Abastecimento de carvão aperta e Gujarat pede às fábricas que alterem os horários de produção
A Autoridade Central de Eletricidade da Índia contabilizou 96 das 191 centrais elétricas a carvão com reservas de combustível criticamente baixas em 19 de outubro de 2026, contra 60 em meados de setembro. Gujarat pediu às fábricas que transfiram a produção para fora do pico de consumo de eletricidade ao início da noite, levando a pressão sobre o abastecimento elétrico para o horário de trabalho de um dos principais estados industriais do país.
Índice
- Abastecimento de carvão aperta e Gujarat pede às fábricas que alterem os horários de produção
- O que significam os números das reservas críticas
- Calor e menos chuva pressionam os dois lados da rede elétrica
- Porque são especialmente difíceis as horas da noite
- Está a chegar mais carvão, mas as reservas continuam a diminuir
- Porque foi abandonada a obrigatoriedade de importar carvão
- A maior procura também está a fazer subir os custos da eletricidade
- A pressão está a moldar os planos para novas centrais elétricas
- O tempo mais fresco poderá dar margem para repor as reservas
- Principais pontos
O número de centrais com reservas críticas aumentou 36, ou 60%, em cerca de um mês. As reservas de carvão nas centrais elétricas caíram cerca de 5% desde o início de outubro, apesar de o ministério do carvão ter aumentado as entregas. Muitas das centrais afetadas tinham carvão suficiente para menos de três dias de produção.
O tempo quente associado ao El Niño, as maiores necessidades de irrigação e a atividade industrial fizeram aumentar a procura de eletricidade. A fraca precipitação durante a monção também reduziu a produção hidroelétrica, obrigando as centrais a carvão a produzir mais eletricidade enquanto consomem as suas reservas de combustível mais rapidamente.
O défice de eletricidade em setembro atingiu 560 milhões de quilowatts-hora, segundo a CEA, o maior défice mensal desde agosto de 2023. A escassez foi também descrita como a pior de qualquer mês de setembro em quase uma década. A produção a carvão aumentou, mas a produção adicional não foi suficiente para satisfazer a procura em determinados momentos e locais.
A resposta de Gujarat mostra onde a pressão é mais imediata: nas horas após a diminuição da produção solar diurna. A Uttar Gujarat Vij Company Ltd enviou mensagens a pedir às indústrias e aos residentes que poupem eletricidade entre as 17h00 e as 23h00. As fábricas foram instadas a transferir voluntariamente o trabalho para outros horários.
O que significam os números das reservas críticas
A contagem da CEA de 19 de outubro colocou pouco mais de metade das centrais a carvão monitorizadas na categoria crítica. Os números anteriores indicavam que 87 das 190 centrais tinham reservas críticas em 8 de outubro, contra 50 na primeira semana de setembro.
As reservas de combustível podem ser avaliadas de duas formas úteis: pelo número de dias durante os quais uma central consegue funcionar com o carvão de que dispõe e pela proporção das reservas prescritas que tem disponível. A primeira medida indica a margem operacional imediata; a segunda compara essa margem com a reserva que se espera que mantenha.
Os dados do ministério da Energia de 17 de outubro mostravam que quase metade das centrais tinha menos de um quarto das reservas necessárias. O ministério do carvão afirmou que estava a acompanhar de perto as centrais assinaladas por terem reservas críticas e a redirecionar abastecimentos para manter a produção.
Um retrato de 8 de outubro indicava reservas de carvão nas centrais elétricas de 20,6 milhões de toneladas, face às 61,2 milhões de toneladas recomendadas, cerca de um terço do necessário. Isso deixava uma diferença de aproximadamente 40,6 milhões de toneladas entre as reservas efetivas e a reserva recomendada.
A sequência recente mostra como a pressão se foi desenvolvendo:
- Meados de setembro: 60 centrais a carvão tinham reservas criticamente baixas.
- 1 de outubro: entrou em vigor uma ordem que obrigava mais de 100 centrais a carvão a funcionar à capacidade máxima até, pelo menos, ao final do ano.
- 8 de outubro: 87 das 190 centrais monitorizadas tinham reservas críticas.
- 19 de outubro: o número de centrais em situação crítica chegou a 96 em 191.
- 21 de outubro: tornou-se público o apelo de Gujarat para que as fábricas reduzissem o consumo de eletricidade ao início da noite.
Calor e menos chuva pressionam os dois lados da rede elétrica
O pico diário da procura de eletricidade na Índia tem sido cerca de 45 a 50 gigawatts superior ao do ano anterior, segundo a CEA. Um gigawatt mede a potência a que a eletricidade é produzida ou consumida. Uma maior procura de ponta significa que a rede precisa de ter mais energia disponível ao mesmo tempo.
A escassez de chuva aumentou a pressão em duas frentes. A menor disponibilidade de água reduziu a produção de eletricidade nas centrais hidroelétricas, enquanto as condições secas aumentaram as necessidades de bombagem de água para irrigação por parte dos agricultores. O calor persistente também manteve os aparelhos de ar condicionado e outros equipamentos de refrigeração em funcionamento para além do período habitual de verão.
Os dados da CEA indicavam que a produção a carvão aumentou 13,3% em setembro face ao ano anterior, enquanto a produção hidroelétrica caiu 20%. Estimativas de analistas financeiros apontam para uma descida de 16% da produção hidroelétrica, para 19 mil milhões de unidades, e um aumento de 16% da produção térmica em sentido lato, para 118 mil milhões de unidades.
Ambos os conjuntos de números descrevem a mesma pressão operacional: menos eletricidade produzida a partir da água e mais trabalho para as centrais que queimam combustível. A manutenção nas centrais elétricas criou mais uma limitação à oferta disponível para satisfazer a procura.
Porque são especialmente difíceis as horas da noite
O pedido de Gujarat abrange seis horas, das 17h00 às 23h00, quando fábricas, famílias e outros consumidores podem disputar eletricidade à medida que a produção solar diminui. Transferir um turno de produção para fora desse período pode reduzir a potência máxima de que o estado necessita de uma só vez, mesmo que uma fábrica consuma uma quantidade semelhante ao longo do dia inteiro.
A eletricidade solar está disponível quando a luz do sol incide nos painéis. As baterias podem armazenar parte dessa eletricidade para utilização posterior, mas a Índia não dispõe de capacidade de armazenamento suficiente para transferir para a noite toda a produção diurna necessária. As centrais a carvão continuam, por isso, a ser fundamentais para satisfazer a procura após o pôr do sol.
Gujarat pediu mais carvão e eletricidade ao governo central. Está também a planear projetos de armazenamento de energia a carvão, nuclear e em baterias para satisfazer o consumo futuro. O apelo imediato às fábricas é voluntário; pede uma alteração dos horários de produção, não o encerramento obrigatório das fábricas.
Punjab, Madhya Pradesh, Bihar, Kerala, Tamil Nadu e Himachal Pradesh também estão a pedir eletricidade a centrais a carvão através de contratos de curta duração, segundo dados do ministério da Energia. Também foram notificados pedidos de eletricidade adicional por parte de Rajasthan, Maharashtra, Andhra Pradesh, Bengala Ocidental, Uttar Pradesh, Chhattisgarh e Deli.
Para os consumidores industriais, a escolha prática poderá passar por alterar os horários dos trabalhadores e das máquinas ou disputar a eletricidade escassa durante a noite. Para os fornecedores de eletricidade, garantir produção adicional implica encontrar uma central com capacidade disponível e o combustível necessário para a manter em funcionamento.
Está a chegar mais carvão, mas as reservas continuam a diminuir
O ministério do carvão afirmou que os abastecimentos diários ao setor elétrico tinham aumentado cerca de 36% face aos níveis de setembro. O transporte ferroviário teve uma média superior a 465 comboios de mercadorias por dia em outubro, e a meta de 470 foi atingida durante três dias consecutivos. Cada comboio é composto por um conjunto de vagões ligados que transportam carvão.
O transporte ferroviário é importante porque a produção de carvão e a produção de eletricidade ocorrem em locais diferentes. Extrair mais combustível só ajuda uma central quando o carvão pode ser carregado, transportado, descarregado e alimentado às caldeiras. O governo pediu à Coal India Ltd que aumentasse a produção e aos caminhos de ferro que garantissem entregas atempadas.
O ministério afirmou que manter o transporte entre 465 e 475 comboios por dia deverá ajudar a estabilizar as reservas e a repor os stocks para a procura durante as festividades, no inverno e no verão seguinte. Também aumentaram as entregas por estrada e por outros meios.
Apesar disso, as reservas continuaram a diminuir durante os primeiros 17 dias de outubro, a uma média de cerca de 48 000 toneladas por dia. Esse valor correspondia a um quinto do ritmo de setembro, equivalente a cerca de 240 000 toneladas por dia nesse mês. A menor redução diária mostra que o equilíbrio entre as entregas e o consumo tinha melhorado, mas a descida que persistia continuava a pressionar as reservas.
Porque foi abandonada a obrigatoriedade de importar carvão
Responsáveis governamentais abandonaram uma proposta que obrigaria as centrais elétricas a misturar carvão importado com abastecimentos nacionais, segundo pessoas familiarizadas com as conversações. O plano teria acrescentado outra fonte de combustível, mas os preços internacionais mais elevados e a desvalorização da rupia encareceram as cargas importadas.
Os preços de referência do carvão térmico estavam no nível mais alto dos últimos três anos. Dados de analistas financeiros apontavam para um preço do carvão indonésio de 111 dólares por tonelada em setembro, mais 47% do que no ano anterior. A desvalorização da rupia aumenta o custo, em moeda local, das compras denominadas em dólares.
A Índia já exigiu no passado a importação de carvão para complementar a produção nacional durante períodos de escassez. A resposta atual dá maior peso à produção e ao transporte nacionais, contando também com a expectativa de que o tempo mais fresco reduza o consumo de eletricidade. O ministério da Energia e a Coal India não tinham confirmado publicamente as conversações sobre o abandono da exigência de importação.
O gás natural também ficou mais caro. Estimativas de analistas financeiros indicavam que os preços à vista do gás natural liquefeito subiram de 10,8 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas em fevereiro para 26 dólares no final de setembro, mais do dobro. Os preços mais elevados do gás tornam esse combustível uma opção mais dispendiosa para colmatar défices de eletricidade.
A atualização semestral do mercado do carvão de 2026 da Agência Internacional de Energia projetou uma procura de carvão na Índia de 1,353 mil milhões de toneladas para o ano, um aumento de 4,2% após uma descida em 2025. A agência associou o aumento à maior procura de eletricidade e às perturbações no abastecimento de petróleo e gás no estreito de Ormuz, a passagem marítima que liga o golfo Pérsico ao mar aberto.
A maior procura também está a fazer subir os custos da eletricidade
O consumo de eletricidade em setembro atingiu um valor estimado de 162 mil milhões de unidades, mais 11% do que no ano anterior, enquanto a procura de ponta aumentou 17%, para 269 gigawatts. Uma unidade de eletricidade corresponde a um quilowatt-hora, a quantidade consumida por um aparelho que utiliza um quilowatt durante uma hora.
Segundo as estimativas dos analistas financeiros, o défice de potência nas horas de ponta da noite ultrapassou os 7 gigawatts. Esse valor mede a falta de potência num determinado momento. O défice mensal de 560 milhões de quilowatts-hora da CEA mede a procura de eletricidade acumulada que não foi satisfeita ao longo do mês.
Os preços grossistas subiram à medida que a oferta se tornou mais limitada. O preço médio ponderado de equilíbrio do mercado na Indian Energy Exchange atingiu 4,9 rupias por quilowatt-hora em setembro, face a 3,4 rupias um ano antes, um aumento de cerca de 44%. Trata-se de um preço no mercado de negociação de eletricidade; as faturas das famílias dependem das tarifas e dos contratos de compra dos respetivos fornecedores.
As empresas de distribuição também enfrentavam pressão financeira, com pagamentos em atraso aos produtores estimados em 85 700 crore de rupias, ou 857 mil milhões de rupias, no final de setembro. Comprar eletricidade adicional a preços de mercado mais elevados aumenta os custos de empresas que já acumulam faturas por pagar.
A pressão está a moldar os planos para novas centrais elétricas
Ghanshyam Prasad, presidente da CEA, afirmou num evento da Câmara de Comércio Indiana que a Índia poderá precisar de mais 105 a 150 gigawatts de capacidade a carvão para além do plano existente. Esse plano já prevê acrescentar 97 gigawatts de capacidade a carvão até 2035.
As decisões de compra dos estados mostram que a procura de produção a carvão vai além da escassez imediata. As autoridades de Uttar Pradesh e Assam procuraram garantir até 7 gigawatts de futuros fornecimentos de eletricidade produzida a carvão através de concursos. A investigação sobre essas compras também referiu mais de 17 gigawatts contratados num período anterior, iniciado em 2024.
A Índia continua a acrescentar capacidade de produção de eletricidade renovável. Prasad afirmou que tinham sido instalados cerca de 50 gigawatts no ano anterior e que se esperava que os acréscimos anuais ultrapassassem os 50 gigawatts. Identificou a energia nuclear e a energia hidroelétrica por bombagem como recursos que poderiam apoiar a produção renovável e a estabilidade da rede.
O armazenamento hidroelétrico por bombagem utiliza eletricidade para bombear água para cotas mais elevadas e depois liberta-a através de turbinas quando é necessária energia. Tal como as baterias, permite transferir a disponibilidade de eletricidade de uma parte do dia para outra. Estes projetos respondem ao problema dos horários que se observa em Gujarat, enquanto as entregas de carvão respondem à escassez imediata de combustível.
O tempo mais fresco poderá dar margem para repor as reservas
O governo espera que o consumo de eletricidade diminua à medida que as temperaturas baixem, permitindo recuperar as reservas de carvão. Uma previsão do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo apontava para condições ligeiramente mais frescas nas duas semanas seguintes, embora se esperasse que as temperaturas continuassem acima da média dos 30 anos anteriores.
As centrais elétricas entram nesse período com uma diminuição diária das reservas inferior à de setembro, mas com stocks descritos como os mais baixos em quase cinco anos. Para repor as reservas, as entregas têm de superar o consumo de carvão de forma consistente, e não apenas acompanhá-lo.
A ordem para que mais de 100 centrais a carvão funcionem à capacidade máxima vigora, pelo menos, até 31 de dezembro. Não foi indicada uma data concreta para repor as reservas de combustível recomendadas. Até à recuperação do abastecimento, a tentativa de Gujarat de transferir a procura das fábricas para fora das horas de ponta da noite é um exemplo concreto da forma como os estados estão a tentar aproveitar ao máximo a eletricidade já disponível.
Principais pontos
- A CEA contabilizou 96 das 191 centrais a carvão com reservas criticamente baixas em 19 de outubro, contra 60 em meados de setembro.
- As reservas de carvão nas centrais elétricas caíram cerca de 5% desde o início de outubro, apesar do aumento das entregas.
- Gujarat pediu às fábricas que transferissem voluntariamente a produção para fora do período entre as 17h00 e as 23h00.
- O défice de eletricidade em setembro atingiu 560 milhões de quilowatts-hora, com o calor a aumentar a procura e a produção hidroelétrica a diminuir.
- Uma proposta de importação obrigatória de carvão foi abandonada devido aos preços internacionais elevados e à desvalorização da rupia.
- A produção nacional de carvão, as entregas ferroviárias e o tempo mais fresco são fundamentais para os esforços de reposição das reservas de combustível.






