Cuidados médicos inseguros agravam a crise do VIH no Paquistão, enquanto aumentam as infeções entre crianças

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Unsafe Medical Care Drives Pakistan's HIV Crisis as Child Infections Rise

Triplicam as infeções e aumenta a ameaça para as crianças

O Paquistão registou cerca de 48 000 novas infeções por VIH em 2024, contra 16 000 em 2010, enquanto os cuidados médicos de rotina se revelaram uma importante via de exposição para crianças e outros doentes. Em Taunsa, no Punjab, 331 crianças tiveram resultado positivo entre novembro de 2024 e outubro de 2025. Considerou-se que as agulhas contaminadas foram a provável origem de mais de metade desses casos, e menos de 5% das crianças afetadas tinham mães que viviam com VIH.

Índice
  1. Triplicam as infeções e aumenta a ameaça para as crianças
  2. O que revela o surto de Taunsa
  3. Os surtos entre crianças prolongam-se por vários anos
  4. Porque é que as injeções de rotina representam um risco tão elevado
  5. O tratamento expandiu-se, mas a maioria continua sem acesso a cuidados
  6. As crianças enfrentam duas falhas distintas na prevenção
  7. O estigma e os custos das deslocações dificultam o diagnóstico
  8. A fiscalização tem de abranger injeções, sangue e clínicas
  9. O financiamento e o acesso local são os próximos desafios
  10. Pontos principais

Estes números apontam para uma crise que ultrapassa os grupos historicamente mais afetados pelo VIH. Injeções inseguras, sangue insuficientemente testado e falhas no controlo de infeções expõem pessoas que procuram tratamento para doenças comuns a um vírus que exige cuidados para toda a vida. A transmissão sexual, o consumo de drogas injetáveis e a transmissão durante a gravidez, o parto ou a amamentação continuam a fazer parte da epidemia, mas não explicam todos os surtos.

Na sua declaração do Dia Mundial da SIDA, de 1 de dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde e o ONUSIDA, em colaboração com o Ministério da Saúde do Paquistão, alertaram que o VIH se estava a propagar entre crianças, cônjuges e a comunidade em geral. Identificaram falhas na gestão do sangue e práticas de injeção inseguras, bem como lacunas na testagem, prevenção e tratamento.

As estimativas nacionais mostram a dimensão da resposta necessária: cerca de 350 000 pessoas viviam com VIH, mas, em 2024, apenas 21% conheciam o seu estado serológico. Isso significa que aproximadamente 276 500 pessoas desconheciam a infeção, um valor calculado com base no total estimado e na taxa de diagnóstico. São estimativas, não uma contagem de casos confirmados individualmente, mas revelam até que ponto a epidemia continua fora dos cuidados de rotina.

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O que revela o surto de Taunsa

Os dados de Taunsa mostram que o perigo também existe num hospital público, não se limitando a clínicas informais. Uma investigação encoberta registou profissionais aparentemente a reutilizar seringas para retirar medicamentos de frascos com várias doses, a manusear resíduos médicos de forma insegura e a manter práticas perigosas depois de as autoridades terem prometido intervir.

O comentário da Lancet HIV descreve as agulhas contaminadas como a provável origem de mais de metade dos 331 casos pediátricos. Essa avaliação sustenta a preocupação com a transmissão em contexto médico, mas não determina a via exata de infeção de cada criança. A baixa proporção de crianças com mães que viviam com VIH torna a transmissão de mãe para filho uma explicação insuficiente para a maioria dos casos deste surto.

A investigação ao hospital de Taunsa, divulgada em detalhe a 14 de abril de 2026, documentou dez ocasiões em que seringas foram reutilizadas em frascos de medicamentos durante 32 horas de filmagem, no final de 2025. Em quatro ocasiões, o medicamento do mesmo frasco, potencialmente contaminado, foi administrado a crianças diferentes. O diretor clínico do hospital tinha sido suspenso em março de 2025, o que mostra que já tinham sido tomadas medidas administrativas antes das imagens posteriores, sem que os riscos registados fossem eliminados.

Um frasco destinado a fornecer várias doses pode tornar-se uma fonte comum de infeção se uma seringa usada introduzir sangue contaminado no seu interior. Mudar apenas a agulha não torna segura uma seringa usada, porque pode permanecer contaminação no corpo da seringa. A principal medida de proteção é utilizar uma agulha e uma seringa novas e estéreis em cada doente e em cada procedimento que as exija.

Os surtos entre crianças prolongam-se por vários anos

Taunsa insere-se num padrão mais amplo. A OMS enumera surtos associados a injeções inseguras e transfusões de sangue, desde Larkana, em 2019, até várias localidades em 2025. O comentário da Lancet HIV afirma que as crianças representavam mais de 80% dos casos detetados nos surtos que descreve; a OMS usa uma formulação mais restrita, dizendo que tal aconteceu em vários surtos. Nenhuma das afirmações significa que as crianças representem essa proporção de todas as infeções por VIH no país.

A sequência revela avisos repetidos em diferentes distritos, e não uma falha isolada num único hospital:

  • 2019: Um surto em Larkana revelou uma elevada concentração de infeções entre crianças.
  • 2023: A OMS identifica surtos em Jacobabad e Shikarpur.
  • 2024: Foram registados surtos em Taunsa e Mirpur Khas.
  • Novembro de 2024 a outubro de 2025: Os investigadores identificaram 331 crianças com resultado positivo em Taunsa.
  • 2025: A OMS enumera novos surtos no Sindh, incluindo em Hyderabad, Naushahro Feroze e Pathan Colony.
  • Janeiro a março de 2026: O comentário da Lancet HIV refere que outras 329 crianças tiveram resultado positivo no Sindh.

A Associação Médica do Paquistão alertou que o número real por detrás dos dados do primeiro trimestre de 2026 poderia ser quatro vezes superior, devido à escassez de serviços de rastreio. Trata-se de um alerta para uma possível subcontagem, não de um total confirmado. Um resultado positivo nesse período também não permite determinar quando a criança contraiu o VIH.

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Porque é que as injeções de rotina representam um risco tão elevado

Segundo o comentário da Lancet HIV, cada pessoa no Paquistão recebe, em média, entre oito e 14 injeções terapêuticas por ano. São injeções administradas como tratamento médico, distintas do consumo de drogas injetáveis fora dos cuidados de saúde. O uso frequente cria oportunidades repetidas de exposição quando o equipamento, o manuseamento de medicamentos ou a eliminação de resíduos não são seguros.

Naveed Akram, médico envolvido na promoção do controlo de infeções e antigo professor na Universidade de Ciências da Saúde de Lahore, descreveu como as expectativas dos doentes e a supervisão deficiente mantêm o problema.

«Em muitas comunidades, continua a considerar-se que as injeções são um tratamento mais eficaz, enquanto a falta de regulamentação permite que práticas inseguras persistam tanto nos serviços de saúde públicos como nos privados», afirmou Akram.

Os riscos não são iguais em todas as unidades. Os hospitais públicos sobrelotados enfrentam falta de pessoal e de material, enquanto os doentes das comunidades mais pobres podem recorrer a prestadores sem licença, por não terem acesso próximo a cuidados qualificados ou não os poderem pagar. Os dados de Taunsa mostram por que razão as inspeções têm de abranger os hospitais públicos, além dos serviços privados e informais.

Amina Khan, médica no Sindh que trata crianças que vivem com VIH, descreveu como iatrogénicas as infeções contraídas durante o tratamento. O termo significa danos causados pelos cuidados médicos, e não pela doença que inicialmente levou o doente a uma clínica.

Estas crianças chegam ao hospital com febre, diarreia ou doenças comuns e saem infetadas com um vírus para toda a vida», afirmou Khan. «A infeção é muitas vezes iatrogénica, contraída durante os cuidados médicos. Uma seringa reutilizada pode destruir o futuro de uma família inteira.

O tratamento expandiu-se, mas a maioria continua sem acesso a cuidados

O Paquistão aumentou o número de pessoas a receber terapêutica antirretroviral, ou TAR, de cerca de 6500 em 2013 para 55 500 em 2024. O número de centros de tratamento passou de 13, em 2010, para 95, em 2025. São avanços substanciais, mas não acompanharam o crescimento da população estimada que precisa de serviços.

A OMS estima que, em 2024, 16% das pessoas que viviam com VIH recebiam tratamento e apenas 7% tinham alcançado a supressão viral. A supressão viral significa que os medicamentos reduziram a quantidade de VIH no sangue para um nível muito baixo. O tratamento protege a saúde, enquanto a supressão sustentada também impede a transmissão sexual.

As percentagens relativas ao diagnóstico, tratamento e supressão referem-se todas à população estimada que vive com VIH. Não devem ser interpretadas como percentagens sucessivas do grupo anterior. Aplicando a estimativa de 350 000 pessoas, os 7% correspondem a cerca de 24 500 pessoas com supressão viral.

O comentário da Lancet HIV cita, separadamente, 76 167 pessoas registadas como vivendo com VIH até março de 2025. Esse número e a estimativa de 350 000 medem realidades diferentes: os registos contabilizados numa determinada data e as infeções estimadas em toda a população. A diferença evidencia infeções não diagnosticadas e o alcance incompleto dos serviços, não prova que algum dos valores esteja errado.

Estima-se que mais de 14 000 pessoas tenham morrido de SIDA em 2024. O comentário descreve este valor como um aumento superior a 500% desde 2010. O VIH é o vírus; a SIDA é a fase mais avançada da infeção, que um tratamento atempado e eficaz pode prevenir.

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As crianças enfrentam duas falhas distintas na prevenção

Segundo a OMS, as novas infeções por VIH entre crianças dos 0 aos 14 anos aumentaram de 530, em 2010, para 1800, em 2023. O valor é cerca de 3,4 vezes superior ao anterior, um aumento de aproximadamente 240%. Em 2023, estima-se que tenham morrido mais de 1100 crianças devido a causas relacionadas com a SIDA.

Os cuidados médicos inseguros são uma via de exposição. As lacunas nos cuidados durante a gravidez são outra. Segundo a OMS, apenas 14% das grávidas que precisam de tratamento para prevenir a transmissão aos filhos o recebem. A testagem de rotina do VIH durante a vigilância pré-natal e o início rápido do tratamento podem reduzir este risco, mas não substituem as injeções seguras nem o sangue devidamente testado.

Apenas 38% das crianças dos 0 aos 14 anos que vivem com VIH recebem tratamento. A maioria fica, assim, sem a terapêutica necessária para controlar o vírus. Os números descrevem falhas distintas na prevenção e nos cuidados: as crianças podem contrair a infeção através de procedimentos inseguros ou de uma infeção materna não tratada e, depois, enfrentar novos obstáculos ao diagnóstico e ao acesso a medicamentos.

Os dados de Taunsa são especialmente úteis para distinguir estas vias. Menos de 5% das crianças afetadas tinham mães que viviam com VIH, enquanto se considerou provável que as agulhas contaminadas estivessem na origem de mais de metade dos casos. A resposta nacional precisa, por isso, de melhorar tanto a segurança dos procedimentos clínicos como os serviços de saúde materna.

O estigma e os custos das deslocações dificultam o diagnóstico

Para as famílias, o diagnóstico pode trazer isolamento, além de despesas médicas. Um pai do sul do Punjab, que afirmou que o filho contraiu VIH após receber tratamento numa clínica local, descreveu as consequências. Não revelou o nome devido ao estigma associado à doença.

Confiámos o nosso filho ao médico. Agora, as pessoas evitam-nos porque pensam que o VIH é motivo de vergonha. O meu filho precisa de medicamentos para toda a vida, mas até chegar ao centro de tratamento custa mais do que podemos pagar.

O seu relato ilustra por que razão aumentar o número de centros de tratamento não torna automaticamente os cuidados acessíveis. As famílias continuam a precisar de transporte, de deslocações repetidas e da certeza de que pedir ajuda não as expõe à discriminação. O VIH não se transmite através do contacto social quotidiano, pelo que evitar as famílias afetadas não contribui em nada para prevenir a transmissão.

Sajid Abdullah, funcionário público que colabora como voluntário numa equipa de sensibilização para o VIH, afirmou que o aumento dos casos notificados também pode refletir um maior número de pessoas a fazer testes. Esta distinção é importante: os casos diagnosticados dependem do rastreio, enquanto as estimativas de novas infeções procuram medir a transmissão. Uma deteção mais eficaz pode aumentar os números registados, ao mesmo tempo que ajuda a integrar as pessoas nos cuidados.

Abdullah alertou também que o medo e o silêncio atrasam a testagem até a doença estar avançada. Por isso, as iniciativas de sensibilização devem explicar a prevenção e o tratamento sem retratar o VIH como prova de uma conduta vergonhosa.

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A fiscalização tem de abranger injeções, sangue e clínicas

O Paquistão proibiu oficialmente a utilização de seringas usadas e reutilizáveis, mas a reutilização insegura continua devido à fraca fiscalização. Uma regra no papel não protege os doentes se faltarem materiais nas clínicas, se os profissionais ignorarem procedimentos seguros ou se os inspetores não detetarem infrações.

O comentário da Lancet HIV propõe três medidas específicas: inspeções sistemáticas para garantir que cada seringa só é utilizada uma vez, rastreio do VIH em todo o sangue antes de uma transfusão e testagem pré-natal de rotina, seguida de tratamento rápido para as mulheres com resultado positivo. Cada medida visa uma via diferente de infeção evitável.

Javed Akram, especialista em cuidados de saúde, defendeu um reforço do rastreio do sangue, da testagem, das penalizações e da sensibilização do público, bem como medidas contra os profissionais sem qualificações. O grupo de trabalho nacional do Paquistão para o VIH também recomendou inspeções a clínicas e farmácias e medidas mais rigorosas contra a venda e reutilização de seringas descartáveis. São recomendações, não provas de que tenha sido concluído um programa nacional de inspeções.

No evento de dezembro de 2025, a diretora-geral da Saúde do Paquistão, Dra. Ayesha Majeed Isani, afirmou que as comunidades, as entidades reguladoras e os profissionais de saúde tinham todos de participar.

Precisamos do envolvimento de todos para acabar com as práticas inseguras nas injeções e nas transfusões de sangue. Precisamos de informar as pessoas. Também precisamos de envolver os nossos profissionais de saúde.

Reduzir as injeções desnecessárias diminuiria as oportunidades de exposição insegura. As seringas concebidas para ficarem inutilizadas após o uso podem oferecer uma proteção adicional, mas continuam a ser necessários o manuseamento seguro de medicamentos, o rastreio do sangue e a eliminação adequada de resíduos.

O financiamento e o acesso local são os próximos desafios

Um seminário em Carachi organizado pela Bridge Consultants Foundation, descrito num relatório publicado a 21 de junho de 2026, defendeu um maior financiamento nacional para a prevenção, testagem, tratamento e cuidados. Os participantes apontaram a dependência de doadores externos, a vigilância deficiente e a regulamentação limitada dos prestadores informais como obstáculos a uma resposta sustentada.

As recomendações incluíram alargar o acesso aos autotestes do VIH, fazer testes de rotina às grávidas e aos doentes com tuberculose e integrar os serviços de TAR nos cuidados de saúde primários. Os participantes defenderam ainda uma eliminação mais segura de seringas e resíduos médicos, a redução das injeções desnecessárias e o envolvimento dos médicos de clínica geral nos cuidados a pessoas com VIH.

Estas propostas estão relacionadas com as duas principais falhas reveladas pelos números: serviços médicos que podem transmitir a infeção e uma rede de cuidados para o VIH que continua a não chegar à maioria das pessoas que deles precisam. A integração do tratamento nos serviços locais poderia reduzir os encargos das deslocações, mas esses serviços têm, eles próprios, de cumprir as normas de controlo de infeções.

A OMS e o ONUSIDA fixaram 2030 como meta para acabar com a SIDA enquanto ameaça para a saúde pública. Trouble Chikoko, diretor do ONUSIDA no Paquistão, apelou à retoma do financiamento internacional, a par dos recursos nacionais. Não foi indicado qualquer prazo de execução para as inspeções propostas, o alargamento do rastreio do sangue ou a expansão do acesso local ao tratamento. O alcance, o financiamento e a fiscalização destas medidas continuam por definir.

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Pontos principais

  • As novas infeções por VIH estimadas aumentaram de 16 000 em 2010 para 48 000 em 2024.
  • Injeções inseguras e transfusões de sangue foram associadas a surtos repetidos que envolveram crianças.
  • Em Taunsa, 331 crianças tiveram resultado positivo ao longo de 12 meses; considerou-se provável que as agulhas contaminadas estivessem na origem de mais de metade dos casos.
  • Em 2024, apenas 21% das pessoas que viviam com VIH conheciam o seu estado serológico, 16% recebiam tratamento e 7% tinham supressão viral.
  • As prioridades de prevenção incluem injeções seguras, sangue testado e testagem pré-natal de rotina, seguida de tratamento rápido.
  • Alargar a testagem e o tratamento local exige financiamento, inspeções fiáveis e proteção contra a discriminação.
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