Mais de 500 000 pessoas continuam a viver abaixo do limiar nacional de pobreza
A taxa nacional de pobreza de Timor-Leste caiu para 37% em 2024, face a uma estimativa metodologicamente comparável de 48,4% em 2014, segundo um novo relatório de síntese divulgado pelo Ministério das Finanças através do Instituto Nacional de Estatística de Timor-Leste (INETL). Ainda assim, mais de 500 000 pessoas continuavam a viver abaixo do limiar nacional de pobreza, fixado em 2,31 dólares por pessoa por dia, e a desigualdade económica aumentou.
Índice
- Mais de 500 000 pessoas continuam a viver abaixo do limiar nacional de pobreza
- Porque é que a descida comparável é de 11,4 pontos percentuais
- A pobreza rural predomina, mas as necessidades variam entre municípios
- Quão abaixo do limiar de pobreza vivem as famílias?
- O acesso à eletricidade e à água melhorou significativamente
- A habitação, a educação e a saúde revelam disparidades persistentes
- O que mede a estimativa de 71,7% do Banco Mundial
- Como decorreram o inquérito e o debate público
- O que se segue para os novos dados?
- Pontos principais
Os resultados provêm do Inquérito aos Padrões de Vida de Timor-Leste de 2024, que abrangeu 7 424 agregados familiares entre abril e outubro de 2024. Concebido para representar as condições a nível nacional e em cada município, é o primeiro inquérito abrangente sobre os padrões de vida no país numa década.
O presidente do INETL, Elias dos Santos Ferreira, apresentou os resultados no Ministério das Finanças a 20 de outubro de 2026. Descreveu os progressos na redução da pobreza e na expansão dos serviços básicos. As melhorias mais significativas verificaram-se no acesso à eletricidade e a água potável segura, enquanto a habitação, o saneamento, a educação e os combustíveis para cozinhar continuaram a revelar privações substanciais.
As comunidades rurais representam 86% das pessoas abaixo do limiar de pobreza. Ao mesmo tempo, o coeficiente de Gini, uma medida da desigualdade, subiu de 0,31 em 2014 para 0,36 em 2024, segundo valores comparáveis. Nesta escala, zero representa igualdade total e um representa desigualdade total.
O quadro geral combina um acesso mais alargado a serviços essenciais e menos pessoas abaixo do limiar nacional com diferenças persistentes nas condições de vida. Os novos dados sobre os agregados familiares surgem também na sequência de uma controvérsia pública sobre as projeções de pobreza do Banco Mundial, que utilizam limiares internacionais e como referência um inquérito mais antigo.
Porque é que a descida comparável é de 11,4 pontos percentuais
O INETL calcula que a descida ao longo da década foi de 11,4 pontos percentuais, de 48,4% para 37%, depois de ajustar os dados do inquérito anterior para os tornar comparáveis com os novos resultados. Em relação à taxa inicial ajustada, a pobreza caiu cerca de 24%.
A taxa nacional de pobreza para 2014 anteriormente publicada era de 41,8%. Subtrair o novo valor de 37% a essa estimativa anteriormente divulgada dá uma descida de 4,8 pontos percentuais. Os dois cálculos utilizam versões diferentes dos valores de referência de 2014.
O inquérito de 2024 introduziu um questionário reformulado, módulos adicionais e entrevistas assistidas por computador. As alterações na forma como se pergunta aos agregados familiares sobre o seu consumo podem afetar as medições resultantes. Por isso, o INETL utilizou um procedimento estatístico denominado imputação entre inquéritos para estimar um valor comparável para 2014.
Em termos simples, o procedimento estabelece uma ligação entre inquéritos realizados de formas diferentes. O valor de referência ajustado de 48,4% é utilizado para medir a evolução segundo o método comparável; os 41,8% continuam a ser a estimativa anteriormente publicada.
O limiar nacional de pobreza reflete os preços locais e os padrões de consumo dos agregados familiares em termos de alimentos básicos e outras necessidades. O consumo mede os bens e serviços utilizados pelas pessoas, incluindo alimentos, habitação e outros bens essenciais. Prevê-se que uma nota metodológica a divulgar em breve explique o trabalho estatístico com maior detalhe.
A pobreza rural predomina, mas as necessidades variam entre municípios
A apresentação do Governo situa a pobreza rural nos 45,5%, contra 18,4% nas zonas urbanas; as descrições pormenorizadas do relatório de síntese indicam 44,5% para as zonas rurais. Qualquer um dos valores rurais é mais do dobro da taxa urbana.
As zonas rurais concentram 86% das pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza, enquanto as zonas urbanas concentram 14%, apesar de representarem cerca de 30% da população. Esta concentração torna as infraestruturas, os serviços e as oportunidades económicas nas zonas rurais fundamentais para continuar a reduzir a pobreza.
O município de Díli tem a taxa de pobreza mais baixa, de 17,1%, enquanto Ataúro tem a mais elevada, de 74,4%. A pobreza diminuiu em todos os municípios, exceto Aileu e Liquiçá, embora a dimensão da melhoria tenha variado.
A dimensão da população altera o significado prático dessas taxas. Díli continua a ter cerca de 59 000 residentes em situação de pobreza, o terceiro maior total municipal. Ataúro tem o menor número de residentes pobres por ter uma população pequena, embora quase três quartos vivam abaixo do limiar.
O planeamento municipal precisa, por isso, de considerar tanto as percentagens como o número de pessoas. Em Ataúro, a pobreza afeta uma grande maioria dos residentes; em Díli, é necessário prestar apoio a um número considerável de pessoas pobres numa população muito maior.
Quão abaixo do limiar de pobreza vivem as famílias?
O Índice de Hiato da Pobreza nacional situou-se nos 10,2% em 2024. Esta medida vai além do número de pessoas em situação de pobreza e avalia o quanto o consumo fica aquém do limiar.
O índice calcula a média dessas insuficiências em toda a população, atribuindo uma insuficiência nula às pessoas acima do limiar de pobreza. Aplicado ao limiar diário de 2,31 dólares, 10,2% correspondem a cerca de 0,24 dólares por pessoa por dia em toda a população. O relatório de síntese indica uma insuficiência aproximada de 0,23 dólares.
O índice de hiato da pobreza ao quadrado foi de 4,0%. Esta medida atribui maior peso às pessoas cujo consumo fica mais abaixo do limiar, ajudando a revelar a gravidade das privações.
Nas zonas rurais, o hiato da pobreza foi de 12,65% e o hiato ao quadrado de 5,01%, cerca de três vezes os valores correspondentes nas zonas urbanas. A pobreza rural é, portanto, mais profunda, além de mais generalizada.
O catálogo de indicadores de pobreza do INETL apresenta taxas de pobreza, contagens da população, hiatos da pobreza e medidas da sua gravidade para anos de inquérito anteriores, incluindo 2007 e 2014. Em conjunto, estas medidas ajudam a distinguir o número de pessoas que precisam de apoio da dimensão das suas necessidades.
O acesso à eletricidade e à água melhorou significativamente
A proporção da população sem eletricidade caiu de 27,9% em 2014 para 1,7% em 2024, uma redução de 26,2 pontos percentuais. A proporção de agregados familiares servidos pela empresa pública de eletricidade EDTL subiu de 67,2% para 93,6%.
Também aumentou o número de pessoas com acesso a água potável segura. A proporção sem acesso caiu de 25,4% para 9,1%. A proporção sem saneamento melhorado diminuiu de 39,6% para 24,4%, pelo que cerca de um quarto da população continua a sofrer essa privação.
A proporção de agregados familiares com habitação adequada aumentou de 22,4% para 42,6%. Apesar de quase ter duplicado, continuava a abranger menos de metade dos agregados familiares.
As condições para cozinhar melhoraram mais lentamente. A dependência de combustíveis inadequados para cozinhar diminuiu de 86,8% para 70,9%, deixando cerca de sete em cada dez agregados familiares dependentes desses combustíveis. Entre os agregados familiares pobres, 86,7% utilizavam combustíveis poluentes para cozinhar, contra 61,7% dos agregados acima do limiar de pobreza.
Os números mostram por que razão o acesso à eletricidade e a utilização de combustíveis limpos para cozinhar exigem atenção distinta. O acesso à eletricidade expandiu-se amplamente, mas os combustíveis utilizados pelas famílias para preparar as refeições continuam a ser uma importante fonte de privação.
A habitação, a educação e a saúde revelam disparidades persistentes
Apenas 26,8% das pessoas pobres viviam em habitações adequadas, contra 51,9% das pessoas acima do limiar de pobreza. Entre os agregados familiares pobres, 52,1% tinham chão de terra batida, 41,2% tinham paredes não melhoradas e 7,6% viviam em condições de sobrelotação. Nos restantes agregados familiares, os valores correspondentes eram 29,4%, 20,0% e 2,1%.
Os agregados familiares pobres também enfrentavam lacunas no acesso a serviços essenciais: 32,7% não tinham saneamento melhorado e 11,8% não tinham acesso a água potável segura. Estas condições ajudam a explicar por que razão melhorar a habitação e os serviços básicos continua a ser prioritário, a par do aumento do consumo.
O indicador de analfabetismo reportado para os membros dos agregados familiares com 10 ou mais anos caiu de 63,4% para 47,1%. A proporção de famílias com uma criança em idade de frequentar o ensino primário que não ia à escola diminuiu de 16,7% para 11,7%.
As privações educativas continuavam a ser mais comuns entre as pessoas pobres. Cerca de 17,7% viviam em agregados familiares com uma criança em idade de frequentar o ensino primário que não frequentava a escola, contra 8,2% das pessoas acima do limiar de pobreza, uma diferença superior ao dobro.
Cerca de 63,3% das pessoas pobres viviam num agregado familiar onde alguém com 10 ou mais anos não sabia ler nem escrever, contra 37,6% das restantes pessoas. Estas medidas ao nível do agregado familiar revelam a abrangência das dificuldades educativas entre as famílias.
O acesso a cuidados médicos pouco se alterou num dos indicadores. Cerca de 8% dos agregados familiares, em ambos os anos do inquérito, disseram que um dos seus membros não tinha recebido os cuidados de que precisava devido à distância ou ao custo. Apesar dos progressos noutros domínios, estas barreiras persistiram.
O que mede a estimativa de 71,7% do Banco Mundial
O Panorama Macroeconómico da Pobreza do Banco Mundial, de abril de 2026, estimou que 71,7% da população de Timor-Leste ficaria abaixo de um limiar internacional de pobreza de 4,20 dólares por pessoa por dia em 2026. Segundo o limiar internacional inferior, de 3,00 dólares, a estimativa era de 44,3%.
A nota técnica do Banco explica que estas estimativas foram projetadas com base no inquérito aos padrões de vida de 2014, recorrendo a pressupostos sobre o impacto do crescimento económico no bem-estar dos agregados familiares. O novo valor nacional de 37% provém de informação recolhida junto dos agregados familiares em 2024.
Os limiares internacionais são expressos em paridade do poder de compra (PPC) de 2021. Esta conversão traduz os montantes numa unidade comum que tem em conta as diferenças de preços entre países. A nota expressa o limiar nacional de pobreza de Timor-Leste como 2,93 dólares nessa unidade, próximo do limiar internacional de 3,00 dólares.
O Banco utiliza limiares internacionais de 3,00 dólares para países de baixo rendimento, 4,20 dólares para países de rendimento médio-baixo e 8,30 dólares para países de rendimento médio-alto. Timor-Leste integra o segundo grupo, com um rendimento nacional bruto por pessoa de 1 510 dólares em 2025, segundo o método Atlas. O Banco considera também pertinente o limiar de 3,00 dólares, tendo em conta o nível de rendimento do país e o limiar nacional.
A mesma explicação está publicada na nota técnica em tétum do Banco. O limiar nacional orienta a política interna, enquanto os limiares internacionais permitem comparar países. Um limiar mais elevado coloca mais pessoas abaixo dele.
O panorama de abril projetou uma descida da pobreza entre 2023 e 2028, de 48,3% para 42,1% segundo o limiar de 3,00 dólares, e de 74,5% para 70,1% segundo o limiar de 4,20 dólares. As estimativas internacionais atualizadas terão em conta o inquérito de 2024.
Como decorreram o inquérito e o debate público
O inquérito, as projeções do Banco Mundial e o relatório nacional foram divulgados em momentos diferentes. A sequência ajuda a explicar por que razão o debate público incluiu tanto as condições dos agregados familiares medidas recentemente como estimativas baseadas em dados mais antigos.
- Abril a outubro de 2024: o INETL recolheu informação junto de 7 424 agregados familiares para o inquérito aos padrões de vida.
- Abril de 2026: o Banco Mundial publicou o seu Panorama Macroeconómico da Pobreza, incluindo a taxa projetada de 71,7% segundo o limiar internacional de 4,20 dólares.
- 15 de setembro de 2026: a vice-ministra das Finanças Regina de Jesus de Sousa contestou publicamente esse valor e afirmou que o ministério iria coordenar-se com o Banco no que respeita à informação pública. O Conselho de Ministros apoiou a publicação do relatório nacional de síntese.
- 22 de setembro de 2026: a Fundasaun Mahein publicou uma análise institucional que relacionava o debate sobre a pobreza com o emprego, as finanças públicas e a governação.
- 20 de outubro de 2026: o Ministério das Finanças e o INETL lançaram o relatório de síntese sobre a pobreza, apresentando a taxa nacional de 37%.
A análise sobre pobreza e governação da Fundasaun Mahein defende que melhores estatísticas devem ser acompanhadas por emprego produtivo e instituições transparentes. Destaca a suspensão da maioria dos recrutamentos na função pública, o crescente interesse pelo emprego no estrangeiro e as disputas relacionadas com despejos e realojamentos como fatores que afetam a segurança económica.
A organização defende também que as expectativas de início da produção de Greater Sunrise no início da década de 2030 tornam urgente responder às necessidades imediatas de emprego e produtividade. Estas preocupações ligam os números da pobreza às oportunidades de que os agregados familiares precisam para melhorar a sua situação.
O que se segue para os novos dados?
Regina de Jesus congratulou-se com a redução da pobreza, salientando, porém, que muitas famílias continuam a ter dificuldade em satisfazer necessidades básicas e aceder a oportunidades económicas. Defendeu programas eficazes, uma maior oferta de serviços básicos e oportunidades mais justas, sobretudo para as comunidades rurais.
David Freedman, representante do Banco Mundial, também saudou as melhorias registadas desde 2014 e reafirmou o compromisso da instituição de trabalhar com o Governo e os parceiros. O INETL, o Ministério das Finanças e o Banco utilizarão o inquérito numa Avaliação da Pobreza e da Equidade mais abrangente, que analisará as causas da pobreza e da desigualdade.
Ao explicar o seu papel na produção de estimativas internacionais de pobreza, o Banco Mundial afirma na sua nota técnica:
As estimativas de pobreza atualizadas substituirão as projeções atuais em futuras edições do MPO, assim que as estatísticas oficiais do TLSLS de 2024 forem publicadas.
Não foi indicada uma data específica para a publicação dessas estimativas atualizadas, da nota metodológica, da avaliação mais abrangente ou dos microdados do inquérito. Os microdados, ou seja, os registos pormenorizados do inquérito, serão disponibilizados para investigação e elaboração de políticas, com salvaguardas para proteger a confidencialidade e a privacidade dos inquiridos.
A tarefa central em matéria de políticas é concreta: alargar os progressos no acesso à eletricidade e à água à habitação, ao saneamento, à utilização de combustíveis limpos para cozinhar, à educação e à saúde, chegando ao mesmo tempo aos agregados familiares rurais e a outras pessoas que continuam abaixo do limiar de pobreza. A avaliação prevista analisará os fatores que impulsionaram os progressos anteriores e onde devem incidir novas medidas.
Pontos principais
- A pobreza nacional caiu para 37% em 2024, uma descida de 11,4 pontos percentuais face à estimativa comparável de 2014.
- Mais de 500 000 pessoas continuavam abaixo do limiar nacional de pobreza de 2,31 dólares por pessoa por dia.
- As zonas rurais concentravam 86% das pessoas em situação de pobreza; as taxas municipais variavam entre 17,1% em Díli e 74,4% em Ataúro.
- A desigualdade aumentou, com o coeficiente de Gini a subir de 0,31 para 0,36.
- O acesso à eletricidade e à água melhorou, enquanto a habitação, os combustíveis para cozinhar, a educação e o acesso a cuidados médicos continuaram a exigir atenção.
- O valor de 71,7% do Banco Mundial utilizava um limiar internacional e projeções baseadas nos dados de 2014. As estimativas internacionais atualizadas utilizarão o novo inquérito.






