Chegaram dois caças, faltam ainda 64
Taiwan recebeu os seus dois primeiros caças F-16C/D Block 70 de construção nova na Base Aérea de Chihhang, em Taitung, a 2 de outubro, dando início às entregas ao abrigo de uma compra de 66 aeronaves aprovada pelos Estados Unidos em 2019. A chegada dá à força aérea novas aeronaves para reforçar as defesas a leste, mas a maior parte da encomenda continua em produção, em testes ou a ser preparada para transferência.
Índice
- Chegaram dois caças, faltam ainda 64
- O que aconteceu no voo de entrega?
- Como o calendário derrapou
- O que Taiwan se comprometeu a comprar
- Por que motivo Taiwan está a reforçar a costa leste
- O que muda com o novo radar
- Defesas eletrónicas, sistemas do cockpit e autonomia
- Duas outras compras de armamento terão de esperar até 2028
- Pontos principais
O ministro da Defesa, Wellington Koo, afirmou a 12 de outubro que seis aeronaves tinham chegado à fase de testes de voo e aos procedimentos de aceitação. Duas tinham chegado a Taiwan, duas permaneciam nos Estados Unidos para formação e outras duas estavam a ser submetidas a inspeções de aceitação. A aceitação é o processo pelo qual as autoridades verificam se uma aeronave cumpre os requisitos antes de a receberem.
O primeiro par representa cerca de 3 por cento da encomenda. Taiwan esperava inicialmente que as entregas começassem em 2023 e terminassem no final de 2026. A transferência da fábrica, a escassez de abastecimentos e o trabalho de integração de software atrasaram o programa, deixando a força aérea à espera de aeronaves destinadas a constituir uma parte importante da sua futura frota.
Um relatório do Ministério da Defesa Nacional apresentado ao Yuan Legislativo, o parlamento de Taiwan, inclui os caças entre três aquisições atrasadas, num total de 24 programas de aquisição de armamento aos Estados Unidos em curso. Os outros 21 mantêm-se dentro do calendário previsto. Esta informação permite caracterizar o problema com maior precisão: várias aquisições importantes enfrentam atrasos industriais, enquanto grande parte da carteira mais ampla de compras para a defesa continua a avançar.
O que aconteceu no voo de entrega?
Pilotos dos Estados Unidos transportaram os dois caças até Taiwan e entregaram-nos oficialmente à chegada, de acordo com o procedimento habitual para voos de entrega. Esperava-se que as aeronaves chegassem entre o final de agosto e o início de setembro, pelo que a chegada em outubro aconteceu cerca de um mês mais tarde do que a previsão mais recente.
A viagem incluiu escalas prolongadas no Havai e em Guam. As condições meteorológicas severas foram apontadas como uma possível razão para essas paragens, embora a causa não tenha sido especificada publicamente. Este atraso final surgiu na sequência de uma espera muito mais longa, causada por problemas de produção e técnicos.
Chihhang servirá de base para a formação de conversão, na qual os pilotos aprendem a operar a nova variante e o pessoal de manutenção se familiariza com o seu equipamento e os respetivos requisitos de assistência. Os caças serão atribuídos à 7.ª Ala de Caças Táticos, cujos aviões F-5 Tiger II foram retirados de serviço em 2024.
Espera-se que sejam entregues mais aeronaves em lotes, após a conclusão dos preparativos. As autoridades de Taipé esperavam receber mais duas antes do final de outubro, enquanto Koo confirmou que eram esperadas novas entregas, sem indicar um número.
Como o calendário derrapou
A Lockheed Martin transferiu a produção dos F-16 de Fort Worth, no Texas, para Greenville, na Carolina do Sul. A unidade de Greenville entrou em funcionamento em 2019 e é a única instalação de produção de F-16 atualmente ativa no mundo. O Ministério da Defesa de Taiwan identificou a transferência e o reinício da produção, juntamente com perturbações na cadeia de abastecimento, como fatores que põem em risco o calendário de entregas.
A transferência da produção de aeronaves exige que a maquinaria, os fornecedores, os processos de fabrico e os trabalhadores especializados funcionem em conjunto num novo local. A falta de um componente necessário pode atrasar uma aeronave que esteja praticamente concluída. A integração de software acrescenta outra tarefa: o radar, os ecrãs do cockpit, as interfaces das armas e os restantes sistemas têm de trocar informações corretamente.
Os principais marcos mostram há quanto tempo Taiwan aguarda:
- 2019: Os Estados Unidos aprovaram a venda de 66 novos caças F-16C/D Block 70.
- 2023: Estava previsto que as entregas começassem nesse ano. Taiwan também concluiu, em 2023, as atualizações da sua frota de F-16A/B existentes.
- 2024: A 7.ª Ala de Caças Táticos retirou de serviço os seus aviões F-5 Tiger II.
- Março de 2025: A Lockheed Martin apresentou o primeiro avião Block 70 de construção nova destinado a Taiwan.
- 2 de outubro: As duas primeiras aeronaves chegaram à Base Aérea de Chihhang.
- 12 de outubro: Koo apresentou o ponto de situação das seis aeronaves em testes, aceitação, formação ou processo de entrega.
- Final de 2026: O prazo original para concluir a entrega das 66 aeronaves.
Koo recusou garantir que a conclusão aconteça até ao final de 2027. Espera-se agora que as entregas prossigam pelo menos até 2028, embora não tenha sido anunciado um novo prazo final firme. Taiwan afirma que continuará a coordenar-se com Washington para acelerar o programa.
O que Taiwan se comprometeu a comprar
A aquisição, conhecida como Phoenix Soaring, abrange 66 caças de fabrico novo. A venda aprovada em 2019 foi avaliada em 7,8 mil milhões de dólares, enquanto o programa de aquisição também tem sido descrito como valendo cerca de 8,2 mil milhões de dólares. O Ministério da Defesa de Taiwan indica uma dotação de 247,23 mil milhões de dólares taiwaneses entre 2020 e 2026.
Depois da chegada das duas primeiras aeronaves, faltam ainda 64 para chegarem a Taiwan. A distribuição apresentada por Koo mostra também por que motivo as aeronaves que estão nos Estados Unidos têm funções diferentes: algumas apoiam a formação, enquanto outras ainda têm de concluir as inspeções de aceitação antes da transferência.
Taiwan planeia utilizar os novos caças juntamente com 139 F-16A/B Block 20 mais antigos, modernizados para a norma F-16V. A adição das 66 novas aeronaves a essa frota declarada elevaria o total para 205 F-16, um aumento de cerca de 47 por cento face aos 139 atuais.
Também se afirmou que a nova encomenda contribuirá para substituir, a prazo, os caças Mirage 2000 de fabrico francês de Taiwan, que têm enfrentado problemas de fiabilidade. A afetação imediata a uma base é mais específica: as aeronaves que chegam a Chihhang integram a ala que anteriormente operava os F-5. São aspetos distintos do planeamento da frota: a unidade que recebe os aparelhos e as necessidades mais amplas de substituição da força aérea.
Por que motivo Taiwan está a reforçar a costa leste
Chihhang situa-se em Taitung, na costa leste de Taiwan, virada para o oceano Pacífico. As autoridades taiwanesas afirmam que as novas aeronaves vão reforçar a defesa aérea naquela zona, onde aviões e navios chineses operam durante grandes exercícios militares em torno da ilha.
A força aérea de Taiwan é chamada a responder quase diariamente a aeronaves militares chinesas. Essas missões exigem caças disponíveis, tripulações treinadas e apoio de manutenção. Uma frota maior de F-16 daria à força aérea mais aeronaves para distribuir entre missões operacionais, formação e períodos de manutenção de cada aparelho.
As primeiras entregas dão também início ao trabalho prático de introdução de uma nova variante na sua base. Os pilotos têm de concluir a formação de conversão, as equipas de terra têm de aprender a operar os sistemas e a unidade tem de ganhar experiência na utilização e manutenção das aeronaves.
O ritmo das entregas dos lotes seguintes influenciará esse processo. Um fluxo previsível de aeronaves ajuda a força aérea a organizar a formação e a capacidade de manutenção, enquanto novos atrasos prolongam o período em que as frotas existentes suportam a carga operacional.
O que muda com o novo radar
O Block 70 está equipado com o radar APG-83 Scalable Agile Beam Radar, geralmente designado SABR. Utiliza uma antena de varrimento eletrónico ativo, ou AESA, que direciona eletronicamente os feixes de radar através de numerosos elementos pequenos, em vez de depender exclusivamente de uma antena com movimento mecânico.
O radar é descrito como capaz de detetar, acompanhar e identificar simultaneamente mais de 20 alvos, com processamento mais rápido e maior alcance de deteção do que o equipamento mais antigo. Para o piloto, isso significa dispor de uma imagem mais detalhada das aeronaves circundantes e das potenciais ameaças.
O SABR também permite produzir mapas de radar de abertura sintética. Esta técnica utiliza sinais de radar recolhidos enquanto a aeronave se desloca para criar imagens detalhadas do solo. Dá às tripulações outra forma de observar o terreno e os objetos quando é difícil fazê-lo visualmente.
A proteção eletrónica ajuda o radar a funcionar num ambiente em que as forças adversárias tentam perturbar os sinais. O computador de missão da aeronave e os equipamentos de comunicações ajudam depois a transformar as informações dos sensores numa imagem útil para o piloto, em vez de as apresentar como um conjunto de leituras separadas.
Os F-16A/B de Taiwan modernizados já utilizam o APG-83. A nova aquisição acrescenta, por isso, aeronaves à frota e alarga uma capacidade de radar já introduzida através do anterior programa de modernização.
Defesas eletrónicas, sistemas do cockpit e autonomia
A configuração Block 70 descrita para a aquisição inclui o sistema de guerra eletrónica ALQ-254(V)1 Viper Shield. As suas contramedidas utilizam tecnologia de memória digital de radiofrequência, que pode captar sinais de radar e gerar respostas concebidas para interferir com a capacidade de um radar adversário de acompanhar ou visar a aeronave.
Um novo computador de missão e um ecrã central do cockpit com 6 por 8 polegadas ajudam o piloto a gerir as informações. O Link 16 permite que aeronaves militares compatíveis e outras unidades troquem dados táticos, enquanto um sistema de identificação atualizado ajuda a distinguir as aeronaves amigas.
A compatibilidade com dispositivos de visão noturna e um sistema de indicação montado no capacete apoiam as operações no escuro e permitem ao piloto controlar determinadas funções olhando na direção de um alvo. Um sistema integrado de navegação por GPS e inercial combina o posicionamento por satélite com sensores de movimento a bordo.
O sistema automático de prevenção de colisões com o solo, conhecido como Auto GCAS, foi concebido para corrigir a trajetória quando uma aeronave se aproxima do solo em risco de colisão. Trata-se de um perigo diferente do fogo inimigo: um acidente causado por fatores como a desorientação do piloto ou a perda de consciência.
As novas aeronaves têm ainda depósitos de combustível conformais, instalados junto à fuselagem, que aumentam a capacidade de combustível sem ocupar os pontos de fixação necessários às armas. O trem de aterragem reforçado permite pesos de descolagem mais elevados. Um motor General Electric F110-GE-129 substitui o Pratt & Whitney F100 utilizado na frota de F-16 mais antiga de Taiwan, acrescentando um tipo diferente de motor às necessidades de manutenção das equipas.
Duas outras compras de armamento terão de esperar até 2028
O Ministério da Defesa de Taiwan identificou os torpedos pesados MK-48 e as armas AGM-154C Joint Standoff Weapons como os outros dois programas de aquisição atrasados. A conclusão das entregas de ambos está agora prevista para 2028.
A encomenda de MK-48 inclui 24 torpedos de combate e quatro de treino, com um custo de 5,46 mil milhões de dólares taiwaneses, ou cerca de 168 milhões de dólares. São armas lançadas por submarinos. O ministério atribuiu os sucessivos atrasos às perturbações na cadeia de abastecimento e à necessidade de reativar as linhas de produção.
A AGM-154C é uma arma lançada por aeronaves, concebida para atingir alvos a partir de longa distância. Taiwan escolheu a versão mais recente no âmbito do projeto Feng Chan, associado à modernização da sua frota de F-16A/B. O ministério apontou o reinício da produção, a aquisição de materiais e o trabalho de integração de sistemas como razões para o atraso nas entregas.
Taiwan concluiu as atualizações das aeronaves em 2023, enquanto as armas associadas só chegarão mais tarde. Para o planeamento da força aérea, os dois calendários têm de ser geridos em conjunto: as aeronaves modernizadas, as armas compatíveis, o pessoal treinado e o equipamento de apoio contribuem todos para as capacidades disponíveis para as operações.
O ministério afirma que as entregas de outros programas continuam, incluindo equipamento de comunicações, mísseis Stinger, sistemas de defesa costeira Harpoon, pods de reconhecimento MS-110 e drones MQ-9B. Dos 24 programas de aquisição em curso, os três atrasados representam 12,5 por cento em número de programas, embora o relatório não indique a sua proporção do valor total da carteira.
Pontos principais
- Taiwan recebeu os dois primeiros de 66 novos caças F-16C/D Block 70 na Base Aérea de Chihhang, a 2 de outubro.
- Koo afirmou que seis aeronaves tinham chegado à fase de testes de voo e aos procedimentos de aceitação, incluindo duas que permaneciam nos Estados Unidos para formação.
- O plano original previa entregas entre 2023 e 2026. Não foi anunciado um novo prazo final firme.
- Os caças serão atribuídos à 7.ª Ala de Caças Táticos e reforçarão as defesas ao longo da costa leste de Taiwan.
- A adição de 66 aeronaves à frota existente declarada de 139 elevaria para 205 o total de F-16 de Taiwan.
- O Ministério da Defesa identifica atrasos em três dos 24 programas de aquisição de armamento aos Estados Unidos em curso; os outros 21 mantêm-se dentro do calendário previsto.
- Está previsto que as entregas dos torpedos MK-48 e das armas AGM-154C terminem em 2028.






