristãos chamou a atenção para as famílias deslocadas pelo cerco de Marawi, em 2017, e para a falta de terras entre agricultores moro e comunidades indígenas não moro.
A Katungod Bangsamoro expôs as suas expectativas numa declaração:
O novo Parlamento deve fazer do combate à corrupção um compromisso definidor da sua administração.
Fauzea Guiani, presidente da Anakbayan-Sul de Mindanau, criticou a intervenção nacional nos assuntos regionais. Amira Lidasan, secretária-geral da Aliança dos Povos Moro-Cristãos, alertou que o alinhamento de Macacua com a administração de Marcos poderia enfraquecer a independência regional. Macacua prometeu uma cooperação construtiva, enquanto Marcos prometeu manter o apoio nacional.
Os residentes da cidade de Cotabato também sentiram custos imediatos durante a tomada de posse. O reforço da segurança policial e militar restringiu a circulação e perturbou a atividade comercial, levando vendedores e residentes a queixarem-se de perdas de rendimentos. As suas preocupações trouxeram para primeiro plano as exigências práticas da vida quotidiana, num dia dominado pela cerimónia política.
A nova liderança começa com uma maioria suficientemente forte para eleger os principais dirigentes. As próximas tarefas são transformar essa aliança numa administração funcional, organizar uma fiscalização parlamentar efetiva e integrar os compromissos de paz por cumprir nas decisões orçamentais e políticas.
Pontos principais
- Abdulraof Macacua derrotou Ahod Ebrahim por 51–27, a 30 de outubro de 2026, para liderar o primeiro governo regular eleito de BARMM.
- Estiveram presentes 79 dos 80 deputados; um absteve-se e outro esteve ausente por doença.
- Amer Zaakaria Rakim venceu a presidência do Parlamento pela mesma margem, 51–27.
- A votação pôs fim a mais de sete anos de governo de transição nomeado, após as eleições parlamentares de 14 de setembro.
- A Frente Moro de Libertação Islâmica afirma que mais de 14 000 combatentes ainda aguardam desmobilização no âmbito do processo de paz.
- As transferências nacionais propostas para BARMM em 2027 ultrapassam os 115 mil milhões de pesos, estando sujeitas ao processo orçamental.
- O mandato do primeiro Parlamento eleito termina a 30 de junho de 2031.






