Ofertas, candidaturas aceleradas e alegada fraude com subsídios
Uma antiga diretora da Cyberport e cinco pessoas ligadas a um fornecedor de tecnologia foram acusadas em Hong Kong de alegada corrupção e fraude envolvendo pelo menos 400 candidaturas a subsídios públicos para tecnologia, no valor aproximado de 20 milhões de dólares de Hong Kong. O processo, com o número ESCC 2425/2026, foi adiado para 4 de janeiro de 2027, tendo os seis arguidos sido libertados sob caução.
Índice
- Ofertas, candidaturas aceleradas e alegada fraude com subsídios
- Quem enfrenta acusações?
- O que se pretendia obter com as alegadas ofertas
- Como o mecanismo de financiamento terá dado origem a fraude
- O que revelam as 400 candidaturas e os 20 milhões de dólares de Hong Kong
- Como o processo se insere na operação de janeiro
- As datas que delimitam o caso
- Caução, prova e próxima audiência
- Medidas de prevenção anunciadas juntamente com as operações
- Pontos principais
Su Yali (蘇雅麗), de 59 anos, antiga diretora de empreendedorismo da Cyberport, terá aceitado bilhetes de avião, malas e um telemóvel do proprietário da Find Solution Ai Limited em troca de favorecer a empresa nas candidaturas ao abrigo do Programa-Piloto de Apoio à Transformação Digital. Os investigadores alegam que acelerou candidaturas relacionadas com o fornecedor e travou uma investigação a queixas de candidatos ao programa.
A acusação reúne duas acusações de corrupção e uma acusação autónoma de conspiração para defraudar contra cinco arguidos. A alegada fraude diz respeito a declarações de que pequenas e médias empresas tinham solicitado apoio, contratado os serviços da Find Solution e pago a sua parte das despesas. Essas declarações terão levado a Cyberport a aprovar as candidaturas e a pagar ao fornecedor a parte restante, a título de apoio público.
Os arguidos não tiveram de apresentar uma declaração de culpa ou inocência quando compareceram no Tribunal de Magistrados de Eastern. A investigação prossegue e nenhuma das alegações foi comprovada por condenação. O processo judicial diz respeito a cerca de 20 milhões de dólares de Hong Kong, um valor inferior aos montantes divulgados anteriormente no âmbito da investigação mais ampla ao programa.
Quem enfrenta acusações?
Su é acusada de um crime de aceitação de vantagem por funcionário público, ao abrigo do artigo 4.º, n.º 2, alínea a), da Lei de Prevenção da Corrupção. Lin Yuanli (林苑莉), de 39 anos, que dirige a Find Solution Ai Limited, é acusada de oferecer uma vantagem a um funcionário público, ao abrigo do artigo 4.º, n.º 1, alínea a), da mesma lei.
Lin enfrenta também uma acusação de conspiração para defraudar, de direito comum, juntamente com o irmão, Lin Jianhao (林健濠), de 35 anos, secretário da empresa, e três pessoas descritas como agentes comerciais a jusante da Find Solution. Os agentes promoviam os serviços de tecnologia digital do fornecedor junto de pequenas e médias empresas.
- Li Yilin (李易璘), de 40 anos, é identificado em relatos do tribunal como diretor e acionista da Hong Kong Vision Enterprise Limited (香港願景企業有限公司).
- Chen Kaijin (陳凱進), de 31 anos, é identificado como diretor e acionista da 訊達坊有限公司.
- Zeng Weiping (曾偉平), de 52 anos, é também identificado como diretor e acionista da 訊達坊有限公司.
Os relatos divergem quanto à função de Lin Yuanli na empresa: notícias sobre a investigação chamam-lhe empresária em nome individual da Find Solution, enquanto os relatos do tribunal a identificam como diretora e acionista. Ambas as descrições a colocam no centro das operações do fornecedor. Su não é identificada como arguida na acusação de conspiração, segundo as acusações noticiadas.
O que se pretendia obter com as alegadas ofertas
As alegações de corrupção abrangem o período entre 27 de outubro de 2023 e 14 de dezembro de 2025. Os relatos do tribunal descrevem as alegadas vantagens como mais de um bilhete de avião, uma mala de mão, dois sacos de pano, uma bolsa para moedas e um telemóvel. Os relatos da investigação referem voos de ida e volta entre Hong Kong e a Tailândia e o Japão, malas de marca e um smartphone.
Estas descrições apresentam diferentes níveis de detalhe sobre as alegadas ofertas. Não foi divulgado o seu valor monetário total. A acusação contra Su alega que aceitou as vantagens sem autorização legal ou motivo razoável, como incentivo ou recompensa por favorecer a Find Solution nas candidaturas a subsídios.
O alegado favorecimento envolveu duas ações administrativas distintas: acelerar candidaturas relacionadas com a Find Solution e suspender uma investigação a queixas sobre a empresa. A alegação relativa às queixas é relevante por si só, pois diz respeito a saber se as preocupações manifestadas pelos candidatos foram sujeitas a análise.
Su foi responsável pela secretaria do programa entre outubro de 2023 e janeiro de 2026. As suas funções incluíam a análise dos documentos das candidaturas a subsídios e a organização da libertação dos fundos. As alegações dizem, por isso, respeito a ofertas que terão sido feitas a alguém com responsabilidade direta por decisões que afetavam o fornecedor, e não a uma funcionária sem funções no programa.
Como o mecanismo de financiamento terá dado origem a fraude
O Programa-Piloto de Apoio à Transformação Digital ajuda pequenas e médias empresas a adotarem soluções digitais existentes, fornecidas por prestadores de serviços registados. Entre os exemplos contam-se sistemas de pagamento eletrónico, ferramentas de promoção em linha e sistemas de gestão de clientes. A Cyberport assegura a secretaria do programa, e a Find Solution era um dos prestadores de serviços.
As empresas participantes têm de pagar metade do custo da solução escolhida, cabendo ao apoio público cobrir a outra metade, até ao limite de 50 000 dólares de Hong Kong por empresa. Este requisito torna o pagamento da parte da própria empresa um elemento central do mecanismo de financiamento: o subsídio destina-se a apoiar uma aquisição para a qual a empresa também contribui.
A acusação de conspiração alega que Lin Yuanli, Lin Jianhao e os três agentes comerciais declararam falsamente que empresas elegíveis tinham apresentado candidaturas, contratado os serviços da Find Solution e pago metade dos custos dos serviços. A Cyberport terá sido induzida a aprovar as candidaturas e a pagar diretamente à Find Solution a outra metade.
O alegado período da conspiração vai de 27 de outubro de 2023 a 12 de janeiro de 2026. Os relatos do tribunal também nomeiam Liu Zhiqing (劉芷菁) como alegada participante na conspiração, mas esta não figura entre os seis arguidos neste processo. A sua situação processual não é indicada.
O que revelam as 400 candidaturas e os 20 milhões de dólares de Hong Kong
Os investigadores afirmam que o caso objeto das acusações envolve pelo menos 400 candidaturas e cerca de 20 milhões de dólares de Hong Kong em subsídios. Estes valores apontam para um volume substancial de transações, e não para uma disputa relativa a uma única compra ou candidatura.
O limite de financiamento do programa permite uma comparação útil: 400 subsídios no valor máximo de 50 000 dólares de Hong Kong totalizariam 20 milhões. Este cálculo dá uma ideia da dimensão do alegado esquema face às regras do programa. Não demonstra que todas as candidaturas tenham pedido ou recebido o valor máximo, uma vez que o número de candidaturas é um mínimo e o montante é aproximado.
As alegadas declarações falsas não dizem respeito apenas a saber se um candidato preenchia os critérios para ser considerado uma pequena ou média empresa. Dizem também respeito a saber se a empresa apresentou efetivamente a candidatura, contratou o fornecedor e fez o pagamento exigido. Trata-se de afirmações factuais distintas que fundamentam a libertação de dinheiros públicos.
Os relatos do tribunal não especificam separadamente o montante exato que foi pago, recuperado ou perdido no caso objeto das acusações. O valor aproximado de 20 milhões de dólares de Hong Kong deve, por isso, ser entendido como o montante dos subsídios abrangidos pelas alegações, e não como uma determinação judicial definitiva das perdas financeiras.
Como o processo se insere na operação de janeiro
As acusações surgem na sequência de uma investigação da Comissão Independente contra a Corrupção, conhecida como 雷鳴, ou «Thunder». Em 30 de janeiro de 2026, as autoridades revelaram que a operação dizia respeito a cerca de 1 000 candidaturas ao Programa-Piloto de Apoio à Transformação Digital, com pedidos de financiamento de 50 milhões de dólares de Hong Kong. Informaram ainda que tinham impedido pagamentos de 31 milhões de dólares de Hong Kong e detido nove pessoas.
Nessa altura, Zheng Chuming (鄭礎明), investigador principal da ICAC, descreveu alegações de que um fornecedor teria cultivado uma relação imprópria com um funcionário da Cyberport próximo da reforma. As alegadas vantagens incluíam ofertas, viagens gratuitas e benefícios a receber posteriormente. Disse também que o funcionário tinha impedido temporariamente uma investigação. Tratava-se de alegações no âmbito da investigação, não de factos dados como provados em tribunal.
Os valores divulgados em janeiro e os do atual processo referem-se a âmbitos diferentes. A informação de janeiro abrangia cerca de 1 000 candidaturas e 50 milhões de dólares de Hong Kong solicitados; as acusações atuais dizem respeito a pelo menos 400 candidaturas e aproximadamente 20 milhões. Os relatos não apresentam uma reconciliação completa das candidaturas nem explicam a situação de todas as pessoas detidas no âmbito da operação mais ampla.
O anúncio de janeiro abrangia também uma operação distinta, 震雷, relacionada com o Programa de Vales Tecnológicos. Essa investigação dizia respeito a 470 candidaturas que pediam mais de 100 milhões de dólares de Hong Kong, tendo sido impedidos pagamentos de 94 milhões e detidas 24 pessoas. Os investigadores alegaram que os participantes subornaram funcionários bancários, um agente de seguros e um gestor de contabilidade para ajudar a criar contas e registos. Essas alegações pertencem à investigação separada e não devem ser atribuídas aos seis arguidos no processo contra a Cyberport.
As datas que delimitam o caso
A conduta alegada estende-se por mais de dois anos. As diferentes datas dizem respeito às responsabilidades administrativas de Su, à alegada aceitação de ofertas, à alegada conspiração e às subsequentes medidas de investigação.
- Outubro de 2023: Su iniciou o período em que, segundo os relatos, assumiu a responsabilidade total pela secretaria do programa.
- 27 de outubro de 2023: Começaram os períodos abrangidos pelas alegações de corrupção e de conspiração.
- 14 de dezembro de 2025: Terminou o período abrangido pelas alegações de corrupção.
- 12 de janeiro de 2026: Terminou o período abrangido pela alegada conspiração.
- Janeiro de 2026: Terminou o período em que Su terá sido responsável pela secretaria.
- 30 de janeiro de 2026: As autoridades divulgaram as duas investigações sobre subsídios tecnológicos, que resultaram num total de 33 detenções.
- 4 de janeiro de 2027: Os seis arguidos deverão voltar a tribunal.
O anúncio de janeiro referia cerca de 1 500 candidaturas no conjunto das duas investigações e mais de 150 milhões de dólares de Hong Kong em tentativas de fraude com subsídios. Os totais separados das duas operações, cerca de 1 000 e 470 candidaturas, são compatíveis com esse valor combinado arredondado. As autoridades disseram ter impedido a libertação de mais de 120 milhões de dólares de Hong Kong; os montantes individuais bloqueados, 31 milhões e 94 milhões, totalizam 125 milhões.
Estes valores combinados dizem respeito ao anúncio mais amplo das operações de investigação. Não representam o valor das acusações atualmente em tribunal, e as 33 detenções não devem ser confundidas com os seis arguidos deste processo.
Caução, prova e próxima audiência
O magistrado Wang Zhengyu (王證瑜) autorizou a libertação sob caução depois de a acusação ter indicado que não se opunha. Su, Lin Yuanli e Lin Jianhao ficaram sujeitos, cada um, a uma caução de 100 000 dólares de Hong Kong. Li Yilin, Chen Kaijin e Zeng Weiping ficaram sujeitos, cada um, a uma caução de 20 000 dólares de Hong Kong. Os seis têm de permanecer em Hong Kong e não podem contactar testemunhas da acusação.
A acusação apresentou o consentimento do Departamento de Justiça para instaurar o processo e pediu um adiamento de 12 semanas para prosseguir a investigação. Descreveu um caso que envolve 49 testemunhas, incluindo 14 agentes da ICAC, cerca de 3 000 páginas de documentos e 12 entrevistas gravadas, realizadas sob advertência, num total de aproximadamente 10 horas e 45 minutos.
Uma entrevista sob advertência é uma entrevista formal de investigação em que o suspeito é avisado de que as suas respostas poderão ser usadas como prova. A existência destas gravações não indica, por si só, o que qualquer arguido disse nem prova a veracidade das acusações. O conteúdo das entrevistas não foi detalhado nos relatos da audiência.
A próxima comparência em tribunal está marcada para 4 de janeiro de 2027. Não foi anunciada qualquer data de julgamento, declaração de culpa ou inocência ou sentença. O tribunal ainda terá de determinar se as alegadas ofertas constituíram vantagens corruptas, se as declarações relativas aos subsídios foram feitas de forma desonesta e qual a responsabilidade de cada arguido.
Medidas de prevenção anunciadas juntamente com as operações
A ICAC afirma que publicará um guia de prevenção da corrupção para programas de financiamento da inovação e tecnologia e dará formação a departamentos governamentais e entidades públicas de financiamento. As orientações previstas visam reforçar a supervisão dos programas de financiamento e melhorar a capacidade dos gestores e dos participantes no setor para identificar riscos de corrupção.
O anúncio de janeiro previa a publicação do guia no segundo trimestre de 2026. O relato posterior que acompanhou as acusações voltou a referir que a publicação estava prevista, sem confirmar que tivesse ocorrido nem indicar uma nova data. Segundo estes relatos, não é possível confirmar se o guia já foi publicado.
As alegações identificam áreas concretas de preocupação na administração dos subsídios: as relações entre fornecedores e funcionários, a comprovação de que os candidatos fizeram a contribuição exigida, as decisões sobre o tratamento das candidaturas e a forma como as queixas são tratadas. A ICAC afirmou que continuará a aconselhar as entidades financiadoras sobre procedimentos administrativos e prevenção da corrupção. No anúncio de janeiro, descreveu as duas investigações como casos isolados, e não como prova de que todos os programas de financiamento tecnológico tinham sido afetados.
Pontos principais
- Seis arguidos enfrentam acusações decorrentes de alegadas práticas de corrupção e fraude no âmbito do Programa-Piloto de Apoio à Transformação Digital da Cyberport.
- A antiga diretora Su Yali terá aceitado bilhetes de avião, malas e um telemóvel em troca de favorecer a Find Solution Ai Limited.
- Cinco outros arguidos enfrentam uma acusação de conspiração relacionada com pelo menos 400 candidaturas e cerca de 20 milhões de dólares de Hong Kong em subsídios.
- A investigação mais ampla anunciada em janeiro abrangeu mais candidaturas e montantes de financiamento superiores aos do atual processo.
- Os seis arguidos estão em liberdade sob caução, têm de permanecer em Hong Kong e não podem contactar testemunhas da acusação.
- Não tiveram de apresentar declarações de culpa ou inocência na audiência. A próxima comparência em tribunal está marcada para 4 de janeiro de 2027.






