Uma encosta em movimento antes do colapso
O radar de satélite detetou um movimento de até 40 centímetros na vertente norte do Langtang Lirung, no Nepal, entre 7 de julho e 24 de agosto de 2026, antes de um enorme colapso lançar rochas, gelo glaciar e águas de cheia pelo corredor fronteiriço entre o Nepal e a China, a 26 de agosto. Esta descoberta oferece uma possível forma de identificar encostas perigosas, enquanto os cientistas procuram determinar por que razão esta encosta cedeu.
Índice
- Uma encosta em movimento antes do colapso
- Como a rocha e o gelo se transformaram numa cheia destrutiva
- O que os satélites mediram
- Foi um sismo o responsável?
- O papel do aquecimento na investigação
- O alerta chegou depois de a fronteira ter sido atingida
- Eletricidade, transportes e meios de subsistência afetados
- Turistas e peregrinos afetados pela interrupção
- Um corredor fronteiriço atingido duas vezes em 13 meses
- Principais pontos
Uma investigação preliminar do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) estima que 132 milhões de metros cúbicos de material se desprenderam por volta das 8h37, hora do Nepal. A torrente resultante chegou à zona fronteiriça de Gyirong-Rasuwagadhi em cerca de sete minutos.
A Autoridade Nacional de Redução e Gestão do Risco de Catástrofes do Nepal registou pelo menos 1.451 mortos e 5.745 desaparecidos, números incluídos na investigação. As autoridades chinesas comunicaram mais 43 mortos e 519 desaparecidos. No conjunto, estes números correspondem a pelo menos 1.494 mortos e 6.264 desaparecidos dos dois lados da fronteira.
A investigação de 36 páginas do ICIMOD reúne observações de satélite, registos sísmicos, levantamentos com drones, análises hidrológicas e avaliações no terreno. A sua principal conclusão é que a catástrofe começou com um colapso de rocha e gelo glaciar, desencadeando uma série de acontecimentos destrutivos em vales fluviais ligados entre si.
A catástrofe danificou casas, pontes, infraestruturas elétricas e uma importante rota comercial. Expôs também um problema prático para os serviços de emergência: um sistema de alerta que monitoriza a precipitação e os níveis dos rios pode ter dificuldade em detetar o perigo quando este começa com o desabamento súbito de uma encosta muito acima de uma povoação.
Como a rocha e o gelo se transformaram numa cheia destrutiva
O colapso começou a cerca de 5.200 metros de altitude, na vertente norte do Langtang Lirung. Os investigadores estimam que 115 milhões de metros cúbicos de rocha e 17 milhões de metros cúbicos de gelo glaciar caíram quase na vertical ao longo de cerca de 1.200 metros, até ao vale do Lhende Khola. Estas estimativas de volume ainda estão sujeitas a confirmação.
A rocha representava cerca de 87% do material estimado, cabendo ao gelo glaciar os restantes 13%. Esta proporção ajuda a explicar a enorme quantidade de detritos sólidos que entrou no sistema fluvial.
A massa em queda fragmentou-se e misturou-se com água e sedimentos. Transformou-se numa corrente rápida que transportava blocos de rocha, lama e gelo pelo corredor fronteiriço e ao longo dos sistemas fluviais do Bhotekoshi e do Trishuli. No porto de Gyirong, os detritos avançaram cerca de três quilómetros rio acima, alargando a destruição no sentido contrário ao fluxo habitual do rio.
Uma reconstrução inicial descreveu o bloqueio do Lhende Khola por detritos, seguido da libertação da água retida. A investigação do ICIMOD identifica o colapso de rocha e gelo como o acontecimento inicial e regista dois lagos temporários que drenaram posteriormente sem provocar outra grande catástrofe. O acontecimento é classificado como uma catástrofe em cascata, em que uma falha desencadeia outras, e não como uma cheia convencional causada pelo esvaziamento súbito de um lago glaciar.
O que os satélites mediram
As observações de radar do Sentinel-1, realizadas entre 7 de julho e 24 de agosto, revelaram um deslocamento aparente de até 40 centímetros na zona que viria a desabar. Uma outra análise, relativa ao período entre 26 de julho e 19 de agosto, registou um movimento de até 30 centímetros.
Os satélites de radar enviam sinais para o solo e medem o que é refletido. Ao comparar observações feitas em diferentes momentos, os cientistas conseguem detetar pequenas alterações na posição de uma superfície, incluindo movimentos difíceis de observar a partir de uma povoação ou estrada distante.
Os investigadores interpretam as medições como possível indício de que o conjunto de rocha e gelo se estava a deformar gradualmente antes de ceder de forma súbita. São necessários mais estudos para compreender exatamente o movimento e determinar a utilidade de observações semelhantes para emitir alertas.
O ICIMOD afirma que as medições do deslocamento não permitem às autoridades saber exatamente quando ocorrerá um deslizamento de terras ou uma queda de rochas. A sua utilidade prática consiste em identificar encostas que merecem ser acompanhadas mais de perto, para que as autoridades possam avaliar as comunidades, estradas e instalações elétricas que ficariam expostas abaixo delas.
Foi um sismo o responsável?
Os instrumentos sísmicos registaram uma perturbação importante no momento do colapso. Os primeiros relatos descreveram um sismo de magnitude 4,4 às 8h37; a análise posterior do ICIMOD descreve sinais equivalentes aos de um sismo de magnitude 5,2 e conclui que a encosta em queda terá provavelmente provocado a perturbação.
Uma grande avalanche de rochas pode abalar o solo com força suficiente para ser registada pelos instrumentos sísmicos. Por isso, os investigadores analisam a hora e o padrão dos sinais para determinar se os abalos precederam o colapso ou foram provocados pela massa em movimento.
O ICIMOD considera improvável que um sismo tenha sido o desencadeador imediato. Os cientistas estão, em vez disso, a estudar vários fatores possíveis, incluindo fraturas preexistentes, danos associados ao sismo de 2015 no Nepal, alterações na espessura do glaciar, acumulação de neve e gelo e ciclos repetidos de congelação e degelo. Não foi identificada uma causa predominante.
O Langtang Lirung já tinha sido palco de uma avalanche devastadora durante o sismo de magnitude 7,8 de abril de 2015. Esse acontecimento atingiu a vertente sul e soterrou a aldeia de Langtang, causando pelo menos 300 mortos. O colapso de agosto de 2026 começou na vertente norte, no Nepal, antes de os seus efeitos atravessarem a fronteira internacional.
O papel do aquecimento na investigação
O ICIMOD indica que a perda de massa dos glaciares em toda a região Hindu Kush Himalaya quase duplicou desde 2000. O ano de monitorização de 2024-25 registou as maiores perdas da série analisada pela organização.
As alterações nos glaciares podem afetar as rochas próximas de várias formas. O recuo do gelo pode expor encostas que antes eram por ele sustentadas, enquanto as alterações na espessura do gelo modificam o peso e as forças que atuam sobre encostas montanhosas fraturadas. A água que penetra nas fendas também pode congelar e expandir-se, voltando depois a derreter e alterando gradualmente o estado da rocha.
Os cientistas estão a estudar o permafrost, solo que normalmente permanece congelado durante pelo menos dois anos consecutivos. O gelo nas fendas pode ajudar a manter unido o material fraturado; o aquecimento pode enfraquecer esse suporte congelado. A zona do colapso situa-se numa área onde poderá ter existido permafrost, mas os investigadores ainda não determinaram se ocorreu degelo no local da derrocada.
O ICIMOD não identificou provas diretas que relacionem o rápido degelo dos glaciares com este colapso. A investigação está a avaliar se o aquecimento contribuiu para o sucedido, a par de fragilidades geológicas, alterações nos glaciares e outras pressões.
O alerta chegou depois de a fronteira ter sido atingida
O Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal enviou alertas para telemóveis a cerca de 679.000 pessoas em distritos a jusante, por volta das 9h15-9h16. Nessa altura, o corredor fronteiriço já tinha sido atingido.
A sequência dos acontecimentos comunicada mostra quanto pouco tempo tiveram as comunidades mais próximas do colapso:
- 7 de julho-24 de agosto de 2026: o radar de satélite registou um movimento aparente de até 40 centímetros na encosta.
- 26 de agosto, cerca das 8h37: rocha e gelo glaciar desabaram no vale do Lhende Khola.
- Cerca de sete minutos depois: o fluxo de detritos chegou ao corredor fronteiriço, por volta das 8h44.
- Por volta das 9h15-9h16: foram enviados alertas para telemóveis nos distritos a jusante.
Tendo em conta estas horas, os alertas foram enviados cerca de meia hora depois da chegada estimada ao corredor fronteiriço. As comunidades mais a jusante tiveram outro intervalo para agir, consoante a distância a que se encontravam do colapso e a rapidez com que a informação lhes chegou.
Os sistemas de alerta existentes monitorizam sobretudo a chuva intensa e a subida dos níveis dos rios. O ICIMOD recomenda integrar observações de satélite, deteção sísmica e medições hidrológicas num sistema comum, juntamente com previsões que identifiquem as povoações e infraestruturas provavelmente afetadas.
Eletricidade, transportes e meios de subsistência afetados
A catástrofe destruiu ou danificou 13 projetos hidroelétricos, incluindo instalações em funcionamento e em construção. As infraestruturas afetadas correspondiam a cerca de um décimo da capacidade instalada de produção de eletricidade do Nepal.
A energia hidroelétrica representou cerca de 44% dos danos materiais avaliados, com prejuízos no setor estimados em quase 120 mil milhões de rupias nepalesas. Os danos nas centrais em funcionamento interrompem a produção de eletricidade, enquanto a destruição nos estaleiros de construção atrasa o abastecimento futuro e gera custos adicionais de reconstrução.
As linhas de transmissão e as subestações também sofreram danos. Uma central solar com uma capacidade de 25 megawatts, em Nuwakot, ficou soterrada em sedimentos, alargando a interrupção para além da energia hidroelétrica.
Pelo menos uma dúzia de pontes foi arrastada, incluindo travessias a cerca de 70 quilómetros a jusante. As pontes destruídas e as autoestradas danificadas cortaram o acesso ao longo do corredor de transporte norte, dificultando as operações de salvamento, a entrega de abastecimentos e as deslocações entre comunidades. Os primeiros relatos indicavam que dezenas de milhares de pessoas tinham perdido as casas e que bairros inteiros tinham sido destruídos em Syaprubesi, Betrawati, Trisuli e noutras localidades ribeirinhas.
Turistas e peregrinos afetados pela interrupção
A cheia atingiu o Nepal no início da época de caminhadas e durante o período de maior movimento das viagens por terra para o Tibete. Ocorreu também dois dias antes da peregrinação da lua cheia de 28 de agosto, quando milhares de pessoas se deslocavam em direção ao lago Gosainkunda, em Rasuwa.
Peregrinos indianos a caminho de Mansarovar, na China, estavam a utilizar a passagem de Rasuwa-Gyirong. Os danos no posto fronteiriço, nas estradas e nas pontes afetaram, assim, residentes, tráfego comercial, turistas e viajantes religiosos ao mesmo tempo.
O Conselho de Turismo do Nepal identificou inicialmente 644 turistas com os quais não era possível estabelecer contacto, incluindo 178 indianos e 65 norte-americanos. Entre as outras nacionalidades estavam ucranianos, malaios, australianos, britânicos e canadianos, além de 127 viajantes nepaleses.
A prioridade imediata do Conselho era localizar esses viajantes. Entre as dificuldades de comunicação contavam-se a interrupção do serviço de telemóvel e a incerteza quanto a quem já tinha atravessado para a China, onde o acesso a alguns serviços de redes sociais é restrito.
Um corredor fronteiriço atingido duas vezes em 13 meses
O corredor de Gyirong-Rasuwagadhi ainda recuperava da cheia de 8 de julho de 2025, que causou 18 mortos e destruiu a Ponte da Amizade, que liga o Nepal e a China. Os cientistas associaram essa cheia à água libertada por lagos ou lagoas do glaciar Purepu, no Tibete.
As duas catástrofes ocorreram com cerca de 13 meses de intervalo, mas tiveram origens diferentes. O acontecimento de julho de 2025 começou com a libertação de água acumulada num glaciar. A catástrofe de agosto de 2026 começou com o colapso de uma encosta, que lançou uma enorme quantidade de rocha e gelo no vale fluvial.
Os cientistas estão também a investigar um colapso recente distinto, envolvendo rocha e gelo glaciar, na bacia do Budhi Gandaki, no Nepal. Os dois colapsos recentes ocorreram num intervalo de sete semanas, aumentando a preocupação quanto à identificação de encostas vulneráveis e à proteção das pessoas que vivem abaixo delas.
O diretor-geral do ICIMOD, Pema Gyamtsho, apresentou as conclusões preliminares na quinta conferência nacional do Nepal sobre redução do risco de catástrofes. A organização pediu um acompanhamento mais próximo, comunicações mais rápidas e alertas coordenados entre países que partilham rios de montanha. Uma equipa conjunta do ICIMOD e de instituições parceiras na China planeava novas investigações no terreno, embora não tenha sido indicada uma data concreta.
Para as comunidades ao longo destes rios, o desafio imediato é ligar as observações feitas nas montanhas às decisões tomadas mais abaixo: que encostas precisam de atenção, que povoações estão expostas e com que rapidez pode chegar um alerta antes de estradas, pontes e rotas de fuga ficarem cortadas.
Principais pontos
- O radar de satélite detetou um movimento aparente de até 40 centímetros antes do colapso de 26 de agosto de 2026 no Langtang Lirung.
- As autoridades registaram pelo menos 1.494 mortos e 6.264 desaparecidos no Nepal e na China.
- Estima-se que 132 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo glaciar tenham caído no vale, com os detritos a chegar ao corredor fronteiriço em cerca de sete minutos.
- O ICIMOD considera improvável que um sismo tenha sido o desencadeador imediato; a causa precisa continua sob investigação.
- Treze projetos hidroelétricos foram danificados ou destruídos, assim como pontes, estradas, casas e outras infraestruturas elétricas.
- O ICIMOD recomenda combinar a monitorização por satélite, sísmica e fluvial com alertas mais rápidos e troca de informações além-fronteiras.






