Centros comunitários partilham espaço com projetos comerciais
Uma decisão de acesso restrito da Câmara Municipal de Tashkent, datada de 29 de novembro de 2024, afetou 131 imóveis a centros de mahalla, através de parcerias com empresas. Os documentos dos projetos descrevem empreendimentos que vão de um edifício com 80 apartamentos a uma clínica com 56 camas, um hotel e um restaurante no terraço, enquanto as comissões de bairro ocupariam frequentemente apenas uma pequena parte das instalações.
Índice
- Centros comunitários partilham espaço com projetos comerciais
- O que os centros deveriam oferecer
- Até que ponto é possível acompanhar o programa?
- Apartamentos, camas hospitalares e um hotel
- Parques de estacionamento e sedes atuais dão lugar a novas construções
- Em alguns casos, a aprovação ambiental chegou depois do início das obras
- Quem recebeu vários imóveis?
- Decisões de acesso restrito tornaram-se mais comuns
- Contestação judicial e cronologia legal
- Principais pontos
A Decisão n.º 877-14-0-Q/24 enumera 112 imóveis e inclui um anexo relativo a outros 19. O anexo altera disposições de uma decisão anterior, a n.º 417-14-0-Q/24, aprovada em 1 de julho de 2024. Uma verificação através do código QR do documento de novembro confirmou a sua autenticidade, mas mostrou que o acesso público estava restringido ao abrigo da classificação «apenas para uso oficial», por conter informação protegida.
As afetações têm sido alvo de escrutínio na sequência de litígios relacionados com obras em Mutaxassislar uylari, Cho'lpon, Qadrdon e Oqqo'rg'on. Uma investigação acompanhou os projetos através de avaliações ambientais, registos de parcerias públicas e imagens de satélite, identificando planos para substituir atuais sedes de mahalla e parques de estacionamento por empreendimentos de maior dimensão.
Uma mahalla é uma organização comunitária de bairro através da qual os residentes acedem à administração local e a apoio. Uma parceria público-privada, ou PPP, junta uma entidade pública e uma empresa para concretizar um projeto ao abrigo de um acordo. Neste caso, a questão central é quanto espaço comunitário recebem os residentes em troca de permitir o desenvolvimento comercial dos imóveis afetos.
O que os centros deveriam oferecer
A decisão estabeleceu um modelo baseado na mahalla de Dilbuloq, no distrito de Yakkasaroy. Os projetos deveriam seguir os projetos aprovados e cumprir os prazos fixados nos respetivos acordos de parceria.
As instalações exigidas incluíam salas separadas para o presidente da mahalla e para os «sete da mahalla», a equipa de dirigentes locais, além de uma sala de espera, um salão de reuniões e uma biblioteca. Os planos previam ainda um gabinete médico, um parque infantil, espaços ajardinados e parques de estacionamento modernos de utilização gratuita.
Os espaços Jadid eram também um requisito. São locais dedicados aos reformistas associados ao movimento Jadid, que promoveu a educação e a renovação social na Ásia Central. Os acordos de parceria deveriam definir as condições de utilização dos edifícios concluídos.
Tashkent tem uma necessidade documentada de melhores instalações comunitárias: 99 mahallas não têm sede própria, 84 instalações não cumprem as normas de urbanismo e quatro estão em estado de emergência. Estes números dizem respeito a problemas distintos e devem ser considerados separadamente. Explicam por que motivo a substituição ou melhoria das sedes de bairro poderia trazer benefícios práticos, sobretudo onde os residentes não dispõem atualmente de um local adequado para se reunirem com os responsáveis locais.
Até que ponto é possível acompanhar o programa?
Avaliações ambientais emitidas pelo Centro Estatal de Peritagem Ecológica permitiram aos investigadores examinar 50 dos 131 imóveis, cerca de 38% do total. As coordenadas constantes desses documentos foram usadas para cartografar os locais e identificar os promotores.
As avaliações de sete empresas mencionavam diretamente a decisão de acesso restrito: Mercury Energy, Basic Idea, East Dream Engineering, Universal Montaj Group, Nani Studio, Welcome to Bukhara e Orient Star. Essas referências ligam planos de construção específicos à afetação municipal.
O registo de PPP do Ministério da Economia e das Finanças identificou outras nove instalações, com custos de projeto indicados entre 8 mil milhões e 12,7 mil milhões de UZS. O valor mais elevado supera o mais baixo em 4,7 mil milhões de UZS, ou cerca de 59%. Não estavam disponíveis coordenadas precisas para estes nove projetos.
O registo associa a Kaykovus Invest à mahalla de Kaykovus, a Ayino à de Shirin, a Yosh Nihol Tekstil à de Birdamlik e a Prosperity Tashkent à de Chakar. Identifica ainda a Omina Fayz Servis para Feruza, a Max Win Service para Ijodkor, a Gold Zillion Pharm para Fazogir, a Blessed Rent para Marhamat e a Universal Montaj Group para Qumariq.
Os custos dão aos residentes uma ideia da dimensão de cada empreendimento. Para avaliar o retorno público, é também necessário conhecer a dimensão e o estado das instalações comunitárias, o valor do imóvel afetado e as obrigações previstas em cada acordo. São esses elementos que determinam o que a cidade e os bairros recebem.
Apartamentos, camas hospitalares e um hotel
Na mahalla de Guzarboshi, a East Dream Engineering apresentou um projeto para construir um edifício de sete pisos com 80 apartamentos, destinado a 240 residentes. As instalações da mahalla e os espaços comerciais partilhariam o rés do chão, com habitação nos pisos superiores.
Em Birdamlik, a Yosh Nihol Tekstil propôs um edifício de cinco pisos. Uma clínica de diagnóstico multidisciplinar ocuparia o terceiro, o quarto e o quinto pisos, incluindo enfermarias com 56 camas para internamento.
O projeto de Turon, desenvolvido pela Lauris Decoration Build, inclui um ginásio, uma piscina, um salão de beleza, uma clínica e um centro de formação num edifício de cinco pisos. Em Beshag'och, a One Housing Group planeou um hotel de seis pisos integrado com uma sede de mahalla. O projeto da Friends Fish Lucky em Nihol inclui um edifício de três pisos e um restaurante no terraço.
Na maioria dos projetos analisados, a comissão da mahalla ocuparia uma área relativamente pequena, habitualmente no rés do chão, numa cave ou num piso parcialmente abaixo do nível do solo. O espaço restante destinava-se a fins comerciais. Um projeto da INSAN 01 enumerava lojas, salas de aula e escritórios, sem mencionar expressamente instalações para a comissão da mahalla.
As atividades comerciais podem gerar receitas no âmbito de uma parceria, enquanto novas clínicas ou instalações desportivas podem prestar serviços nas proximidades. Para os residentes que procuram serviços da administração local, porém, o benefício concreto depende das salas que podem efetivamente utilizar, da sua acessibilidade e dos serviços garantidos pelo acordo.
Parques de estacionamento e sedes atuais dão lugar a novas construções
A comparação de imagens do Google Earth com documentos ambientais identificou pelo menos seis empreendimentos que afetam parques de estacionamento existentes: cinco centros planeados e um sexto edifício já construído num local que servia de estacionamento.
Entre os projetos analisados estavam o The Paradise House, em Matonat; um centro de mahalla combinado com um centro empresarial da Developers Sam; e um edifício de cinco pisos associado à Rom Global Stroy. Outros empreendimentos envolviam a Voris Property Management em Oliy Himmat e Abdulla Avloniy, a ABC Cosmo em Beg'ubor e a Umida Bintu Baxodir em Bunyod.
Em mais de 14 bairros, as sedes de mahalla existentes estavam também a ser demolidas para dar lugar a empreendimentos comerciais com vários pisos. Para estas comunidades, a mudança significa substituir um equipamento público estabelecido, em vez de simplesmente acrescentar um novo num terreno vazio.
A promessa de estacionamento gratuito feita na decisão é especialmente relevante quando as obras ocupam parques de estacionamento. Os residentes precisam de saber quantos lugares utilizáveis permanecerão após a conclusão das obras, onde ficarão e se o acesso continuará a ser gratuito. Durante a requalificação, também importa saber onde serão prestados temporariamente os serviços da mahalla, para quem precisar de apoio antes da abertura do novo edifício.
Em alguns casos, a aprovação ambiental chegou depois do início das obras
Segundo relatos, as obras em Nurliyo'l, Abdulla Avloniy e Astrobod começaram, ou já estavam concluídas, antes da perícia ambiental estatal obrigatória. Algumas avaliações terão sido emitidas depois das obras que deveriam analisar.
Uma avaliação ambiental analisa os efeitos de um projeto proposto e as medidas necessárias para limitar os danos. O momento em que é realizada é importante, pois as salvaguardas podem ser integradas nos planos antes do início das escavações, demolições ou remoção de árvores. Uma aprovação emitida depois do início das obras deixa menos margem para alterar o projeto ou proteger elementos que já se perderam.
A investigação identificou também alegações de que árvores adultas foram removidas antes da construção em locais associados à Quyosh e à Mercury Energy. Segundo os relatos, os promotores disseram às autoridades ambientais que não havia árvores nos terrenos afetos, embora as imagens mostrassem zonas arborizadas nas imediações.
Nas proximidades de um projeto da True Grade foram registadas 29 árvores, acrescentando um número concreto às preocupações sobre a forma como a vegetação foi descrita. A localização das árvores em relação aos limites do terreno é importante para verificar estas declarações, pois os efeitos das obras podem também atingir árvores imediatamente adjacentes.
Para os residentes, estes litígios dizem respeito à sombra, aos espaços exteriores e ao estado das ruas, além da documentação. A consulta dos levantamentos originais dos terrenos, dos registos de árvores e das datas das obras ajudaria as autoridades a avaliar se as declarações dos projetos correspondiam às condições existentes antes do início dos trabalhos.
Quem recebeu vários imóveis?
A Haike Zhineng, a Max Win Service e a Best-Tall-House estiveram entre as empresas que receberam dois projetos cada. A investigação identificou fundadores, administradores ou contabilistas em comum entre várias empresas, bem como empresas declaradas falidas ou liquidadas.
As ligações empresariais são relevantes para avaliar até que ponto as oportunidades públicas foram distribuídas. Várias empresas com nomes diferentes podem estar ligadas através da propriedade ou da gestão, pelo que importa conhecer quem está por detrás das sociedades para escrutinar as afetações.
As informações sobre a propriedade citadas na investigação indicavam que Doniyor Komilov, filho do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Uzbequistão Abdulaziz Komilov, detinha uma participação de 99% na Delta Global Dynamics. A análise do processo de seleção exige acompanhar a propriedade e a gestão dos beneficiários, além das condições dos respetivos acordos.
O economista Otabek Bakirov e especialistas em direito pediram uma auditoria abrangente e a devolução dos terrenos afetos à reserva do Estado. A preocupação era que terrenos valiosos de Tashkent tivessem sido atribuídos a empreendimentos comerciais sob o propósito declarado de construir centros de mahalla.
Uma auditoria teria de comparar cada afetação com o projeto aprovado, as obrigações da parceria e as instalações concluídas. Para um bairro, o teste prático é saber se as instalações públicas, os parques de estacionamento e os outros equipamentos prometidos foram disponibilizados e continuam acessíveis nas condições acordadas.
Decisões de acesso restrito tornaram-se mais comuns
Os dados do portal E-Qaror mostram que o presidente da Câmara de Tashkent emitiu 803 decisões e despachos entre janeiro e 18 de agosto de 2025. Desses documentos, 264 eram públicos e 539 estavam fechados ao público, incluindo 371 com a indicação «apenas para uso oficial».
No mesmo período de 2024, 405 dos 763 documentos eram públicos e 358 estavam fechados, incluindo 277 com essa indicação. A proporção de documentos fechados subiu de 46,9% para 67,1%, um aumento de 20,2 pontos percentuais. O número total de documentos aumentou apenas 40.
O Conselho dos Deputados do Povo de Tashkent seguiu um padrão de publicação diferente. No período de 2025, tornou públicas 135 das suas 172 decisões, cerca de 78%, em comparação com 110 de 130, cerca de 85%, no ano anterior.
O Ministério da Justiça explicou que os presidentes das câmaras decidem se os documentos são publicados, sujeitos a restrições legais aplicáveis a informações como questões de segurança, dados pessoais e tutela. Em novembro de 2022, a Câmara Municipal publicou e depois ocultou decisões do conselho relativas ao orçamento da cidade para o primeiro semestre desse ano. O ministério restabeleceu posteriormente o acesso.
A análise da Agência Anticorrupção de 19 495 decisões e despachos ocultos entre janeiro e junho de 2026 concluiu que 775 tinham sido mantidos sem justificação. Isso corresponde a cerca de 4% dos documentos analisados e enquadra a controvérsia sobre as mahallas num problema mais vasto de acesso às decisões da administração local.
Contestação judicial e cronologia legal
Os residentes de Oqqo'rg'on contestaram com sucesso uma decisão municipal que afetava um terreno de 0,05 hectares, equivalente a 500 metros quadrados, para um edifício de cinco pisos. O Tribunal Administrativo Interdistrital de Mirzo Ulug'bek declarou a decisão inválida em 4 de agosto. O ano dessa decisão judicial não foi especificado.
As regras relativas aos documentos classificados como «apenas para uso oficial» foram aprovadas através da Resolução n.º 766 do Conselho de Ministros, de 4 de dezembro de 2025. Exigem que os organismos públicos estabeleçam listas de informações que podem ser restringidas e excluem informações que a legislação sobre transparência obriga a publicar.
As regras restringem também a utilização dessa classificação em documentos que estabeleçam, alterem ou revoguem normas jurídicas de aplicação geral, com exceção das informações sujeitas a divulgação restrita. Atribuem à agência O'zarxiv responsabilidades de coordenação e monitorização, incluindo poderes para emitir instruções vinculativas destinadas a corrigir infrações.
Os principais acontecimentos datados mostram como evoluíram as afetações de imóveis e as regras mais amplas de divulgação:
- 1 de julho de 2024: Tashkent aprovou a decisão anterior, n.º 417-14-0-Q/24.
- 29 de novembro de 2024: A Decisão n.º 877-14-0-Q/24 abrangeu 131 imóveis, incluindo alterações relativas a 19.
- De janeiro a 18 de agosto de 2025: Os documentos municipais fechados ao público representaram 67,1% do total.
- 4 de dezembro de 2025: A Resolução n.º 766 do Conselho de Ministros aprovou regras para o tratamento de documentos classificados como «apenas para uso oficial».
- De janeiro a junho de 2026: A Agência Anticorrupção identificou 775 decisões e despachos ocultos sem justificação.
A decisão judicial relativa a Oqqo'rg'on dá aos residentes um exemplo concreto de uma afetação anulada através dos tribunais. No âmbito mais vasto do programa, o acesso público às decisões sobre os imóveis e aos acordos de parceria permitiria às comunidades comparar as instalações prometidas com as que estão a ser construídas.
Principais pontos
- Uma decisão municipal de acesso restrito, de novembro de 2024, afetou 131 imóveis de Tashkent a centros de mahalla através de parcerias público-privadas.
- Os documentos ambientais permitiram analisar 50 imóveis; o registo do Ministério das Finanças identificou outras nove instalações.
- Os planos incluem apartamentos, uma clínica com 56 camas, um hotel e um restaurante no terraço, muitas vezes com espaço limitado para as sedes de mahalla.
- Pelo menos seis empreendimentos afetaram parques de estacionamento existentes, enquanto sedes de mahalla estavam a ser demolidas em mais de 14 bairros.
- Segundo os relatos, as obras começaram antes da aprovação ambiental obrigatória em Nurliyo'l, Abdulla Avloniy e Astrobod.
- Os residentes de Oqqo'rg'on venceram uma contestação judicial contra a afetação de um terreno para um edifício de cinco pisos.
- A proporção de documentos municipais de Tashkent fechados ao público subiu de 46,9% para 67,1% entre períodos comparáveis de 2024 e 2025.






