Protestos salariais na indústria têxtil do Bangladesh encerram fábricas enquanto ministro promete novo conselho salarial

12 min de leitura
Bangladesh garment wage protests shut factories as minister promises new wage board

Exigência de 30 000 Tk alastra-se pelos distritos industriais

Pelo menos 30 fábricas de vestuário em Kathgara e arredores, em Ashulia, suspenderam a atividade no sábado, enquanto os trabalhadores exigiam um salário mínimo mensal de 30 000 Tk. Em Gazipur, manifestações fizeram o trânsito acumular-se ao longo de quase dois quilómetros na estrada Dhaka-Tangail. O Governo prometeu criar um conselho salarial no domingo e apelou aos trabalhadores para regressarem às fábricas.

Índice
  1. Exigência de 30 000 Tk alastra-se pelos distritos industriais
  2. Como se alastrou a paralisação em Ashulia
  3. Confrontos provocam feridos e levam a reforço da segurança
  4. Protestos em Gazipur bloqueiam uma importante estrada
  5. Trabalhadores associam salários mais altos à manutenção do emprego
  6. O que faria o conselho salarial prometido
  7. Salários em atraso entram nas conversações
  8. Como evoluiu a disputa
  9. Pontos principais

A exigência elevaria o salário mínimo mensal em 17 500 Tk, face aos atuais 12 500 Tk, valor referido pelo dirigente sindical Khairul Mamun Mintu. Trata-se de um aumento de 140%, que faria o salário proposto corresponder a 2,4 vezes o valor atual. Os trabalhadores pediram também o fim das alegadas listas negras e dos despedimentos arbitrários, trazendo a segurança no emprego para uma disputa que já se centrava no custo de sustentar uma família.

Mohammad Mominul Islam Bhuiyan, superintendente da Polícia Industrial 1 de Ashulia, confirmou o encerramento de pelo menos 30 fábricas por volta das 13h45. Outra versão atribuiu ao mesmo superintendente da polícia o número de 25 encerramentos. Os responsáveis das fábricas mandavam os trabalhadores para casa à medida que as manifestações se alastravam e aumentavam os receios de danos nos edifícios e confrontos no exterior.

Ariful Haque Chowdhury, ministro do Trabalho e do Emprego, afirmou que o Governo criaria um conselho para o salário mínimo e publicaria o anúncio no diário oficial no domingo. O anúncio surgiu na sequência de conversações com dirigentes sindicais e representantes das indústrias do vestuário e da malha.

A criação de um novo conselho daria início ao processo de revisão dos salários. Os trabalhadores continuavam a procurar um acordo sobre o montante a receber, bem como medidas relativas aos salários em atraso e às práticas laborais.

Publicidade

Como se alastrou a paralisação em Ashulia

Os trabalhadores da Naim Knitwear, em Kathgara, iniciaram uma paralisação dentro da fábrica na manhã de sábado, segundo a polícia. Mais tarde, saíram para o exterior, manifestaram-se e atiraram tijolos contra várias fábricas nas proximidades. Seguiram-se perseguições entre a polícia e os manifestantes pela zona.

A perturbação estendeu-se a Kathgara e a zonas próximas do cinturão industrial de Ashulia, incluindo Jirab, Narsinghpur e Amtala. Um responsável de uma fábrica de vestuário em Kathgara Amtala afirmou que quase todas as fábricas das imediações, à exceção de duas ou três, tinham anunciado um dia de encerramento. A administração avaliaria a situação antes de decidir os próximos passos.

A Continental, a AR Jeans e a CWA estiveram entre as fábricas onde foram comunicados danos. Os vidros da AR Jeans e da Continental foram partidos. Vários responsáveis suspenderam a atividade enquanto os trabalhadores se concentravam no exterior e aumentava a pressão sobre as fábricas vizinhas para interromperem a produção.

Condutores de auto-riquexós que circulavam na estrada Bishmail-Jirabo disseram que o trânsito tinha parado depois do início dos protestos. Deslocaram-se para locais mais seguros para evitar ficarem no meio dos confrontos. Assim, a perturbação imediata estendeu-se para além dos portões das fábricas, afetando trabalhadores, condutores e empresas das proximidades.

O superintendente da polícia afirmou que os agentes tentavam convencer os manifestantes a dispersar. Manifestou também preocupação com a possibilidade de trabalhadores reunidos em diferentes locais impedirem os funcionários de outras fábricas de trabalhar.

Confrontos provocam feridos e levam a reforço da segurança

O superintendente da polícia de Ashulia, Mominul Islam Bhuiyan, afirmou que um agente foi hospitalizado com um ferimento na cabeça causado por tijolos atirados pelos manifestantes. O superintendente-adjunto Syed Faisal Islam terá indicado que seis agentes da polícia ficaram feridos, além de outras pessoas.

Entre os feridos nos confrontos estavam trabalhadores e transeuntes. A polícia utilizou gás lacrimogéneo e granadas de estrondo ao tentar dispersar as multidões em Nischintapur. Abul Kalam Azad, inspetor da Polícia Industrial 1, afirmou que tinham sido destacados mais agentes de segurança e que a polícia estava a vigiar a zona industrial.

A polícia recuperou também três objetos semelhantes a bombas artesanais junto a uma fábrica em Nischintapur, na estrada Baipail-Abdullahpur. O superintendente da polícia situou a recuperação no exterior de uma fábrica do grupo Nasa e afirmou que a Unidade Antiterrorista da Polícia do Bangladesh tinha sido informada; outra descrição situou os objetos no exterior da New Age e indicou que a polícia de Ashulia tinha sido notificada.

Não estava confirmada a identidade de quem levou ou deixou os objetos, nem se continham explosivos. A polícia afirmou que agentes especializados tomariam as medidas necessárias no local.

Publicidade

Protestos em Gazipur bloqueiam uma importante estrada

Trabalhadores de várias fábricas perto de Chandra Palli Bidyut, em Kaliakair, Gazipur, interromperam a atividade e saíram para a rua por volta do meio-dia de sábado. Entre as suas reivindicações estava o mesmo salário mínimo mensal de 30 000 Tk exigido em Ashulia, além de subsídios mais elevados.

Funcionários de fábricas próximas juntaram-se à manifestação, perturbando o trânsito nos dois sentidos da estrada Dhaka-Tangail. Abdul Karim, inspetor do posto policial de Naojor, afirmou por volta das 16h30 que a fila de trânsito resultante se estendia por quase dois quilómetros e que o protesto prosseguia.

Amjad Hossain, superintendente da Polícia Industrial de Gazipur, afirmou por volta das 17h30 que trabalhadores de 10 a 12 fábricas em Gazipur tinham organizado manifestações dispersas. Entre 18 e 20 fábricas em Kaliakair tinham anunciado o encerramento devido à agitação.

Abdul Karim afirmou que os trabalhadores das fábricas que encerraram durante a tarde também se juntavam ao protesto. Os encerramentos alteraram, assim, a circulação de pessoas na zona: os funcionários que saíam das linhas de produção aumentavam as multidões já reunidas na estrada.

Amjad Hossain, o responsável sénior da polícia industrial que coordenava a resposta em Gazipur, descreveu os esforços da polícia:

Estamos a tentar controlar a situação.

Os protestos chegaram também a Dhaka, onde trabalhadores do vestuário bloquearam no sábado o cruzamento de Mirpur 10. No mesmo dia, os protestos salariais afetaram um cruzamento urbano, as estradas que servem as fábricas de Ashulia e uma importante estrada em Gazipur.

Trabalhadores associam salários mais altos à manutenção do emprego

Khairul Mamun Mintu, secretário para os assuntos jurídicos do Centro Sindical dos Trabalhadores do Vestuário e das Malhas do Bangladesh, afirmou que os trabalhadores exigiam há muito um salário mínimo de 30 000 Tk. Apontou a subida dos preços dos alimentos, das rendas, das despesas médicas e de outros custos domésticos como razões para o salário mínimo atual ser insuficiente.

A exigência salarial consiste em aumentar a remuneração mensal mínima abrangida pelo regime salarial. Para um funcionário que receba 12 500 Tk, o aumento de 17 500 Tk pedido seria superior ao atual salário mínimo mensal na sua totalidade. Isso ajuda a explicar a dimensão da diferença entre o que os trabalhadores recebem e o que os manifestantes exigem.

Os trabalhadores alegaram também que as fábricas despediam funcionários experientes sem justificação e partilhavam listas negras que os impediam de encontrar outro emprego no setor do vestuário. Neste contexto, uma lista negra consiste na divulgação do nome de um trabalhador para que outros empregadores evitem contratá-lo.

As reivindicações dos protestos incluíam o cancelamento dessas listas, o fim dos despedimentos arbitrários, apoio aos trabalhadores despedidos e a garantia de condições de trabalho seguras. Um salário mais elevado pouco significa para uma família se quem o aufere perder o acesso ao emprego, o que torna estas reivindicações laborais estreitamente ligadas à disputa salarial.

Mintu afirmou que os trabalhadores esperavam um anúncio sobre a criação de um conselho salarial até outubro. Segundo ele, o incumprimento dessa expectativa alimentou a indignação. Numa reunião ministerial na noite de sexta-feira, ficou acordado que os trabalhos para criar o conselho começariam até domingo, mas Mintu disse que essa mensagem não tinha chegado devidamente aos trabalhadores.

Publicidade

O que faria o conselho salarial prometido

Ariful Haque Chowdhury, ministro do Trabalho, afirmou no sábado que o Governo criaria o conselho no domingo e publicaria a decisão no diário oficial. O diário oficial é a publicação formal do Governo destinada a decisões e avisos legais.

O ministro fez o anúncio após reuniões com empregadores, representantes dos trabalhadores e responsáveis ministeriais. Descreveu as conversações anteriores com dirigentes sindicais do setor do vestuário a nível nacional como tendo durado várias horas. Segundo afirmou, os representantes da Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário do Bangladesh, conhecida como BGMEA, e da Associação de Fabricantes e Exportadores de Malhas do Bangladesh, conhecida como BKMEA, aceitaram a exigência de criação de um conselho.

A estrutura do conselho salarial descrita no anúncio inclui um presidente, um membro independente, um representante dos empregadores e um representante dos trabalhadores. Quando são considerados os salários de um determinado setor, participam no processo representantes dos empregadores e dos trabalhadores desse setor.

O artigo 139.º da Lei do Trabalho do Bangladesh prevê que o Governo considere a fixação de salários mínimos para um setor na sequência de um pedido dos empregadores, dos trabalhadores ou de ambas as partes. O conselho proporciona a esses grupos um espaço formal para discutir o nível salarial.

O ministro anunciou a criação do conselho, mas o valor de 30 000 Tk pedido pelos trabalhadores continuava a ser uma reivindicação à espera de decisão. Não foi indicada qualquer data para uma recomendação salarial final, a sua aprovação ou o início de pagamentos revistos.

Persiste, assim, uma diferença prática entre o compromisso imediato do Governo e a alteração salarial pretendida pelos trabalhadores. A publicação prometida no diário oficial no domingo era o próximo passo indicado no processo.

Salários em atraso entram nas conversações

Os salários por pagar foram também discutidos com representantes da BGMEA e da BKMEA, afirmou o ministro. As associações falariam com os proprietários das fábricas e procurariam que os salários em atraso fossem pagos o mais rapidamente possível.

As conversações incluíram o pagamento dos trabalhadores até ao sétimo dia de cada mês. Para as famílias que dependem de um salário regular, o momento do pagamento influencia a possibilidade de pagar a renda, a alimentação e outras despesas dentro dos prazos, mesmo antes de ser definido qualquer novo salário mínimo.

Ariful apelou aos trabalhadores para que pusessem fim às manifestações e regressassem ao trabalho. Argumentou que os encerramentos de fábricas, os danos e as interrupções da produção poderiam atrasar as entregas aos compradores. Se os proprietários não pudessem entregar as mercadorias e receber o pagamento, afirmou, também poderia tornar-se mais difícil pagar os salários.

O ministro alegou ainda que pessoas vindas de fora estavam a incentivar os trabalhadores a protestar. Nas suas declarações públicas, não identificou essas pessoas. Os representantes dos trabalhadores, por seu lado, descreveram a indignação em termos de salários, despedimentos, alegadas listas negras e do atraso no anúncio do conselho salarial.

A resposta do Governo envolvia, assim, várias tarefas distintas: criar o conselho salarial, pressionar os empregadores a liquidar os salários em atraso e incentivar as fábricas a retomar a produção. Cada medida responde a uma parte diferente da disputa, e a promessa de criar o conselho não retirou as restantes reivindicações da mesa.

Publicidade

Como evoluiu a disputa

A agitação de sábado surgiu após vários dias de protestos salariais na zona industrial de Gazipur. Os principais acontecimentos descritos por responsáveis e representantes dos trabalhadores foram:

  • Sexta-feira: Dirigentes sindicais reuniram-se com o ministro durante várias horas. Mintu afirmou que uma reunião ministerial nessa noite acordou o início dos trabalhos para criar um conselho salarial até domingo.
  • Sábado de manhã: Os trabalhadores da Naim Knitwear, em Ashulia, interromperam a atividade antes de os protestos se alastrarem às fábricas próximas.
  • Sábado, por volta do meio-dia: Trabalhadores perto de Chandra Palli Bidyut, em Kaliakair, saíram para a rua e perturbaram a circulação na estrada Dhaka-Tangail.
  • Sábado, por volta das 13h45: O superintendente da polícia industrial de Ashulia confirmou que pelo menos 30 fábricas tinham anunciado o encerramento.
  • Sábado, por volta das 16h30: A polícia afirmou que a fila de trânsito perto de Chandra se estendia por quase dois quilómetros e que o protesto prosseguia.
  • Sábado, por volta das 17h30: O superintendente da polícia industrial de Gazipur descreveu manifestações dispersas, com trabalhadores de 10 a 12 fábricas, e o encerramento de 18 a 20 fábricas em Kaliakair.
  • Domingo: O ministro prometeu criar o conselho salarial e publicar o anúncio no diário oficial.

O desafio imediato para o Governo é concretizar essa medida administrativa prometida. Para os trabalhadores, as questões centrais continuam a ser o valor final dos salários, o pagamento dos montantes já devidos e a possibilidade de manterem ou recuperarem o emprego sem serem excluídos de outras fábricas.

Pontos principais

  • Os trabalhadores do vestuário exigiram um salário mínimo mensal de 30 000 Tk, face ao atual mínimo de 12 500 Tk referido por um dirigente sindical.
  • A polícia de Ashulia indicou o encerramento de pelo menos 30 fábricas; outra versão atribuiu 25 encerramentos ao mesmo superintendente.
  • Os confrontos em Ashulia provocaram feridos entre agentes da polícia e outras pessoas; em Nischintapur, foram recuperados três objetos semelhantes a bombas artesanais.
  • Os protestos em Kaliakair provocaram uma fila de trânsito com quase dois quilómetros, e 18 a 20 fábricas encerraram nessa zona.
  • O ministro do Trabalho prometeu criar um conselho salarial e anunciar a decisão no diário oficial no domingo, apelando aos trabalhadores para regressarem ao trabalho.
  • Os trabalhadores pediram também medidas relativas aos salários em atraso, às alegadas listas negras e aos despedimentos arbitrários. A decisão final sobre um novo salário continuava pendente.
Partilhar este artigo

Também pode gostar