Acordo de transportes avança antes de um tratado de paz
O Parlamento da Arménia aprovou, a 28 de outubro de 2026, um acordo-quadro com os Estados Unidos, dando apoio político a um projeto de transportes no sul da Arménia que ligaria o Azerbaijão continental ao seu exclave de Naquichevão. O acordo foi aprovado por 63 votos contra 32, sem abstenções, e contou apenas com o apoio da fação governamental Contrato Civil.
Índice
- Acordo de transportes avança antes de um tratado de paz
- O que atravessaria o sul da Arménia?
- Como o acordo chegou ao Parlamento
- Quem é dono da empresa e quem controla o território?
- Como funcionariam os controlos fronteiriços
- O que a Arménia espera ganhar
- A paz tem de preceder a abertura da rota?
- Oposição exige garantias mais sólidas
- Custos, concorrência e trabalho ainda por fazer
- Principais pontos
A Rota Trump para a Paz e a Prosperidade Internacionais, conhecida pela sigla TRIPP, seria desenvolvida por uma empresa inicialmente detida em 74% pelos Estados Unidos e em 26% pela Arménia. O acordo-quadro prevê um período inicial de 49 anos, reservando às autoridades arménias o controlo das fronteiras, as alfândegas, a aplicação da lei e outros poderes soberanos.
A maior controvérsia diz respeito ao que a Arménia recebe em troca e quando. O Azerbaijão ganharia uma ligação a um território separado do seu território continental. O Governo arménio promete acesso a mercados e rotas de transporte através do Azerbaijão, mas as disposições técnicas para esse acesso ainda têm de ser negociadas.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Ararat Mirzoyan, afirmou que o projeto poderá começar a funcionar antes de a Arménia e o Azerbaijão assinarem o tratado de paz. Os deputados da oposição querem que os dois passos estejam ligados, alertando que o Azerbaijão poderá obter a rota que pretende enquanto adia um acordo definitivo.
A votação faz, por isso, avançar mais do que uma ferrovia ou uma estrada. Compromete a Arménia com uma parceria prolongada com Washington, deixando por resolver documentos comerciais importantes, acordos de circulação recíproca e o calendário da paz.
O que atravessaria o sul da Arménia?
A TRIPP atravessaria a província arménia de Siunique, no sul do país, recorrendo a um troço ferroviário de cerca de 43 quilómetros para ligar o Azerbaijão a Naquichevão. Um exclave é uma parte de um país separada do seu território principal. O projeto prevê também uma autoestrada, infraestruturas energéticas e ligações de comunicações digitais.
O Azerbaijão procura há muito uma ligação a que chama corredor de Zangezur. A Arménia rejeitou essa designação por recear que implique uma rota fora do seu controlo. Em vez disso, o acordo-quadro coloca as infraestruturas sob a soberania e jurisdição da Arménia, com os Estados Unidos a participar como parceiro comercial.
Para o Azerbaijão, o projeto oferece a ligação mais curta entre o seu território continental e Naquichevão. Para a Arménia, o benefício proposto é um acesso mais amplo, através do Azerbaijão, a outros países, além da reabertura das ligações de transporte regionais.
A posição do Governo depende de o tráfego funcionar nos dois sentidos. Uma ligação operacional a Naquichevão satisfaria um objetivo específico do Azerbaijão; os ganhos da Arménia dependeriam das rotas, dos procedimentos fronteiriços e das condições comerciais que conseguisse assegurar para os seus próprios passageiros e carga.
Como o acordo chegou ao Parlamento
O projeto surgiu na cimeira de Washington de agosto de 2025, onde a Arménia e o Azerbaijão rubricaram um tratado de paz, mas não o assinaram. A rubrica regista o acordo sobre um texto, enquanto a assinatura constitui uma etapa formal adicional. O acordo-quadro bilateral entre a Arménia e os Estados Unidos surgiu em 2026.
As principais etapas foram:
- 8 de agosto de 2025: A cimeira de Washington estabeleceu o acordo político para a TRIPP e levou à rubrica do tratado de paz entre a Arménia e o Azerbaijão.
- 26 de maio de 2026: O acordo-quadro da TRIPP foi rubricado durante a visita do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a Erevan. A versão final foi assinada à distância alguns dias depois.
- 27 de outubro de 2026: O Parlamento debateu a ratificação numa sessão limitada a duas horas.
- 28 de outubro de 2026: Os deputados ratificaram o acordo-quadro por 63 votos contra 32.
A Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros aprovara o acordo na semana anterior. Durante o debate de 27 de outubro, 27 deputados inscreveram-se para interrogar Mirzoyan, mas apenas três conseguiram fazê-lo antes de o tempo terminar. Os deputados da oposição contestaram a oportunidade limitada para analisar um compromisso que durará décadas.
Quem é dono da empresa e quem controla o território?
A Empresa de Desenvolvimento da TRIPP supervisionaria o desenvolvimento e a execução do projeto. A Arménia conceder-lhe-ia direitos exclusivos para utilizar e desenvolver terrenos nas áreas atribuídas ao projeto durante 49 anos.
Inicialmente, os Estados Unidos deteriam quase três vezes a participação da Arménia: 74%, contra 26%. Se a cooperação for prolongada por mais 50 anos após o período inicial, a participação arménia subiria para 49%, um aumento de 23 pontos percentuais. Os dois períodos poderiam totalizar 99 anos.
No âmbito do acordo-quadro, a propriedade da empresa e a autoridade do Estado têm funções distintas. A empresa geriria o desenvolvimento do projeto e os serviços contratados. A Arménia manteria a autoridade legislativa, regulamentar e judicial, bem como o controlo da segurança nacional, da polícia, das decisões fronteiriças, dos impostos e das taxas alfandegárias.
O estatuto da empresa e o acordo entre acionistas ainda têm de ser finalizados. Estes documentos definem a governação da empresa e a forma como os proprietários exercem os seus direitos. Os deputados da oposição pediram esclarecimentos sobre a repartição da propriedade, as receitas previstas e as garantias para a Arménia ao longo da vigência prolongada do acordo.
Como funcionariam os controlos fronteiriços
O acordo-quadro propõe um modelo com atendimento ao público e serviços internos. Operadores privados contratados pela empresa de desenvolvimento tratariam das tarefas de atendimento ao público, incluindo a recolha de documentos e taxas e o processamento de pagamentos das pessoas que entrassem na Arménia vindas do Azerbaijão.
As decisões continuariam a caber às autoridades arménias. Na prática, o operador privado receberia informações e trataria de tarefas administrativas, enquanto as instituições do Estado exerceriam os poderes legais relativos à entrada no país, às alfândegas e à segurança.
O modelo parece destinado a responder à exigência do presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, de que os cidadãos azerbaijanos não tenham de «ver a cara» dos guardas fronteiriços arménios. Separaria o contacto direto com os viajantes das decisões tomadas pelas autoridades arménias.
A deputada da oposição Lilit Galstyan, presidente da Comissão Parlamentar dos Direitos Humanos e dos Assuntos Públicos, questionou como funcionaria essa separação na prática. Pediu limites geográficos mais claros, uma divisão mais precisa entre os operadores privados e as instituições do Estado, bem como disposições mais sólidas para rever as condições ou resolver litígios.
O que a Arménia espera ganhar
Mirzoyan apresentou a TRIPP como parte da estratégia de paz da Arménia, além de um projeto económico. Afirmou que poderia apoiar ligações ferroviárias através do eixo Norte–Sul, o comércio com o Azerbaijão e o acesso a mercados de outros países através do território azerbaijano.
Uma rota mais direta para o transporte de mercadorias entre a Arménia e a China foi um dos exemplos que deu. Acrescentou que os parceiros norte-americanos suportariam a maior parte do investimento.
O ministro dos Negócios Estrangeiros argumentou que os países com interesse financeiro em manter os transportes ininterruptos teriam um motivo prático para preservar a estabilidade das relações. Durante o debate parlamentar, descreveu o interesse económico mútuo como uma garantia de paz:
«Querem garantias? A verdadeira garantia é o interesse. Nós [ou seja, a Arménia] devemos ter interesse, e o Azerbaijão também deve ter interesse»,
O argumento do Governo é que uma interrupção se tornaria dispendiosa para vários participantes, e não apenas para um. A Arménia, o Azerbaijão e os outros países que utilizassem a rota teriam todos algo a perder com a interrupção do transporte de mercadorias e do comércio.
Artur Khachatryan, deputado da Aliança Arménia, questionou se o acordo assegura obrigações equivalentes por parte do Azerbaijão. Pediu esclarecimentos sobre as rotas azerbaijanas que a Arménia poderia utilizar, a possibilidade de os transportes internos arménios recorrerem às infraestruturas da TRIPP e o acesso da Arménia às ligações energéticas e de comunicações. Estes pormenores são importantes porque determinam que empresas e viajantes poderiam efetivamente beneficiar.
A paz tem de preceder a abertura da rota?
Narek Karapetyan, líder do partido Arménia Forte, argumentou que lançar a TRIPP antes da assinatura do tratado de paz poderia enfraquecer a posição negocial da Arménia. Depois de o Azerbaijão obter a ligação a Naquichevão, alertou, poderia adiar o tratado ou impor novas condições, incluindo exigências de alterações constitucionais.
Mirzoyan defendeu a posição oposta: a cooperação poderia, por si só, aproximar a assinatura do tratado. Sustentou que a utilização do território arménio pelo Azerbaijão criaria interesse na abertura de ligações de transporte mais amplas.
Ruben Rubinyan, vice-presidente do Parlamento, também defendeu que o projeto avançasse independentemente do tratado. Descreveu a rota e a continuação da delimitação e demarcação da fronteira como elementos práticos da paz. Delimitar significa acordar onde passa uma fronteira; demarcar significa assinalá-la no terreno.
Rubinyan rejeitou o argumento de que a Arménia deveria travar o projeto para obter a assinatura do tratado:
Se defendem que não devemos executar este projeto para garantir a assinatura de um tratado de paz, estão a dizer que a TRIPP é uma má iniciativa para a Arménia. Mas a TRIPP não é, de modo algum, uma má iniciativa para a Arménia.
A divergência diz respeito à ordem dos compromissos. O Governo quer que a cooperação nos transportes ajude a construir a paz. Os seus opositores querem que um acordo de paz assinado constitua uma base mais sólida para essa cooperação.
Oposição exige garantias mais sólidas
As fações da Aliança Arménia e da Arménia Forte votaram contra a ratificação. Anna Grigoryan, líder parlamentar da Aliança Arménia, argumentou que o acordo bilateral com Washington refletia os interesses do Azerbaijão de forma mais direta do que os da Arménia.
Grigoryan afirmou que os Estados Unidos ganhariam presença numa zona estrategicamente importante, perto do Irão, enquanto o Azerbaijão asseguraria a ligação a Naquichevão pretendida por Baku e pela Turquia. Questionou se a promessa de reabertura das ligações de transporte da Arménia fora acompanhada por medidas concretas.
Tigran Abrahamyan, secretário da fação Arménia Forte, afirmou que a execução precisava de mais do que um garante. Questionado sobre se a fação teria apoiado o projeto com a Rússia como garante, salientou, em vez disso, a necessidade de analisar em conjunto a TRIPP e o acordo de paz.
Abrahamyan explicou em que circunstâncias a posição da sua fação poderia ter sido diferente:
«Consideramos que o acordo de paz [com o Azerbaijão] e o projeto TRIPP deveriam ter sido debatidos em conjunto no Parlamento. Se o acordo de paz tivesse sido assinado e apresentado ao Parlamento juntamente com a TRIPP, a nossa fação teria votado de outra forma»,
Arega Hovsepyan, também deputado da Arménia Forte, defendeu que vários garantes apoiassem a assinatura do acordo de paz. Descreveu um tratado assinado como a melhor garantia para a TRIPP, dando prioridade aos compromissos jurídicos e diplomáticos em detrimento da confiança do Governo nos interesses económicos partilhados.
Custos, concorrência e trabalho ainda por fazer
Representantes da oposição também questionaram a viabilidade comercial do projeto. Armen Ashotyan, vice-presidente do Partido Republicano, citou estimativas de custos superiores a 2,4 mil milhões de dólares para infraestruturas ferroviárias, rodoviárias, energéticas e de oleodutos. O valor foi apresentado por um opositor político do projeto, e não como um orçamento aprovado pelo Governo.
Ashotyan identificou outros quatro projetos que concorrem com a TRIPP pelo tráfego entre o leste e o oeste: o porto de águas profundas de Anaklia, na Geórgia; a ferrovia Baku–Tbilisi–Kars, em funcionamento; a rota de Aras, pelo Irão, que liga o Azerbaijão a Naquichevão; e a ferrovia Turquemenistão–Irão–Turquia. A sua relevância é comercial: uma nova rota precisa de clientes dispostos a escolhê-la em vez das alternativas.
Os deputados da oposição afirmaram que não tinha sido apresentada uma avaliação abrangente do impacto económico. Entre os elementos que queriam conhecer antes de aceitarem compromissos prolongados estavam as previsões de volumes de carga e receitas, bem como o retorno financeiro para a Arménia.
O professor Gafar Chahmaghly, especialista em assuntos arménios, descreveu a ratificação como uma etapa importante dos trabalhos preparatórios. Afirmou que já tinha sido criada uma empresa e que tinham sido atribuídos recursos financeiros, mas que o estatuto da empresa e o acordo entre acionistas ainda aguardavam aprovação final. Referiu também oleodutos e gasodutos entre as componentes previstas e afirmou que era necessária coordenação com o Azerbaijão.
Chahmaghly considerou possível a execução antes da assinatura de um tratado de paz, mas alertou que abrir a rota sem um acordo definitivo poderia criar problemas graves no futuro. Não foi anunciada qualquer data para a abertura da rota ou para a assinatura do tratado. Entre as próximas tarefas práticas contam-se a conclusão dos documentos da empresa e a negociação do trânsito arménio através do Azerbaijão, incluindo os procedimentos fronteiriços para os cidadãos arménios que viajem por Naquichevão.
Principais pontos
- A Arménia ratificou o acordo-quadro norte-americano da TRIPP a 28 de outubro de 2026, por 63 votos contra 32 e sem abstenções.
- O projeto ligaria o Azerbaijão continental a Naquichevão através do sul da Arménia, incluindo cerca de 43 quilómetros de ferrovia e outras infraestruturas.
- Inicialmente, os Estados Unidos deteriam 74% da empresa de desenvolvimento e a Arménia 26%, mantendo esta última a autoridade soberana sobre o seu território.
- O acordo inicial dura 49 anos. Uma eventual extensão por mais 50 anos elevaria a participação arménia a 49%.
- O Governo afirma que os interesses económicos partilhados podem reforçar a paz. As fações da oposição exigem garantias mais sólidas e a assinatura de um tratado de paz juntamente com o projeto.
- Continuam por definir os documentos de governação da empresa, os acordos para o trânsito arménio através do Azerbaijão e a data de abertura da rota.






