A Europa torna-se um alvo na procura de poder de computação da Moonshot
A Moonshot AI discutiu o aluguer de acesso a clusters com pelo menos 8.000 unidades de processamento gráfico Nvidia Blackwell em centros de dados europeus, enquanto a empresa de Pequim procura mais poder de computação para o seu negócio de inteligência artificial Kimi, em expansão, segundo pessoas familiarizadas com as conversações.
Índice
- A Europa torna-se um alvo na procura de poder de computação da Moonshot
- Por que razão a Kimi precisa de mais capacidade
- Para que pretende a Moonshot usar os chips
- Como o acesso a serviços na nuvem no estrangeiro altera a operação
- A alegação sobre a Tailândia e a cronologia dos acontecimentos
- Por que razão os fornecedores querem mais dinheiro adiantado
- Washington pondera alargar as regras
- A Nvidia enfrenta pressões nos dois mercados
- Pontos principais
Quatro pessoas descreveram conversações este ano com fornecedores especializados de serviços na nuvem que operam na Europa. Três disseram que a Moonshot procurava capacidade Blackwell, enquanto uma referiu um cluster proposto com 8.000 chips ou mais. O hardware permaneceria no estrangeiro, com a Moonshot a aceder remotamente ao seu poder de computação.
As conversações colocam a Moonshot no centro de uma disputa sobre o alcance dos controlos de exportação norte-americanos. Washington restringe o envio para a China dos seus chips de inteligência artificial mais avançados, enquanto a legislação em vigor confere aos reguladores uma autoridade mais limitada sobre empresas chinesas que utilizem esses chips através de serviços na nuvem no estrangeiro.
Alguns dos acordos propostos também exigiriam que a Moonshot pagasse mais antes de ter acesso. Uma pessoa familiarizada com as conversações disse que uma proposta previa um pagamento inicial 30% a 50% superior ao que pagaria um cliente comparável fora da China, refletindo a preocupação de que futuras restrições norte-americanas possam interromper o negócio.
Não foi divulgado qualquer acordo europeu concluído, fornecedor identificado, localização específica de centro de dados, valor de contrato ou data de início. O número de 8.000 refere-se à capacidade discutida nas negociações.
Por que razão a Kimi precisa de mais capacidade
Fundada em 2023, a Moonshot desenvolve a família de modelos de inteligência artificial Kimi. A procura de hardware surge após o lançamento, em julho, da Kimi K3, que, segundo a empresa, reduziu a diferença de desempenho face aos principais sistemas da OpenAI e da Anthropic.
A procura em torno desse lançamento sobrecarregou os recursos de computação da Moonshot ao ponto de a empresa suspender novas subscrições e dar prioridade aos membros existentes. Para os clientes, uma limitação técnica passou assim a ser um entrave prático: os novos utilizadores não podiam subscrever de imediato enquanto a empresa trabalhava para aumentar a capacidade.
A Moonshot descreveu a sua resposta numa declaração no LinkedIn sobre a suspensão das subscrições:
«Estamos a aumentar a capacidade tão rapidamente quanto possível e reabriremos vagas para novas subscrições por fases», afirmou a Moonshot.
A empresa atraiu utilizadores à procura de uma alternativa mais barata aos principais serviços de inteligência artificial norte-americanos. Preços mais baixos podem ajudar a conquistar clientes, mas servir um público em crescimento continua a exigir recursos de computação sempre que esses clientes enviam pedidos.
O anúncio da Kimi K3 da Moonshot, a 17 de julho de 2026, descreveu um modelo com 2,8 biliões de parâmetros e uma janela de contexto de um milhão de tokens. Os parâmetros são valores numéricos aprendidos durante o treino. Uma janela de contexto corresponde à quantidade de material com que um modelo consegue trabalhar numa única interação.
O anúncio anterior colocava a K3 à frente de grandes concorrentes norte-americanos em algumas avaliações, incluindo uma comparação de resultados de programação de sítios Web baseada nas preferências humanas, mas atrás dos sistemas mais fortes num índice de inteligência mais abrangente. A sua atratividade combina um desempenho competitivo, preços anunciados mais baixos e a disponibilidade prevista dos pesos do modelo para os programadores.
Para que pretende a Moonshot usar os chips
Duas pessoas familiarizadas com as conversações disseram que a Moonshot estava interessada em clusters de computação europeus para inferência, o processo de execução de um modelo de inteligência artificial já treinado para responder aos utilizadores. Uma delas referiu também interesse em capacidade para treino.
O treino e a inferência usam equipamento semelhante para tarefas diferentes. O treino ajusta os parâmetros de um modelo através do processamento de grandes quantidades de dados. A inferência usa esses parâmetros aprendidos para produzir uma resposta, escrever código ou realizar outra tarefa depois de um cliente enviar um pedido.
Para os subscritores da Moonshot, a capacidade de inferência é a questão mais imediata. Cada cliente adicional aumenta a procura potencial, e documentos extensos ou tarefas complexas podem exigir mais computação do que interações breves. Por isso, um modelo popular precisa de um fornecimento substancial de poder de computação mesmo depois de concluído o seu desenvolvimento.
Um cluster liga várias unidades de processamento gráfico, ou GPU, para que possam trabalhar em conjunto. Estes chips são particularmente úteis para a inteligência artificial, pois conseguem realizar muitos cálculos em simultâneo. A dimensão proposta, de pelo menos 8.000 GPU Blackwell, mostra que a Moonshot está a discutir uma grande capacidade disponível, e não apenas o acesso ocasional a servidores individuais.
Como o acesso a serviços na nuvem no estrangeiro altera a operação
Os fornecedores europeus de serviços na nuvem oferecem à Moonshot uma forma de obter poder de computação sem enviar os chips propriamente ditos para a China. Os fornecedores compram e operam o equipamento e depois alugam aos clientes o acesso através de ligações de rede.
As empresas envolvidas nas conversações foram descritas como neoclouds. São empresas especializadas em serviços na nuvem, criadas em torno do aluguer de GPU potentes para tarefas de inteligência artificial, em vez de oferecerem a ampla variedade de armazenamento, software empresarial e outros serviços associada às grandes plataformas generalistas de serviços na nuvem.
Um programador chinês que use um destes serviços pode enviar trabalho para servidores no estrangeiro e receber os resultados remotamente. O equipamento permanece no centro de dados estrangeiro, enquanto o programador paga pelo acesso à sua capacidade de processamento.
Os controlos de exportação norte-americanos têm-se centrado na restrição do movimento físico de chips avançados para a China. O acesso remoto cria um problema regulamentar diferente, porque o cliente pode utilizar o hardware sem o importar. As conversações europeias dizem respeito a esta distinção entre o local onde está um chip e quem pode usar o seu poder de computação.
Para os fornecedores europeus, a oportunidade implica também exposição a decisões políticas tomadas em Washington. Um contrato pode garantir capacidade de computação durante um período prolongado, mas uma regra posterior poderá alterar a possibilidade de um determinado cliente a receber.
A alegação sobre a Tailândia e a cronologia dos acontecimentos
Michael Kratsios, diretor do Gabinete de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, alegou numa publicação de 22 de julho na rede social X que a Moonshot tinha adquirido servidores equipados com sistemas Nvidia GB300 e utilizado servidores GB300 na Tailândia, provavelmente para treinar modelos.
Os sistemas GB300 usam a tecnologia Blackwell da Nvidia. A alegação colocou o acesso a partir do estrangeiro no centro das preocupações de Washington em relação à Moonshot, pouco depois de o novo modelo da empresa ter chamado a atenção para as suas capacidades crescentes.
Pelo menos uma pessoa familiarizada com as conversações europeias disse que estas prosseguiram depois de a Casa Branca ter levantado a alegação relativa à Tailândia. A cronologia liga o aumento da procura de poder de computação da Moonshot ao crescente escrutínio norte-americano:
- Janeiro: A Câmara dos Representantes dos EUA aprovou a Remote Access Security Act, segundo o estado do processo legislativo descrito nos relatos.
- 17 de julho de 2026: A Moonshot anunciou a Kimi K3, com o lançamento dos pesos completos do modelo previsto para 27 de julho.
- Por altura do lançamento da K3: A Moonshot suspendeu novas subscrições, depois de a procura ter pressionado a capacidade de computação.
- 22 de julho: Kratsios alegou que a Moonshot tinha utilizado servidores Nvidia GB300 na Tailândia.
- Após a alegação de julho: Prosseguiram as conversações sobre capacidade de computação na Europa.
- Agosto: A Nvidia afirmou que Washington tinha autorizado algumas vendas de H200 à China, enquanto as autoridades chinesas restringiram essas vendas.
Por que razão os fornecedores querem mais dinheiro adiantado
Os fornecedores de serviços na nuvem e os seus financiadores ponderam a possibilidade de Washington restringir mais o acesso remoto. Esse risco está a influenciar as condições de pagamento propostas aos clientes chineses.
Os clientes que procuram uma grande capacidade de computação para inteligência artificial costumam fazer um pagamento adiantado para reservar capacidade. Para o fornecedor, esse dinheiro ajuda a financiar uma atividade que exige chips e infraestruturas de centros de dados dispendiosos antes de começar a gerar receitas de aluguer.
A proposta descrita para a Moonshot aumentaria esse pagamento inicial em 30% a 50%, face ao de um cliente comparável fora da China. Um exemplo simples ilustra a diferença: um pagamento inicial de 100 dólares para o cliente de comparação passaria a 130 a 150 dólares para a Moonshot. Estes valores são meramente ilustrativos, não correspondendo a montantes de contrato divulgados.
O prémio referido aplica-se ao pagamento adiantado. A tarifa de aluguer e o custo total dependeriam do restante acordo, incluindo a sua duração e a capacidade reservada.
Os fornecedores têm um incentivo financeiro para aceitar o negócio: um grande cliente pode ocupar uma parte substancial da capacidade de computação e gerar receitas desde cedo. Mas também enfrentam um risco comercial se forem impostas novas restrições antes de o acordo terminar. Pedir mais dinheiro no início transfere parte desse risco para o cliente.
Washington pondera alargar as regras
A Remote Access Security Act, conhecida pela sigla RASA, alargaria os controlos de exportação norte-americanos a determinadas formas de acesso remoto a tecnologia sujeita a controlo. O objetivo é dar às autoridades uma base jurídica mais sólida para regulamentar o acesso através de serviços na nuvem.
A Câmara dos Representantes aprovou a medida em janeiro, mas esta ainda não tinha sido aprovada pelo Senado à data a que se referem os relatos. Uma proposta no Congresso tem de completar o processo legislativo antes de as suas disposições se tornarem lei.
Para a Moonshot e os potenciais fornecedores europeus, a legislação torna mais importantes o calendário e as condições de um contrato. Um serviço que pode ser prestado ao abrigo das regras atuais poderá ficar sujeito a controlos, autorizações ou restrições adicionais se Washington alterar a lei.
A disputa não se limita à possibilidade de os chips entrarem na China. Os responsáveis políticos norte-americanos estão também a ponderar quem deve poder utilizar tecnologia norte-americana depois de esta ser instalada noutro país. Isso envolve as empresas estrangeiras de serviços na nuvem num debate sobre controlos de exportação que antes se centrava mais diretamente nos fabricantes e nos envios.
A Nvidia enfrenta pressões nos dois mercados
Segundo relatos, a Nvidia exigiu que os fornecedores de serviços na nuvem que alugam acesso às suas GPU vendam pelo menos 51% dos seus serviços a clientes fora da China. Essa condição obrigaria a que a maioria dos serviços abrangidos fosse destinada a outros clientes, limitando a parte do negócio que os fornecedores poderiam atribuir à procura chinesa.
Este requisito acrescenta outra limitação comercial às regras governamentais. Um fornecedor em negociações com a Moonshot teria de ponderar a composição global da sua carteira de clientes, além da disponibilidade de chips, do financiamento e das condições do contrato proposto.
A Nvidia defendeu que a infraestrutura de inteligência artificial norte-americana precisa de uma forte presença global para que os Estados Unidos mantenham a sua competitividade. Na sua perspetiva, permitir que fornecedores rivais de hardware dominem a infraestrutura de serviços na nuvem no estrangeiro também ajudaria os concorrentes a desenvolver os modelos e as aplicações que nela funcionam.
A empresa enfrenta também restrições de Pequim. Em agosto, a Nvidia afirmou que Washington tinha autorizado algumas vendas de chips H200 à China, mas que as autoridades chinesas tinham restringido essas vendas, enquanto Pequim procurava apoiar os fabricantes nacionais de chips.
A procura europeia da Moonshot situa-se entre estas pressões. A empresa precisa de capacidade para servir mais clientes e desenvolver futuros modelos, enquanto os fornecedores têm de decidir quanto negócio podem aceitar perante a evolução da política norte-americana e os requisitos de clientes atribuídos à Nvidia. A questão comercial imediata é saber se será possível reservar capacidade de computação suficiente em condições aceitáveis para ambas as partes.
Pontos principais
- A Moonshot discutiu o acesso, na Europa, a clusters com pelo menos 8.000 GPU Nvidia Blackwell.
- Entre as utilizações pretendidas está servir os utilizadores da Kimi através de inferência; foi também referido interesse em capacidade de treino.
- A procura em torno do lançamento da Kimi K3, em julho, levou a Moonshot a suspender novas subscrições enquanto aumentava a capacidade.
- Uma proposta previa um pagamento inicial 30% a 50% superior ao que pagaria um cliente comparável fora da China.
- Em julho, a Casa Branca alegou que a Moonshot tinha utilizado servidores Nvidia GB300 na Tailândia.
- A Remote Access Security Act tinha sido aprovada pela Câmara dos Representantes, mas aguardava aprovação do Senado, mantendo o acesso a serviços na nuvem no estrangeiro no centro da disputa política.






