França enfrenta advertência sobre propostas de regresso ao Afeganistão
A Human Rights Watch instou França, a 13 de outubro de 2026, a suspender os planos de deportação de afegãos, depois de o Governo francês ter confirmado que iniciara conversações técnicas com as autoridades talibãs. O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês afirmou que as conversações dizem respeito a cidadãos afegãos que vivem ilegalmente no país e são considerados uma ameaça à segurança nacional. A organização de defesa dos direitos humanos alertou que o seu regresso ao Afeganistão poderia expô-los a perseguição, tortura e outros abusos graves.
Índice
- França enfrenta advertência sobre propostas de regresso ao Afeganistão
- Quem pretende França expulsar?
- Que riscos poderão enfrentar os deportados?
- Por que motivo mulheres e raparigas enfrentam perigo particular
- Os contactos europeus desenvolveram-se ao longo de vários anos
- Processos judiciais reforçam as preocupações
- A regra que proíbe o regresso de pessoas ao perigo
- Pontos principais
O apelo surge numa altura em que os governos europeus intensificam os contactos com os talibãs sobre o regresso de migrantes. Uma delegação talibã visitou Bruxelas em junho de 2026 para conversações com responsáveis da União Europeia sobre política migratória e regressos. Segundo a Human Rights Watch, a Alemanha já deportou 263 afegãos desde o ano anterior.
Farashta Abbasi, investigadora sobre o Afeganistão na Human Rights Watch, descreveu as conversações francesas como uma perigosa mudança na política migratória. Afirmou que os responsáveis franceses não apresentaram garantias específicas de que as pessoas em risco particular, incluindo mulheres, seriam protegidas após o regresso.
Abbasi afirmou que a cooperação em matéria de regressos ocorreria apesar de França conhecer o historial dos talibãs:
«A cooperação francesa com os talibãs num processo de regresso teria lugar com pleno conhecimento da responsabilidade dos talibãs por graves violações dos direitos humanos e pela opressão sistemática», afirmou Abbasi.
A disputa centra-se em duas responsabilidades: o objetivo declarado de França de responder a ameaças à segurança nacional e a sua obrigação de proteger as pessoas contra o regresso a situações de perigo grave. A Human Rights Watch defende que as condições que aguardam os deportados no Afeganistão devem determinar se o regresso pode avançar.
Quem pretende França expulsar?
O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês descreveu o objetivo das conversações como sendo o de organizar a expulsão de uma categoria específica de cidadãos afegãos. Num comunicado, o ministério afirmou que as conversações visavam:
facilitar a expulsão de cidadãos afegãos que se encontram ilegalmente em território nacional e representam um risco para a segurança nacional.
A formulação do ministério estabelece duas condições: as pessoas em causa não têm autorização para permanecer em França e são consideradas um risco para a segurança. O processo proposto centra-se, por conseguinte, em pessoas que se enquadram nessas categorias, enquanto a objeção da Human Rights Watch diz respeito ao perigo que poderão enfrentar no destino.
O estatuto migratório de uma pessoa diz respeito à sua autorização para viver num país. A proteção contra o regresso forçado diz respeito ao que lhe poderá acontecer após a expulsão. Para um afegão que enfrenta a deportação, ambas as questões são importantes: as autoridades francesas poderão procurar pôr termo à sua permanência, mas continuam obrigadas a ponderar o risco de perseguição ou tortura no Afeganistão.
Os responsáveis franceses descreveram os seus contactos com os talibãs como conversações técnicas. Neste contexto, isso significa conversações sobre a organização dos regressos. Nos comunicados referidos pela Human Rights Watch, não foi anunciada qualquer data de deportação, número de pessoas visadas ou garantia de proteção pormenorizada.
A organização de defesa dos direitos humanos pede a França que suspenda os planos nesta fase. A sua preocupação é que um processo administrativo de expulsão possa levar à transferência das pessoas para a esfera de controlo de autoridades acusadas de abusos graves.
Que riscos poderão enfrentar os deportados?
A Human Rights Watch afirmou existirem provas de que alguns afegãos regressados à força ao país foram posteriormente detidos ou torturados pelas forças talibãs. Esta preocupação confere uma dimensão humana imediata ao debate: a deportação termina com a chegada da pessoa ao Afeganistão, onde o tratamento que lhe é dado passa a ser determinante para a sua segurança.
Os talibãs regressaram ao poder em agosto de 2021. Desde então, as alegações de abusos incluem perseguição e restrições que afetam mulheres, raparigas, minorias étnicas e religiosas, e pessoas visadas devido ao seu género. O perigo descrito pela Human Rights Watch vai além de condições de vida difíceis e inclui ameaças à liberdade e à segurança física das pessoas.
Perseguição significa maus-tratos graves dirigidos a alguém devido à sua identidade, às suas crenças ou a uma posição que lhe é atribuída. Uma pessoa poderá estar em risco por as autoridades a considerarem opositora ou apoiante de direitos que estas reprimem. A avaliação desse perigo exige que se tenham em conta tanto as circunstâncias individuais como as condições no país.
A Human Rights Watch afirmou que a sua posição se aplica aos refugiados que enfrentam o regresso forçado enquanto persistirem abusos generalizados. A organização declarou:
Nenhum país deve forçar refugiados a regressar ao Afeganistão enquanto os talibãs continuarem a cometer violações generalizadas dos direitos humanos.
As preocupações de França com a segurança e o tratamento dado pelos talibãs a quem regressa dizem respeito a diferentes aspetos da mesma decisão. O Governo francês explica por que motivo quer que certas pessoas partam; a Human Rights Watch pergunta o que lhes acontecerá quando chegarem.
Por que motivo mulheres e raparigas enfrentam perigo particular
As mulheres e as raparigas estão entre os grupos que, segundo a Human Rights Watch, necessitam de proteção específica. Desde agosto de 2021, as restrições impostas pelos talibãs incluem a proibição do ensino secundário para raparigas e do ensino universitário para mulheres, além de amplas limitações ao emprego, à circulação e à participação na vida pública.
Estas medidas afetam atividades quotidianas. Condicionam a possibilidade de uma rapariga prosseguir os estudos, de uma mulher estudar para exercer uma profissão, ganhar a vida ou circular livremente. Para alguém que regressa de França, a segurança envolve, por isso, tanto a possibilidade de sofrer abusos diretos como as restrições que regem o quotidiano.
Abbasi afirmou que os responsáveis franceses não tinham apresentado garantias específicas para as pessoas em risco particular, incluindo mulheres. A preocupação da Human Rights Watch prende-se com a forma como as pessoas com essas vulnerabilidades seriam protegidas num acordo de regresso negociado com as autoridades talibãs.
O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados também alertou para a persistência de importantes preocupações de proteção no Afeganistão, sobretudo no que diz respeito a mulheres e raparigas. O apelo para que os países respeitem a proteção contra regressos perigosos coloca no centro da decisão o tratamento que aguarda cada pessoa.
Os contactos europeus desenvolveram-se ao longo de vários anos
As conversações de França seguem-se a contactos estabelecidos noutros pontos da Europa. A visita a Bruxelas, em junho de 2026, levou representantes talibãs a reunirem-se com responsáveis europeus para discutir políticas migratórias e o regresso de migrantes. A Alemanha também manteve contactos diretos com as autoridades talibãs e avançou com a intenção de alargar as deportações para o Afeganistão.
A Human Rights Watch cifrou em 263 o número de afegãos deportados pela Alemanha desde o ano anterior. O número mostra que já ocorreram regressos noutros países europeus, enquanto a iniciativa francesa diz respeito a conversações destinadas a organizar expulsões.
As principais datas permitem acompanhar a evolução da atual disputa:
- Agosto de 2021: Os talibãs regressaram ao poder no Afeganistão, seguindo-se amplas restrições às mulheres e às raparigas e alegações de abusos contra outros grupos.
- 8 de julho e 9 de setembro de 2025: O Tribunal Penal Internacional emitiu quatro mandados de detenção relativos a alegada perseguição por altos responsáveis talibãs. A existência dos dois primeiros mandados foi tornada pública a 8 de julho de 2025.
- Junho de 2026: Uma delegação talibã visitou Bruxelas para conversações com responsáveis da União Europeia sobre política migratória e regressos.
- 13 de outubro de 2026: A Human Rights Watch publicou o seu apelo a França para que reconsiderasse os regressos forçados.
- 5 de outubro de 2026: A Câmara de Questões Preliminares II do tribunal levantou o segredo de justiça dos quatro mandados e publicou um comunicado com os pormenores das alegações.
Os contactos europeus ligam as decisões migratórias tomadas em França, na Alemanha e em Bruxelas às condições no Afeganistão. No seu apelo, a Human Rights Watch pede a esses governos que ponderem o tratamento dos deportados juntamente com as razões internas que os levam a procurar expulsões.
Processos judiciais reforçam as preocupações
A Human Rights Watch também chamou a atenção para processos no Tribunal Penal Internacional que envolvem dirigentes talibãs. Num comunicado oficial do tribunal publicado a 5 de outubro de 2026, a Câmara de Questões Preliminares II afirmou ter levantado o segredo de justiça de quatro mandados de detenção emitidos a 8 de julho e 9 de setembro de 2025 contra o líder supremo talibã, Haibatullah Akhundzada, Abdul Hakim Haqqani, Habibullah Agha e Neda Mohammad Nadim. A existência dos dois primeiros mandados já tinha sido tornada pública a 8 de julho de 2025.
A Câmara considerou existirem motivos razoáveis para crer que os quatro suspeitos eram criminalmente responsáveis por terem ordenado, instigado ou solicitado o crime contra a humanidade de perseguição, nos termos do artigo 7.º, n.º 1, alínea h), do Estatuto de Roma. As alegações dizem respeito à perseguição com base no género de raparigas, mulheres e outras pessoas que não se conformam com a política dos talibãs em matéria de género, identidade ou expressão de género, e à perseguição por motivos políticos de pessoas consideradas «aliadas das raparigas e das mulheres». Os alegados crimes ocorreram no Afeganistão desde a tomada do poder pelos talibãs, a 15 de agosto de 2021, até, pelo menos, 20 de janeiro de 2025. Isto liga os processos judiciais aos grupos cuja segurança, segundo a Human Rights Watch, França deve ter em conta ao discutir os regressos.
A Câmara afirmou que os suspeitos, agindo em nome dos talibãs, tinham aplicado uma política governamental que resultou em graves violações dos direitos e liberdades fundamentais, associadas a homicídio, prisão, tortura, violação e desaparecimento forçado. Identificou uma privação grave dos direitos das raparigas e das mulheres à educação, à privacidade e à vida familiar, bem como das liberdades de circulação, expressão, pensamento, consciência e religião. Considerou também que a perseguição com base no género abrange formas sistémicas e institucionalizadas de dano, incluindo normas sociais discriminatórias, e que as pessoas consideradas opositoras às políticas, mesmo que apenas passivamente ou por omissão, foram visadas como adversárias políticas.
Num comunicado de imprensa datado de 6 de outubro de 2026, o Gabinete do Procurador do tribunal afirmou ter requerido mandados contra Akhundzada e Haqqani a 23 de janeiro de 2025, e contra o ministro interino da Educação, Habibullah Agha, e o ministro interino do Ensino Superior, Neda Mohammad Nadim, a 6 de março de 2025. A procuradora-adjunta Nazhat Shameem Khan afirmou que os mandados adicionais faziam justiça aos direitos das mulheres e raparigas afegãs, em particular ao direito à educação.
Um mandado de detenção é uma ordem judicial que solicita a detenção de uma pessoa para que as alegações possam ser apreciadas num processo legal. Os processos referidos pela Human Rights Watch dizem respeito à alegada responsabilidade de altos dirigentes pelo tratamento dado às pessoas sob o domínio talibã.
No debate sobre as deportações, a questão central continua a ser as condições que aguardam cada pessoa enviada de regresso. A Human Rights Watch cita os processos judiciais como parte da sua descrição das autoridades com as quais França está a discutir um processo de regresso.
A regra que proíbe o regresso de pessoas ao perigo
A agência das Nações Unidas para os refugiados instou os governos a respeitarem o princípio da não repulsão. O termo designa a regra que proíbe o regresso de alguém a um lugar onde enfrente um risco real de perseguição, tortura ou outros danos graves. Em termos simples, exige que os governos ponderem o perigo no destino antes de enviarem alguém para lá.
A Human Rights Watch defende que as deportações propostas por França violariam as suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos. Abbasi pediu a suspensão dos planos e afirmou que a cooperação migratória não pode tornar-se um meio de devolver pessoas a situações de perigo grave:
«França deve suspender quaisquer planos de deportação, e a cooperação no controlo da migração não deve ser usada como instrumento para enviar pessoas de volta para um país onde enfrentariam um risco real de perseguição ou algo pior», afirmou.
França declarou quem pretende expulsar, enquanto a Human Rights Watch identificou as preocupações de proteção que, segundo a organização, continuam sem resposta. A divergência imediata consiste em saber se um acordo de regresso pode avançar enquanto esses riscos persistirem sob o domínio dos talibãs.
Pontos principais
- A Human Rights Watch instou França, a 13 de outubro de 2026, a suspender os planos de regresso forçado ao Afeganistão.
- França afirma que as conversações com as autoridades talibãs dizem respeito a afegãos que vivem ilegalmente em França e são considerados riscos para a segurança nacional.
- A HRW alerta que os deportados poderão enfrentar perseguição, detenção, tortura e outros abusos graves.
- As mulheres e as raparigas estão sujeitas, sob o domínio talibã, a restrições na educação, no emprego, na circulação e na vida pública.
- Uma delegação talibã discutiu migração e regressos com responsáveis europeus em Bruxelas, em junho de 2026.
- Segundo a HRW, a Alemanha deportou 263 afegãos desde o ano anterior.
- A agência das Nações Unidas para os refugiados instou os países a respeitarem a regra que proíbe o regresso de pessoas a situações de perigo grave.
- O TPI anunciou, a 5 de outubro de 2026, que levantara o segredo de justiça de quatro mandados contra altos responsáveis talibãs, que alegam a prática do crime contra a humanidade de perseguição por motivos de género e políticos, nos termos do artigo 7.º, n.º 1, alínea h), do Estatuto de Roma.






