Milhares continuam deslocados, apesar do regresso de muitos
Cerca de 24 000 cambojanos permanecem em abrigos temporários, zonas designadas como seguras e aldeias, na sequência do conflito de 2025 com a Tailândia, apesar de aproximadamente 625 000 pessoas terem regressado a casa, segundo uma atualização de 7 de outubro do Ministério do Interior do Camboja. O arame farpado que bloqueia o acesso às comunidades fronteiriças e as munições não detonadas continuam a dificultar o regresso.
Índice
- Milhares continuam deslocados, apesar do regresso de muitos
- Menos pessoas deslocadas, mas continuam a circular estimativas diferentes
- Dos combates à deslocação prolongada
- Porque continua a ser disputado o acesso às casas
- Os riscos de explosivos persistem após o cessar-fogo
- Regressar a casa não significa que os serviços tenham sido restabelecidos
- Aldeias temporárias e o direito de regressar
- As negociações terrestres e os procedimentos marítimos são distintos
- O que continua por resolver
- Principais pontos
O ministério estimou em cerca de 649 000 o número de pessoas deslocadas. A sua avaliação dos danos identificou 1558 casas, 26 escolas, 14 hospitais e centros de saúde, 87 troços de estrada e cinco pontes, além de danos no abastecimento de água, nas infraestruturas elétricas e em locais religiosos. O templo de Preah Vihear, Património Mundial da UNESCO, foi um dos monumentos antigos que terão sido danificados.
Os valores arredondados sugerem que cerca de 96,3 por cento dos cambojanos deslocados regressaram, permanecendo aproximadamente 3,7 por cento fora de casa. Trata-se de uma recuperação substancial face a fevereiro, quando o ministério registou 65 174 pessoas ainda sem poder regressar. Porém, isso não permite concluir se quem regressou voltou a ter acesso a escolas em funcionamento, serviços de saúde ou meios de subsistência seguros.
O Camboja atribui a deslocação a ataques militares tailandeses em julho e dezembro de 2025. A Tailândia contesta a versão cambojana sobre o território e afirma que as suas forças recuperaram território tailandês. As reivindicações opostas têm consequências diretas para as famílias cujas casas ficam atrás de posições militares e barreiras.
O cessar-fogo de 27 de dezembro de 2025 pôs fim aos combates, mas as disposições relativas ao regresso de civis não permitiram que todas as famílias voltassem a casa. A deslocação que persiste está ligada a três problemas por resolver: o acesso às comunidades disputadas, os riscos de explosivos e os danos nos serviços necessários para que essas comunidades sejam habitáveis.
Menos pessoas deslocadas, mas continuam a circular estimativas diferentes
Os dados cambojanos mais claros, com datas definidas, mostram uma diminuição ao longo de vários meses. Às 7h00 de 24 de fevereiro, o Ministério do Interior contabilizava 65 174 pessoas sem poder regressar, incluindo 34 338 mulheres e 21 793 crianças. Em 15 de junho, o total tinha descido para 28 460, incluindo 14 613 mulheres e 9592 crianças.
Face ao total de fevereiro, as cerca de 24 000 pessoas registadas em outubro representam uma redução de aproximadamente 41 174 pessoas, ou 63 por cento. Em relação ao valor de junho, a descida é de cerca de 4460 pessoas, ou 16 por cento. Estas comparações descrevem a evolução dos números divulgados, não um registo verificado dos movimentos de cada família.
Outras declarações públicas apresentam estimativas inferiores. O relator especial das Nações Unidas para os direitos humanos no Camboja, Thomas Andrews, referiu cerca de 20 000 pessoas após uma visita à fronteira e mais de 18 000 num discurso perante a 63.ª sessão do Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Nessa sessão, o embaixador cambojano Ke Sovann afirmou que mais de 20 000 pessoas continuavam sem poder regressar.
Estes valores diferem do total ministerial de outubro. Sem datas de referência e métodos de contagem coincidentes, não devem ser tratados como equivalentes nem organizados numa sequência precisa de regressos. As referências a cerca de 24 000 ou a mais de 24 000 também refletem o caráter arredondado do total mais recente.
Dos combates à deslocação prolongada
O conflito incluiu duas grandes rondas de combates em 2025. A avaliação do International Crisis Group, de 9 de outubro, indica que os confrontos provocaram pelo menos 150 mortos e deslocaram quase um milhão de pessoas nos dois países. Os cerca de 649 000 civis deslocados no Camboja correspondem a um total nacional, não ao número nos dois lados da fronteira.
Os principais acontecimentos e as atualizações datadas sobre as pessoas deslocadas foram:
- Maio de 2025: Uma troca de tiros matou um soldado cambojano, antes dos confrontos de maior dimensão.
- Final de julho de 2025: Cinco dias de combates terminaram com um cessar-fogo alcançado por mediação da Malásia e sob pressão dos Estados Unidos.
- Dezembro de 2025: Uma segunda grande ronda de combates provocou novas deslocações antes do cessar-fogo de 27 de dezembro.
- 24 de fevereiro de 2026: O Camboja registou 65 174 pessoas ainda sem poder regressar a casa.
- 15 de junho de 2026: A população deslocada que permanecia fora de casa era de 28 460 pessoas.
- 7 de outubro de 2026: O ministério comunicou cerca de 625 000 regressos e aproximadamente 24 000 pessoas ainda deslocadas.
Andrews também citou números governamentais de cerca de 650 000 cambojanos deslocados e 400 000 cidadãos tailandeses deslocados no auge do conflito. Em conjunto, estas estimativas totalizam cerca de 1,05 milhões de pessoas. O valor é ligeiramente superior à referência do Crisis Group a quase um milhão, embora ambos transmitam a dimensão das deslocações nos dois lados.
Porque continua a ser disputado o acesso às casas
O vice-primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros do Camboja, Prak Sokhonn, abordou os obstáculos ao regresso na 61.ª sessão do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, em Genebra, a 24 de fevereiro. Um relato oficial do Governo sobre a sua intervenção descreveu barreiras de arame farpado e contentores que restringem o acesso a algumas zonas fronteiriças.
Sokhonn afirmou que civis tinham sido expulsos à força das aldeias, que casas tinham sido destruídas e que fora construída infraestrutura militar em zonas que o Camboja descreveu como ocupadas. Estas são alegações do Camboja, não conclusões do Conselho dos Direitos Humanos.
A Tailândia sustenta que está a cumprir a disposição do cessar-fogo que permite às tropas permanecerem onde se encontravam quando o acordo entrou em vigor. Afirma também que alguns cambojanos deslocados tinham ocupado território tailandês. Na sessão posterior do Conselho dos Direitos Humanos, a representante tailandesa Pratana Dilsyatat argumentou que algumas das zonas afetadas tinham origem em abrigos temporários instalados em território tailandês na década de 1970.
Ke Sovann, embaixador e representante permanente do Camboja junto do Serviço das Nações Unidas em Genebra, rejeitou essa versão. Invocou a Convenção de 1904 e o Tratado de 1907 como base jurídica das fronteiras reconhecidas e afirmou que a deslocação resultou dos ataques de 2025.
Para os civis, a consequência prática é que uma linha de cessar-fogo não corresponde necessariamente a um caminho aberto para casa. A atualização de outubro mencionou a aldeia de Rong Cham entre os locais onde permanecem pessoas deslocadas, além de abrigos temporários e campos seguros. Não indicou um calendário de reabertura do acesso local a cada localidade.
Os riscos de explosivos persistem após o cessar-fogo
O Centro Cambojano de Ação contra as Minas alertou para o risco de as munições não detonadas continuarem a ameaçar civis após o acordo de paz. A expressão «munições não detonadas» refere-se a bombas, obuses ou outro tipo de munição que não explodiu quando foi utilizado, mas que ainda pode detonar se for perturbado.
Este é um obstáculo distinto do arame farpado. A remoção de uma barreira física não significa que uma casa, estrada ou campo seja seguro. Uma família pode voltar a ter autorização para entrar na sua aldeia e, ainda assim, enfrentar riscos de explosivos junto aos locais onde vive e trabalha.
Andrews, o relator especial da ONU, contou ter visto casas com marcas de tiros e uma bomba entre os escombros durante a visita à fronteira. Ao falar da urgência de resolver a situação das pessoas deslocadas, afirmou:
Esta crise tem de ser resolvida o mais depressa possível, devido ao sofrimento humano que envolve.
O Crisis Group afirma que a cooperação na desminagem está suspensa desde os combates de 2025, apesar de esta estar prevista no acordo de cessar-fogo. A Tailândia também manifestou preocupação com minas terrestres recentemente colocadas e sustenta que a sua versão sobre esses incidentes não tem sido devidamente refletida no debate internacional.
A distinção entre minas terrestres e munições não detonadas é importante para identificar e remover os riscos, mas ambas podem impedir a circulação segura de civis. A atualização de outubro sobre as deslocações não apresenta um calendário de desminagem concluída nem uma data em que todas as comunidades afetadas possam ser declaradas seguras.
Regressar a casa não significa que os serviços tenham sido restabelecidos
O inventário de danos do Ministério do Interior mostra por que razão a reabertura do acesso, por si só, não basta para concluir a recuperação. Além de 1558 casas danificadas, o ministério registou danos em 26 escolas e 14 hospitais e centros de saúde. Também foram afetadas estradas, pontes, sistemas de abastecimento de água e infraestruturas de transmissão elétrica.
Uma avaliação separada, realizada em junho, documentou instalações que continuavam encerradas em três províncias fronteiriças. Em Oddar Meanchey, oito escolas e cinco hospitais ou centros de saúde estavam encerrados. Em Banteay Meanchey, cinco escolas e uma unidade de saúde ainda não tinham reaberto. Em Preah Vihear, estavam encerradas sete escolas e dois hospitais ou centros de saúde.
No total, em junho, 20 escolas e oito unidades de saúde continuavam encerradas nas três províncias. Estes números não devem ser equiparados aos totais de danos de outubro: medem realidades diferentes em datas diferentes. Um edifício danificado pode reabrir, enquanto uma instalação pode continuar encerrada devido a condições de acesso ou de segurança.
O ministério também comunicou danos em edifícios administrativos, locais religiosos, no templo de Preah Vihear e noutros templos antigos ao longo da fronteira. Não especificou a extensão dos danos em cada monumento, os custos de reparação ou os prazos de restauro.
Em conjunto, os números mostram os limites de usar o total de regressos como único indicador da recuperação. Chegar a casa é um passo. Ter acesso regular a água, transportes, ensino e cuidados médicos é outro, e a atualização de outubro não indica quantas famílias que regressaram dispõem de todos esses serviços.
Aldeias temporárias e o direito de regressar
O presidente do Senado, Hun Sen, que falava na qualidade de chefe de Estado interino, descreveu os alojamentos destinados aos residentes deslocados como «Aldeias de Espera». Disse que se destinavam a proporcionar segurança e estabilidade enquanto as famílias aguardavam condições que lhes permitissem regressar às comunidades de origem, e não a transformarem-se em povoações permanentes.
A declaração ministerial de junho referia que os residentes estavam separados das terras agrícolas, dos negócios e das escolas. Por isso, a deslocação não é apenas um problema de habitação: o alojamento não restabelece o acesso à terra, ao trabalho ou às rotinas que sustentavam a vida quotidiana antes dos combates.
Ao falar dos direitos dos civis deslocados após a visita à fronteira, Andrews afirmou:
O direito internacional é muito claro: as pessoas deslocadas numa situação de conflito como esta têm o direito de regressar a casa.
No Conselho dos Direitos Humanos, apelou ao regresso das comunidades afetadas a um ambiente estável e seguro e à retoma dos meios de subsistência interrompidos. Representantes do Camboja e da ASEAN também apelaram à aplicação da declaração conjunta de 27 de dezembro, incluindo as disposições relativas ao regresso de civis e aos seus meios de subsistência.
Andrews afirmou que o seu trabalho se centraria nas consequências do conflito para os direitos humanos, em vez de determinar quem era responsável pelo início das hostilidades. Esta distinção deixa por resolver a disputa territorial, mantendo a proteção dos civis e o acesso no centro da sua avaliação.
As negociações terrestres e os procedimentos marítimos são distintos
O relatório do Crisis Group, intitulado Toward a Thaw in the Cambodia-Thailand Border Conflict, identifica a estagnação diplomática como um risco persistente para o cessar-fogo. Recomenda o restabelecimento de relações diplomáticas normais, a retoma dos trabalhos de delimitação da fronteira e a renovação da cooperação na desminagem.
A Comissão Mista de Fronteiras funciona ao abrigo de um memorando de entendimento de 2000 que rege o levantamento e a demarcação da fronteira terrestre. Segundo o Crisis Group, a comissão conseguiu delimitar cerca de 600 quilómetros dos aproximadamente 800 quilómetros da fronteira, restando cerca de 200 quilómetros. Com base nestes valores, cerca de três quartos da fronteira já foram delimitados.
A delimitação consiste em estabelecer a fronteira, enquanto a demarcação implica identificá-la ou assinalá-la no terreno. A comissão constitui um mecanismo para o trabalho técnico, mas, segundo o Crisis Group, não tem mandato nem meios para resolver por si só o impasse político.
Outra disputa diz respeito às reivindicações marítimas sobrepostas. Segundo o relatório, a Tailândia retirou-se, em maio de 2026, do memorando de 2001 que aborda essas reivindicações, levando o Camboja a iniciar um processo de conciliação obrigatória ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, conhecida pela sigla UNCLOS.
A conciliação obrigatória é um processo jurídico destinado a ajudar as partes a chegar a um acordo, não a impor uma decisão vinculativa. O Crisis Group afirma que o processo demorará pelo menos um ano a concluir. Não constitui um calendário direto para reabrir as aldeias fronteiriças terrestres, e o relatório indica que, posteriormente, a Tailândia suspendeu a participação nos mecanismos bilaterais de delimitação da fronteira terrestre.
O que continua por resolver
O cessar-fogo permitiu o regresso de centenas de milhares de cambojanos, mas não foi anunciada qualquer data para o regresso de todas as pessoas que continuam deslocadas. Os dados ministeriais de outubro também não apresentam uma discriminação completa dos residentes que permanecem deslocados por povoação nem explicam a relação entre o total indicado e os valores inferiores citados nas Nações Unidas.
Continuam por divulgar vários marcos práticos: quando serão reabertas as vias bloqueadas, que zonas foram desminadas, quantas instalações públicas danificadas estão novamente em funcionamento e que obras são necessárias em cada local do património. Sem esses dados, a redução do número de pessoas deslocadas não permite fazer um balanço completo da recuperação.
O Crisis Group alerta que as acusações mútuas, a suspensão da cooperação técnica e as pressões políticas internas podem fazer com que um incidente menor desencadeie novos combates. As medidas propostas são recomendações, não um calendário acordado. Não foi indicada a data da próxima reunião da Comissão Mista de Fronteiras nem um prazo para concluir a desminagem.
Sokhonn, ministro dos Negócios Estrangeiros do Camboja, apelou em Genebra à aplicação dos acordos existentes, à retirada das forças tailandesas do território cambojano e à resolução pacífica do conflito ao abrigo do direito internacional. Ao explicar a abordagem que o Camboja defendia, afirmou:
Só uma abordagem deste tipo permitirá aos dois povos coexistir em paz, estabilidade e respeito mútuo.
Para as famílias que continuam à espera, o teste imediato é saber se os compromissos do cessar-fogo se traduzirão num acesso seguro às casas e aos meios de subsistência. O regresso de cerca de 625 000 pessoas representa um progresso substancial, mas a deslocação que persiste mostra que o fim dos combates não pôs termo às consequências para os civis.
Principais pontos
- A atualização do Ministério do Interior do Camboja, de 7 de outubro, indicou que cerca de 24 000 pessoas continuavam deslocadas e que aproximadamente 625 000 tinham regressado a casa.
- O número de pessoas ainda deslocadas desceu de 65 174 em fevereiro para 28 460 em junho, embora outras declarações públicas apresentem estimativas diferentes.
- Barreiras, posições militares e riscos de explosivos continuam a dificultar o regresso a algumas comunidades fronteiriças.
- O ministério comunicou danos em 1558 casas, 26 escolas, 14 instalações de saúde, 87 troços de estrada e cinco pontes.
- O Camboja e a Tailândia contestam as reivindicações territoriais e as circunstâncias que impedem o regresso dos civis.
- A cooperação na desminagem e os trabalhos de delimitação da fronteira terrestre continuam paralisados, sem data anunciada para o regresso de todas as famílias deslocadas.






