Sacha Baron Cohen pede desculpa ao Cazaquistão por Borat, duas décadas após o primeiro filme

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Sacha Baron Cohen Apologizes to Kazakhstan for Borat, Two Decades After First Film

Um pedido de desculpa por uma personagem que o Cazaquistão nunca reconheceu

Sacha Baron Cohen pediu publicamente desculpa ao povo do Cazaquistão por Borat, o jornalista fictício cujo primeiro filme, em 2006, associou o nome do país a um mundo inventado de costumes ofensivos e comportamentos absurdos. Numa conversa com o jornalista norte-americano Josh Horowitz, no podcast Happy Sad Confused, o actor britânico afirmou que a personagem nada tinha que ver com o país real.

Índice
  1. Um pedido de desculpa por uma personagem que o Cazaquistão nunca reconheceu
  2. Como a personagem ganhou uma nacionalidade
  3. O sotaque e a aparência eram inventados
  4. Quem devia ser o alvo da piada?
  5. Das ameaças diplomáticas à polémica nos cinemas
  6. Por que razão uma campanha turística aproveitou Very Nice
  7. A sequela motivou protestos e recebeu prémios
  8. Borat regressa apesar do pedido de desculpa de Cohen
  9. Principais pontos

O pedido de desculpa surge numa altura em que Borat reaparece na promoção do novo projecto de Cohen sobre Ali G, Ali G: Who Iz I? Surge também após duas décadas de reacções muito diferentes: queixas diplomáticas, protestos contra os filmes, uma campanha turística que aproveitou a frase emblemática de Borat e objecções persistentes de pessoas que consideram a personagem ofensiva.

Cohen apresentou as suas declarações como o seu primeiro pedido de desculpa ao Cazaquistão. Em comentários reproduzidos em russo, disse:

Quero pedir desculpa pela primeira vez ao povo do Cazaquistão, porque Borat nada tem que ver com o Cazaquistão.

Cohen manifestou também respeito pelo povo e pela cultura do país e afirmou que não queria magoar ninguém. Não foi indicada a data em que o podcast foi gravado.

A sua explicação retoma a controvérsia central em torno de Borat: Cohen diz que a piada tem como alvo as pessoas dispostas a acreditar em histórias absurdas sobre um país que não conhecem. Os críticos contrapõem que são o Cazaquistão e o seu povo que suportam o insulto, mesmo quando o alvo pretendido é um entrevistado norte-americano ou o preconceito ocidental.

Como a personagem ganhou uma nacionalidade

A identidade de Borat desenvolveu-se através de várias versões televisivas, e não de uma tentativa de retratar o Cazaquistão. Cohen descreveu como foi mudando o nome e a nacionalidade da personagem à medida que passava de uma estação de televisão para outra e negociava novos projectos.

Antes de Borat Sagdiyev se tornar conhecido do público de cinema, Cohen interpretou na FSF, da Granada Talk TV, uma personagem moldava chamada Alexi Krickler. Uma versão albanesa, Kristo Shki ptari, surgiu em 1998 no Comedy Nation, da BBC Two. O Ali G Show estreou no Channel 4 em 2000 e chegou mais tarde ao público norte-americano através da HBO.

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Cohen associou a escolha do Cazaquistão à mudança do projecto para a HBO. Queria um país que, na sua opinião, fosse pouco conhecido do público norte-americano, o que permitiria à personagem contar histórias cada vez mais disparatadas sem ser imediatamente posta em causa.

Algumas descrições do desenvolvimento da personagem apontam a Albânia como a primeira nacionalidade que lhe foi atribuída. O historial televisivo mais completo inclui também a versão moldava anterior. A explicação do próprio Cohen centra-se no mesmo aspecto prático: a identidade mudava consoante a estação, mas o recurso cómico mantinha-se, com um entrevistador supostamente estrangeiro a fazer perguntas provocadoras.

Para o Cazaquistão, essa decisão de produção teve consequências duradouras. Uma nacionalidade escolhida por ser pouco conhecida ficou associada a uma personagem reconhecida em todo o mundo, deixando pessoas reais a responder por uma personalidade fictícia que não ajudaram a criar.

O sotaque e a aparência eram inventados

Cohen reconheceu que não sabe como falam realmente as pessoas no Cazaquistão. Disse que o seu conhecimento dos sotaques da Ásia Central é limitado, embora continue a usar a voz conhecida de Borat.

O actor recordou também as queixas da embaixada do Cazaquistão acerca da aparência da personagem, incluindo o seu bigode proeminente. Segundo Cohen, diplomatas disseram-lhe que as pessoas no Cazaquistão não tinham o aspecto de Borat. Agora, admite que tinham razão.

As objecções da embaixada chegaram-lhe por volta da estreia do primeiro filme. Os relatos situam o contacto após o anúncio ou após a estreia e referem tanto uma queixa como uma carta. Cohen disse que, na altura, não levou as críticas a sério.

As cenas dos filmes que supostamente se passavam no Cazaquistão acrescentaram outra dimensão à controvérsia. Residentes romenos foram apresentados como cazaques, e os residentes envolvidos nas filmagens acreditavam estar a participar num documentário. Para os espectadores que não conheciam a região, o nome do país, o sotaque inventado e as imagens surgiam em conjunto como um retrato único.

A admissão de Cohen sobre a voz ajuda a perceber por que razão o pedido de desculpa diz respeito a mais do que uma interpretação exagerada. O sotaque fazia parte de uma personagem criada sem conhecimento das pessoas cuja identidade nacional usava.

Quem devia ser o alvo da piada?

O filme de 2006 acompanha Borat, um jornalista cazaque fictício, numa viagem pelos Estados Unidos para realizar um documentário. Recorre ao formato do falso documentário, apresentando cenas de comédia encenadas e encontros com pessoas ao estilo do cinema documental.

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Cohen diz que o humor depende de os seus interlocutores aceitarem afirmações absurdas sobre um lugar que mal conhecem. A disposição para acreditar nele torna-se o tema da cena, expondo a ignorância ou o preconceito através das reacções dessas pessoas.

Quando o primeiro filme estreou, em 2006, Cohen apresentou essencialmente a mesma defesa: disse que o riso era dirigido às pessoas capazes de acreditar que o Cazaquistão inventado por ele existia. Nas suas declarações recentes, junta essa explicação de longa data a um pedido de desculpa pessoal às pessoas cujo país forneceu o nome.

Os críticos cazaques têm-se centrado na experiência de quem está do outro lado da piada. O público pode recordar mais facilmente a suposta nacionalidade de Borat do que as atitudes norte-americanas que uma cena procura expor. Uma personagem fictícia pode tornar-se a referência mais conhecida de um país real, sobretudo quando a própria comédia depende de os espectadores saberem muito pouco sobre esse país.

As reacções no Cazaquistão têm sido, por isso, diversas. Algumas pessoas vêem uma sátira à ignorância ocidental. Outras vêem uma representação humilhante do seu país e da sua cultura. Estas reacções ajudam a explicar por que razão uma campanha oficial de promoção turística viria a aproveitar a frase emblemática, enquanto activistas continuavam a exigir um pedido de desculpa.

Das ameaças diplomáticas à polémica nos cinemas

O Governo do Cazaquistão contestou Cohen antes de o primeiro filme chegar ao público. Em 2005, o Ministério dos Negócios Estrangeiros ameaçou recorrer à justiça e sugeriu que as suas aparições televisivas faziam parte de uma iniciativa política para prejudicar a reputação internacional do país.

Antes da estreia do filme, em 2006, as autoridades pagaram por um suplemento de quatro páginas no The New York Times e no International Herald Tribune. O suplemento apresentava as conquistas do Cazaquistão no século XXI, oferecendo uma visão alternativa de um país que muitos potenciais espectadores mal conheciam.

O filme original não foi formalmente proibido no Cazaquistão, mas não estreou nas salas do país. Uma importante cadeia de cinemas recusou exibi-lo. Na Rússia, o filme não recebeu o certificado de distribuição necessário para estrear nas salas.

Os principais acontecimentos sucederam-se ao longo de mais de duas décadas:

  • 1998: Cohen surgiu como personagem albanesa no Comedy Nation, da BBC Two.
  • 2000: O Ali G Show estreou no Channel 4 e passou mais tarde a ser transmitido nos Estados Unidos pela HBO.
  • 2005: O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Cazaquistão ameaçou recorrer à justiça por causa da representação de Cohen.
  • 2006: O primeiro filme de Borat estreou a nível internacional.
  • 2017: Turistas checos foram multados em Astana depois de aparecerem vestidos de Borat.
  • 2020: A sequela motivou protestos, enquanto a Kazakh Tourism adoptou a frase "Very Nice!"
  • 2026: O pedido de desculpa de Cohen e o regresso de Borat na promoção do novo projecto sobre Ali G reacenderam o debate.
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Por que razão uma campanha turística aproveitou Very Nice

Em 2020, a Kazakh Tourism optou por uma abordagem diferente e usou a frase emblemática de Borat, "Very Nice!", numa campanha oficial de promoção do país. A entidade responsável pela promoção turística decidiu aproveitar a notoriedade da personagem, em vez de a rejeitar simplesmente.

O momento era importante. A sequela de Borat atraía a atenção internacional e voltava a levar o nome do país às notícias de entretenimento. O slogan deu aos promotores turísticos uma frase conhecida que podiam associar ao Cazaquistão nos seus próprios termos.

Um episódio de menor dimensão já tinha revelado uma resposta menos conflituosa. Em 2017, turistas checos em Astana receberam pequenas multas depois de passearem vestidos de Borat. Cohen ofereceu-se para pagar essas multas.

A campanha turística e as multas mostram como as respostas se alteraram desde as ameaças judiciais de 2005. Foram também decisões de pessoas e instituições diferentes. Uma entidade turística que procura atrair visitantes, as autoridades que respondem a comportamentos em público e os cidadãos preocupados com a imagem nacional tinham decisões diferentes a tomar.

Ao aproveitar a frase emblemática, uma entidade de promoção conseguiu redireccionar as atenções para o país. Para quem considerava a própria personagem degradante, o seu uso comercial não fez desaparecer as objecções.

A sequela motivou protestos e recebeu prémios

O segundo filme de Borat estreou em 2020 e reacendeu a oposição de activistas cazaques e de membros da diáspora nos Estados Unidos. Manifestantes em frente ao consulado-geral dos EUA em Almaty exigiram que a sequela fosse proibida.

A Associação Cazaque-Americana instou a Amazon a cancelar a estreia, argumentando que o filme incentivava o racismo e a xenofobia. Xenofobia significa hostilidade em relação a pessoas consideradas estrangeiras. Em Novembro de 2020, a associação apelou também a que a sequela fosse excluída da corrida aos Óscares, aos Globos de Ouro e a outros prémios.

A sequela recebeu, ainda assim, um Globo de Ouro. O sucesso nos círculos do entretenimento e as objecções dos activistas cazaques surgiram ao mesmo tempo, mostrando a distância entre o reconhecimento da comédia e a experiência de quem se sentiu visado pelas imagens do filme.

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A sensibilidade do público manteve-se para lá da estreia da sequela. Em Julho de 2026, a marca cazaque de vestuário masculino Shoqansuits foi alvo de apelos ao boicote depois de publicar um anúncio com Borat. A reacção mostrou que usar a personagem numa campanha comercial no país ainda podia suscitar oposição, seis anos depois do slogan turístico.

O pedido de desculpa responde agora a uma reivindicação que os activistas já tinham feito durante os protestos anteriores. O respeito que Cohen diz ter pela cultura cazaque aborda directamente essa queixa, enquanto a sua explicação da comédia pouco mudou desde 2006.

Borat regressa apesar do pedido de desculpa de Cohen

Cohen falou da personagem enquanto promovia Ali G: Who Iz I?, um projecto centrado noutra das suas personagens cómicas mais conhecidas. Borat aparece no segundo trailer, falando em nome de instituições cazaques inventadas e apelando ao boicote do trabalho de Cohen.

A aparição promocional transforma a história das objecções oficiais em mais uma piada. Significa também que o pedido de desculpa acompanha o uso continuado da mesma nacionalidade fictícia, em vez de assinalar o fim da personagem.

Durante a participação no podcast, Cohen misturou o pedido de desculpa com humor dirigido aos cazaques presentes na audiência, brincando com a possibilidade de alguém ter chegado numa missão especial. Depois, afirmou que não tinha tido intenção de magoar ninguém e que respeitava o povo e a cultura do país.

A mudança é, por isso, específica: Cohen apresentou um pedido de desculpa explícito e reconheceu a distância entre Borat e o Cazaquistão. O país continua a ser a pátria fictícia da personagem, enquanto os seus cidadãos mantêm opiniões diferentes sobre se a fama de Borat é útil, ofensiva ou ambas as coisas.

Principais pontos

  • Sacha Baron Cohen pediu desculpa ao Cazaquistão no Happy Sad Confused, afirmando que Borat nada tem que ver com o país real.
  • Disse que a nacionalidade da personagem mudou entre projectos televisivos e que escolheu o Cazaquistão por acreditar que o público sabia pouco sobre o país.
  • O Cazaquistão contestou a representação antes da estreia do primeiro filme, em 2006; o filme não chegou às salas do país.
  • A Kazakh Tourism usou "Very Nice!" em 2020, enquanto activistas e grupos da diáspora se opuseram à sequela.
  • Borat regressou na promoção de Ali G: Who Iz I?, mantendo a personagem em circulação enquanto Cohen reconhece as críticas.
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