Quatro operações, uma lista de espera muito maior
O Azerbaijão realizou quatro transplantes cardíacos no último ano, todos descritos como tecnicamente bem-sucedidos, enquanto mais de 50 doentes continuam à espera de um coração de dador. Entre as pessoas em espera há crianças de quatro ou cinco anos e adultos até aos 60, segundo o professor Kamran Musayev, presidente honorário da Sociedade de Cirurgia Cardiovascular.
Índice
- Quatro operações, uma lista de espera muito maior
- Como o programa chegou ao primeiro aniversário
- O que é necessário para um programa sustentável
- Crianças e adultos enfrentam a mesma escassez
- Como são tomadas as decisões sobre a doação
- Mais registos, mais pessoas à procura de tratamento
- A escassez vai além dos corações
- O seguro e o financiamento público entram no debate
- Pontos principais
Numa conferência realizada durante a Semana do Transplante Cardíaco, Musayev afirmou que o próximo objetivo era transformar aquelas primeiras operações num programa nacional duradouro, capaz de tratar mais doentes. O encontro assinalou o primeiro aniversário do que os participantes descreveram como o primeiro transplante cardíaco de um dador falecido no Azerbaijão e no Cáucaso do Sul.
A urgência da situação ia além da celebração dos progressos cirúrgicos na conferência. Yegana Abbasova, presidente do conselho de administração do Centro de Coordenação da Doação e Transplantação de Órgãos, afirmou que mais de 50 pessoas aguardavam um transplante cardíaco e que recebera recentemente a notícia de que dois doentes tinham morrido.
O desafio do Azerbaijão abrange agora várias áreas dos cuidados de saúde: identificar dadores, registar consentimentos, preparar os doentes, realizar as cirurgias e prestar cuidados no pós-operatório. Os participantes na conferência defenderam também a inclusão dos transplantes cardíacos no seguro de saúde obrigatório, colocando a questão do financiamento a par da capacidade médica.
Como o programa chegou ao primeiro aniversário
Musayev situou em 1999 o início dos preparativos do Azerbaijão para a transplantação. Descreveu um processo que durou 26 a 27 anos, até o país realizar transplantes de dadores falecidos na prática clínica, primeiro com um transplante de fígado e depois com um transplante cardíaco.
A cronologia apresentada por Musayev na conferência do aniversário, descrita num relato datado de 31 de outubro de 2026, situa essas operações em 2025:
- 1999: O Azerbaijão iniciou o trabalho que Musayev identificou como ponto de partida do programa.
- Fevereiro de 2025: Segundo Musayev, o país realizou o primeiro transplante de fígado de um dador falecido.
- Outubro de 2025: Seguiu-se o primeiro transplante cardíaco de um dador falecido.
- Outubro de 2026: Na conferência do aniversário, foram analisadas quatro operações de transplante cardíaco realizadas no ano anterior.
Musayev afirmou que a experiência permitiu testar todo o processo, incluindo a doação e os aspetos médicos, sociais e outros da transplantação. O seu objetivo era tornar esse processo uma parte regular dos cuidados de saúde, em vez de uma conquista ocasional.
Atribuiu os progressos do Azerbaijão às políticas de saúde definidas durante a presidência de Heydar Aliyev e prosseguidas pelo presidente Ilham Aliyev. Mencionou também a atenção da primeira vice-presidente Mehriban Aliyeva à área da saúde e descreveu o país como líder regional em áreas complexas como a transplantação.
O que é necessário para um programa sustentável
A mensagem central de Musayev foi a de que o trabalho tem de prosseguir para lá das primeiras operações bem-sucedidas. Um programa sustentável implica que a cadeia de cuidados possa funcionar repetidamente: identifica-se um dador compatível, autoriza-se a doação, prepara-se um recetor, realiza-se a cirurgia e assegura-se a continuidade dos cuidados no pós-operatório.
O programa científico da conferência refletiu essa tarefa mais abrangente. Os participantes debateram o diagnóstico, os tratamentos médicos e cirúrgicos, a preparação para a transplantação, a seleção de dadores, o procedimento de transplante e o acompanhamento após a cirurgia.
Cada etapa responde a uma necessidade prática diferente. O diagnóstico ajuda a determinar quais os doentes que poderão precisar de um transplante. A seleção de dadores avalia se um órgão é adequado. O acompanhamento pós-operatório permite às equipas médicas vigiar o estado do recetor e reagir a complicações.
Musayev afirmou que as quatro operações de transplante cardíaco foram tecnicamente bem-sucedidas. Não foram divulgados dados sobre a sobrevivência ou a recuperação posterior dos recetores, nem foi anunciado um calendário para expandir o programa ou decidir as alterações propostas ao seguro.
Crianças e adultos enfrentam a mesma escassez
Mais de 50 pessoas à espera de um transplante cardíaco representam uma procura significativa para um programa que realizou quatro operações desse tipo num ano. A lista de espera inclui crianças muito pequenas e adultos, pelo que o serviço tem de considerar doentes de estaturas e necessidades médicas muito diferentes.
Ahliman Amiraslanov, presidente da Comissão de Saúde do Milli Majlis, o parlamento do Azerbaijão, também descreveu como muito elevado o número de pessoas à espera de um transplante cardíaco. Musayev afirmou que estava a aumentar o número de doentes que necessitam de um transplante.
O relato de Abbasova deu à lista de espera um custo humano imediato. Na qualidade de responsável pelo centro de coordenação da doação de órgãos, contou que recebera uma comunicação sobre doentes que tinham morrido:
Mais de 50 pessoas aguardam um transplante cardíaco. Ontem, recebi uma carta a informar que dois dos doentes já tinham falecido.
Estas mortes mostram por que razão alargar o acesso implica mais do que marcar cirurgias adicionais. É necessário que os doentes recebam um órgão compatível enquanto ainda podem ser operados. A disponibilidade de dadores e a prontidão do serviço médico têm de coincidir no momento certo.
Como são tomadas as decisões sobre a doação
Musayev afirmou que o transplante cardíaco exige dadores com diagnóstico de morte cerebral. A morte cerebral corresponde à perda permanente de todas as funções cerebrais, incluindo as que controlam a respiração. É diferente do coma, em que subsistem algumas funções cerebrais.
O suporte médico pode manter a circulação sanguínea durante algum tempo após a morte cerebral, permitindo aos médicos avaliar se os órgãos são adequados para doação. A doação depende depois do processo de consentimento descrito pelos responsáveis nacionais pela transplantação.
Musayev explicou que as famílias podem autorizar a doação ou que as pessoas podem registar previamente a sua vontade. Abbasova afirmou que 1.800 pessoas no Azerbaijão tinham registado a intenção de doar os órgãos após a morte. Descreveu como se aplicaria esse registo caso um dador registado sofresse morte cerebral:
Se estas pessoas tiverem morte cerebral, os seus órgãos serão transplantados para outras pessoas sem que seja necessário obter o consentimento das famílias.
O registo prévio permite, assim, ao centro de coordenação conservar a decisão de uma pessoa. No caso de potenciais dadores sem uma decisão registada, Musayev destacou o papel das famílias na autorização da doação de órgãos.
Mais registos, mais pessoas à procura de tratamento
Musayev afirmou que o interesse na transplantação estava a crescer em duas frentes: há mais pessoas disponíveis para doar e mais doentes a manifestarem necessidade de um transplante. Segundo o professor, a grande maioria das pessoas que se inscreveram voluntariamente no centro de coordenação do Ministério da Saúde durante o ano anterior fê-lo muito recentemente.
Associou esta concentração recente de inscrições à confiança do público nos tratamentos disponíveis no Azerbaijão. Ao falar das pessoas que se inscreveram, afirmou:
Esta é uma prova direta da crescente confiança da população na medicina nacional.
Os 1.800 registos constituem um conjunto de pessoas que manifestaram vontade de doar. A realização efetiva de um transplante continua a depender das circunstâncias da morte, da adequação médica e das necessidades do recetor. O registo documenta decisões; o processo clínico de doação determina quais os órgãos que podem ser utilizados.
Para o centro de coordenação, o crescente interesse implica também gerir os dois lados do serviço: registar as vontades de doação e manter informação sobre os doentes que precisam de órgãos. O destaque dado na conferência à seleção de dadores e à preparação dos doentes colocou estas responsabilidades práticas a par da formação cirúrgica e dos tratamentos.
A escassez vai além dos corações
Abbasova afirmou que mais de 1.500 pessoas constavam da lista de espera do Azerbaijão por órgãos doados. A fila para transplantes cardíacos é apenas uma parte dessa procura mais abrangente, que inclui também pessoas à espera de transplantes de fígado.
Segundo Abbasova, entre 50 e 60 doentes à espera de um transplante de fígado morrem todos os anos. Os seus dados relacionam o novo programa de transplantes cardíacos com um problema mais vasto: pessoas com diferentes formas de falência de órgãos dependem do mesmo sistema nacional de doação e coordenação.
O transplante de fígado foi a primeira operação com um dador falecido na sequência descrita por Musayev: realizou-se em fevereiro, antes do primeiro transplante cardíaco, em outubro. Esta história comum ajuda a explicar por que razão os debates da conferência incidiram sobre o processo de doação no seu conjunto, e não apenas sobre a cirurgia de um único órgão.
Abbasova defendeu também a inclusão dos transplantes de córnea no seguro de saúde obrigatório. A córnea é a camada transparente na parte da frente do olho; o transplante substitui tecido corneano danificado. A sua proposta trouxe outra forma de transplantação para o debate sobre o acesso e o financiamento.
O seguro e o financiamento público entram no debate
Abbasova defendeu a inclusão dos transplantes cardíacos e de córnea no pacote de serviços do seguro de saúde obrigatório. Esse pacote define os serviços pagos através do sistema de seguro, pelo que o seu conteúdo é determinante para o acesso dos doentes aos tratamentos.
Amiraslanov afirmou que o novo orçamento de Estado atribuía cerca de 2,1 mil milhões de manats à saúde. Incluindo as despesas do seguro de saúde obrigatório, estimou o montante em cerca de 4 mil milhões de manats. Referiu ainda despesas de saúde na ordem dos 800 milhões de manats em anos anteriores.
Os valores de 2,1 mil milhões e 4 mil milhões de manats dizem respeito a âmbitos diferentes de despesa: o montante mais elevado inclui o seguro obrigatório. Amiraslanov apresentou os números como prova do aumento dos recursos destinados à saúde, enquanto as propostas sobre transplantes discutidas na conferência diziam respeito à forma como alguns serviços deveriam ser financiados e organizados nesse sistema.
Defendeu também que colocar a gestão do sistema de saúde sob a tutela do Ministério da Saúde poderia melhorar a utilização dos fundos, incluindo os destinados à transplantação de órgãos. Os seus comentários relacionaram a responsabilidade administrativa com o esforço para disponibilizar tratamentos complexos de forma mais regular.
Para os doentes, as questões discutidas na conferência convergem num ponto concreto: acesso a um órgão compatível, uma equipa médica preparada para operar e um serviço capaz de assegurar o tratamento posterior. As primeiras quatro operações cardíacas do Azerbaijão estabeleceram um ponto de partida. Os responsáveis e os profissionais de saúde procuram agora os mecanismos de doação, a cobertura e a continuidade de cuidados necessários para responder a uma lista de espera muito maior.
Pontos principais
- O Azerbaijão realizou quatro transplantes cardíacos no último ano, todos descritos pelo professor Kamran Musayev como tecnicamente bem-sucedidos.
- Mais de 50 doentes aguardam um transplante cardíaco, incluindo crianças de quatro ou cinco anos e adultos até aos 60.
- Yegana Abbasova, responsável pelo centro de coordenação, afirmou ter sido informada recentemente de que dois doentes à espera de transplante cardíaco tinham morrido.
- Mais de 1.500 pessoas aguardam órgãos doados, enquanto 1.800 se inscreveram para doar os órgãos após a morte.
- Abbasova defendeu a inclusão dos transplantes cardíacos e de córnea no seguro de saúde obrigatório.
- A expansão do programa depende da doação, da preparação dos doentes, das cirurgias, da continuidade dos cuidados e do financiamento.






