Três embarcações ao largo da costa leste de Taiwan agravam as preocupações de segurança
Uma embarcação de pesca chinesa suspeita de estar envolvida em atividades de milícia marítima aproximou-se, a 16 de agosto, a cerca de 2,7 milhas náuticas das águas restritas de Taiwan, enquanto navegava junto de um navio da guarda costeira e de um navio de investigação, segundo a Guarda Costeira de Taiwan. Taiwan enviou uma lancha de patrulha para a afastar e colocou a embarcação de pesca, Minfudingyu 07902, numa lista de vigilância prioritária.
Índice
- Três embarcações ao largo da costa leste de Taiwan agravam as preocupações de segurança
- O que a vigilância registou
- Aumento da atividade para lá do número de navios de guerra
- Como evoluiu a pressão
- Porque são importantes os barcos de pesca num confronto de segurança
- A importância da costa leste para o abastecimento
- Pretensões rivais em águas económicas sobrepostas
- Propostas de segurança centram-se em manter as rotas abertas
- Incidentes anteriores e infraestruturas vulneráveis
- Pontos-chave
As embarcações que a acompanhavam foram identificadas como o navio 2502 da Guarda Costeira da China e o navio de investigação Xiang Yang Hong 3. O seu aparecimento ao largo da costa pacífica de Taiwan chamou a atenção para a forma como Pequim pode combinar embarcações de pesca, navios governamentais e plataformas científicas para manter uma presença em águas estrategicamente importantes sem mobilizar navios de guerra.
Num relato da resposta divulgado a 23 de outubro, a Guarda Costeira de Taiwan alertou que estas operações coordenadas poderiam apoiar os preparativos chineses para uma ação militar, aumentando ao mesmo tempo os encargos de vigilância e resposta para Taiwan, o Japão e as Filipinas. A costa leste de Taiwan dá acesso ao Pacífico mais amplo e é atravessada por tráfego e abastecimentos marítimos.
A guarda costeira afirmou que as embarcações permaneceram fora das águas restritas de Taiwan. Na sua avaliação, a Minfudingyu 07902 apresentava características associadas à atividade de milícia marítima. A missão concreta da embarcação continua por esclarecer.
A China afirma que as suas atividades a leste de Taiwan são um exercício legítimo dos seus direitos marítimos. Taiwan rejeita as pretensões jurisdicionais de Pequim e vê o aumento da presença como uma pressão sobre a sua capacidade para gerir as águas circundantes e manter abertas as rotas de abastecimento.
O que a vigilância registou
A Apex Aviation, uma empresa de aviação taiwanesa, documentou o agrupamento durante um voo de reconhecimento. O material de vigilância combinou imagens de radar, imagens de infravermelhos e dados do sistema de identificação automática. Este sistema, geralmente conhecido pela sigla AIS, transmite informações como a identidade e a posição de uma embarcação.
Os três tipos de observação proporcionaram perspetivas diferentes do encontro: o radar acompanhou objetos no mar, as imagens de infravermelhos registaram assinaturas térmicas e o AIS forneceu informações de identificação e posicionamento. Em conjunto, ajudaram a documentar que navios navegavam próximos uns dos outros.
O agrupamento foi localizado a mais de 30 milhas náuticas de Hualien, na costa leste de Taiwan, perto da zona exterior ao mar contíguo de 24 milhas náuticas. Separadamente, a guarda costeira indicou que a embarcação de pesca se aproximou até cerca de 2,7 milhas náuticas das águas restritas. Estas medições usam pontos de referência diferentes: uma indica a distância à costa e a outra, a distância a uma fronteira marítima.
Declarações públicas anteriores da guarda costeira confirmaram que os navios estavam a ser vigiados e permaneciam fora das águas restritas, sem identificar publicamente a embarcação de pesca como pertencente à milícia. Na resposta posterior, a guarda costeira identificou a Minfudingyu 07902, descreveu as características suspeitas e confirmou o envio da patrulha.
Aumento da atividade para lá do número de navios de guerra
Os dados taiwaneses revelam um forte aumento da atividade de navios da guarda costeira chinesa, de investigação e de outras embarcações em torno da ilha principal. As autoridades registaram 244 embarcações em julho, contra 55 em junho e 30 em maio. Em julho do ano anterior, tinham sido contabilizadas 58.
O total de julho foi, assim, mais de quatro vezes superior tanto ao valor de junho como ao do mesmo mês do ano anterior. Estes números não incluem navios de guerra chineses, mostrando até que ponto a pressão marítima pode ser exercida por embarcações que não pertencem à Marinha.
Foram detetadas outras 152 embarcações durante os primeiros 21 dias de agosto. Cerca de 60% das embarcações registadas eram navios da guarda costeira; as restantes eram navios de investigação e outras embarcações governamentais.
A Guarda Costeira de Taiwan também descreveu uma operação em que afastou 16 embarcações chinesas da guarda costeira, de investigação e de pesca, incluindo quatro barcos de pesca. A atividade ocorreu ao largo das costas leste, sul e sudoeste de Taiwan e em torno das ilhas Pratas, controladas por Taiwan. Algumas embarcações envolvidas nessas operações entraram em águas restritas, ao contrário dos três navios vigiados ao largo da costa leste em agosto.
Como evoluiu a pressão
O encontro de agosto ocorreu após a expansão da atividade de navios governamentais chineses a leste de Taiwan. A Guarda Costeira de Taiwan associou o aumento, desde junho, aos anúncios do Japão e das Filipinas de que iriam discutir os limites das respetivas zonas económicas exclusivas.
A sequência relatada mostra a intensificação da pressão através de vários tipos de mobilização e resposta:
- Maio: Taiwan registou 30 embarcações chinesas da guarda costeira, de investigação e de outros tipos em torno da ilha principal.
- Final de maio e junho: A China anunciou operações de fiscalização do tráfego marítimo nas águas a leste de Taiwan, enquanto o Japão e as Filipinas prosseguiam as conversações sobre limites marítimos.
- Junho: O número de embarcações registadas por Taiwan subiu para 55.
- Julho: O total chegou a 244, contra 58 em julho do ano anterior.
- 16 de agosto: A Minfudingyu 07902 aproximou-se até cerca de 2,7 milhas náuticas das águas restritas de Taiwan.
- 1 de outubro: Taiwan usou um canhão de água contra uma embarcação chinesa de pesca recreativa perto das ilhas Pratas.
- 20 de outubro: Um fórum de segurança em Taipé debateu os riscos da continuidade das patrulhas da guarda costeira chinesa a leste de Taiwan.
- 23 de outubro: A Guarda Costeira de Taiwan detalhou a resposta à embarcação de pesca suspeita de pertencer à milícia e alertou para os preparativos de operações militares.
O ministro da Defesa de Taiwan, Wellington Koo, afirmou que a guarda costeira assumiria a liderança na fiscalização e expulsão caso embarcações da milícia ou da guarda costeira chinesas ultrapassassem os limites relevantes. A Marinha prestaria apoio ao abrigo de um mecanismo de cooperação já existente.
Porque são importantes os barcos de pesca num confronto de segurança
A milícia marítima da China remonta à década de 1950. Utiliza embarcações de pesca com tripulações treinadas e apoio estatal para executar tarefas marítimas, por vezes em conjunto com navios da guarda costeira. Um barco pode manter a aparência civil e, ao mesmo tempo, ajudar o governo a vigiar a atividade ou a manter uma presença em águas disputadas.
Um estudo do Instituto de Investigação para a Defesa Nacional e Segurança de Taiwan divide a força em dois grandes grupos: embarcações construídas ou adaptadas para tarefas especializadas da milícia e barcos de pesca mobilizados através de subsídios governamentais para operações específicas.
Chieh Chung, investigador do instituto, descreveu características que podem suscitar atenção, incluindo atividade durante períodos oficiais de proibição da pesca e um número de antenas de comunicação superior ao habitual num barco de pesca. Segundo Chieh, estas embarcações podem realizar tarefas de vigilância, recolha de informações e deteção subaquática.
As autoridades taiwanesas afirmam que a dimensão do fenómeno vai muito além do barco isolado ao largo de Hualien. Chang Chung-lung, diretor-geral da Guarda Costeira, afirmou que, desde 2023, mais de 100 embarcações chinesas consideradas ligadas à milícia apareceram em torno de Taiwan e foram incluídas numa lista de vigilância. Tsai Ming-yen, diretor-geral do Gabinete de Segurança Nacional, estimou em vários milhares o total de embarcações da milícia chinesa.
A Asia Maritime Transparency Initiative estimou uma média diária de 241 embarcações da milícia marítima chinesa mobilizadas no mar do Sul da China durante 2025, um recorde segundo a sua análise. A atividade concentrou-se em torno de formações disputadas, incluindo Mischief Reef e Whitsun Reef. Esse valor diz respeito às mobilizações no mar do Sul da China, enquanto os números de Taiwan abrangem embarcações acompanhadas em torno da ilha ao longo de vários anos.
A importância da costa leste para o abastecimento
A costa leste de Taiwan abre-se para o Pacífico, sendo uma rota importante para a navegação e o abastecimento. Uma presença chinesa persistente na zona poderia aumentar a pressão sobre as rotas que as autoridades taiwanesas teriam de manter operacionais durante uma crise.
A Guarda Costeira de Taiwan afirmou que operações coordenadas de embarcações civis, científicas e de aplicação da lei poderiam apoiar os preparativos chineses para uma ação militar. As autoridades de Taiwan consideram que Pequim está a treinar a cooperação entre embarcações militares, paramilitares e civis para um eventual bloqueio marítimo.
Um bloqueio procura restringir a circulação de entrada e saída de um local. Em torno de Taiwan, isso poderia significar interferir com navios que transportam combustível, alimentos, materiais industriais ou outros bens essenciais. Acompanhar os movimentos da navegação e observar as respostas às patrulhas seria útil para uma força que ponderasse uma operação desse tipo.
Para a guarda costeira de Taiwan, a presença de um grupo misto de navios implica várias decisões em simultâneo: qual a embarcação que requer vigilância mais próxima, se alguma atividade justifica uma intervenção e como responder caso um navio da guarda costeira chinesa intervenha em defesa de um barco de pesca. Manter patrulhas e meios de vigilância disponíveis em vários locais também exige mais recursos humanos e equipamento.
A pressão prática começa, portanto, antes de qualquer confronto militar. Cada mobilização obriga as autoridades a identificar as embarcações, acompanhar os seus movimentos e decidir se devem enviar navios para a zona.
Pretensões rivais em águas económicas sobrepostas
As zonas económicas exclusivas, ou ZEE, podem estender-se até 200 milhas náuticas a partir da costa. Conferem às autoridades costeiras direitos sobre recursos como os pesqueiros e os depósitos do fundo do mar, bem como determinadas responsabilidades e jurisdição. Os navios de outros países mantêm o direito de navegação, pelo que os direitos sobre os recursos e o direito de atravessar uma zona são questões distintas.
Quando as costas estão suficientemente próximas para que as zonas reivindicadas se sobreponham, os governos podem negociar uma fronteira. O Japão e as Filipinas têm estado a discutir esse processo. A Guarda Costeira de Taiwan afirma que o aumento da atividade chinesa nas águas sobrepostas acrescenta pressão sobre as três administrações.
Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, afirmou que o país possui uma ZEE e uma plataforma continental a leste de Taiwan, considerando as suas atividades na zona um exercício legítimo de direitos soberanos e de jurisdição. Pequim reivindica Taiwan como parte do seu território e não excluiu o recurso à força para assumir o controlo da ilha.
O governo de Taiwan rejeita essa reivindicação e afirma que cabe à população da ilha decidir o seu futuro. Joseph Wu, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, disse no fórum de Taipé de 20 de outubro que a China não tinha qualquer pretensão jurídica sobre as águas ao largo da costa leste de Taiwan. Taiwan afirma também que a China não tem autoridade para exercer fiscalização sobre embarcações que naveguem legalmente dentro da ZEE taiwanesa.
As patrulhas têm uma finalidade política, além do seu papel prático. Um navio governamental que exerça repetidamente funções de fiscalização pode transmitir a mensagem de que o seu governo controla uma zona. É por isso que Taipé se opõe à presença, mesmo quando os navios permanecem fora das águas restritas.
Propostas de segurança centram-se em manter as rotas abertas
Randall Schriver, presidente da Comissão de Revisão Económica e de Segurança EUA-China e do Instituto de Segurança do Indo-Pacífico, abordou os riscos no fórum de 20 de outubro. Descreveu a continuidade das patrulhas da guarda costeira chinesa como uma forma de defender pretensões de soberania através de embarcações apresentadas como forças de aplicação da lei, em vez de forças navais.
Schriver alertou para os riscos de Pequim pôr em prática esse alegado papel de fiscalização:
Isto é altamente desestabilizador se continuarem a operacionalizar este papel de aplicação da lei.
Schriver sugeriu explorar a realização de exercícios entre Taiwan e o Japão para treinar a resposta a um bloqueio, incluindo a possibilidade de criar um corredor marítimo entre Keelung, no norte de Taiwan, e a ilha japonesa de Yonaguni. Apresentou estas ideias como propostas de preparação, e não como operações conjuntas anunciadas.
Defendeu também a criação de defesas em camadas contra mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones. O seu argumento relacionou o acesso marítimo com a proteção contra ataques vindos de cima: manter uma rota aberta exige que os navios possam navegar em segurança e que as infraestruturas que os apoiam continuem a funcionar.
Schriver advertiu que a estratégia norte-americana de recorrer a grandes quantidades de sistemas não tripulados para dificultar uma invasão ainda precisava de ser desenvolvida. As suas declarações colocaram o planeamento operacional entre as prioridades, a par da aquisição de equipamento.
Incidentes anteriores e infraestruturas vulneráveis
Há precedentes de atividade suspeita da milícia perto das aproximações marítimas orientais de Taiwan. Chieh referiu o dia 30 de julho de 2021, quando Taiwan afastou duas grandes embarcações chinesas de pesca, Qiong Sanya Yu 72107 e Qiong Sanya Yu 72108, perto da Ilha das Orquídeas, a cerca de 10 milhas náuticas da costa.
Chieh suspeitou que as embarcações estivessem a recolher informações, por estarem longe dos seus portos de origem durante um período de proibição da pesca na China e transportarem numerosas antenas de comunicações por satélite. Na altura, decorriam testes de armas na zona de Jiupeng, em Taiwan. A deteção de agosto voltou a chamar a atenção para esse incidente e para a dificuldade de determinar a finalidade de uma embarcação de pesca apenas pela sua aparência.
As preocupações de Taiwan estendem-se também às infraestruturas submarinas. Um relatório do Gabinete de Segurança Nacional indicou que os cabos submarinos circundantes sofreram, em média, cerca de sete a oito ruturas por ano nos três anos anteriores, tendo aumentado a proporção atribuída a atividade humana.
Num caso relacionado com danos no cabo Taiwan-Penghu n.º 3, em fevereiro de 2025, o capitão chinês do Hong Tai 58 foi condenado a três anos de prisão ao abrigo da Lei de Gestão das Telecomunicações de Taiwan. Proteger os cabos acrescenta outra tarefa à vigilância da navegação, a par da monitorização das rotas de abastecimento e da resposta a incursões.
A resposta imediata de Taiwan à Minfudingyu 07902 consiste em continuar a acompanhá-la através da lista de vigilância prioritária. Os ministérios da Defesa da China e da Defesa e dos Negócios Estrangeiros das Filipinas não responderam de imediato aos pedidos de comentário sobre o alerta de 23 de outubro. A guarda costeira japonesa escusou-se a comentar de imediato.
Pontos-chave
- Taiwan identificou a Minfudingyu 07902 como uma embarcação de pesca suspeita de pertencer à milícia, que navegava com um navio da guarda costeira chinesa e um navio de investigação ao largo da costa leste da ilha.
- A 16 de agosto, a embarcação aproximou-se até cerca de 2,7 milhas náuticas das águas restritas. Taiwan enviou uma lancha de patrulha e acrescentou-a à lista de vigilância prioritária.
- Taiwan registou 244 embarcações chinesas da guarda costeira, de investigação e de outros tipos em julho, contra 55 em junho. Os números não incluem navios de guerra.
- Taiwan alerta que mobilizações coordenadas podem apoiar os preparativos para uma ação militar e aumentar a pressão sobre as rotas de abastecimento do Pacífico.
- A China reivindica direitos marítimos a leste de Taiwan. Taipé rejeita a autoridade de Pequim para exercer funções de fiscalização na zona.
- Entre as propostas debatidas num fórum em Taipé, a 20 de outubro, estiveram exercícios com o Japão para preparar a manutenção de rotas marítimas abertas durante um bloqueio.






