Um alerta sobre bancos, mutuários e confiança pública
Quase um terço dos empréstimos bancários do Bangladesh estava classificado como estando em incumprimento em junho, disse Ejazul Islam, diretor-geral do Bangladesh Institute of Bank Management, numa conferência sobre banca onde o professor nacional Mahbub Ullah alertou que muitos bancos estavam à beira do colapso.
Índice
- Um alerta sobre bancos, mutuários e confiança pública
- O que significa quase um terço em incumprimento
- Porque há bancos sem liquidez enquanto outros têm excedentes
- Como a confiança se tornou central na crise
- Empréstimos ao Estado reduzem o crédito às empresas privadas
- Influência política e o custo de uma supervisão deficiente
- Aplicação das políticas e uma proposta de utilização da IA
- Porque Mahbub considera que a recuperação exige mudanças políticas
- Pontos principais
Na quinta-feira, no BIBM, em Mirpur, Daca, Mahbub descreveu o setor bancário como «muito frágil» e «vulnerável». Disse que as autoridades mantinham instituições em dificuldades em funcionamento através de várias medidas, enquanto a confiança do público tinha sido abalada por irregularidades generalizadas.
A discussão decorreu na primeira sessão do segundo e último dia da Conferência Anual de Banca, após uma apresentação principal de Barkat-E-Khuda, antigo professor de Economia na Universidade de Daca. Os oradores descreveram um setor confrontado com vários problemas interligados: empréstimos por pagar, falta de liquidez acessível em alguns bancos, supervisão deficiente e dependência crescente do crédito ao Estado.
O alerta de Mahbub foi além da gestão bancária. Defendeu que os danos refletiam falhas na governação e na gestão económica, com poderosos interesses empresariais a beneficiarem de proteção política. A recuperação dos bancos, afirmou, exigiria mudanças tanto na política económica como na responsabilização política.
O que significa quase um terço em incumprimento
O valor avançado por Ejazul dá uma ideia clara da dimensão do problema do crédito: em junho, quase uma em cada três takas emprestadas pelos bancos estava classificada como estando em incumprimento. Um empréstimo em incumprimento é um crédito que o mutuário não conseguiu reembolsar de acordo com o calendário exigido e as regras de classificação aplicáveis.
Os bancos dependem do reembolso dos empréstimos para cumprirem as suas próprias obrigações e voltarem a conceder crédito. Quando os pagamentos cessam, perdem os rendimentos previstos e podem acabar por ter de absorver perdas. Isso pressiona as suas finanças e limita o dinheiro disponível para outros mutuários.
Ejazul também apontou a insuficiência de capital e de provisões, o branqueamento de capitais, a governação deficiente e a produtividade limitada como fatores que fragilizam o setor. O capital é a almofada financeira que absorve perdas. As provisões são montantes que os bancos reservam para cobrir possíveis perdas nos empréstimos. Quando um ou outro é insuficiente, o banco fica menos protegido contra o incumprimento dos mutuários.
A discussão apresentou uma fotografia da qualidade do crédito em junho e uma avaliação posterior, feita na conferência de quinta-feira:
- Em junho, quase um terço do total dos empréstimos bancários estava classificado como estando em incumprimento, segundo Ejazul.
- Na quinta-feira, último dia da conferência, os oradores analisaram esses problemas de crédito juntamente com a liquidez desigual, as falhas regulatórias e a pressão sobre o crédito às empresas privadas.
Não foi indicada uma data para a conferência nem o ano a que se referiam os valores de junho, e os oradores não apresentaram um calendário para recuperar a saúde do setor.
Porque há bancos sem liquidez enquanto outros têm excedentes
Barkat-E-Khuda descreveu pressões opostas no sistema bancário. Alguns bancos frágeis, incluindo alguns que operam segundo os princípios da Sharia, enfrentavam uma grave falta de liquidez, enquanto o setor, no seu conjunto, dispunha de um excedente substancial de liquidez.
Liquidez é o dinheiro a que um banco pode aceder rapidamente para pagar aos depositantes ou cumprir outras obrigações imediatas. Um banco pode ter empréstimos e outros ativos no seu balanço e, ainda assim, ter dificuldade em encontrar dinheiro disponível suficiente quando os pagamentos vencem.
Assim, o problema do Bangladesh também reside na distribuição do dinheiro, e não apenas na quantidade existente no sistema bancário. O dinheiro disponível numa instituição não passa automaticamente para outra que dele necessite. Para os clientes, a situação do seu próprio banco é diretamente importante.
Ejazul também descreveu um excedente de liquidez suficiente em todo o setor, apesar da escassez em bancos individuais. Defendeu que era necessário reconstruir a confiança e encaminhar os fundos para investimentos eficazes. Em conjunto, as duas avaliações apontam para um sistema bancário em que a liquidez e a fragilidade financeira estão distribuídas de forma desigual.
Como a confiança se tornou central na crise
Mahbub identificou a perda de confiança do público como um problema central na sequência de irregularidades generalizadas. Defendeu que a maioria dos bancos teria deixado de existir se as forças normais do mercado tivessem podido funcionar e questionou a eficácia dos esforços oficiais para os manter em atividade.
Os depositantes colocam dinheiro nos bancos à espera de o poder levantar quando precisarem. Por sua vez, os bancos utilizam grande parte desse dinheiro para conceder empréstimos. A confiança permite que este sistema funcione, porque, em geral, os clientes não tentam levantar todos os depósitos ao mesmo tempo. A preocupação com a situação de um banco pode aumentar a pressão sobre a liquidez disponível.
Mahbub afirmou, contudo, que quatro ou cinco bancos estavam a funcionar bem e podiam servir de exemplo. A sua avaliação apontou para diferenças no desempenho das instituições dentro de um setor em dificuldades, com alguns bancos a oferecerem exemplos que vale a pena analisar.
A discussão na conferência relacionou a confiança com decisões concretas: como os bancos escolhem os mutuários, se os reembolsos são exigidos, como as perdas são reconhecidas e se os reguladores intervêm quando surgem problemas. Clientes e empresas dependem dessas decisões, mesmo sem participarem nelas.
Empréstimos ao Estado reduzem o crédito às empresas privadas
Mahbub alertou que a dependência do Estado em relação ao crédito bancário para financiar o défice orçamental estava a reduzir o crédito disponível para as empresas privadas. Há défice orçamental quando a despesa pública excede as receitas, sendo necessário recorrer a empréstimos ou a outras formas de financiamento para cobrir a diferença.
Disse que os bancos se tinham tornado «totalmente orientados para o Estado». A sua preocupação era que os empréstimos ao Estado estivessem a desviar atenção e recursos dos mutuários privados, ao mesmo tempo que criavam um encargo crescente de reembolso para o próprio Estado.
Esta pressão é frequentemente designada por efeito de evicção. Em termos simples, o Estado absorve capacidade de concessão de crédito que, de outro modo, poderia ser utilizada pelas empresas para comprar equipamento, adquirir materiais ou aumentar a produção. Mahbub também alertou que o reembolso dos empréstimos do Estado e dos respetivos juros seria um sério desafio.
Segundo Mahbub, a baixa relação entre a receita fiscal e o PIB do Bangladesh agravava o problema. Este rácio compara a cobrança de impostos com a dimensão da economia. Quando as receitas fiscais são baixas face à atividade económica, o Estado dispõe de menos recursos próprios para cumprir os seus compromissos de despesa.
Mahbub relacionou diretamente essa incapacidade de arrecadar receitas internas com a pressão para recorrer ao crédito. Disse que isso deveria servir de alerta ao Governo.
Influência política e o custo de uma supervisão deficiente
Barkat-E-Khuda atribuiu o aumento dos empréstimos em incumprimento à influência política, à governação deficiente, a políticas permissivas e ao crescimento lento do crédito privado. O seu diagnóstico relacionou a qualidade das decisões de concessão de crédito com as regras e os incentivos que enquadram os bancos.
Mahbub descreveu uma aliança entre banqueiros, empresários sem escrúpulos e políticos corruptos. Defendeu que seria difícil quebrar esta relação e alegou que o Estado tinha permitido a um pequeno grupo de empresários ricos e influentes obter benefícios.
Mahbub, na qualidade de professor nacional, usou a ideia de privatização para descrever a sua opinião de que os governantes tinham tratado o poder público como propriedade privada.
«Falamos da privatização da indústria, da privatização dos bancos, mas alguma vez imaginariam que o próprio Estado pudesse ser privatizado? Infelizmente, o nosso Estado foi privatizado», afirmou.
Mahmud Osman Imam, presidente do departamento de Finanças da Universidade de Daca, centrou-se na responsabilidade dos reguladores. Ao abordar a gestão do risco, questionou como tinha sido possível desviar grandes quantias de dinheiro dos bancos que operam segundo os princípios da Sharia sem que as autoridades detetassem ou impedissem a situação.
A sua intervenção colocou a supervisão no centro do debate: se os reguladores tinham conhecimento das irregularidades, quando souberam e por que motivo a intervenção não impediu a saída de dinheiro dos bancos. Para os depositantes, são questões concretas sobre quem era responsável por proteger as instituições que guardam as suas poupanças.
Aplicação das políticas e uma proposta de utilização da IA
Mohammad Ali, diretor-geral do Pubali Bank, afirmou que era urgente aplicar as políticas. Questionou se as regras deviam ser criadas apenas depois de ocorrerem irregularidades ou se deviam ser estabelecidas antes de surgirem problemas.
Mohammad Ali também sugeriu a utilização de inteligência artificial para verificar o cumprimento das regras. O cumprimento significa respeitar as normas que regulam a atividade bancária, incluindo os requisitos destinados a controlar os riscos e a prevenir irregularidades.
A sua proposta incidiu sobre a vertente da monitorização: verificar se as instituições estão a fazer o que os regulamentos exigem. A discussão na conferência não apresentou detalhes sobre um sistema de IA específico, o seu custo ou a forma como seria implementado.
A aplicação das regras foi o tema comum às suas declarações e às preocupações manifestadas pelos outros oradores. As regras exigem instituições capazes de verificar comportamentos e agir perante violações. As alegações de Mahbub sobre proteção política e as questões de Mahmud Osman Imam sobre a inação dos reguladores abordaram ambas as falhas nesse processo.
Porque Mahbub considera que a recuperação exige mudanças políticas
Mahbub defendeu que a banca era apenas uma parte de uma crise mais ampla, que afetava a administração, o comércio, a educação e a saúde. Na sua opinião, as medidas técnicas para recuperar os bancos tinham de avançar em paralelo com mudanças na forma como o poder é exercido.
Descreveu levantamentos populares recorrentes, aproximadamente a cada 10 a 15 anos, fazendo remontar o padrão à época do Paquistão. Apesar dos sacrifícios do público, afirmou, não se seguiram mudanças sociais e culturais significativas, o que permitiu que a frustração se acumulasse. Defendeu que os levantamentos precisavam de líderes empenhados, de um quadro ideológico e de um programa claro para a renovação nacional.
Mahbub apelou ao funcionamento da democracia e da responsabilização e instou as autoridades a não voltarem a proteger empresários poderosos com o argumento de que a economia não poderia funcionar sem eles. A resposta que propôs combinava a correção financeira com a responsabilidade política.
O professor nacional também alertou contra a expectativa de uma recuperação imediata.
«Não podemos esperar uma solução de um dia para o outro», afirmou.
Para os depositantes e as empresas, a conferência identificou prioridades práticas: bancos capazes de cumprir as obrigações de pagamento, medidas credíveis para lidar com os empréstimos por pagar, supervisão que detete irregularidades e crédito dirigido à atividade produtiva. O argumento de Mahbub foi que o progresso duradouro nestas áreas depende de responsabilizar quem toma decisões e detém poder.
Pontos principais
- Ejazul Islam, diretor-geral do BIBM, afirmou que, em junho, quase um terço dos empréstimos bancários estava classificado como estando em incumprimento.
- Mahbub Ullah alertou que muitos bancos estavam à beira do colapso e relacionou a sua fragilidade com a perda de confiança e as falhas na governação.
- Alguns bancos frágeis e bancos que operam segundo os princípios da Sharia enfrentavam uma grave falta de liquidez, apesar do excedente existente no setor.
- Os oradores identificaram a influência política, a supervisão deficiente e a aplicação insuficiente das regras como problemas centrais.
- Mahbub alertou que os empréstimos do Estado estavam a reduzir o crédito privado e defendeu que eram necessárias, em simultâneo, correções económicas e políticas.






