Um negócio de chips em retração com forte presença nos videojogos
A Macronix está a preparar-se para abandonar gradualmente o negócio de chips ROM, depois de a memória utilizada nos cartões de jogos da Nintendo Switch ter caído para 5% das vendas trimestrais, face a 26% um ano antes. A mudança da fabricante taiwanesa para outros produtos de memória poderá tornar mais dispendiosa a produção de jogos físicos, embora a Nintendo não tenha anunciado qualquer alteração dos preços ou da disponibilidade dos cartuchos por esse motivo.
Índice
- Um negócio de chips em retração com forte presença nos videojogos
- Porque está a Macronix a mudar as suas prioridades
- Para que servem estes diferentes chips de memória
- Investimento de 37,8 mil milhões de NT$ acompanha a mudança
- O calendário da retirada gradual exige uma leitura atenta
- A MegaChips liga a Nintendo à fábrica
- Porque pode ser difícil justificar um cartão de 64 GB
- O que os Game-Key Cards mudam para os jogadores
- Uma longa relação num mercado de memória em mudança
- Pontos-chave
O presidente do conselho de administração, Miin Wu, anunciou a retirada gradual numa apresentação de resultados a 27 de outubro. A Macronix registou receitas de 24,237 mil milhões de NT$ no trimestre de julho a setembro de 2026, com a memória NAND a representar 47%, a NOR 46%, a ROM 5% e a produção por contrato 2%.
Para a Macronix, a decisão diz respeito a uma parte pequena e em retração de um negócio que está a registar lucros recorde. Para a Nintendo, as editoras e os jogadores, estão em causa os chips que permitem lançar um jogo num cartão, em vez de exigir uma transferência completa.
A pressão comercial imediata poderá recair sobre a MegaChips, a empresa japonesa de design de chips que tem articulado as necessidades da Nintendo com a produção da Macronix. Os dados históricos divulgados pela empresa mostram como estas relações estavam estreitamente ligadas.
Vários detalhes importantes continuam por esclarecer: o prazo final de produção, o volume que a Nintendo compra através desta cadeia de abastecimento, a capacidade disponível noutros fabricantes e se a Macronix fornece atualmente ROM para os cartões da Switch 2. Estas lacunas dificultam previsões precisas sobre os preços ou a oferta.
Porque está a Macronix a mudar as suas prioridades
A Macronix registou um lucro líquido trimestral de 10,95 mil milhões de NT$, face a um prejuízo de 862 milhões de NT$ um ano antes. A margem bruta, ou seja, a proporção das vendas que resta depois dos custos de produção, atingiu 70,5%, acima dos 13,5% registados no trimestre homólogo de 2025.
Em conjunto, NAND e NOR representaram 93% das receitas, em comparação com 5% da ROM. Com base nestas percentagens divulgadas, os dois negócios de memória flash geraram cerca de 18,6 vezes mais receitas do que a ROM. O seu crescimento ajuda a explicar por que razão a administração lhes está a direcionar o investimento.
As receitas da ROM foram de aproximadamente 1,2 mil milhões de NT$, menos 39% do que um ano antes. As receitas de NAND aumentaram 768%, enquanto as de NOR cresceram 158%. A redução do peso da ROM resulta, portanto, tanto da queda das vendas nesse negócio como da rápida expansão dos restantes.
A ROM ainda cresceu 9% face ao trimestre anterior. A procura tem oscilado, em vez de simplesmente desaparecer, mesmo com a decisão da administração de transferir recursos para outros produtos.
A explicação de Wu na apresentação de resultados centrou-se na limitação de recursos e na prioridade dada à NOR e à eMMC. Os clientes também procuram mais NOR para centros de dados, ligando a decisão sobre a afetação da produção à procura associada à infraestrutura de inteligência artificial.
Para que servem estes diferentes chips de memória
ROM significa memória só de leitura. Num cartão de jogo convencional, guarda os dados do jogo que a consola lê durante a utilização. Os jogadores não podem reescrever esses dados como fariam com ficheiros num dispositivo de armazenamento.
NOR e NAND são tipos de memória flash, que retêm a informação quando a alimentação é desligada. A NOR guarda habitualmente as instruções necessárias para os dispositivos eletrónicos arrancarem e funcionarem. A NAND permite armazenar maiores quantidades de dados.
A Macronix está também a investir em eMMC, que combina armazenamento flash e um controlador num único componente, e em NAND 3D, que empilha células de memória em camadas para aumentar a capacidade de armazenamento.
A ligação prática está no espaço fabril, no equipamento e no investimento. A Macronix já converteu a sua fábrica que utiliza wafers de 8 polegadas para a produção de NOR. A adaptação de instalações existentes a outro produto altera os recursos disponíveis para ROM, enquanto a entrada em funcionamento de nova capacidade de produção demora tempo.
Investimento de 37,8 mil milhões de NT$ acompanha a mudança
A Macronix planeia investir um total de 37,8 mil milhões de NT$ em duas fases. A primeira, no valor de 22 mil milhões de NT$, deverá iniciar a produção no segundo semestre de 2027. A fase seguinte, de 15,8 mil milhões de NT$, deverá iniciar a produção em 2028, embora atrasos na entrega de equipamento estejam a afetar o calendário.
O investimento destina-se à memória flash, incluindo eMMC e NAND 3D, e não a novos produtos ROM. David Gibson, analista da MST Financial, afirmou que nenhuma das despesas de capital previstas está alocada à ROM.
Wu afirmou que o novo equipamento demora pelo menos um ano a entrar em funcionamento. Por isso, a Macronix espera que o crescimento dos lucros a curto prazo resulte sobretudo de preços mais elevados, e não de um grande aumento da produção.
Este calendário é importante para as editoras de jogos. Criar capacidade noutro local ou transferir um chip para outro fabricante implica planeamento da produção, trabalho técnico e negociações comerciais. Uma retirada gradual dá aos clientes tempo para fazer a transição, mas as condições do fornecimento de substituição ajudarão a determinar os custos.
O calendário da retirada gradual exige uma leitura atenta
Gibson, analista da MST Financial que acompanha a empresa, descreveu tanto a decisão sobre o produto como a alteração na apresentação dos resultados financeiros:
A Macronix, que fabrica os chips ROM dos cartões de memória de jogos da Switch 1 e da Switch 2, está a abandonar esse negócio. Não haverá novos produtos ROM, e o terceiro trimestre será o último em que as vendas de ROM serão divulgadas separadamente.
O final do terceiro trimestre fiscal de 2026 também foi apontado como data-limite para a produção. No entanto, o relato da apresentação de Wu, a 27 de outubro, descreve uma retirada gradual sem uma data final específica. A alteração anunciada na divulgação dos resultados é que a ROM deixará de surgir como linha de negócio separada a partir da próxima apresentação de resultados.
As principais datas traçam uma transição que se prolonga para além do atual período de reporte:
- 2019: os chips XtraROM da Macronix foram identificados nos cartões de jogos da Switch original, e a empresa afirmou que a procura da Nintendo excedia as expectativas.
- 2022: a MegaChips revelou uma forte exposição às vendas à Nintendo e às compras de serviços de fabrico à Macronix.
- Julho a setembro de 2026: a ROM representou 5% das receitas da Macronix.
- 27 de outubro de 2026: Wu anunciou a retirada gradual da ROM numa apresentação de resultados.
- Segundo semestre de 2027: prevê-se o início da produção da primeira fase de investimento, no valor de 22 mil milhões de NT$.
- 2028: prevê-se o início da produção decorrente do investimento adicional de 15,8 mil milhões de NT$.
A MegaChips liga a Nintendo à fábrica
A MegaChips concebe chips de acordo com os requisitos da Nintendo e contratou a Macronix para os fabricar. Isso torna a empresa japonesa uma peça importante da transição, em vez de deixar a Nintendo a tratar sozinha da procura de um substituto.
Na informação empresarial de 2022, a MegaChips afirmou que a Nintendo representava 87,8% das receitas. A Macronix correspondia a 67,8% das suas compras de produção subcontratada. Estes dados históricos mostram a dimensão da relação nessa altura; as atuais percentagens de compras não foram divulgadas aqui.
A MegaChips poderá precisar de outro parceiro de fabrico à medida que a Macronix se retira. A sua resposta concreta, incluindo eventuais acordos de substituição ou um calendário de transferência da produção, ainda não foi anunciada.
A ROHM e as empresas de semicondutores a ela associadas, incluindo a LAPIS e as antigas operações da Oki Semiconductor, foram identificadas como outras fontes de componentes ROM para a Nintendo. A capacidade disponível e a percentagem das compras da Nintendo que asseguram não são públicas.
Gibson afirmou que os cartões físicos deverão continuar a existir, uma vez que a Macronix não é a única fornecedora da Nintendo. Em outubro, a Nintendo também declarou que não tinha planos para abandonar os jogos físicos.
Porque pode ser difícil justificar um cartão de 64 GB
As editoras da Switch 2 já ponderavam os custos dos cartuchos antes desta mais recente mudança de produção. Segundo informações divulgadas, a Nintendo reduziu a gama de capacidades dos cartões de jogo para 64 GB, obrigando as editoras a optar por um suporte de armazenamento considerável mesmo quando o jogo precisa de muito menos espaço.
Assim, um jogo pequeno pode ter de suportar o custo de um cartão maior. Essa despesa é mais difícil de absorver quando o preço de venda é baixo, uma vez que sobra menos dinheiro para cobrir o fabrico, a distribuição e outros custos.
Ken Berry, diretor executivo da Marvelous USA, descreveu o problema para os lançamentos mais baratos. Segundo afirmou, um cartão completo de 64 GB:
pode continuar a não fazer sentido do ponto de vista financeiro para lançamentos mais pequenos, com um preço inferior a 50 dólares.
Uma mudança de fornecedores poderá acrescentar outra pressão sobre os custos. As editoras poderão responder através da escolha do formato físico, do preço de uma edição em caixa ou do equilíbrio entre vendas físicas e digitais. A Nintendo já praticou preços diferentes para versões físicas e digitais de alguns jogos da Switch 2.
Não foi anunciado qualquer aumento do preço dos cartuchos associado à decisão da Macronix. O efeito financeiro dependerá dos preços do fabrico de substituição, dos volumes encomendados e das opções de armazenamento disponibilizadas pela Nintendo.
O que os Game-Key Cards mudam para os jogadores
Os Game-Key Cards permitem vender um produto físico sem armazenar o jogo completo no cartão. O jogador insere o cartão e transfere o jogo através de uma ligação à Internet antes de o jogar pela primeira vez.
O formato continua a incluir um cartão físico. A sua função é dar acesso ao jogo, em vez de conter todos os ficheiros do jogo, reduzindo a necessidade de um chip ROM de grande capacidade.
Para as editoras, isso pode alterar o cálculo dos custos de produção. Para os jogadores, transfere uma parte maior do processo inicial para a ligação à Internet e o armazenamento da consola. Uma compra que chega numa caixa pode, ainda assim, exigir uma transferência considerável antes de começar a jogar.
Gibson espera que a mudança na Macronix possa incentivar uma utilização maior dos Game-Key Cards e das transferências digitais. A Nintendo não anunciou qualquer alteração de formato em resposta à retirada da ROM.
A dimensão da audiência da Nintendo torna estas escolhas significativas. A Nintendo anunciou a venda de 23,68 milhões de consolas Switch 2 em todo o mundo até 30 de junho, além de 156,59 milhões de consolas Switch originais. Os jogadores que optarem por jogos em caixa sentirão as consequências nos requisitos de transferência, nas edições disponíveis e nos preços de venda.
Uma longa relação num mercado de memória em mudança
A relação da Macronix com a Nintendo vai além do atual debate sobre os cartuchos. Em 2019, a tecnologia XtraROM da empresa foi identificada nos cartões de jogos da Switch, enquanto a sua memória flash também era utilizada nos comandos Joy-Con e na base da consola.
Na altura, a Macronix descreveu com entusiasmo a procura da Nintendo:
As encomendas da Nintendo superaram as nossas expectativas, e a procura é superior ao que pensávamos.
Sete anos depois, a empresa está a direcionar o investimento para produtos que respondem a um ciclo de procura diferente. O forte crescimento da NAND e da NOR, os preços de venda mais elevados e os pedidos de memória para centros de dados alteraram o peso relativo dos seus negócios.
Outros fabricantes também estão a reduzir a sua exposição aos produtos de consumo. A Micron anunciou que abandonaria o negócio de memória para consumidores e encerraria a marca Crucial. No setor dos suportes físicos de entretenimento, a Sony planeia pôr fim ao fabrico de discos em 2028.
A Nintendo assumiu uma posição diferente em relação aos jogos físicos, afirmando que pretende mantê-los. Cumprir esse compromisso implicará decisões comerciais sobre fornecedores, capacidade dos cartões e quais os lançamentos que incluirão o jogo completo.
Para os compradores, os desenvolvimentos mais úteis serão anúncios concretos: alterações à disponibilidade de cartuchos, novos preços das edições físicas, decisões das editoras sobre os Game-Key Cards e eventuais acordos de fabrico divulgados pela Nintendo ou pela MegaChips. Por enquanto, o que está confirmado é a retirada da Macronix do negócio de ROM; os efeitos sobre cada jogo continuam por determinar.
Pontos-chave
- A Macronix está a abandonar gradualmente a ROM, depois de este negócio ter caído para 5% das receitas trimestrais, face a 26% um ano antes.
- NAND e NOR representaram, em conjunto, 93% das receitas no trimestre de julho a setembro de 2026.
- A empresa planeia investir 37,8 mil milhões de NT$ em memória flash, com a nova produção prevista para 2027 e 2028.
- A MegaChips enfrenta uma transição de fabrico devido ao seu papel histórico na conceção de chips da Nintendo produzidos pela Macronix.
- A Nintendo tem outros fornecedores de ROM identificados e afirmou que não tenciona abandonar os jogos físicos.
- Os Game-Key Cards incluem um cartão físico, mas exigem a transferência do jogo, em vez de o conterem integralmente.
- A Nintendo não anunciou qualquer aumento do preço dos cartuchos ou alteração de formato decorrente da retirada da Macronix.






