Casas elevadas mais de três metros continuam a inundar
A casa de Kamonchanok Sathaphonamonwut, na província tailandesa de Ayutthaya, fica a mais de três metros do chão. Mesmo assim, não é suficientemente alta. A água das cheias entra em casa há seis anos consecutivos, levando a família de três pessoas a dormir em plataformas improvisadas, sem poder usar a sanita inundada e dependendo de um barco para se deslocar.
Índice
- Casas elevadas mais de três metros continuam a inundar
- A proteção concentrou o ónus
- Porque chega água mesmo quando a chuva local para
- Protestos após meses de inundação
- Reduzir as descargas não traz alívio imediato
- Nem todos os bairros inundados foram escolhidos deliberadamente
- O custo da adaptação recai sobre as famílias
- Uma proposta para que as zonas protegidas contribuam
- Canal de desvio deverá estar concluído em 2030
- Principais pontos
A sua comunidade faz parte dos aglomerados ribeirinhos que suportam o custo dos esforços para proteger Banguecoque, o centro histórico de Ayutthaya e as zonas industriais ao longo do rio Chao Phraya. Diques, comportas e desvios têm protegido, em grande medida, esses centros económicos, enquanto algumas aldeias expostas enfrentam cheias mais profundas, cuja água demora meses a escoar.
Kamonchanok, residente cuja família já elevou a casa duas vezes, descreveu os limites dessas adaptações:
A nossa zona já não consegue simplesmente lidar com tanta água.
A pressão vai além de uma única aldeia. A 7 de novembro de 2025, cerca de 300 residentes reuniram-se no distrito de Sena para protestar contra as cheias prolongadas e exigir alterações à gestão da água. Uma notícia publicada a 8 de novembro descreveu zonas de Ayutthaya inundadas há mais de três meses, com transbordamentos dos rios a afetarem Sena, Bang Ban e Phak Hai desde maio.
Uma atualização distinta, divulgada numa segunda-feira pelo Departamento de Prevenção e Mitigação de Catástrofes, indicou que 2,46 milhões de pessoas foram afetadas pelas cheias persistentes em zonas de Banguecoque e de 20 províncias. Essa atualização não indica uma data concreta, pelo que não deve ser considerada uma medição direta das condições a 8 de novembro.
A proteção concentrou o ónus
Após as devastadoras cheias de 2011 na Tailândia, o Governo expandiu os diques, as comportas e outras infraestruturas para encaminhar a água para longe da capital, da cidade histórica de Ayutthaya e das zonas industriais. As defesas reduziram a exposição nessas áreas protegidas, mas os residentes fora delas afirmam que as suas comunidades foram negligenciadas.
O ambientalista conservacionista Sasin Chalermlarp defende que a água das cheias, que antes se espalhava por grande parte de Ayutthaya, está agora concentrada em apenas 5 a 10% da província. Trata-se da sua avaliação, não de um valor provincial medido e divulgado pelas autoridades de irrigação. Ainda assim, descreve a questão central em disputa: proteger com êxito uma zona pode deixar uma área menor a suportar um ónus mais pesado.
A cerca de 20 quilómetros das ruínas dos templos seculares de Ayutthaya, os residentes contam que as cheias, que antes lhes chegavam aos joelhos, agora ultrapassam-lhes a cabeça em alguns locais. Algumas casas foram abandonadas; outras ficaram submersas até ao telhado.
Sasin atribui ao Governo uma gestão eficaz das cheias nas planícies centrais, mas considera cruéis as consequências para as pessoas nas zonas que recebem a água. A distinção está entre reduzir os danos em toda uma bacia hidrográfica e tornar a vida suportável para as famílias que absorvem a água das cheias que resta.
Porque chega água mesmo quando a chuva local para
Ayutthaya situa-se numa planície aluvial baixa e plana, a jusante, na bacia do Chao Phraya. A chuva que cai mais a norte entra nos rios e afluentes e segue depois para sul, em direção à província, a Banguecoque e ao golfo da Tailândia. Por isso, um dia seco em Ayutthaya não significa que os rios deixem de subir.
A barragem e o açude do Chao Phraya, em Chai Nat, controlam e distribuem os caudais a montante de Ayutthaya. Alterar a quantidade de água que passa afeta os níveis a jusante, mas não elimina o escoamento que entra na bacia. As autoridades têm de equilibrar a água que se acumula a montante com a capacidade dos rios, canais e planícies aluviais a jusante.
O terreno plano também abranda o escoamento. Quando o nível de um rio é superior ao de um canal ou campo inundado nas proximidades, a água não consegue simplesmente voltar a entrar no rio. Pode ser necessário recorrer a comportas e bombas, e a precipitação repetida deixa menos espaço para a água nova se infiltrar no solo.
Thanet Somboon, porta-voz do Departamento Real de Irrigação, apontou as alterações climáticas, a baixa altitude da zona e os diques construídos recentemente, que alteraram o curso natural do rio, como fatores que contribuem para cheias mais graves a jusante. Disse que uma descarga à mesma velocidade de antigamente pode ter agora um impacto maior. Quando os canais de desvio ficam cheios, a água restante tem de continuar a descer o rio.
Protestos após meses de inundação
Os protestos de novembro de 2025 trouxeram para o espaço público as decisões operacionais. Os residentes reunidos em Sena pediram ao Departamento Real de Irrigação que reconsiderasse os caudais de descarga e acelerasse as medidas para aliviar as dificuldades que enfrentam. Algumas famílias afetadas tinham abandonado as casas e refugiavam-se à beira da estrada.
As autoridades também respondiam aos avisos sobre a tempestade Kalmaegi. O Departamento de Irrigação aumentou a descarga no açude do Chao Phraya, em Chai Nat, prevendo-se que o nível do rio a jusante subisse entre 60 e 90 centímetros. Para uma família que já vive junto à linha de água, uma subida destas pode eliminar o pouco espaço seco que resta.
A sequência dos acontecimentos mostra como as decisões sobre desvios e os danos nas infraestruturas afetaram as comunidades em simultâneo:
- Desde maio de 2025: os transbordamentos dos rios afetaram os distritos de Sena, Bang Ban e Phak Hai.
- 6 de novembro: o Departamento de Prevenção e Mitigação de Catástrofes alertou para a possibilidade de cheias em grande parte da Tailândia devido à tempestade Kalmaegi.
- 7 de novembro: cerca de 300 residentes protestaram em Sena, pedindo que as decisões sobre as descargas fossem reconsideradas.
- Final do dia 7 de novembro: uma comporta no Khlong Ta Nguen, em Bang Ban, cedeu, permitindo que a água entrasse nas zonas próximas e numa comunidade de Phak Hai.
- 8 de novembro: as autoridades prosseguiram os trabalhos de drenagem e as operações para tapar as barreiras que cederam, enquanto o nível do rio subia.
As autoridades abriram as comportas de Khlong Kamonchin e Chao Chet para desviar a água para outras zonas designadas. Segundo relatos, a água recuou ligeiramente em alguns locais depois de um maior caudal passar pela comporta danificada de Khlong Ta Nguen. Esse alívio local não significa que a avaria não tenha causado danos: a mesma abertura permitiu que a inundação se propagasse a outros locais.
Reduzir as descargas não traz alívio imediato
Na atualização distinta divulgada numa segunda-feira, Lalida Persvivatana, vice-porta-voz do Governo, afirmou que a descarga no açude do Chao Phraya tinha sido reduzida de 2.000 para 1.900 metros cúbicos por segundo. Trata-se de uma redução de 100 metros cúbicos por segundo, ou 5%.
O porta-voz do Departamento de Irrigação, cujo nome foi transcrito como Thanes Somboon nessa atualização, afirmou que a descarga mais lenta deveria reduzir os níveis das cheias a jusante. O corredor fluvial afetado abrange Chai Nat, Sing Buri, Ang Thong, Ayutthaya, Nonthaburi, Pathum Thani, Samut Prakan e Banguecoque.
Nirat Pongsitthithaworn, diretor-geral do Departamento de Prevenção de Catástrofes, atribuiu as cheias à acumulação de precipitação intensa e ao escoamento proveniente do norte. O departamento referiu que os níveis da água estavam a baixar em Ayutthaya e em várias outras províncias centrais, mas permaneciam estáveis noutros locais e continuavam a subir em Phetchaburi.
Estas diferenças são importantes. Uma redução da descarga no açude não escoa de imediato todas as comunidades inundadas, e a descida do nível de um rio não significa que uma casa esteja novamente habitável. A água pode continuar retida atrás de estradas ou diques, enquanto os cursos de água que a deveriam receber permanecem demasiado altos para permitir o escoamento.
Noutras bacias, as limitações eram diferentes. A maré alta atrasou o escoamento do rio Bang Pakong, em Chachoengsao, levando à mobilização de barcos concebidos para empurrar a água para jusante. As autoridades de irrigação também reduziram as descargas da barragem de Kaeng Krachan para limitar as cheias no centro de Phetchaburi. Estas medidas incidem sobre cursos de água distintos, não sobre uma única cheia nacional que avance uniformemente em direção ao mar.
Nem todos os bairros inundados foram escolhidos deliberadamente
Algumas zonas baixas retêm água temporariamente ou encaminham-na por percursos geridos, reduzindo a pressão mais a jusante, incluindo nos arredores de Banguecoque. Isso não significa que cada propriedade inundada tenha sido deliberadamente escolhida para ficar submersa. Os transbordamentos dos rios, a chuva local, as barreiras danificadas e a capacidade limitada de drenagem podem todos contribuir.
A exposição às cheias também varia dentro dos distritos. Existem zonas vulneráveis em Sena, Phak Hai, Bang Ban, Phra Nakhon Si Ayutthaya, Bang Pa-in e Bang Sai, mas nem todos os bairros desses distritos inundam em simultâneo ou à mesma profundidade.
A elevação do terreno onde a casa se situa, a proximidade de um rio ou canal, a localização dos diques nas imediações e o estado das vias de drenagem influenciam todos o risco. Uma estrada elevada pode continuar transitável enquanto as casas próximas ficam inundadas; um edifício pode permanecer seco enquanto a sua única via de acesso desaparece debaixo de água.
A catástrofe de 2011 serve de referência para um acontecimento excecional que afetou toda a bacia, não sendo representativa de um ano normal. Uma avaliação do Banco Mundial registou mais de 13 milhões de pessoas afetadas em todo o país. Um pico de cheia excecionalmente elevado em Nakhon Sawan ilustrou como a precipitação intensa a montante pode traduzir-se em danos prolongados mais a sul. As queixas atuais das aldeias dizem respeito tanto à exposição repetida como à ameaça de outra catástrofe excecional.
O custo da adaptação recai sobre as famílias
Elevar uma casa tornou-se uma despesa recorrente, em vez de uma solução permanente. Os residentes estimam que os custos variam entre 100.000 e um milhão de baht, consoante a dimensão do edifício e a altura a que tem de ser levantado. Algumas famílias pagaram o trabalho duas vezes em poucos anos, recorrendo às poupanças e contraindo dívidas.
A família de Kamonchanok elevou a casa duas vezes na década de 1990, levantando-a mais 1,5 metros na segunda ocasião. A água chegou à casa em 2011 e entrou nela em cada um dos últimos seis anos consecutivos. Agora, levanta os eletrodomésticos e os pertences para os colocar acima da linha de água e desloca-se de barco.
Ao descrever o que as cheias repetidas deixaram a família capaz de fazer, Kamonchanok afirmou:
Tudo o que podemos fazer é lidar com as consequências. Só até certo ponto conseguimos adaptar-nos.
Sawong Raksri, residente de 87 anos, gastou mais de um milhão de baht a elevar a casa. A sua resposta revela resignação, e não confiança de que o investimento vá resolver o problema:
Ultimamente, inunda todos os anos. De que serve queixarmo-nos?
Estas despesas não resolvem todas as perdas. Um piso mais alto não basta para recuperar uma sanita inundada, tornar transitável uma estrada submersa ou reduzir os meses que a água nas imediações demora a escoar.
Uma proposta para que as zonas protegidas contribuam
Sasin propôs a criação de um imposto para quem beneficia das defesas contra cheias, usando a receita para ajudar as famílias afetadas a elevar as casas e reparar os danos. O seu argumento é que as comunidades que acomodam a água das cheias beneficiam os locais que permanecem secos e devem receber apoio por isso.
A proposta não foi aprovada. Thanet afirmou que merece ser estudada mais aprofundadamente, para determinar como ajudar as pessoas que sacrificam as suas terras para acomodar a água. Nos relatos da proposta, não foram anunciados uma taxa, um mecanismo de cobrança, critérios de elegibilidade ou uma data de implementação.
Thanet afirmou também que as autoridades poderão ter de rever as infraestruturas para manter a água das cheias dentro dos limites previstos. Esse reconhecimento liga as queixas das famílias à conceção e ao funcionamento das defesas, em vez de tratar a elevação das casas como única resposta.
A comunidade de Kamonchanok não exige que as inundações deliberadas acabem por completo. O seu pedido é mais concreto: limitar os níveis da água e prestar apoio financeiro às pessoas cujas casas ficam abaixo da linha de cheia. Esta distinção permite manter zonas de retenção de água, procurando limitar os danos que os residentes têm de suportar.
Canal de desvio deverá estar concluído em 2030
A principal resposta do Governo em termos de infraestruturas é um canal de desvio, com um custo de 780 milhões de dólares, concebido para transportar 1.200 metros cúbicos de água por segundo em torno do estrangulamento onde o Chao Phraya estreita ao atravessar Ayutthaya. A conclusão está prevista para 2030.
A capacidade indica o volume de água que passa por segundo, não uma redução garantida da profundidade da cheia junto a uma casa em particular. O benefício para uma aldeia dependerá da ligação do canal ao rio, do modo como for operado e da quantidade de água que chegar durante cada cheia.
O objetivo declarado do canal é contornar um troço estreito do rio. A data prevista para a conclusão não resolve as questões imediatas do apoio às famílias, dos níveis de água aceitáveis ou da gestão das comportas e dos diques existentes antes da entrada em funcionamento do canal. Não foi indicada uma data de conclusão antecipada nem um prazo firme para decidir sobre o imposto proposto.
Kamonchanok formulou o seu pedido em torno da possibilidade de continuar a viver na sua própria casa, e não da exigência de que a sua comunidade nunca receba água das cheias:
Só pedimos que nos deixem viver confortavelmente nas nossas próprias casas. Porque não nos podem dar isso?
Principais pontos
- Algumas aldeias de Ayutthaya enfrentam cheias mais profundas e prolongadas, enquanto as defesas protegem Banguecoque, as zonas históricas e os centros industriais.
- Cerca de 300 residentes protestaram em Sena a 7 de novembro de 2025, após meses de inundação.
- Uma atualização distinta do departamento de prevenção de catástrofes indicou que 2,46 milhões de pessoas foram afetadas em zonas de Banguecoque e de 20 províncias.
- Os residentes estimam que elevar uma casa custa entre 100.000 e um milhão de baht, e algumas famílias pagam repetidamente.
- A proposta de um imposto sobre os beneficiários da proteção contra cheias não foi aprovada.
- Um canal de desvio de 780 milhões de dólares, concebido para transportar 1.200 metros cúbicos por segundo, deverá estar concluído em 2030.






