Dez meses de conversações, mas sem autorização aprovada
A Binance afirma que passou 10 meses a discutir uma atividade licenciada com a Comissão de Valores Mobiliários da Malásia (SC) e o Bank Negara Malaysia, procurando regressar formalmente ao país mais de cinco anos depois de o regulador do mercado de valores mobiliários ter ordenado que cessasse a atividade no país.
Índice
- Dez meses de conversações, mas sem autorização aprovada
- O que consta do registo oficial da Malásia
- Como evoluíram as restrições
- Porque são importantes os anúncios em moeda estrangeira
- A resposta da Binance à queixa mais recente
- As alegações de segurança exigem cautela
- O que mudaria com uma atividade licenciada
- Pontos principais
A plataforma revelou as conversações num comunicado de 31 de outubro. O seu site e as aplicações estão bloqueados na Malásia, e não consta do registo da SC de cinco plataformas de negociação de ativos digitais aprovadas, atualizado a 20 de julho de 2026.
Um porta-voz da Binance descreveu as conversações como abrangendo a «viabilidade e estrutura» de um modelo de negócio licenciado. A empresa não quis identificar a licença que pretende obter. Não foi anunciada qualquer aprovação nem data de lançamento, e as conversações continuam na fase de determinar como poderia funcionar uma atividade da Binance na Malásia.
O possível regresso ocorre num contexto de renovado escrutínio do mercado peer-to-peer da plataforma, onde os utilizadores negoceiam entre si. Lim Guan Eng, deputado malaio, pediu à SC que investigue se os anúncios publicados em secções de moedas estrangeiras estavam a ser usados para organizar transações em ringgit.
A Binance afirma ter encerrado voluntariamente um mercado de kwanzas da Papua-Nova Guiné que estava informalmente indexado ao ringgit. Descreve a queixa mais recente, relativa a um anúncio publicado na secção de leus romenos, como um caso isolado.
Para os clientes malaios, a questão prática é saber se a Binance consegue obter autorização para um conjunto definido de serviços, satisfazendo simultaneamente as exigências dos reguladores quanto ao funcionamento do seu mercado. A empresa procura aceder a um mercado que já tem plataformas de negociação registadas, e não entrar num mercado sem um quadro de licenciamento.
O que consta do registo oficial da Malásia
A lista de plataformas de negociação registadas da SC identifica a HATA Digital, a Luno Malaysia, a MX Global, a SINEGY DAX e a Kinetic DAX como operadores registados. A Binance não consta da lista.
O regulador designa estas empresas como Operadores de Mercado Reconhecidos, ou RMOs. Em termos simples, são empresas registadas para gerir um mercado. Uma plataforma de negociação de ativos digitais, muitas vezes abreviada como DAX, é uma plataforma onde os clientes negoceiam ativos digitais, como criptomoedas.
A SC declara que as entidades sem a sua aprovação têm de cessar imediatamente a atividade e devolver o dinheiro e os ativos recolhidos junto dos investidores. A ordem também abrange empresas que anteriormente operavam ao abrigo de acordos temporários enquanto a Malásia introduzia o seu quadro regulamentar.
O registo inclui ainda plataformas de negociação impedidas de continuar a operar a partir de 1 de março de 2019 e de 1 de junho de 2019, bem como entidades que operaram durante um período transitório entre 15 de janeiro e 1 de março de 2019.
O quadro regulamentar surgiu na sequência da Ordem de 2019 relativa à Prescrição de Valores Mobiliários ao abrigo da Lei dos Mercados de Capitais e Serviços (Moeda Digital e Token Digital), que entrou em vigor a 15 de janeiro de 2019. A 31 de janeiro foram publicadas diretrizes revistas sobre os Mercados Reconhecidos, que introduziram requisitos para os operadores de plataformas de negociação de ativos digitais.
O registo remete para a Ordem de Prescrição de 2019 no Diário da Federação. As Diretrizes sobre Ativos Digitais da SC, emitidas a 28 de outubro de 2020 ao abrigo da secção 377 da Lei dos Mercados de Capitais e Serviços de 2007, determinam que as moedas digitais e os tokens digitais que cumpram os requisitos da Ordem são considerados valores mobiliários para efeitos da legislação relativa a valores mobiliários.
O registo dá um enquadramento concreto às negociações da Binance: a Malásia dispõe de uma via para que as plataformas aprovadas possam operar, ao mesmo tempo que determina que os operadores não aprovados têm de cessar a atividade. A Binance ainda não explicou qual a categoria regulamentar que abrangeria a atividade proposta nem que produtos pretende disponibilizar.
Como evoluíram as restrições
Em julho de 2021, a SC ordenou à Binance que cessasse a atividade na Malásia, depois de concluir que estava a operar ilegalmente uma plataforma de negociação de ativos digitais. A medida foi além do acesso à negociação e abrangeu também as formas como a empresa promovia os seus serviços e chegava aos investidores locais.
A Binance recebeu ordens para cessar as atividades nos meios de comunicação social e de marketing e para restringir o acesso de investidores malaios ao seu grupo no Telegram. As medidas visaram tanto a própria plataforma como os canais através dos quais podia atrair clientes ou comunicar com eles.
- 15 de janeiro de 2019: Entrou em vigor a ordem da Malásia relativa a moedas digitais e tokens digitais.
- 31 de janeiro de 2019: A SC publicou diretrizes revistas sobre os Mercados Reconhecidos, introduzindo requisitos para as plataformas de negociação de ativos digitais.
- Julho de 2021: A SC ordenou à Binance que cessasse as operações, o marketing e as atividades relacionadas na Malásia.
- 2024: A SC retirou a Binance da sua Lista de Alerta ao Investidor.
- 20 de julho de 2026: O registo atualizado da SC indicava cinco plataformas de negociação de ativos digitais aprovadas, sem incluir a Binance.
- Setembro de 2026: Lim Guan Eng escreveu à SC, pedindo uma investigação sobre possíveis transações indiretas em ringgit.
- Outubro de 2026: A Binance voltou a ser incluída na Lista de Alerta ao Investidor, sem que tenha sido divulgada publicamente qualquer justificação.
- 31 de outubro de 2026: A Binance revelou as conversações sobre o licenciamento, e o gabinete de Lim distribuiu a carta que este enviou.
Passaram mais de cinco anos entre a ação de fiscalização de julho de 2021 e o comunicado mais recente. Durante esse período, a situação da Binance na lista de alerta mudou duas vezes, mas só agora foi descrito publicamente o seu plano de regresso mediante licença.
Porque são importantes os anúncios em moeda estrangeira
Na carta de setembro, Lim pediu à SC que averiguasse se a plataforma peer-to-peer da Binance permitia transações em ringgit através de anúncios publicados sob a designação de outra moeda. O seu gabinete distribuiu a carta a 31 de outubro, na sequência de alegações de um grave incidente de segurança na plataforma.
A negociação peer-to-peer, habitualmente designada por P2P, permite aos utilizadores encontrar contrapartes numa plataforma e combinar compras ou vendas. Um anúncio pode indicar a moeda e as condições em que um utilizador pretende negociar. A designação da moeda ajuda, por isso, a identificar o mercado em que a transação é proposta.
A preocupação de Lim centra-se na moeda efetivamente utilizada. Um anúncio publicado num mercado de moeda estrangeira pode, ainda assim, envolver ringgit se os participantes combinarem o pagamento ou o preço nessa moeda. O pedido de Lim solicita ao regulador que investigue essa possibilidade.
A Binance reconheceu que um mercado específico de kwanzas da Papua-Nova Guiné estava informalmente indexado ao ringgit. Uma indexação significa que o valor de uma moeda está ligado ao de outra. Neste caso, a descrição da empresa indica que os preços no mercado estavam informalmente associados à moeda malaia.
A Binance afirmou ter desativado voluntariamente esse mercado no âmbito das conversações com a SC. Esta é a alteração operacional mais clara que a empresa revelou em ligação com as conversações na Malásia.
A resposta da Binance à queixa mais recente
A Binance afirmou que a queixa mais recente dizia respeito a um único anúncio publicado por um utilizador não malaio no mercado de leus romenos. Acrescentou que nenhum outro produto da sua plataforma estava indexado ao ringgit ou funcionava como substituto dessa moeda.
Um porta-voz da Binance defendeu os controlos da empresa sobre o mercado, reconhecendo, contudo, as suas limitações:
Nenhuma plataforma, empresa ou mecanismo de controlo consegue impedir totalmente a atuação de agentes mal-intencionados determinados a contornar as regras de um mercado.
O porta-voz rejeitou também a ideia de que o anúncio refletisse uma tentativa continuada de contornar os requisitos malaios:
Levamos esta questão a sério, mas não consideramos que um caso isolado como este reflita um esforço continuado para contornar a legislação malaia.
Lim pede uma análise regulatória das transações, enquanto a Binance se pronuncia sobre a dimensão e a intenção da atividade. A avaliação da SC determinará de que forma essas práticas de mercado se enquadram nos requisitos da Malásia.
Os dois mercados de moedas estrangeiras envolvem também medidas diferentes por parte da Binance. A empresa afirma ter encerrado o mercado de kwanzas; a sua resposta sobre o anúncio relativo aos leus romenos centra-se na conduta de um utilizador individual. Ambos são relevantes para a mesma tarefa prática: garantir que a atividade de negociação efetiva na plataforma cumpre as regras aplicáveis aos clientes malaios.
As alegações de segurança exigem cautela
Juntamente com as notícias sobre o licenciamento, circulou a alegação de que a Binance teria sofrido recentemente uma violação de segurança que poderia envolver até 6,3 mil milhões de dólares. A alegação inclui ainda afirmações de que os levantamentos foram suspensos e de que a empresa se comprometeu a cobrir todas as perdas.
A dimensão e os pormenores do incidente continuam por verificar. Por isso, há que encarar com cautela as descrições do caso como o maior ataque informático conhecido contra criptomoedas. Ainda não existe um relato fidedigno das perdas, dos clientes afetados ou dos mecanismos de reembolso.
O gabinete de Lim mencionou o recente incidente de segurança ao distribuir a carta. O pedido de investigação sobre as transações em ringgit, porém, data de setembro e diz respeito ao funcionamento do mercado P2P.
A alegação de um incidente de segurança e as conversações sobre o licenciamento dizem respeito a problemas diferentes para os clientes. A suspensão dos levantamentos afetaria o acesso aos fundos, enquanto uma licença determinaria os serviços que uma empresa pode oferecer legalmente na Malásia. Os clientes precisam de informações fiáveis tanto sobre o acesso aos seus ativos como sobre a situação legal da plataforma que os detém.
O que mudaria com uma atividade licenciada
A Binance afirma que continua empenhada em colaborar com os reguladores malaios para disponibilizar os seus serviços aos clientes locais em conformidade com os requisitos nacionais. Uma aprovação abriria uma via formal de regresso a um país onde o site e as aplicações da plataforma foram sujeitos a restrições.
A referência da empresa à estrutura de uma atividade licenciada é importante porque a autorização se aplicaria a um modelo operacional específico. A entidade empresarial, os serviços e as práticas do mercado teriam de estar em conformidade com a aprovação concedida. A Binance ainda não descreveu publicamente os termos propostos.
O registo da Malásia mostra também que a situação regulamentar pode mudar ao longo do tempo. A MX Global consta tanto de uma lista histórica de plataformas impedidas de continuar a operar a partir de 1 de junho de 2019 como do registo atual de operadores aprovados. A atual inscrição da empresa demonstra como a sua situação pode diferir de uma restrição anterior.
Para a Binance, o próximo passo concreto seria divulgar a licença pretendida ou um anúncio dos reguladores sobre um pedido ou uma decisão. Até lá, a posição pública é que a Binance está a discutir o regresso, que cinco plataformas constam do registo de operadores aprovados da SC e que ainda não foi anunciado publicamente qualquer desfecho da queixa relativa às transações em ringgit.
Pontos principais
- A Binance afirma que mantém há 10 meses conversações sobre o licenciamento com a SC e o Bank Negara Malaysia.
- A plataforma não identificou a licença que pretende obter e não foi anunciada qualquer aprovação nem data de lançamento.
- A SC ordenou à Binance que cessasse a atividade na Malásia em julho de 2021.
- O registo da SC, atualizado a 20 de julho de 2026, inclui cinco plataformas de negociação aprovadas e não inclui a Binance.
- Lim Guan Eng pediu uma investigação sobre possíveis transações em ringgit através de anúncios em moeda estrangeira.
- A Binance afirma ter encerrado um mercado de kwanzas informalmente associado ao ringgit e descreve um anúncio relativo a leus romenos como um caso isolado.
- A alegação de uma violação de segurança no valor de 6,3 mil milhões de dólares continua por verificar.






