Projeto de 27 hectares enfrenta um prazo cada vez mais apertado
A primeira fábrica de semicondutores do Vietname, um projeto avaliado em 1,3 mil milhões de dólares na Zona de Alta Tecnologia de Hoa Lac, em Hanói, dificilmente começará a produção experimental em 2027, como previsto. Um acordo de compra de equipamento essencial ao fornecedor neerlandês ASML continua por confirmar, enquanto imagens de satélite captadas em janeiro e outubro de 2026 não mostravam edifícios no local.
Índice
- Projeto de 27 hectares enfrenta um prazo cada vez mais apertado
- O que a Viettel prometeu em janeiro
- O que revelam o local e as declarações da empresa
- Porque são importantes as negociações com a ASML
- Porque é ambicioso começar nos 32 nanómetros
- Apoio governamental está condicionado a um prazo de 2030
- Empresas vietnamitas de conceção de chips planeiam em função da fábrica
- Que chips poderão encontrar compradores?
- O setor de chips já existente no Vietname oferece uma base diferente
- Principais pontos
A pressão não se limita ao início da construção. No anúncio de 16 de janeiro, a Viettel fixou como objetivo concluir a construção, receber a transferência de tecnologia e iniciar a produção experimental até ao final de 2027. O grupo de telecomunicações e defesa, sob tutela militar, planeava depois dedicar o período de 2028 a 2030 à melhoria dos processos de fabrico e da eficiência da produção.
Uma pessoa familiarizada com o projeto atribuiu os atrasos à falta de experiência da Viettel na construção de fábricas de chips e a dificuldades administrativas na obtenção de financiamento estatal. A Viettel afirma que os trabalhos decorrem de acordo com o calendário e que as atividades estão a ser realizadas por fases.
O projeto daria ao Vietname uma capacidade de fabrico que continua em falta, apesar dos avultados investimentos na montagem, nos testes e no encapsulamento de chips. Entre os potenciais clientes contam-se empresas dos setores aeroespacial, das telecomunicações, automóvel, dos equipamentos médicos e da automação.
O calendário do Vietname está também ligado a outros planos nacionais. Um programa interno de fabrico partilhado de chips prevê colaborar com a fábrica, enquanto o apoio financeiro do Governo à primeira unidade inclui o prazo de 2030 para o início da produção. Um atraso afetaria, por isso, tanto um projeto industrial como as atividades de investigação, formação e desenvolvimento de produtos que estão a ser planeadas em torno dele.
O que a Viettel prometeu em janeiro
O anúncio do início das obras da Viettel, publicado em 16 de janeiro de 2026, indicava que o Ministério da Defesa Nacional tinha atribuído o projeto à empresa ao abrigo de uma resolução governamental. O terreno de 27 hectares foi apresentado como infraestrutura nacional para investigação, conceção, experimentação e produção de chips, com espaço para uma futura expansão.
O tenente-general Tao Duc Thang, presidente e diretor executivo da Viettel, definiu três tarefas a concluir até ao final de 2027: construir a fábrica, receber a tecnologia e iniciar a produção experimental. Os três anos seguintes seriam dedicados ao aperfeiçoamento dos processos e à melhoria da linha de produção, de modo a cumprir as normas do setor.
O primeiro-ministro Pham Minh Chinh participou na cerimónia e descreveu a fábrica como parte da estratégia do Vietname para participar mais profundamente na cadeia de valor mundial dos semicondutores. A Viettel afirmou também que a unidade ajudaria empresas nacionais de conceção, startups tecnológicas e instituições de investigação a reduzir o tempo necessário para testar e desenvolver produtos.
As principais datas mostram como vários compromissos se concentram agora num período curto:
- 26 de fevereiro de 2025: Foi descrito o apoio proposto à primeira pequena fábrica de semicondutores, incluindo financiamento condicionado ao início da produção antes de 31 de dezembro de 2030.
- 16 de janeiro de 2026: A Viettel realizou a cerimónia de início das obras em Hoa Lac.
- Outubro de 2026: As imagens de satélite continuavam a não mostrar edifícios no local.
- Primeiro semestre de 2027: Prevê-se concluir os critérios, procedimentos e mecanismos de apoio ao laboratório de produção-piloto da fábrica.
- Final de 2027: Prazo definido pela Viettel para concluir a construção, receber a tecnologia e iniciar a produção experimental.
- De 2028 a 2030: Estão previstas melhorias dos processos, tendo em vista o funcionamento pleno em 2030.
O que revelam o local e as declarações da empresa
Imagens de satélite da Planet Labs PBC, de janeiro, e da Airbus, de outubro, não mostravam edifícios no terreno previsto para a fábrica. Uma visita em outubro também encontrou o terreno coberto de vegetação. Estas observações colocaram o estado físico do projeto no centro das preocupações quanto ao objetivo de iniciar a produção no próximo ano.
Em resposta a perguntas sobre o progresso, a Viettel afirmou que o projeto estava:
a decorrer de acordo com o plano e o calendário estabelecidos.
A empresa disse que as atividades estavam a ser realizadas por fases. O Ministério das Finanças do Vietname não respondeu aos pedidos de comentário. A resposta da Viettel não foi acompanhada por uma nova data para o início da produção nem por um calendário de construção detalhado e divulgado publicamente.
O plano de janeiro exige a conclusão de várias tarefas importantes antes do início dos testes de produção. Além do edifício, a Viettel precisa de equipamento, pessoal qualificado e um processo de fabrico capaz de produzir chips funcionais de forma repetida. A transferência de tecnologia por outra empresa também faz parte do calendário anunciado.
Porque são importantes as negociações com a ASML
Três pessoas familiarizadas com o assunto disseram que a Viettel mantinha conversações com a ASML há vários meses. As negociações incluíam a compra de uma máquina de litografia ultravioleta profunda, geralmente designada equipamento DUV. A ASML recusou comentar as negociações com a Viettel.
A litografia utiliza luz para transferir padrões de circuitos extremamente pequenos para um revestimento fotossensível numa bolacha de silício. As etapas de processamento seguintes transformam esses padrões em componentes do chip. Uma bolacha é uma fatia fina e circular de material semicondutor na qual são produzidos vários chips em simultâneo.
Alguns modelos DUV podem estar sujeitos a controlos neerlandeses de exportação. Não foram confirmados os modelos específicos em discussão nem os motivos pelos quais não se chegou a um acordo. A questão da aquisição envolve, por isso, tanto a escolha de maquinaria adequada como a garantia das condições necessárias à sua entrega e utilização.
A ASML afirmou em outubro que a procura associada à inteligência artificial poderia impedi-la de satisfazer plenamente a procura pelo seu equipamento mais avançado nos dois anos seguintes. As limitações de oferta de equipamento mais antigo foram descritas como menos acentuadas. As perspetivas da Viettel dependem do equipamento específico que procura e do resultado das negociações.
O Vietname já acolhe operações de dois fornecedores da ASML, a Coherent e a VDL Enabling Technologies Group. Responsáveis do setor afirmaram que as respetivas instalações locais servem sobretudo clientes que não a ASML. A Viettel continua a precisar de garantir o equipamento e as condições operacionais para a sua própria linha de produção.
Porque é ambicioso começar nos 32 nanómetros
A Viettel já tinha descrito planos para utilizar um processo de fabrico de 32 nanómetros, mas essa referência foi posteriormente retirada do seu site. A empresa não revelou publicamente se estabeleceu uma parceria com um fabricante de chips experiente para obter tecnologia e conhecimentos de fabrico.
Um número de processo como 32 nanómetros identifica uma geração de tecnologia de fabrico de chips. Em geral, números mais baixos correspondem a processos mais recentes, capazes de concentrar mais circuitos numa determinada área, embora o número, por si só, pouco diga sobre se um processo é a melhor escolha para um produto específico.
O professor Tran Xuan Tu, diretor do Instituto de Tecnologias da Informação da Universidade Nacional do Vietname, em Hanói, afirmou que os chips especializados utilizam habitualmente processos entre 32 e 65 nanómetros. Apontou oportunidades nos dispositivos conectados, na segurança da informação, nas aeronaves não tripuladas, na identificação eletrónica e na inteligência artificial executada nos próprios dispositivos.
A Tata Electronics, da Índia, oferece um termo de comparação útil. O seu projeto de 11 mil milhões de dólares no Gujarate, desenvolvido em parceria com a taiwanesa PSMC, prevê começar com processos de 55 e 90 nanómetros antes de avançar para os 28 nanómetros. O investimento anunciado é cerca de 8,5 vezes superior à estimativa de 1,3 mil milhões de dólares para a fábrica da Viettel, embora os projetos tenham planos de produção diferentes.
A comparação mostra que um projeto muito maior, com um parceiro tecnológico identificado, também prevê uma evolução gradual. Para a Viettel, o processo de fabrico e os acordos para adquirir conhecimentos especializados são elementos centrais para cumprir o objetivo de 2027.
Apoio governamental está condicionado a um prazo de 2030
Uma resolução da Assembleia Nacional, descrita em fevereiro de 2025, permite conceder apoio financeiro à primeira pequena fábrica de semicondutores, destinada à investigação, formação, fabrico experimental, validação tecnológica e produção de chips vietnamitas especializados.
Nos termos anunciados, o apoio do Governo central pode cobrir 30% do investimento no projeto, até ao limite de 10 biliões de dongs vietnamitas, se a fábrica for aceite e entrar em produção antes de 31 de dezembro de 2030. Cabe ao primeiro-ministro escolher a empresa responsável pela execução da tarefa e decidir o montante específico do apoio.
O quadro também permite que uma empresa destine anualmente até 20% do seu rendimento coletável ao fundo de desenvolvimento científico e tecnológico durante a preparação e execução do projeto. As verbas destinadas ao projeto não podem exceder o investimento total. O terreno pode ser atribuído sem leilão dos direitos de utilização ou concurso para selecionar um investidor.
Nguyen Manh Hung, então ministro da Informação e das Comunicações, descreveu a proposta em 2025 como uma unidade com um custo inferior a mil milhões de dólares, que conjugaria investigação e produção em pequena escala. A estimativa posterior para o projeto da Viettel é de cerca de 1,3 mil milhões de dólares. A descrição inicial dizia respeito ao quadro de apoio proposto, enquanto o valor posterior se refere à fábrica anunciada.
As regras de financiamento dão uma consequência prática ao prazo de 2030: o calendário de produção integra as condições de elegibilidade indicadas para o apoio direto do Orçamento do Estado. A pessoa familiarizada com o projeto da Viettel referiu obstáculos administrativos na obtenção de financiamento estatal, mas não foi divulgado o montante aprovado ou desembolsado para a fábrica.
Empresas vietnamitas de conceção de chips planeiam em função da fábrica
Nguyen Anh Tuan, diretor do Centro Nacional de Coordenação de Bolachas para Múltiplos Projetos do Vietname, conhecido como VNMPW/CC, afirmou em outubro que se esperava que a fábrica de Hoa Lac começasse a produção-piloto no final de 2027. O centro planeia coordenar com a fábrica lotes-piloto de fabrico nacionais.
O fabrico de bolachas para múltiplos projetos permite que várias conceções de chips partilhem uma única bolacha, dividindo os custos de fabrico entre diferentes utilizadores. Ajuda empresas e investigadores a obter pequenas séries para testes antes de pagarem por lotes maiores. Atualmente, os lotes-piloto coordenados desta forma continuam a ser produzidos no estrangeiro.
O VNMPW/CC, apoiado por 21 especialistas nacionais e internacionais, prevê concluir no primeiro semestre de 2027 os critérios, procedimentos e mecanismos de apoio ao laboratório de produção-piloto da fábrica. Um atraso na fábrica afetaria a disponibilidade prevista de uma unidade nacional para este trabalho.
Nguyen Anh Tuan recomendou começar com um a três produtos, cujos clientes ajudem desde logo a definir os requisitos e a realizar testes. Disse que os projetos propostos devem ter objetivos técnicos mensuráveis, um preço-alvo, condições de fabrico claras e compromissos dos utilizadores para testar os chips.
Tran Xuan Tu recomendou também colaborar com fundições internacionais, empresas que fabricam chips para clientes, enquanto o Vietname desenvolve as suas capacidades de produto. Essa opção permite dar continuidade ao trabalho de conceção e teste enquanto se constrói capacidade de fabrico nacional.
Que chips poderão encontrar compradores?
Nguyen Anh Tuan identificou como possíveis prioridades os microcontroladores, os chips seguros para dispositivos industriais conectados, os chips de gestão de energia e baterias, os chips de processamento de imagem e os chips de segurança e processamento de sinal para telecomunicações. Estes produtos associam as ambições da fábrica a equipamentos e clientes específicos.
O Dr. Dang Minh Tuan, vice-presidente sénior do CMC Technology Group e diretor do seu Instituto de Investigação em Tecnologias Aplicadas, recomendou testar a procura antes de assumir compromissos quanto à produção final dos chips. Descreveu a utilização de matrizes de portas programáveis em campo, dispositivos cuja lógica pode ser reconfigurada, para experimentar as conceções em sistemas funcionais e recolher opiniões dos clientes.
Dang Minh Tuan afirmou que as capacidades do Vietname em software e integração eram pontos fortes. Explicou também que um chip comercialmente utilizável precisa de ferramentas de desenvolvimento, bibliotecas de software e soluções de referência, para que os clientes o possam integrar nos seus produtos.
A Viettel já afirmou ter concebido um chip de front-end digital 5G, capaz de efetuar um bilião de cálculos por segundo para o processamento de sinais de rádio. Essa experiência de conceção liga a empresa às aplicações de telecomunicações, enquanto a fábrica planeada acrescenta a tarefa distinta de fabricar silício de forma fiável.
Truong Gia Binh, presidente da FPT, identificou como oportunidade para o Vietname os chips que executam inteligência artificial nos próprios dispositivos. Estes chips de IA de ponta processam informação em câmaras, máquinas ou outros equipamentos, em vez de enviarem todas as tarefas para um centro de dados remoto.
O setor de chips já existente no Vietname oferece uma base diferente
A Intel, a Amkor Technology e a Hana Micron têm unidades de montagem, teste e encapsulamento de semicondutores no Vietname. A Samsung Electronics planeia instalar uma unidade de teste de chips, enquanto a FPT anunciou planos para criar uma fábrica avançada de teste e encapsulamento, com o anúncio formal previsto para 28 de janeiro de 2026.
A montagem e o encapsulamento protegem os chips fabricados e ligam-nos a outros componentes eletrónicos. Os testes verificam se funcionam como previsto. O fabrico cria as estruturas eletrónicas microscópicas no silício e exige outro tipo de equipamento, competências e condições operacionais.
No anúncio de janeiro, a Viettel descreveu o fabrico de chips como um processo de cerca de mil etapas consecutivas ao longo de três meses. Um pequeno desvio numa fase pode afetar as seguintes, o que torna exigente produzir de forma consistente, mesmo depois de instalada a maquinaria.
A empresa afirmou que a fábrica serviria também como centro de formação prática. O Vietname pretende formar 50 000 engenheiros de conceção de chips até 2030 e aumentar o emprego no setor dos semicondutores para mais de 100 000 pessoas até 2040. O objetivo relativo à conceção abrange competências diferentes das necessárias para operar uma fábrica, que exige também conhecimentos de equipamento, materiais e controlo de processos.
A fábrica integra a ambição do Vietname de alcançar um crescimento de pelo menos 10% até 2030 e tornar-se uma economia de rendimento elevado até 2045. O desafio imediato é mais concreto: garantir maquinaria e tecnologia, construir a linha de produção e fabricar chips funcionais de forma repetível.
Principais pontos
- A fábrica de 1,3 mil milhões de dólares da Viettel, em Hoa Lac, deverá atrasar-se em relação ao objetivo de iniciar a produção experimental em 2027.
- Imagens de satélite de janeiro e outubro de 2026 não mostravam edifícios no local. A Viettel afirma que os trabalhos continuam dentro do prazo.
- As negociações com a ASML incluem equipamento de litografia DUV, mas o acordo de compra continua por confirmar.
- O calendário inicial prevê produção experimental até ao final de 2027 e melhorias dos processos entre 2028 e 2030.
- Um centro nacional de coordenação planeia utilizar a fábrica para o fabrico-piloto partilhado, atualmente realizado no estrangeiro.
- O quadro de apoio estatal anunciado condiciona a assistência orçamental direta ao início da produção antes de 31 de dezembro de 2030.
- O Vietname já dispõe de operações consideráveis de encapsulamento e teste de chips. O projeto da Viettel acrescentaria o fabrico nacional de bolachas de silício.






