Confronto no estádio motiva apelos à ação
A Federação Tailandesa de Futebol ordenou a recolha de provas e uma análise disciplinar após o treinador do Kanchanaburi Power, Park Hang-seo, e o jogador malgaxe John Baggio terem alegadamente sido alvo de insultos racistas, na sequência de um empate 2-2 com o Pattaya United, no Estádio Nong Prue, em Chonburi.
Índice
A presidente da federação, Nualphan Lamsam, conhecida como Madam Pang, instruiu os organizadores da competição a darem início ao processo de análise. A federação divulgou um comunicado a 2 de novembro, na sequência de um confronto que, segundo relatos sobre a investigação, ocorreu na noite de 1 de novembro. Outro relato situa o mesmo jogo a 1 de outubro. O encontro foi identificado como sendo da nona jornada da época 2026-2027 da Thai League 2.
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra um espectador a dirigir repetidamente as palavras «homem kimchi», acompanhadas de palavrões, a Park, enquanto o treinador sul-coreano se dirigia aos balneários. Inicialmente, Park levou um dedo aos lábios, pedindo ao espectador que parasse, antes de se voltar para a bancada e lhe fazer sinal para descer.
Jogadores, membros dos clubes e elementos da equipa de arbitragem intervieram. Prawat Kitthammakunnit, presidente do Kanchanaburi, entrou no relvado e ordenou à equipa que se dirigisse aos balneários. O confronto terminou sem agressões físicas.
A resposta ultrapassou os dois clubes. A Embaixada da Coreia do Sul na Tailândia apresentou uma queixa formal à federação tailandesa de futebol e à autoridade do turismo, e reuniu-se com a polícia. A empresa que representa Park, a DJ Sports, também pediu uma investigação e maior proteção para quem trabalha no futebol.
Como o confronto escalou
O espectador foi descrito como um homem ocidental que apoiava o Pattaya United. As referências repetidas ao kimchi, um prato tradicional coreano, terão sido usadas para ridicularizar a identidade coreana de Park. Park, antigo selecionador da equipa nacional do Vietname, parecia cada vez mais irritado à medida que os gritos continuavam.
As imagens mostram Park a fazer um gesto que pareceu simular um murro e a avançar em direção à bancada. O seu adjunto, Roh Yeong-su, também esteve envolvido no confronto. Membros da equipa técnica e jogadores colocaram-se entre o grupo técnico e o espectador à medida que a tensão aumentava.
Segundo relatos, Park também regressou para protestar depois de ter inicialmente abandonado a zona do estádio. O espectador continuou a provocar outro jogador estrangeiro com comentários sobre a sua baixa estatura. Os insultos repetidos ajudam a explicar por que motivo as tentativas de afastar a equipa não puseram de imediato fim ao confronto.
Park terá ficado particularmente irritado por a polícia local não ter impedido os comentários do espectador. A atuação policial passou também a fazer parte das preocupações suscitadas pelo incidente, a par do comportamento do espectador e da necessidade de proteger jogadores e membros das equipas à saída do relvado.
Baggio também foi alvo de insultos
John Baggio, o jogador malgaxe que marcou o primeiro golo do Kanchanaburi, terá sido chamado «macaco» e alvo de insultos sobre a sua altura. O clube considerou que o incidente envolveu tanto insultos racistas como outras expressões degradantes dirigidas aos seus membros.
O presidente Prawat escreveu no Facebook que tinham sido usadas as palavras «macaco» e «kimchi». Descreveu Baggio como vítima de discriminação racial e afirmou que o clube continuaria a acompanhar o caso se este não fosse tratado de forma adequada.
O Kanchanaburi Power condenou a discriminação com base na raça, na cor da pele e na etnia, bem como outras formas de discriminação. No comunicado divulgado após o jogo, o clube explicou o princípio subjacente à sua resposta:
O futebol é um desporto que une pessoas de todo o mundo.
O clube declarou ainda:
Todos merecem respeito, independentemente de quem são, de onde vêm ou da cor da sua pele.
Assim, a queixa do Kanchanaburi não diz respeito apenas à troca de palavras entre Park e um espectador. Abrange também o tratamento dado a Baggio e as condições em que jogadores e treinadores visitantes saem de um estádio após um jogo tenso.
Um jogo tenso antecedeu os insultos
O Pattaya United e o Kanchanaburi já tinham disputado um jogo polémico antes do confronto junto às bancadas. As duas equipas receberam, no total, oito cartões amarelos, e uma decisão contestada antecedeu o golo do empate do Pattaya, aos 35 minutos da segunda parte, por volta dos 80 minutos de jogo.
O Kanchanaburi argumentou que a falta que deu origem à grande penalidade ocorreu fora da área. A localização é importante porque uma falta da equipa defensora dentro dessa área pode dar à equipa adversária direito a uma grande penalidade, enquanto a mesma falta cometida fora da área resulta normalmente num livre.
A Thai League 2 não dispunha de um sistema de videoárbitro para analisar o lance. O VAR permite que árbitros designados revejam imagens de determinadas decisões importantes, incluindo grandes penalidades. Sem esse mecanismo de revisão, a decisão do árbitro manteve-se durante o jogo.
Elementos do Kanchanaburi protestaram junto da equipa de arbitragem após o apito final. O confronto posterior com espectadores acrescentou alegações de discriminação a uma noite já marcada pela contestação à arbitragem.
O empate deixou o Kanchanaburi no sexto lugar, com 14 pontos, a sete do líder Khon Kaen United. Estes números colocavam o Khon Kaen nos 21 pontos, uma diferença equivalente a metade do total do Kanchanaburi naquela fase da época.
O que ordenou a Federação Tailandesa de Futebol
Nualphan instruiu os organizadores da competição a recolherem informações e a encaminharem de imediato o incidente para o processo formal de análise da federação. No comunicado de 2 de novembro, a federação condenou a conduta racista dentro e nas imediações dos estádios, bem como nas redes sociais.
A federação invocou os seus regulamentos disciplinares e de conduta, publicados originalmente em 2016 e alterados pela 13.ª vez em 2026. Referiu também as regras de ética no desporto profissional, publicadas em 2017 e alteradas em 2022.
As regras de ética exigem que futebolistas e profissionais do desporto se expressem com respeito e evitem críticas injustas a terceiros com base em fatores como a origem, a etnia, a língua, o sexo e a idade. As regras disciplinares abrangem palavras abusivas, comportamentos ameaçadores, gestos e atos que exprimam desprezo racial ou étnico.
A análise terá de determinar quem esteve envolvido, o que aconteceu e quais as disposições aplicáveis. Não foi indicada qualquer decisão disciplinar final, medida policial contra o espectador ou data para o anúncio de uma decisão.
O Pattaya United, os organizadores da Thai League e a DJ Sports também condenaram a discriminação racial. A DJ Sports pediu uma investigação exaustiva, medidas adequadas e mecanismos mais eficazes para proteger treinadores, jogadores e outras pessoas ligadas ao futebol de comportamentos discriminatórios e insultuosos.
Que sanções poderão ser aplicadas?
Os regulamentos citados pela federação preveem sanções diferentes consoante a categoria da conduta e dos participantes. Ao abrigo da disposição relativa a comportamentos abusivos ou racistas em público, num recinto desportivo, uma pessoa pode ser multada entre 10 000 e 30 000 baht.
Uma atuação concertada de várias pessoas é punida com uma multa entre 20 000 e 40 000 baht. Se forem usados equipamentos de amplificação sonora ou se a conduta for transmitida através de meios em linha, o intervalo de multas referido sobe para entre 30 000 e 50 000 baht. As regras permitem ainda proibir a entrada do equipamento num recinto por um período de um a quatro jogos.
Outras disposições aplicam-se a pessoas sujeitas à disciplina desportiva. Uma prevê suspensões de um a três jogos e multas entre 10 000 e 60 000 baht por conduta explicitamente abusiva, ameaçadora ou racista. Outra prevê a suspensão de funções durante dois jogos e multas entre 10 000 e 40 000 baht para dirigentes.
As faixas dos adeptos são abrangidas por disposições próprias. Para uma primeira infração que envolva mensagens proibidas, as regras permitem uma multa até 50 000 baht, a proibição de utilizar o estádio como anfitrião durante um jogo, ou ambas as sanções. As infrações repetidas podem resultar em multas entre 50 000 e 100 000 baht, na proibição de jogar em casa durante três jogos e na dedução de três pontos.
Para jogadores e treinadores, uma suspensão significa falhar jogos ou ficar impedido de exercer funções. Para um clube, a proibição de jogar no seu estádio afeta o local onde pode disputar os encontros, enquanto a dedução de pontos reduz diretamente o seu total na liga. A federação determinará qual a categoria aplicável no âmbito da análise.
Controvérsias anteriores dão contexto
Park já tinha contestado decisões de arbitragem durante a época do Kanchanaburi. Após um jogo em setembro contra o Nakhon Pathom, relacionou as suas críticas à arbitragem com os resultados da Tailândia frente ao Vietname. Mais tarde, pediu desculpa através do clube e afirmou que não tinha tido intenção de menosprezar a seleção nacional da Tailândia.
Uma grande penalidade assinalada contra o Kanchanaburi num jogo de outubro frente ao Prae United também motivou um recurso. O comité de arbitragem da Federação Tailandesa de Futebol concluiu posteriormente que o jogador adversário tinha caído sem sofrer falta, considerou que a grande penalidade foi mal assinalada e suspendeu o árbitro das suas funções durante seis semanas.
Park também protestou contra a gestão do tempo de compensação e um golo do empate num jogo frente ao Muanglui United. Estes episódios ajudam a explicar a tensão prévia em torno da arbitragem que rodeou o encontro com o Pattaya.
Park já tinha sido alvo de um insulto pessoal semelhante quando treinava o Vietname. Em novembro de 2019, um membro da equipa técnica da seleção tailandesa foi afastado depois de o ter provocado com insultos racistas. O incidente mais recente voltou a suscitar atenção no Vietname, onde Park continua estreitamente associado à seleção nacional que anteriormente orientou.
Do apito final à análise formal
Os principais acontecimentos passaram rapidamente de uma disputa no estádio para queixas que envolveram autoridades do futebol e diplomatas:
- No apito final: o Pattaya United e o Kanchanaburi Power empataram 2-2 na nona jornada da Thai League 2.
- Após o jogo: Park e Baggio terão sido alvo de insultos discriminatórios, e membros das equipas intervieram quando Park confrontou um espectador.
- Após o confronto: o presidente Prawat encaminhou a equipa do Kanchanaburi para os balneários, e o clube condenou a discriminação.
- 2 de novembro: a Federação Tailandesa de Futebol anunciou a sua posição contra o racismo e ordenou a recolha de provas e uma análise formal.
- Após o incidente: a Embaixada da Coreia do Sul apresentou queixas a entidades tailandesas e reuniu-se com a polícia, enquanto a DJ Sports pediu medidas e maior proteção.
A tarefa imediata dos organizadores é transformar o vídeo, as queixas e outras provas numa decisão disciplinar. Para os clubes e os seus membros, o caso também diz respeito à forma como os funcionários dos estádios e a polícia reagem quando os insultos continuam enquanto uma equipa tenta abandonar o relvado.
Pontos-chave
- Park Hang-seo e John Baggio terão sido alvo de insultos racistas após o empate 2-2 do Kanchanaburi Power frente ao Pattaya United.
- Membros das equipas e elementos oficiais intervieram no confronto entre Park e um espectador, sem que se tenham registado agressões físicas.
- Na resposta de 2 de novembro, a Federação Tailandesa de Futebol ordenou a recolha de provas e uma análise disciplinar formal.
- A Embaixada da Coreia do Sul apresentou queixas às autoridades tailandesas e reuniu-se com a polícia.
- As regras citadas incluem multas, suspensões desportivas e sanções específicas para faixas proibidas dos adeptos.
- Não foi anunciada uma decisão final nem a data em que será comunicada.






