Apenas 924 famílias dalit recebem terrenos no Nepal, enquanto o Governo fixa novo prazo de dois anos

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Only 924 Dalit Families Receive Land in Nepal as Government Sets New Two-Year Deadline

924 famílias recebem terrenos entre 103 140 requerentes

O Nepal atribuiu terrenos a 924 famílias dalit sem terra, entre 103 140 famílias requerentes, segundo uma resposta escrita do Governo ao deputado do Congresso Nepalês Nishkal Rai. Onze anos depois de a Constituição ter prometido terrenos aos dalits sem terra, menos de uma em cada 100 famílias que solicitaram essa proteção foi contemplada.

Índice
  1. 924 famílias recebem terrenos entre 103 140 requerentes
  2. O que prometeu a Constituição
  3. Como funcionaria a nova portaria
  4. Quem pode receber terrenos ocupados?
  5. Quinze famílias dalit entre as 57 que receberam certificados
  6. Porque variam os números nacionais
  7. Dados mais antigos revelam desvantagem mais acentuada em Madhesh
  8. Famílias deslocadas têm dificuldade em encontrar quartos
  9. Um projeto local revela o trabalho necessário para validar uma reivindicação
  10. Principais pontos

O Ministério da Gestão Fundiária, das Cooperativas, dos Assuntos Federais e da Administração Geral situou a proporção de famílias que receberam terrenos em cerca de 0,895%. Os números deixam 102 216 famílias requerentes fora do grupo registado como tendo recebido terrenos, embora os pedidos ainda tenham de ser verificados antes da confirmação da elegibilidade.

Uma portaria do Governo, publicada a 13 de outubro de 2026, estabelece um novo prazo: os dalits elegíveis sem terra têm de receber terrenos no prazo de dois anos a contar da entrada em vigor da disposição aplicável. Se o Governo não puder disponibilizar um lote, terá de conceder um subsídio para a compra de um.

Para as famílias que aguardam documentos de propriedade, a promessa diz respeito a um lugar para viver, a um meio de subsistência e a algo que possam deixar aos filhos. Para as famílias cujos assentamentos foram demolidos, a necessidade imediata é mais urgente. Alguns residentes deslocados dizem que a discriminação de castas os impediu de arrendar sequer um quarto, interrompendo o trabalho e a escolaridade dos filhos.

O Governo substituiu a antiga comissão, cujos membros eram nomeados por critérios políticos, por comités distritais liderados pelos chefes da administração distrital. Esses comités têm de transformar os pedidos em reivindicações verificadas e identificar terrenos que possam ser legalmente distribuídos. A recente entrega de certificados mostra que o processo está a avançar em alguns locais, mas os números nacionais revelam a distância entre a promessa constitucional e a sua concretização.

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O que prometeu a Constituição

O Nepal adotou a Constituição a 20 de setembro de 2015. O artigo 40 prevê que o Estado atribua terrenos aos dalits sem terra, uma vez, nos termos da lei. Uma disposição distinta exige soluções de habitação para os dalits sem casa.

Os dalits são comunidades historicamente sujeitas à exclusão por castas e à intocabilidade. O artigo 40 promete também participação nos órgãos do Estado, medidas especiais de representação e emprego, ensino gratuito com bolsas de estudo e proteções no acesso ao ensino superior, à saúde e à segurança social.

A Constituição exigia a aprovação de legislação para aplicar os direitos fundamentais no prazo de três anos, estabelecendo setembro de 2018 como limite. Onze anos após a sua adoção, a legislação federal necessária para dar pleno efeito a estes direitos dos dalits ainda não foi aprovada. As leis fundiárias em vigor preveem mecanismos para distribuir lotes, enquanto o conjunto mais amplo de proteções constitucionais continua incompleto.

Os principais marcos mostram há quanto tempo este compromisso está pendente:

  • 20 de setembro de 2015: o Nepal adota a Constituição, incluindo as garantias de acesso a terrenos e habitação do artigo 40.
  • Setembro de 2018: termina o prazo constitucional para aprovar legislação de aplicação dos direitos fundamentais.
  • Início de 2020: é criada uma Comissão para a Resolução das Questões Fundiárias, com o objetivo de emitir certificados de propriedade a famílias sem terra.
  • 13 de outubro de 2026: o Governo publica uma portaria que estabelece um novo prazo de dois anos para a distribuição de terrenos ou a atribuição de subsídios.
  • 16 de outubro de 2026: os comités distribuem certificados de propriedade a 57 famílias em três distritos, incluindo 15 famílias dalit sem terra.

Como funcionaria a nova portaria

A portaria altera cinco leis: a Lei das Terras, de 2021; a Lei do Registo Predial, de 2034; a Lei do Uso do Solo, de 2076; a Lei da Corporação Guthi, de 2033; e a Lei do Cadastro e da Medição de Terrenos, de 2019. Os anos correspondem ao calendário Bikram Sambat do Nepal.

A alteração à secção 52A da Lei das Terras obriga o Governo a atribuir terrenos aos dalits sem terra uma única vez, no prazo de dois anos após a entrada em vigor da disposição. Se não for possível disponibilizar um lote, a alternativa será um subsídio para a compra de terrenos. O ministério afirma que os pedidos serão verificados e que as famílias elegíveis receberão terrenos públicos disponíveis ou, se necessário, outros terrenos vagos.

A portaria não especifica o método detalhado para identificar os lotes, selecionar os beneficiários e financiar o programa. Também deixa por determinar o montante do subsídio. As famílias continuam, por isso, a precisar de regras práticas que esclareçam a que apoio podem ter direito e como o podem solicitar.

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A opção de atribuir um subsídio altera o que o Governo pode oferecer quando não consegue encontrar terrenos. A sua utilidade dependerá de o montante permitir comprar um lote adequado e de as famílias conseguirem concluir a compra. A promessa de dinheiro e a transferência efetiva de um terreno são etapas distintas na garantia de uma habitação permanente.

Quem pode receber terrenos ocupados?

A portaria abrange também famílias que já vivem em determinados lotes. As disposições incluem dalits sem terra, outros ocupantes sem terra e residentes informais, categorias com regras de elegibilidade distintas. Alguns requerentes precisam de um novo local para se instalarem; outros procuram o reconhecimento legal de terrenos que já ocupam ou cultivam.

A ocupação prolongada é uma das condições para determinadas atribuições. As disposições referem pelo menos 10 anos de cultivo ou ocupação. O ministério identifica Magh 28, 2066, no calendário nepalês, como a data de referência para calcular o período de qualificação dos residentes informais.

Alguns terrenos registados no levantamento original como pastagens, recintos de feiras, locais de desembarque ou mercados também podem ser elegíveis. O executivo local tem de confirmar especificamente que já não são utilizados para o fim registado e que a ocupação começou antes do limite aplicável.

As famílias que vivem junto a rios ou lagos, dentro dos limites das estradas ou noutros locais perigosos têm de receber alojamento noutro lugar. Para esses agregados, a portaria prevê a deslocalização, em vez da atribuição da propriedade do local onde vivem atualmente. As decisões locais sobre o uso do solo e a segurança determinarão, assim, onde as famílias poderão vir a instalar-se.

Quinze famílias dalit entre as 57 que receberam certificados

Os Comités de Regularização Fundiária distribuíram 57 certificados de propriedade em Chitwan, Jhapa e Rupandehi a 16 de outubro de 2026. Dos beneficiários, 15 eram famílias dalit sem terra, cerca de 26% do total.

Em Chitwan, foram emitidos certificados a uma família dalit sem terra e a 32 famílias ocupantes sem terra, na ala 7 do município rural de Ichchhakamana. Em Rupandehi, foram emitidos certificados a 14 famílias dalit sem terra e a duas famílias ocupantes sem terra, nas alas 8 e 9 do município rural de Gaidahawa. Os sete beneficiários de Jhapa eram famílias de residentes informais da ala 11 do município de Arjundhara.

A ministra da Gestão Fundiária, Pratibha Rawal, afirmou que não havia obstáculos legais ao avanço do processo e prometeu acelerar a ação, com a colaboração dos governos locais. A sua declaração chama a atenção para o trabalho administrativo necessário para concluir as transferências: verificar a elegibilidade, fazer o levantamento dos lotes, resolver as reivindicações e emitir documentos de propriedade.

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O total nacional indicado pelo ministério continua a ser de 924 famílias dalit. Não foi especificado se as 15 famílias que receberam certificados a 16 de outubro já estão incluídas nesse total, pelo que somá-las poderia levar a uma dupla contagem dos mesmos beneficiários.

Porque variam os números nacionais

A resposta escrita do ministério indica 103 140 famílias dalit requerentes. Outros números da comissão, citados em notícias, apontam para 98 502 requerentes dalit, enquanto uma contagem adicional da comissão indica 79 144 famílias dalit sem terra. Não é explicado o âmbito nem o estado de verificação subjacentes a estes totais.

É difícil contabilizar as pessoas sem terra porque o termo abrange diferentes situações. Uma família pode não ter terreno algum, ocupar terrenos públicos, cultivar como arrendatária ou viver há gerações num lote sem documentos de propriedade. Cada situação exige um tipo de apoio diferente, e uma contagem que abranja todos estes grupos será superior a outra limitada aos dalits sem terra.

O estudo académico Falta de acesso à terra no Nepal descreve as lacunas nas estatísticas oficiais desagregadas por grupo social. Cita uma estimativa de 2020 da Comissão para a Resolução das Questões Fundiárias, segundo a qual havia 406 502 agregados familiares em 287 unidades de governo local, nas sete províncias. O valor abrange dalits sem terra e outros ocupantes, sem os distinguir.

O estudo descreve também um sistema de informação fragmentado. Os governos locais recolhem registos de receitas fundiárias, enquanto os serviços federais de cadastro e registo predial produzem e digitalizam informação sobre terrenos. Esses registos nem sempre foram analisados para identificar os grupos sociais sem terra. Um registo fiável ajudaria os funcionários a atribuir a cada agregado familiar a forma de apoio adequada e a acompanhar as transferências concluídas.

Dados mais antigos revelam desvantagem mais acentuada em Madhesh

O estudo académico baseia-se no Inquérito aos Padrões de Vida do Nepal, realizado em 2010/11, que abrangeu 5 988 agregados familiares em 499 unidades primárias de amostragem. Uma análise posterior do inquérito concluiu que 51,8% dos dalits de Madhesh não possuíam terrenos agrícolas, contra 16,1% dos dalits das regiões montanhosas.

A diferença era de 35,7 pontos percentuais, e, segundo essa análise, a falta de terrenos agrícolas era mais de três vezes mais comum entre os dalits de Madhesh. Um estudo de 2014 citado no artigo concluiu também que 88,2% dos dalits de Madhesh e 48,8% dos dalits das regiões montanhosas tinham propriedades inferiores à média nacional.

A tabela provincial do artigo, baseada no recenseamento de 2011, no inquérito de 2010/11 e em estatísticas de 2012, situa a falta de terrenos entre os dalits em 58,41% em Madhesh, 43,69% em Koshi e 37,04% em Bagmati. O valor nacional para os dalits é de 29,74%. São estimativas históricas; é necessária uma avaliação atualizada da situação de cada agregado familiar requerente.

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Padam Bahadur Pariyar, chefe da bancada do Congresso Nepalês na Assembleia Nacional, estima que os dalits representem 13,44% da população do Nepal e afirma que 60% dos dalits que trabalham na agricultura na região de Tarai não têm terra. Criticou os sucessivos governos por não terem dado prioridade aos direitos constitucionais e questionou o momento escolhido para anunciar uma nova promessa antes das eleições.

Famílias deslocadas têm dificuldade em encontrar quartos

Laxmi Pariyar disse que viveu durante 22 anos num assentamento em Tripureshwor, antes de este ser demolido. Mudou-se para o assentamento da filha em Gothatar e procurou um quarto, mas afirmou que os senhorios recusaram arrendar-lhe um por ser dalit. A família voltou depois a ser avisada de que teria de sair, quando a polícia anunciou que o assentamento de Gothatar também seria desmantelado.

Laxmi disse que os seus pertences ficaram guardados num ferro-velho e que a filha não conseguiu ir à escola enquanto a família procurava alojamento. Para um agregado de sete ou oito pessoas, a perda do assentamento transformou-se numa procura diária de abrigo.

Sukmaya Bishwakarma, deslocada de Gairigaun, disse que passou três dias a procurar um quarto sem sucesso e que se encontrava abrigada no Radhaswami Satsang Vyas Ashram, em Kirtipur. Descreveu as deslocações entre Kirtipur e Tinkune, a perda do trabalho e os esforços para manter os filhos na escola.

Som Bahadur B.K., de 64 anos, residente no assentamento de Manohara, também relatou discriminação de castas e receou que os filhos continuassem sem terra. As suas denúncias dizem respeito ao artigo 24 da Constituição, que protege as pessoas contra a intocabilidade e a discriminação em espaços privados e públicos.

O programa governamental de reforma da governação, composto por 100 pontos, prometeu um pedido formal de desculpas do Estado e um programa de reforma para os dalits e as comunidades historicamente excluídas no prazo de 15 dias. Notícias posteriores indicaram que o pedido de desculpas e o programa correspondente não tinham sido apresentados. Para as famílias deslocadas, a proteção contra a discriminação e o acesso a abrigo imediato são tão urgentes como a futura propriedade de terrenos.

Um projeto local revela o trabalho necessário para validar uma reivindicação

Um estudo de caso do IIED, datado de 18 de dezembro de 2020, documenta uma abordagem prática no município de Dangisaran. O Community Self Reliance Centre concluiu que 2 844 dos 4 426 agregados familiares, cerca de 64%, não tinham terrenos ou não possuíam documentos relativos aos seus lotes.

Sete jovens trabalhadores da comunidade Tharu ajudaram a fazer o levantamento de 2 712 famílias ao longo de três meses. Recolheram provas relativas aos agregados familiares, fotografaram casas e lotes, registaram coordenadas GPS e ajudaram vizinhos a chegar a acordo sobre os limites, utilizando imagens de satélite. Os processos digitais concluídos foram partilhados com o Governo. O município atribuiu 6 000 dólares para apoiar o trabalho.

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A agricultora local Yasoda Neupane explicou a importância do reconhecimento legal para a sua família:

Cultivamos cerca de um hectare de terreno público desde 1978, sem direitos legais. Por isso, sempre tememos ser expulsos; as autoridades responsáveis pela gestão florestal ameaçaram-nos muitas vezes. Por vezes, fomos acusados de ocupação ilegal. Preciso, por isso, de ter direitos sobre este terreno para viver em segurança e garantir o futuro dos meus filhos.

O projeto também ajudou o município a cartografar terrenos onde as famílias sem qualquer lote se poderiam instalar e a identificar terras agrícolas disponíveis para arrendamento. Responsáveis municipais e das alas participaram em reuniões, verificaram a informação e forneceram os registos em falta.

O estudo de caso do IIED descreve as obrigações previstas na Lei das Terras de 2019, que exige que os municípios identifiquem as famílias sem terra e os residentes informais, cartografem terrenos municipais e atribuam lotes disponíveis. A experiência de Dangisaran mostra como essas obrigações podem traduzir-se em processos familiares prontos para decisão governamental. Os novos comités distritais do Nepal enfrentam agora esse trabalho numa escala muito maior, além da necessidade de encontrar locais seguros e financiar eventuais subsídios para a compra de terrenos.

Principais pontos

  • Segundo o ministério, 924 das 103 140 famílias dalit requerentes receberam terrenos, cerca de 0,895%.
  • O artigo 40 da Constituição de 2015 promete terrenos aos dalits sem terra e soluções de habitação para os dalits sem casa.
  • A portaria de outubro de 2026 prevê dois anos para a distribuição de terrenos, com subsídios para a compra quando não for possível disponibilizá-los.
  • Os comités distritais liderados pelos chefes da administração distrital substituíram a antiga comissão nomeada por critérios políticos.
  • Quinze famílias dalit sem terra figuraram entre as 57 famílias que receberam certificados em três distritos a 16 de outubro.
  • Residentes deslocados relatam discriminação no arrendamento, perda de trabalho e interrupção da escolaridade enquanto procuram abrigo.
  • Os procedimentos detalhados de elegibilidade, os montantes dos subsídios e o financiamento do programa ainda têm de ser definidos.
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