Cortes na ajuda levam estudantes refugiados a abandonar a escola na fronteira entre a Tailândia e Myanmar

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Aid Cuts Drive Refugee Students Out of School Along Thai-Myanmar Border

Quase menos 3.900 alunos em sete campos

As escolas de sete campos de refugiados na fronteira entre a Tailândia e Myanmar registaram menos 3.833 alunos no ano letivo de 2025–2026, à medida que famílias afetadas pelos cortes na ajuda alimentar enviaram adolescentes para trabalhar. Os dados da Entidade Educativa do Comité de Refugiados Karen (KRCEE) mostram que as matrículas nas suas 45 escolas desceram de 24.462 para 20.629, uma queda de cerca de 15,7% num ano.

Índice
  1. Quase menos 3.900 alunos em sete campos
  2. Umpiem mostra como as famílias estão sob pressão
  3. Como se desenvolveu a crise da ajuda
  4. Os cortes na alimentação e nos cuidados médicos chegam à sala de aula
  5. Anos de crescimento dão lugar a uma queda súbita nas matrículas
  6. O trabalho fora dos campos acarreta riscos
  7. Outras salas de aula também estão sob pressão
  8. A deslocação alargou a crise educativa
  9. O que deve ser tido em conta no apoio à educação
  10. Pontos principais

No campo de refugiados de Umpiem, uma mãe viúva de cinco filhos descreveu como as dificuldades financeiras já tinham interrompido a educação de dois deles. A mulher, de 41 anos, disse que os dois filhos abandonaram a escola na mesma fase do ensino secundário:

O meu filho mais velho deixou de estudar no 9.º ano para trabalhar e, mais tarde, o meu segundo filho também teve de abandonar a escola no 9.º ano devido à nossa crise financeira.

A pressão agravou-se depois de o The Border Consortium (TBC), um dos principais fornecedores de ajuda aos refugiados ao longo da fronteira, ter posto fim ao apoio alimentar destinado às famílias classificadas como não vulneráveis, a 31 de julho de 2025. Mais de 80% das famílias foram afetadas, enquanto as classificadas como vulneráveis ou muito vulneráveis continuaram a receber rações limitadas.

Para as famílias dependentes da ajuda, perder o apoio alimentar altera as contas que fazem para cada dia de aulas. O dinheiro necessário para as despesas escolares tem de competir com o dinheiro para as refeições. Os filhos mais velhos podem tornar-se potenciais fontes de rendimento, enquanto os mais novos podem deixar a escola quando os pais se deslocam para trabalhar fora do campo.

Um relatório da Save the Children, divulgado a 20 de janeiro de 2026, descreve um sistema educativo pressionado pela redução da ajuda e por anos de aumento da procura. O inquérito, realizado junto de cerca de 2.500 alunos, pais e professores na Tailândia entre o final de 2025 e o início de 2026, associa a crise escolar à escassez de alimentos, ao encerramento de clínicas e à redução dos cuidados médicos.

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Umpiem mostra como as famílias estão sob pressão

Umpiem tem seis escolas do ensino primário e secundário. O número total de alunos desceu de 1.847 em 2024–2025 para 1.785 em 2025–2026, uma perda de 62 alunos, ou cerca de 3,4%.

A escola secundária Kaw Moo Rah n.º 1 registou uma quebra mais acentuada. O número de alunos desceu de 532 para 480, uma redução de 52, ou cerca de 9,8%. Só essa escola perdeu quase tantos alunos como a descida líquida registada em todo o campo.

Naw Wi Tu Paw, diretora da escola secundária Kaw Moo Rah n.º 1, descreveu a pressão simultânea sobre os orçamentos escolares e as finanças das famílias:

Os pais já não conseguem suportar as despesas escolares, enquanto o financiamento dos doadores para as escolas dos campos continua a diminuir.

A diretora disse que os alunos mais velhos estavam a sair para ganhar dinheiro, enquanto algumas crianças mais novas eram retiradas da escola porque os pais precisavam de trabalhar noutro local:

Os alunos mais velhos do 11.º e 12.º anos estão a sair do campo à procura de emprego, enquanto outros pais, que têm de trabalhar fora do campo, não têm outra opção senão levar os filhos consigo, retirando-os completamente da escola.

O seu relato aponta para duas necessidades distintas. Os adolescentes precisam de uma forma de continuar a aprender sem terem de substituir o rendimento perdido do agregado familiar. As crianças mais novas precisam de continuidade na educação quando os adultos que delas cuidam se mudam para trabalhar.

Como se desenvolveu a crise da ajuda

Os cortes no financiamento começaram no início de 2025, antes do fim da ajuda em julho. O desmantelamento da ajuda externa dos Estados Unidos, juntamente com a falta de fundos de outros doadores, afetou a assistência alimentar, os materiais educativos e os serviços médicos nos nove campos fronteiriços.

A sequência mostra como várias formas de apoio se deterioraram em poucos meses:

  • Início de 2025: Os cortes na ajuda começaram a afetar os campos, e o subsídio alimentar mensal padrão caiu para 77 baht tailandeses por adulto, cerca de 2,30 dólares.
  • Março de 2025: O TBC alertou para uma perigosa falta de apoio aos refugiados sem financiamento urgente.
  • 31 de julho de 2025: A assistência alimentar terminou para as famílias classificadas como não vulneráveis, e as operações de saúde do International Rescue Committee encerraram no final de julho.
  • Ano letivo de 2025–2026: A KRCEE contabilizou 20.629 alunos em 45 escolas, contra 24.462 no ano anterior.
  • 20 de janeiro de 2026: A Save the Children divulgou o seu alerta, com base num estudo realizado no final de 2025 e no início de 2026.
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Os cortes na alimentação e nos cuidados médicos chegam à sala de aula

A assistência alimentar já era muito reduzida antes de ser suspensa para a maioria das famílias. O apoio anterior era descrito como superior a 100 baht por membro da família por mês; no início de 2025, o subsídio padrão tinha descido para 77 baht por adulto. As famílias enfrentavam também a subida dos preços dos alimentos.

As crianças entraram neste período com problemas nutricionais já existentes. A desnutrição crónica entre crianças com menos de cinco anos aumentou entre 2022 e 2024 pela primeira vez em pelo menos uma década. A desnutrição crónica significa que uma criança recebeu, durante um longo período, uma quantidade insuficiente de alimentos adequados, o que pode afetar o crescimento e o desenvolvimento.

Os cortes nos cuidados médicos acrescentaram mais uma despesa aos orçamentos familiares. Os refugiados relataram que os quadros de saúde foram reduzidos para metade, que os encaminhamentos de pacientes e o transporte para hospitais foram suspensos e que os medicamentos começaram a escassear, à medida que as operações do International Rescue Committee eram encerradas.

Assim, as famílias que procuravam tratamento fora dos campos podiam enfrentar despesas precisamente quando o apoio alimentar desaparecia. As contas médicas e as despesas escolares saem dos mesmos recursos limitados do agregado familiar.

A educação também perdeu apoio direto. A ajuda da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) fornecia materiais de aprendizagem e artigos escolares essenciais. A retirada desse apoio deixou as famílias com a necessidade de substituir recursos que antes lhes eram fornecidos.

Anos de crescimento dão lugar a uma queda súbita nas matrículas

A Save the Children concluiu que o número de alunos nos campos aumentou cerca de 33%, passando de aproximadamente 18.000 em 2020 para cerca de 24.000 em 2025. A retoma do conflito em Myanmar levou mais refugiados e famílias migrantes para a Tailândia, aumentando a procura de salas de aula e professores.

Guillaume Rachou, diretor executivo da Save the Children Tailândia, descreveu a situação da educação nos campos:

A educação nos campos ao longo da fronteira entre a Tailândia e Myanmar está num ponto de rutura.

O aumento registado ao longo de vários anos e a recente descida apurada pela KRCEE refletem pressões de períodos distintos e em redes escolares diferentes. A Save the Children acompanha o crescimento entre 2020 e 2025; a KRCEE compara anos letivos consecutivos nas suas 45 escolas em sete campos. Em conjunto, os dados mostram escolas a fazer face às necessidades acumuladas por anos de deslocação, enquanto as famílias têm cada vez mais dificuldade em manter os filhos matriculados.

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Os números relativos à população também usam contagens diferentes. A Save the Children aponta para uma população oficial de cerca de 90.000 pessoas nos nove campos, enquanto os dados divulgados a propósito dos cortes na ajuda de julho indicam um total superior a 107.000, incluindo cerca de 91.000 pessoas confirmadas pelas autoridades tailandesas e pela agência das Nações Unidas para os refugiados, o ACNUR. O total mais elevado inclui pessoas que não integram a população confirmada.

A Save the Children estima que cerca de 24.000 alunos vivem nos campos. Em relação a uma população oficial de aproximadamente 90.000 pessoas, representam cerca de 27%, ou seja, mais de um em cada quatro residentes é aluno.

O trabalho fora dos campos acarreta riscos

Pais e funcionários escolares relatam que adolescentes estão a sair para fazer trabalho manual porque as famílias precisam de rendimento imediato. Um coordenador de educação nos campos também referiu que a assiduidade estava a diminuir, à medida que mais crianças eram enviadas para trabalhar fora e os pais tinham dificuldade em pagar as despesas escolares.

As restrições ao emprego e à circulação estavam no centro da crise descrita em julho de 2025. Os refugiados estavam impedidos de trabalhar legalmente fora dos campos e sujeitos a limitações de deslocação, o que deixava muitos dependentes da ajuda ou de trabalhos informais.

Alguns adultos encontraram trabalho agrícola à jorna, na apanha do milho ou do arroz. Um refugiado descreveu multas de 500 a 1.000 baht por sair do campo sem autorização. Esses valores eram várias vezes superiores ao subsídio alimentar mensal reduzido, de 77 baht por adulto.

A pressão para encontrar rendimento expôs também as famílias ao endividamento e a migrações inseguras. Duas mulheres na casa dos vinte anos pagaram 15.000 baht a um intermediário para as levar a Banguecoque, pedindo o dinheiro emprestado a uma taxa de juro de 10%. Não tinham emprego nem alojamento assegurados. Uma delas precisava de dinheiro para os cuidados médicos da mãe, depois de perder o próprio emprego devido aos cortes na ajuda.

Para os alunos, a atração imediata de um trabalho remunerado é acompanhada por outra preocupação: saber se a educação lhes permitirá conseguir emprego. O coordenador de educação disse que os pais viam antigos alunos sem conseguirem encontrar trabalho. As restrições impostas aos adultos enfraqueciam, assim, também a confiança no valor de manter as crianças na escola.

Outras salas de aula também estão sob pressão

Os centros de aprendizagem para migrantes oferecem outra via de acesso à educação para crianças de Myanmar, mas a Save the Children também encontrou sérias limitações nesses espaços. Algumas salas tinham até 60 alunos, e os professores relataram falta de manuais escolares, materiais de ciências e equipamento informático.

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Uma turma sobrelotada deixa menos tempo ao professor para cada criança. A falta de livros e equipamento limita aquilo que os alunos podem praticar, sobretudo em disciplinas que exigem experiências ou acesso a computadores. Estes problemas afetam a qualidade do ensino, mesmo para as crianças que continuam matriculadas.

Muitos centros de aprendizagem para migrantes funcionam em terrenos arrendados, o que cria incerteza quanto à possibilidade de permanecerem no mesmo local. Os professores também descreveram restrições legais que os impedem de obter licenças de docência, comprometendo o reconhecimento do seu trabalho profissional.

A política «Educação para Todos» da Tailândia garante ensino gratuito às crianças que não têm nacionalidade tailandesa. A Save the Children concluiu que obstáculos legais, financeiros e linguísticos continuavam a impedir muitas crianças migrantes e sem documentos de se matricularem.

As propinas são, por isso, apenas uma parte do problema de acesso. Uma família precisa também de um processo de matrícula que consiga compreender e percorrer, de uma escola capaz de responder às necessidades linguísticas da criança e da confiança de que procurar educação não exporá os seus membros à deportação.

A deslocação alargou a crise educativa

O conflito em Myanmar está a pressionar a educação dos dois lados da fronteira. Uma análise de dados censitários do Institute for Strategy and Policy – Myanmar concluiu que mais de seis milhões de crianças em idade escolar dentro de Myanmar tinham sido privadas de educação formal desde o golpe militar de 2021.

A população dos campos fronteiriços aumentou cerca de 35% após o golpe, de acordo com os dados divulgados durante a crise da ajuda em julho. Os combates, os ataques aéreos militares e as minas terrestres continuavam a tornar perigoso o regresso às zonas fronteiriças.

As crianças que chegam à Tailândia podem, por isso, fazê-lo depois de terem visto os estudos interrompidos, para encontrarem salas de aula com menos recursos ou famílias incapazes de suportar as despesas escolares. O aumento da procura e a redução da ajuda estão ligados pelas mesmas famílias deslocadas.

O ACNUR alertou, a 2 de outubro, que 44% das crianças refugiadas em todo o mundo continuavam fora da escola e que a falta de financiamento ameaçava agravar a perda de acesso. Os dados das matrículas na fronteira dão uma medida local desse problema mais amplo: milhares de alunos a menos numa rede escolar ao longo de um único ano letivo.

O que deve ser tido em conta no apoio à educação

A Save the Children apela a fontes diversificadas de financiamento para a educação nos campos e a vias de matrícula eficazes para crianças migrantes, sem documentos e apátridas, sem receio de deportação. As recomendações abrangem tanto o financiamento necessário para manter as escolas como os obstáculos que as crianças enfrentam para lhes aceder.

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As experiências em Umpiem mostram por que razão o financiamento das salas de aula e o apoio às famílias têm de funcionar em conjunto. As escolas precisam de professores e materiais; os agregados familiares precisam de alimentos e rendimento suficientes para manter as crianças a estudar, em vez de as enviarem para trabalhar.

Durante a crise de julho, houve também apelos a que os refugiados tivessem acesso a emprego e circulação legais, bem como a uma oferta mais ampla de ensino da língua tailandesa. Estas medidas dariam aos adultos uma forma de sustentar as famílias e tornariam mais provável conseguir emprego depois de concluir os estudos.

Os dados não indicam quantos dos 3.833 alunos em falta nos números de matrículas da KRCEE começaram a trabalhar, se mudaram para outro local ou se matricularam noutra escola. Não foi anunciada qualquer data para o restabelecimento da assistência alimentar padrão ou para a substituição do financiamento educativo perdido. Pais e diretores descreveram, no entanto, a decisão imediata que as famílias enfrentam: manter uma criança na sala de aula ou encontrar outra fonte de rendimento.

Pontos principais

  • As matrículas nas 45 escolas da KRCEE em sete campos diminuíram 3.833 alunos, ou cerca de 15,7%, entre 2024–2025 e 2025–2026.
  • Umpiem perdeu 62 alunos nas seis escolas; a escola secundária Kaw Moo Rah n.º 1 registou uma quebra de 52.
  • O TBC pôs fim à ajuda alimentar destinada às famílias classificadas como não vulneráveis a 31 de julho de 2025, afetando mais de 80% das famílias, enquanto manteve assistência limitada para os grupos vulneráveis.
  • A escassez de alimentos, os cortes nos cuidados médicos e a perda de materiais escolares estão a aumentar a pressão sobre os orçamentos familiares.
  • A Save the Children inquiriu cerca de 2.500 pessoas e apelou a um financiamento mais fiável para a educação e a vias de matrícula acessíveis.
  • Pais e profissionais da educação dizem que as crianças estão a abandonar a escola para trabalhar ou a mudar-se com os pais que precisam de emprego.
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