Uma Terra em rotação e uma multidão que chegou de além da Indonésia
Ye abriu com "King", encerrou com "Runaway" e levou cerca de 50 000 fãs ao Estádio Principal Gelora Bung Karno, em Jacarta, a 24 de outubro de 2026, segundo números citados pelo organizador Raw Vision Collective. Ao longo de cerca de duas horas e 37 canções, o rapper anteriormente conhecido como Kanye West transformou um globo gigante, lasers e fogo de artifício no cenário de uma viagem pelo seu repertório.
Índice
- Uma Terra em rotação e uma multidão que chegou de além da Indonésia
- O globo colocou a produção no centro
- As canções mais antigas concentraram grande parte da emoção
- Heartless deu ao público um papel de destaque
- Runaway marcou o final
- A qualidade do som variou consoante o local
- Por que motivo os fãs estrangeiros escolheram Jacarta
- As estimativas de despesa e as empresas envolvidas
- Um fim de semana movimentado pôs à prova mais do que o estádio
- Pontos principais
O público também fez parte da história. Karen Tjahja, responsável pelo marketing e pelas comunicações da Raw Vision, disse a 22 de outubro que 20 500 pessoas vindas do estrangeiro tinham comprado bilhetes. Números divulgados posteriormente apontaram para cerca de 70 000 espectadores, incluindo 25 000 turistas estrangeiros de 80 países. Ainda não foi divulgado um número final reconciliado.
Jacarta foi o único destino do Sudeste Asiático na Ye Live Concert Tour 2026, atraindo pessoas que, de outra forma, teriam de viajar mais longe para o ver. Entre os visitantes encontravam-se fãs da Tailândia, Suécia, Austrália, Malásia, Singapura, Japão, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha.
No interior do estádio, o apelo era mais imediato: canções conhecidas, um palco com uma Terra em rotação e milhares de pessoas a cantar em conjunto. Cá fora, o concerto passou a integrar uma discussão mais ampla sobre a capacidade de Jacarta para transformar grandes eventos de entretenimento numa fonte de negócio consistente para hotéis, empresas de transportes, restaurantes e trabalhadores locais.
A noite também revelou um contraste entre um artista que pouco falou em palco e um público que deu grande parte da emoção. A reação posterior de Ye às imagens da multidão tornou invulgarmente direta a sua avaliação.
O globo colocou a produção no centro
O Giant World Globe Stage foi o elemento mais marcante do concerto. Imagens da Terra percorriam uma cúpula gigantesca, enquanto lasers iluminavam o estádio a partir de diferentes ângulos. O formato circular dispunha os espectadores em redor do espaço de atuação, em vez de os orientar para um palco convencional numa das extremidades.
Ye surgiu com um fato cinzento largo, botas pretas e uma peça que lhe cobria toda a cabeça. À medida que a humidade de Jacarta se fazia sentir, retirou-a, revelando o rosto coberto de suor. O vestuário discreto manteve a atenção na sua silhueta, em contraste com as imagens planetárias em mutação.
Rico Utoro, fã de 41 anos que também trabalha como DJ, disse que a produção compensou a pouca conversa entre canções. Descreveu assim o apelo do palco:
O design do globo foi a parte mais espetacular.
Rico disse que as cores e as imagens mudavam com a música, dando à atuação um fio visual do princípio ao fim. O fogo de artifício e os lasers proporcionaram momentos de maior espetáculo, enquanto o globo permaneceu o centro das atenções.
A preparação do primeiro concerto de Ye na Indonésia incluiu a importação do equipamento principal da produção e a instalação de ecrãs LED para o Festival A e a Categoria 1A. O promotor afirmou que a configuração mais ampla do GBK exigiu ajustes em relação ao SoFi Stadium, na Califórnia, para facilitar a visibilidade a quem estava nessas zonas.
As canções mais antigas concentraram grande parte da emoção
Ye percorreu diferentes fases da carreira, em vez de construir a noite sobretudo em torno de lançamentos recentes. "Gold Digger", "All Falls Down" e "Through the Wire" trouxeram de volta os samples de soul e a narrativa pessoal associados aos seus primeiros trabalhos. Fazer sampling significa usar um excerto de uma gravação existente para ajudar a criar uma nova canção.
Ino Imran, de 40 anos, tinha visto Ye atuar pela última vez em 2004. O regresso à plateia, 22 anos depois, tornou especialmente significativas as canções mais antigas. Fã desde The College Dropout, o álbum de estreia de Ye, Ino esperava um alinhamento mais centrado em música recente e ficou satisfeito com o número de temas dos primeiros anos.
"American Boy", a colaboração de Ye com a cantora britânica Estelle, trouxe um som pop e R&B mais luminoso. Mais tarde, temas como "All of the Lights", "Flashing Lights" e "Ghost Town" alargaram o registo, alternando entre arranjos densos, ritmos dançáveis e passagens mais melancólicas.
Ao explicar por que razão o repertório continuava a ser importante para si, Rico colocou a música acima da personalidade que a rodeia:
Comecei por gostar de Kanye por causa da música.
A atuação de Ye aconteceu num contexto de controvérsia persistente devido às suas declarações antissemitas e à iconografia nazi, que tinham motivado condenações e oposição a atuações noutros locais. Em Jacarta, não fez comentários políticos prolongados nem explicou essas controvérsias. As instruções que deu em palco limitaram-se, em grande parte, a pedir ao público que saltasse ou levantasse as mãos.
Heartless deu ao público um papel de destaque
"Heartless" foi um dos exemplos mais claros de como a multidão tomou conta da noite. Ye incentivou repetidamente os espectadores a cantar o refrão e, num momento, milhares de vozes entoaram-no sem acompanhamento instrumental.
A atuação gerou depois debate na Internet, quando alguns espectadores interpretaram a expressão séria de Ye num vídeo gravado por um fã como sinal de desagrado. Numa publicação nas redes sociais datada de 25 de outubro, respondeu elogiando tanto o ambiente como o volume da multidão.
Ye, o artista que protagoniza o vídeo, escreveu:
Mano, isto foi mesmo uma energia incrível. O público estava muito barulhento. Chama-se rock and roll
Imagens captadas por fãs após o espetáculo também o mostraram a sorrir enquanto autografava a camisola de um espectador. Na manhã de 25 de outubro, dirigiu-se ao Aeroporto Halim Perdanakusuma para sair de Jacarta.
Outras canções provocaram uma reação ainda mais intensa. "Ni**as in Paris", a colaboração de 2011 com Jay-Z incluída em Watch the Throne, foi um dos momentos altos para Ino. O ritmo pesado, combinado com lasers e efeitos pirotécnicos, proporcionou outro dos momentos de maior intensidade coletiva no estádio.
Runaway marcou o final
Ye terminou com "Runaway", uma canção que alguns visitantes atravessaram fronteiras especificamente para ouvir. Grace, uma fã da Suécia, apontou-a como o motivo que a levou ao espetáculo de Jacarta.
Antes do final, Ye desapareceu no interior do globo e regressou minutos depois com um pequeno piano. As notas iniciais, bem conhecidas, provocaram uma reação imediata, seguida de fogo de artifício enquanto o público cantava.
A sequência final combinou os dois elementos mais fortes da noite: uma produção visual elaborada e canções que os ouvintes já conheciam intimamente. O globo deu escala ao espetáculo, enquanto a introdução ao piano ofereceu ao público um sinal reconhecível para se juntar à atuação.
Não choveu durante a atuação, permitindo que a produção ao ar livre decorresse sem que um aguaceiro tropical interrompesse o final. Num evento que dependia fortemente de imagens projetadas, iluminação e fogo de artifício, o tempo ajudou a manter o espetáculo previsto.
A qualidade do som variou consoante o local
Rico considerou que o som foi por vezes irregular, apesar de elogiar o espetáculo visual. Reconheceu a dificuldade de garantir áudio nítido num estádio tão grande como o GBK.
Ino teve uma avaliação mais positiva a partir da Categoria 2B, onde considerou o som geralmente nítido. Também reparou que, por vezes, as colunas próximas produziam vibrações sobrepostas.
As experiências dos dois revelam um desafio prático para um concerto construído em torno de um palco circular. A produção tem de servir espectadores distribuídos por um espaço amplo, e quem ouve de diferentes posições pode captar um equilíbrio distinto entre vozes, graves e som refletido.
Para ambos, esses problemas foram compensados pela música e pela produção. Rico valorizou a inspiração e a energia dançável das canções; Ino gostou do regresso inesperado a temas que conhecia havia mais de duas décadas.
Para Rico, a pouca conversa de Ye com o público não foi um problema, pois o artista nunca tinha sido particularmente interativo. O espetáculo apoiou-se, em vez disso, no reconhecimento das canções, na participação do público e nas mudanças de iluminação para ligar uma passagem à seguinte.
Por que motivo os fãs estrangeiros escolheram Jacarta
O número de 20 500 compradores de bilhetes vindos do estrangeiro, avançado pela Raw Vision, foi anunciado dois dias antes do concerto. Juntamente com a estimativa do organizador de cerca de 30 000 espectadores nacionais, sugeria que aproximadamente dois em cada cinco espectadores esperados viriam do estrangeiro.
Kanya e Tiger, visitantes da Tailândia, estavam entre os que foram atraídos pela posição de Jacarta como única paragem da digressão no Sudeste Asiático. Tiger disse que escolheu o concerto na Indonésia porque Ye atuaria ali para toda a região. O casal chegou vestido com roupa formal preta, juntando-se a um público cujos trajes muitas vezes evocavam o estilo de rua largo do artista.
A digressão mais ampla começou a 1 de abril de 2026 e tinha 20 concertos previstos. Entre os destinos encontravam-se os Estados Unidos, o Cazaquistão e Portugal, com Istambul, Almaty e Jacarta entre as paragens asiáticas. As atuações previstas em Nova Deli, em março e maio, foram canceladas por razões de segurança.
As principais datas em torno do concerto de Jacarta foram:
- 1 de abril de 2026: início da digressão Ye Live.
- 22 de outubro: a Raw Vision anunciou que 20 500 fãs estrangeiros tinham comprado bilhetes para Jacarta.
- 24 de outubro: Ye atuou no Estádio Principal Gelora Bung Karno.
- 25 de outubro: Ye elogiou o público numa publicação nas redes sociais e saiu de Jacarta nessa manhã.
- 28 de outubro: especialistas em turismo debateram o concerto e os efeitos do Jakarta Running Festival nas empresas locais.
O facto de Jacarta ser o único destino no Sudeste Asiático deu aos fãs uma razão concreta para escolherem a cidade. As viagens também geraram procura para além dos bilhetes, desde transferes do aeroporto e quartos de hotel a refeições antes e depois da atuação.
As estimativas de despesa e as empresas envolvidas
Estimativas divulgadas após o concerto apontaram para um impacto económico total de 450 mil milhões de rupias indonésias, incluindo cerca de 328 mil milhões em vendas de bilhetes. As receitas de bilheteira representariam, assim, cerca de 73% desse total estimado. O método de cálculo e uma discriminação detalhada dos restantes 122 mil milhões de rupias não foram publicados juntamente com esses números.
O especialista em turismo, professor Azril Azahari, afirmou que eventos internacionais de grande dimensão podem beneficiar o turismo, a ocupação hoteleira e os pequenos negócios. Apontou também para o seu potencial contributo para o produto interno bruto, o valor dos bens e serviços produzidos numa economia.
Para os residentes de Jacarta, os benefícios potenciais são concretos. Os hotéis podem vender quartos, os motoristas podem transportar visitantes, os negócios de restauração podem conquistar clientes e as equipas de produção, os fornecedores de equipamento, os designers e os profissionais de segurança podem encontrar trabalho associado ao evento.
Deni Danial Kesa, docente da Universidade da Indonésia, afirmou que a escolha de destinos para concertos depende de mais do que a procura do público. A capacidade dos recintos, a previsibilidade da regulamentação, as ligações aéreas e a adequação das instalações influenciam os locais escolhidos pelos organizadores para levar uma grande produção.
Deni defendeu também que Jacarta deve desenvolver um modelo próprio, em vez de se limitar a copiar Singapura. Associar concertos à cultura betawi, à gastronomia indonésia, às atrações urbanas e às empresas criativas poderia dar aos visitantes motivos para prolongarem a estadia.
As digressões recentes mostram o contexto de concorrência. Os Coldplay atuaram uma vez na Indonésia em 2023 e seis vezes em Singapura. O calendário de Taylor Swift para 2024 não incluiu a Indonésia, mas contemplou seis espetáculos em Singapura. A atuação de Ye em Jacarta ofereceu à capital uma vantagem diferente: uma única paragem regional capaz de atrair viajantes de vários países.
Um fim de semana movimentado pôs à prova mais do que o estádio
O concerto coincidiu com o fim de semana do Jakarta Running Festival, a 24 e 25 de outubro. O governo provincial de Jacarta estimou em mais de 37 000 o número de participantes na prova, juntando outro grande grupo a uma zona do GBK já bastante movimentada.
A administração provincial apoiou o fim de semana com medidas de transporte, alterações ao horário de funcionamento do metro ligeiro MRT, operações de modificação do estado do tempo e centenas de postos de saúde. Estas medidas mostram que organizar um grande evento envolve mais do que contratar um artista ou abrir um recinto.
Azril descreveu a realização do concerto e do festival de corrida em datas próximas como uma decisão ousada, com benefícios para trabalhadores e empresas. Deni enquadrou o fim de semana numa economia em que as pessoas gastam dinheiro em experiências partilhadas, como música, desporto e entretenimento.
O apelo do GBK implica, por isso, exigências práticas. Os visitantes precisam de trajetos fiáveis de e para o recinto, espaços públicos seguros e serviços capazes de responder a grandes concentrações. As empresas beneficiam mais quando as pessoas conseguem circular confortavelmente pela cidade, em vez de passarem a visita a enfrentar dificuldades de acesso.
Para Ino, o resultado pretendido era simples: mais concertos exclusivos na Indonésia. A atuação de Ye mostrou como um espetáculo raro pode atrair fãs estrangeiros a Jacarta. Transformar essa procura em visitas repetidas dependerá da qualidade da viagem no seu todo, desde o som no estádio aos transportes e ao alojamento.
Pontos principais
- Ye interpretou cerca de 37 canções ao longo de duas horas no estádio GBK, em Jacarta, a 24 de outubro de 2026.
- Os organizadores apontaram para cerca de 50 000 espectadores; números divulgados posteriormente situaram a multidão em cerca de 70 000.
- A Raw Vision afirmou que 20 500 fãs estrangeiros compraram bilhetes antes do espetáculo; dados turísticos posteriores referiram 25 000 visitantes estrangeiros.
- Um palco com um globo gigante, lasers, fogo de artifício e momentos de canto coletivo marcaram a atuação, que terminou com "Runaway".
- Ye elogiou publicamente o público de Jacarta depois de imagens de "Heartless" terem suscitado debate sobre a sua reação.
- O impacto económico foi estimado em 450 mil milhões de rupias indonésias, incluindo cerca de 328 mil milhões em vendas de bilhetes.
- O concerto e o Jakarta Running Festival levaram grandes multidões ao GBK durante o mesmo fim de semana.






