Uma aranha de 1892 revela uma vida oculta
Uma tarântula pálida, descrita pela primeira vez em 1892, foi confirmada como a primeira tarântula conhecida da Ásia que vive exclusivamente em cavernas, depois de investigadores regressarem a um sistema de grutas calcárias em Camarines Sur, nas Filipinas. A investigação revelou também duas novas espécies de tarântula na floresta acima, elevando para 16 o total reconhecido no país, todas encontradas naturalmente apenas nas Filipinas.
Índice
- Uma aranha de 1892 revela uma vida oculta
- O que mudou desde a primeira descrição de Simon?
- O que faz dela uma verdadeira habitante das cavernas?
- Como reagiram as aranhas à falta de oxigénio?
- Detetar alimento e perigo na escuridão
- O ADN liga três cavernas e uma história muito antiga
- Duas descobertas no chão da floresta
- Três espécies aparentadas partilham a mesma paisagem
- A importância do parque para a conservação
- Principais pontos
A espécie cavernícola, Orphnaecus pellitus, foi recolhida nas zonas de escuridão total de Alinsanay, Kalangkawan e Laya, três cavernas interligadas no Parque Natural das Grutas de Libmanan. Os seus olhos invulgarmente pequenos, a coloração pálida e as pernas alongadas ajudaram os investigadores a esclarecer uma questão em aberto há 133 anos: se esta aranha era uma residente permanente do subsolo.
Os testes laboratoriais acrescentaram provas para além da sua aparência. Em condições de pouco oxigénio, as tarântulas cavernícolas demoraram entre cinco e 12 minutos a perder a consciência, em comparação com menos de dois minutos nas espécies de superfície e tolerantes a cavernas usadas para comparação. As aranhas cavernícolas recuperaram sem que se registassem mortes.
Os resultados foram publicados num estudo a 5 de junho de 2025, na revista Subterranean Biology, volume 52, páginas 143 a 186. A equipa de investigação incluiu Darrell C. Acuña, Myla R. Santiago-Bautista, Volker von Wirth e Leonardo A. Guevarra Jr.
A Universidade de Santo Tomás, cujos investigadores participaram no trabalho, descreveu as descobertas no seu anúncio de 26 de junho. Em conjunto, os resultados revelam três aranhas aparentadas que ocupam diferentes zonas da mesma paisagem protegida, desde câmaras cavernícolas escuras até abrigos sob troncos e pedras na floresta.
O que mudou desde a primeira descrição de Simon?
O naturalista francês Eugène Simon descreveu Orphnaecus pellitus a partir das grutas de Culapnitan, em 1892. Assinalou os seus olhos minúsculos e muito separados e sugeriu que a sua aparência invulgar poderia estar relacionada com a vida subterrânea. A sua breve análise deixou aos investigadores posteriores o nome de uma espécie e uma possibilidade intrigante, mas pouco conhecimento sobre o modo como o animal vivia.
A nova investigação regressou à área onde a espécie foi originalmente recolhida, hoje integrada no Parque Natural das Grutas de Libmanan. Os investigadores examinaram estruturas do corpo, compararam ADN e estudaram o comportamento e o habitat. A conjugação destas abordagens permitiu-lhes avaliar o modo de vida da aranha, bem como a sua identidade.
As principais datas mostram o longo intervalo entre a descrição original e a investigação moderna:
- 1892: Simon descreveu Orphnaecus pellitus a partir das grutas de Culapnitan e sugeriu uma ligação entre os seus olhos invulgares e a vida subterrânea.
- 5 de junho de 2025: O novo estudo foi publicado na Subterranean Biology, confirmando a sua especialização em cavernas e descrevendo duas novas espécies da floresta.
- 26 de junho de 2025: A Universidade de Santo Tomás anunciou os resultados e apresentou a participação dos seus investigadores.
Os 133 anos correspondem ao intervalo entre a descrição original e a publicação desta reavaliação detalhada. A principal descoberta é uma compreensão muito mais completa de uma espécie já identificada, mas que não era estudada há mais de um século.
O que faz dela uma verdadeira habitante das cavernas?
Orphnaecus pellitus é classificada como troglóbia, o que significa que vive inteiramente nas zonas escuras das cavernas. Uma aranha que entra ocasionalmente numa caverna pode continuar a depender do mundo exterior. Uma espécie troglóbia especializou-se num habitat subterrâneo.
Os investigadores recolheram as tarântulas em locais situados entre 30 e 300 metros para o interior das três cavernas interligadas, em zonas sem luz natural. Os seus corpos apresentavam várias características associadas à vida permanente em cavernas: olhos reduzidos, pigmentação mais clara, pernas alongadas e sedas tácteis encurtadas, os pequenos pelos sensoriais do corpo.
As diferenças nos olhos iam além do simples tamanho. Os tamanhos relativos dos diferentes pares de olhos também diferiam dos das espécies de Orphnaecus que vivem à superfície. Num ambiente sem luz do dia, os investigadores analisaram estas alterações em conjunto com outras características da aranha e com o seu comportamento.
Antes desta descoberta, conheciam-se tarântulas reconhecidamente restritas a cavernas no México, na República Dominicana e no Brasil. Orphnaecus pellitus elevou o total mundial para 19 e alargou a distribuição conhecida à Ásia.
Como reagiram as aranhas à falta de oxigénio?
A comparação laboratorial testou durante quanto tempo as aranhas se mantinham responsivas em condições de hipoxia, o termo científico para a falta de oxigénio. O oxigénio ajuda os animais a libertar a energia de que necessitam para manter o funcionamento do corpo. A tolerância a níveis reduzidos de oxigénio pode ser útil em ambientes subterrâneos.
Orphnaecus pellitus demorou entre cinco e 12 minutos a perder a consciência durante os testes. As espécies de superfície e tolerantes a cavernas usadas para comparação deixaram de responder em menos de dois minutos. Mesmo o tempo mais curto registado para a especialista em cavernas foi superior ao dobro desse valor de referência.
As tarântulas cavernícolas recuperaram rapidamente e os investigadores não registaram qualquer morte entre elas. O resultado acrescentou uma descoberta fisiológica, relacionada com o funcionamento do corpo, às diferenças visíveis nos olhos, nas pernas e na coloração.
A Universidade de Santo Tomás destacou as conclusões da equipa de investigação sobre a tolerância ao oxigénio e o comportamento. O seu anúncio citou a descrição das adaptações adicionais feita no estudo:
a tolerância à hipoxia e a sensibilidade acrescida aos movimentos do solo são outras adaptações subterrâneas observadas.
Detetar alimento e perigo na escuridão
Dentro das cavernas, as tarântulas reagiam à aproximação de movimentos a mais de um metro de distância, recuando para as suas tocas. As vibrações do solo permitem detetar atividade nas proximidades, onde a luz do dia não oferece qualquer ajuda.
As observações laboratoriais também revelaram uma deteção e captura rápidas das presas. As aranhas observadas agarravam insetos vivos sem parar para analisar o que as rodeava. Os juvenis capturavam insetos até três vezes maiores do que o seu próprio corpo, mostrando que a caça eficaz começava quando as aranhas ainda eram jovens.
Os grilos-das-cavernas estavam entre as presas associadas a Orphnaecus pellitus no seu habitat subterrâneo. Para um animal que vive na escuridão, localizar estas presas depende de informação sensorial que não seja uma imagem visual nítida.
Os investigadores sugeriram que órgãos nas patas das aranhas capazes de detetar vibrações poderiam ajudar a explicar a sua sensibilidade. No entanto, não encontraram alterações estruturais correspondentes nesses órgãos, pelo que o mecanismo preciso por detrás da resposta acrescida continua por esclarecer.
O ADN liga três cavernas e uma história muito antiga
A análise genética enquadrou Orphnaecus pellitus no grupo Orphnaecus, distinguindo-a das espécies aparentadas. Os espécimes recolhidos em diferentes cavernas apresentavam diferenças genéticas muito reduzidas, o que sustenta a identificação como uma única espécie em todo o sistema interligado.
Os investigadores estimaram que a espécie cavernícola poderá ter divergido das suas parentes há entre 33,5 milhões e 50 milhões de anos. Trata-se de uma estimativa da época em que as linhagens evolutivas se separaram. A data em que passou a viver permanentemente em cavernas continua incerta.
Orphnaecus pellitus ocupa também um lugar especial na nomenclatura do seu género. O tratamento taxonómico do género do estudo, arquivado no Zenodo, identifica-a como a espécie-tipo de Orphnaecus. Uma espécie-tipo é a espécie de referência a que fica associado o nome de um género.
O registo indica que recebeu esse estatuto por monotipia, ou seja, era a única espécie incluída quando o género foi estabelecido. O mesmo tratamento enumera cinco espécies no género: O. adamsoni, O. kwebaburdeos, O. pellitus, O. libmanan e O. tangcongvaca.
Duas descobertas no chão da floresta
As descobertas da expedição estenderam-se para além das cavernas. Os investigadores identificaram Orphnaecus libmanan e Orphnaecus tangcongvaca como novas espécies no solo florestal do parque, recorrendo às características físicas, às relações genéticas e a observações ecológicas.
Orphnaecus libmanan ocupa espaços abrigados maiores, incluindo locais sob troncos e rochas. A mais pequena Orphnaecus tangcongvaca escava tocas sob ramos e pedras. Ambas vivem no chão da floresta, mas as diferenças nos seus abrigos indicam que utilizam esse ambiente partilhado de formas distintas.
Orphnaecus tangcongvaca também chamou a atenção devido ao seu órgão estridulatório drasticamente reduzido. Trata-se de uma estrutura usada para produzir som por fricção, como quando se esfregam duas superfícies rugosas uma contra a outra.
A análise genética enquadrou, ainda assim, a espécie no género Orphnaecus. O órgão reduzido põe em causa classificações que dependem exclusivamente desta característica. A abordagem combinada dos investigadores permitiu considerar provas de ADN em conjunto com as estruturas corporais ao determinar a que género pertencia a nova espécie.
Três espécies aparentadas partilham a mesma paisagem
O Parque Natural das Grutas de Libmanan alberga três tarântulas aparentadas com diferentes nichos ecológicos. Um nicho descreve a forma como um animal utiliza o que o rodeia, incluindo onde se abriga e o que come. Neste caso, a divisão mais acentuada separa a residente permanente das cavernas das duas espécies que vivem na floresta.
Orphnaecus pellitus ocupa o sistema subterrâneo escuro e alimenta-se de presas das cavernas, incluindo grilos. À superfície, O. libmanan e O. tangcongvaca usam abrigos de dimensões diferentes e parecem visar presas distintas.
Os investigadores sugeriram que a competição pelo espaço e pelo alimento poderá ter contribuído para estas diferenças. A espécie cavernícola seguiu um caminho separado para um habitat subterrâneo, enquanto as espécies florestais partilham a superfície através de diferentes padrões de abrigo e alimentação.
A comparação cria uma ligação entre estas descobertas que vai além dos nomes. Num único parque, o estudo documenta como animais aparentados podem ocupar ambientes vizinhos e, ainda assim, desenvolver corpos, comportamentos e formas de obter alimento distintos.
A importância do parque para a conservação
As duas espécies florestais agora descritas elevam para 16 o total de tarântulas reconhecidas nas Filipinas. As 16 são endémicas, o que significa que a sua distribuição natural se limita às Filipinas. A sua conservação depende, por isso, das condições existentes no país.
Os resultados mostram também por que razão um levantamento limitado a um único habitat teria produzido uma imagem incompleta. O trabalho nas zonas escuras das cavernas revelou a especialização de Orphnaecus pellitus. O estudo da floresta circundante revelou duas espécies que ainda não tinham sido formalmente descritas.
Os investigadores apelaram à realização de mais levantamentos e à conservação do Parque Natural das Grutas de Libmanan, incluindo a exploração de cavernas ainda por estudar. As suas conclusões integram o sistema subterrâneo e a floresta que se estende acima dele no mesmo quadro de conservação.
A próxima tarefa científica consiste em aprofundar este estudo detalhado do habitat, da anatomia, do comportamento e do ADN. Uma aranha conhecida sobretudo através de uma descrição de 1892 tem agora um lugar documentado entre as poucas tarântulas do mundo restritas a cavernas, enquanto as suas parentes florestais mostram quanto ainda havia por identificar nas proximidades.
Principais pontos
- Orphnaecus pellitus, descrita em 1892, foi confirmada como a primeira tarântula conhecida da Ásia restrita a cavernas.
- Os investigadores recolheram-na em três cavernas interligadas no Parque Natural das Grutas de Libmanan, em Camarines Sur.
- As suas adaptações incluem olhos minúsculos, coloração pálida, pernas alongadas, tolerância a níveis reduzidos de oxigénio e sensibilidade às vibrações do solo.
- Duas novas espécies florestais, O. libmanan e O. tangcongvaca, elevam para 16 o total de tarântulas reconhecidas nas Filipinas, todas endémicas.
- O estudo eleva para 19 o número mundial de tarântulas reconhecidas de vida obrigatoriamente cavernícola e apela a mais levantamentos e ações de conservação.






