De um desfile em Pequim a exercícios militares regulares
O míssil balístico intercontinental DF-61 da China passou a integrar o treino regular da Força de Mísseis do Exército Popular de Libertação, levando uma arma apresentada publicamente pela primeira vez a 3 de setembro de 2025 para exercícios que incluem deslocações no terreno, mudanças de posição de lançamento e procedimentos de lançamento.
Índice
- De um desfile em Pequim a exercícios militares regulares
- O que envolve o treino regular
- Um lançador móvel e um alcance máximo estimado superior
- Porque é importante a mobilidade para a força chinesa de retaliação
- A cronologia contextualiza a apresentação pública
- O desfile mostrou vários sistemas de lançamento nuclear
- Um arsenal mais vasto por detrás do novo míssil
- A mensagem estratégica vai além do lançador
- Principais pontos
A televisão estatal chinesa anunciou na quinta-feira que o míssil tinha entrado ao serviço. O comentador militar Shao Yongling descreveu a passagem da apresentação pública para o treino regular como mais rápida do que o processo habitual até um míssil intercontinental estar pronto para combate.
Este desenvolvimento dá uma imagem mais concreta de uma arma cujo estado operacional permanecia incerto quando surgiram imagens dos seus veículos lançadores, antes do desfile de Pequim. Coloca também o DF-61 no contexto de uma expansão mais ampla das forças nucleares chinesas, que inclui mísseis móveis, silos subterrâneos, submarinos e aeronaves.
Um míssil balístico intercontinental, ou ICBM, é concebido para transportar uma ogiva entre continentes. Sobe a grande altitude, acima da atmosfera, antes de a ogiva regressar em direção ao alvo. No arsenal chinês, estas armas fazem parte da dissuasão nuclear: a capacidade de ameaçar uma resposta devastadora, destinada a desencorajar um ataque.
O DF-61 é relevante porque as forças terrestres da China há muito ocupam um lugar central nessa dissuasão. Um míssil que possa ser deslocado entre posições dá aos comandantes militares mais opções para manter armas disponíveis após um ataque inimigo. O treino regular permite às tripulações praticar as muitas etapas necessárias para operar o sistema fora de um contexto cerimonial.
O que envolve o treino regular
Shao afirmou que o DF-61 estava a participar em exercícios realistas, incluindo deslocações no terreno, transferências entre posições e procedimentos de lançamento. Estas atividades envolvem tanto o míssil como as pessoas, os veículos e o equipamento de comunicações que o apoiam.
Uma unidade de mísseis móveis tem de receber ordens, deslocar o equipamento, estabelecer uma posição adequada e concluir os preparativos para o lançamento. A prática repetida destas etapas ajuda as tripulações a trabalhar em conjunto em condições variáveis, em vez de manusearem o míssil apenas numa base fixa.
Shao atribuiu a rapidez da transição ao trabalho realizado antes da apresentação pública. Na sua avaliação, o míssil já tinha passado pelas fases de desenvolvimento, finalização do projeto, destacamento experimental e verificações de fiabilidade antes de surgir na Praça Tiananmen.
Acrescentou que o DF-61 era compatível com as redes de comando, comunicações e apoio existentes. Isso permitiria às unidades recorrer a equipamento e métodos de treino já utilizados pela Força de Mísseis, reduzindo a necessidade de novas infraestruturas e formação para receber a arma.
O relato descreve o treino e a entrada ao serviço, mas não indica quantos mísseis DF-61 foram destacados, onde estão as suas bases, qual o seu nível de prontidão detalhado ou quando será realizado um lançamento de treino. As especificações técnicas, incluindo o alcance e a carga de ogivas oficialmente confirmados, também não foram divulgadas.
Um lançador móvel e um alcance máximo estimado superior
O DF-61 surgiu no desfile de setembro num veículo com 16 rodas. O Center for Strategic and International Studies descreve-o como um ICBM móvel na sua análise do desfile nuclear. O veículo é um lançador transportador-erector: transporta o míssil, eleva-o até à posição de lançamento e serve de plataforma para o disparo.
O DF-41, um ICBM chinês anterior, também utiliza um lançador com 16 rodas. O seu alcance estimado é de 12 000 a 15 000 quilómetros e, segundo relatos, começou a entrar ao serviço operacional em 2017, antes de ser apresentado publicamente num desfile em 2019.
O DF-61 foi descrito como uma versão melhorada do DF-41, com um sistema de orientação aperfeiçoado e um alcance máximo estimado de 18 000 quilómetros. Estas continuam a ser avaliações publicadas sobre a nova arma. Com essa distância estimada, o seu alcance máximo seria 3 000 quilómetros superior ao limite máximo estimado para o DF-41.
Considera-se que o DF-41 pode transportar até 10 veículos de reentrada independentes e selecionáveis, geralmente designados pela sigla MIRV. Trata-se de ogivas separadas, transportadas por um único míssil e dirigidas a alvos diferentes. A informação pública sobre o DF-61 continua a ser muito mais escassa, pelo que ainda não é possível descrever a sua carga com o mesmo detalhe.
Porque é importante a mobilidade para a força chinesa de retaliação
Shao descreveu o DF-61 como um reforço da capacidade de retaliação nuclear terrestre da China, em particular da capacidade de sobreviver a um ataque e fazer chegar ogivas através das defesas inimigas. São tarefas militares relacionadas, mas distintas.
A sobrevivência diz respeito ao que acontece antes do lançamento. Um lançador que se desloca entre diferentes locais pode ser mais difícil de localizar e atingir do que uma arma mantida numa posição conhecida. Por isso, o treino de deslocação e mudança de posição está diretamente ligado ao papel atribuído pela China aos seus mísseis nucleares móveis.
A capacidade de penetração diz respeito ao que acontece depois do lançamento: se uma ogiva consegue atingir o alvo apesar das tentativas dos sistemas defensivos de a intercetar. Shao atribuiu ao novo míssil um desempenho superior nesta área, sem explicar tecnicamente que equipamento o permite.
Para a Força de Mísseis, as comunicações fiáveis também são essenciais. Um lançador que sobreviva precisa de receber ordens autorizadas e agir em conformidade. A descrição de Shao sobre a compatibilidade com as redes de comando existentes aborda, por isso, um aspeto prático da entrada de um novo míssil ao serviço, a par do seu alcance ou dimensão.
A cronologia contextualiza a apresentação pública
O aparecimento do DF-61 decorreu em várias etapas distintas. A sua presença num desfile tornou a arma visível a nível internacional; o relato mais recente sobre o treino descreve o seu lugar nas unidades militares.
- Antes de 2000: Terá começado o desenvolvimento do DF-41.
- 2017: Segundo relatos, o DF-41 começou a entrar ao serviço operacional.
- 2019: A China apresentou publicamente o DF-41 num grande desfile militar.
- 2 de setembro de 2025: Circularam imagens de veículos lançadores com contentores assinalados como DF-61, antes do desfile de Pequim, quando o estado operacional do míssil ainda era incerto.
- 3 de setembro de 2025: O DF-61 foi apresentado oficialmente ao público no desfile que assinalou os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e da rendição do Japão.
- Anúncio de quinta-feira: A televisão estatal chinesa descreveu o DF-61 como estando ao serviço e a participar no treino regular da Força de Mísseis.
A história do DF-41 ajuda a explicar o relato de Shao sobre o DF-61. A apresentação pública pode ocorrer após anos de desenvolvimento e até depois da entrada ao serviço. Segundo Shao, grande parte do trabalho necessário para preparar o DF-61 já tinha sido concluída antes de os espectadores o verem pela primeira vez.
O desfile mostrou vários sistemas de lançamento nuclear
O desfile de 3 de setembro apresentou o DF-61 ao lado de outros dois ICBM terrestres, o DF-31BJ e o DF-5C. O CSIS identificou o DF-31BJ como uma variante concebida para silos subterrâneos, acrescentando um método de destacamento diferente à família móvel DF-31.
O DF-5C é um míssil de combustível líquido capaz de transportar cargas nucleares pesadas até aos Estados Unidos continentais. O Pentágono já tinha identificado outras variantes do DF-5 como capazes de transportar várias ogivas independentes e selecionáveis.
A China apresentou também o míssil JL-3, lançado a partir de submarinos, e o míssil JingLei-1, transportado pelo bombardeiro H-6N. O CSIS descreveu o evento como a primeira apresentação pública chinesa de uma tríade nuclear completa, expressão que designa sistemas de lançamento nuclear a partir de terra, mar e ar.
Segundo a avaliação citada pelo CSIS, o JL-3 poderá ter um alcance superior a 5 400 milhas náuticas, ou cerca de 10 000 quilómetros. Esse alcance poderá permitir-lhe ameaçar os Estados Unidos continentais a partir de águas próximas da China. O país tem seis submarinos da classe JIN em serviço operacional, cada um capaz de transportar até 12 mísseis balísticos.
O CSIS chamou também a atenção para armas que não estiveram no desfile, incluindo o DF-27, testado em 2023 e que se acreditava ter começado a ser destacado em 2024. A seleção das armas exibidas deu particular destaque aos sistemas capazes de atingir os Estados Unidos.
Um arsenal mais vasto por detrás do novo míssil
O CSIS estimou que o arsenal nuclear da China ascendia a cerca de 600 armas em 2025, face a 300 em 2020. Estes números apontam para uma duplicação em cinco anos. A avaliação do Pentágono de dezembro de 2024 tinha como referência uma data anterior e estimava que, em meados de 2024, a China já tinha ultrapassado as 600 ogivas nucleares operacionais.
O Pentágono projetou que a China teria mais de 1 000 ogivas nucleares operacionais em 2030. Tomando 600 como valor de referência, isso corresponderia a um aumento superior a 400 ogivas, ou a mais de dois terços.
O Departamento de Defesa dos EUA descreveu a evolução do desenvolvimento nuclear chinês no seu relatório ao Congresso de dezembro de 2024:
A República Popular da China está a desenvolver novos mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) que irão reforçar significativamente as suas forças de mísseis com capacidade nuclear e exigirão um aumento da produção de ogivas nucleares.
A construção, pela China, de grandes campos de silos para mísseis nas regiões ocidentais é outra componente desta expansão. O DF-61 acrescenta um sistema móvel a uma força que também investe em posições de lançamento fixas, sendo que os diferentes métodos de destacamento implicam necessidades distintas em termos de pessoal, proteção e sistemas de comando.
A mensagem estratégica vai além do lançador
Os autores do CSIS Joseph Rodgers, diretor-adjunto do Project on Nuclear Issues, e Heather Williams, diretora do projeto, interpretaram o destaque dado no desfile a armas capazes de atingir os Estados Unidos como uma mensagem de dissuasão dirigida a Washington, nomeadamente no que respeita a uma possível intervenção num conflito em Taiwan.
A análise relaciona dois desenvolvimentos: o aumento do arsenal e a diversificação dos sistemas de lançamento. Mais ogivas aumentam a dimensão da força, enquanto lançadores móveis, silos, submarinos e bombardeiros oferecem aos estrategas militares diferentes formas de a utilizar.
Rodgers e Williams apelaram também aos Estados Unidos para manterem abertas as oportunidades de controlo de armamento e de diálogo destinado a reduzir os riscos nucleares. Para os governos de toda a Ásia, a entrada do DF-61 no treino regular torna a expansão chinesa mais concreta: uma arma vista recentemente num desfile está agora a ser incorporada nas atividades regulares de uma força militar.
O desenvolvimento imediato é, por isso, tanto operacional como simbólico. A China apresenta o DF-61 como um equipamento que as suas tripulações já treinam para utilizar, enquanto as avaliações externas o situam num arsenal nuclear que cresce em dimensão e diversidade.
Principais pontos
- A China afirma que o DF-61 entrou ao serviço e passou a integrar o treino regular da Força de Mísseis, que inclui deslocações no terreno, mudanças de posição e procedimentos de lançamento.
- O míssil foi apresentado publicamente pela primeira vez a 3 de setembro de 2025, num lançador com 16 rodas.
- O comentador militar Shao Yongling atribuiu a rápida transição ao desenvolvimento prévio e à compatibilidade com as redes de apoio existentes.
- O alcance estimado, de até 18 000 quilómetros, não foi confirmado oficialmente.
- O desfile apresentou também sistemas de lançamento nuclear a partir de silos, submarinos e aeronaves.
- O Pentágono estimou que a China tinha mais de 600 ogivas nucleares operacionais em meados de 2024 e projetou mais de 1 000 em 2030.






