Uma cultura introduzida para ajudar os agricultores torna-se um fardo duradouro
Os agricultores das planícies aluviais do Mekong passam, em média, 11 dias por hectare e por ano a limpar a mimosa-gigante, segundo uma revisão científica publicada em maio de 2023. O arbusto pode produzir até 220 000 sementes por planta por ano, e algumas sementes podem permanecer dormentes no solo durante 26 anos. Cortar os ramos é muitas vezes apenas o começo.
Índice
- Uma cultura introduzida para ajudar os agricultores torna-se um fardo duradouro
- Como a mimosa-gigante se espalhou para além dos campos
- Porque é tão difícil conter o arbusto
- O que os agricultores perdem com a invasão
- O que o estudo tailandês sobre as aves encontrou realmente
- A profundidade da água e os pântanos também influenciam a sobrevivência das aves
- Dados de África mostram a dimensão da transformação dos habitats
- A ajuda invisível sob as raízes
- Porque é que a remoção exige anos de acompanhamento
- Pontos principais
A mimosa-gigante, conhecida cientificamente como Mimosa pigra, chegou à Tailândia vinda da Indonésia em 1947, como cultura de cobertura e adubo verde. Os agricultores usam culturas de cobertura para proteger o solo e adubo verde para lhe acrescentar matéria vegetal que o alimenta. Uma planta introduzida para esses fins acabou por se espalhar pelas margens dos rios e pelas planícies aluviais.
A revista Plants publicou a revisão científica de 2023, que inclui a mimosa-gigante entre as 100 piores espécies exóticas invasoras do mundo. Segundo a revisão, o arbusto está presente na bacia do rio Mekong desde a década de 1970 e espalhou-se por mais de 30% das zonas de planície aluvial. A estimativa baseia-se em investigação anterior, e não num novo levantamento realizado em 2023.
Os custos vão além da perda de terrenos agrícolas. As densas formações espinhosas obstruem a irrigação, dificultam o acesso à água e substituem uma vegetação mais aberta. Uma investigação na zona húmida de Bung Boraphet, no centro da Tailândia, também associa a vegetação invadida pela mimosa a um menor número de grandes aves limícolas.
Esse estudo sobre as aves dá uma imagem mais detalhada dos danos. A mimosa era uma das várias pressões que afetavam a fauna, a par das alterações das condições da água, do crescimento das povoações e da perda ou reorganização dos habitats. As conclusões apontam para a gestão da zona húmida como um todo, sem deixar de combater o arbusto invasor.
Como a mimosa-gigante se espalhou para além dos campos
A América tropical é a região de origem da mimosa-gigante. Fora dessa área, foi introduzida pelo ser humano como planta ornamental, cultura de cobertura e adubo verde; sementes contaminadas constituíram outra via de disseminação. A espécie estabeleceu-se na Austrália e em partes de África e da Ásia.
A introdução registada na Tailândia em 1947 explica uma das vias de entrada. A investigação genética citada na revisão indica que o país recebeu a espécie mais do que uma vez. As introduções múltiplas deram à planta oportunidades adicionais para se estabelecer.
A história estende-se por várias décadas:
- 1947: A mimosa-gigante foi introduzida na Tailândia, vinda da Indonésia, para ser usada como cultura de cobertura e adubo verde.
- Década de 1970: A espécie já estava presente na bacia do rio Mekong.
- 1980 a 1981: Duas espécies de escaravelhos que se alimentam das suas sementes foram libertadas na Tailândia e estabeleceram-se.
- 2003 a 2014: Os investigadores acompanharam as aves aquáticas residentes em Bung Boraphet, enquanto a paisagem envolvente se alterava.
- 11 de maio de 2023: A revista Plants publicou a revisão dos mecanismos de invasão e das formas de gestão da espécie.
As planícies aluviais favorecem a capacidade do arbusto para crescer em condições tropicais, com alternância entre estações húmidas e secas. As vagens peludas podem flutuar em ribeiros e águas de cheia ou prender-se a animais e veículos agrícolas. A água e a circulação entre campos podem, assim, transportar uma nova infestação para além de uma mancha já existente.
Porque é tão difícil conter o arbusto
A mimosa-gigante pode atingir a maturidade reprodutiva em seis a oito meses. Cresce em matagais densamente ramificados que podem chegar aos seis metros de altura, com espinhos ao longo dos caules. As formações densas impedem a luz de chegar ao solo e dificultam a passagem de pessoas e animais.
A produção de sementes dá-lhe outra vantagem. Além da estimativa de até 220 000 sementes por planta e por ano, a revisão regista estudos que encontraram entre 2 000 e 45 000 sementes por metro quadrado na camada superficial do solo sob a copa. Esta reserva enterrada é chamada banco de sementes: as sementes permanecem no solo até as condições permitirem a germinação.
Algumas sementes sobrevivem porque o revestimento exterior duro impede a entrada de água. A revisão regista períodos de dormência até 26 anos. Num exemplo australiano, continuavam a surgir 109 plântulas por metro quadrado dez anos depois de ter sido limpa uma mancha com 250 hectares.
O corte também deixa uma segunda via para o regresso. A mimosa-gigante pode voltar a crescer a partir da base dos caules, e, num estudo citado, os rebentos jovens atingiram 2,5 metros de altura em 12 semanas. Os responsáveis pela gestão têm de lidar tanto com partes vivas da planta que ficam após a remoção como com sementes já enterradas no solo.
O que os agricultores perdem com a invasão
Os arrozais e outras terras agrícolas perdem área utilizável quando os matagais de mimosa se propagam. A obstrução dos sistemas de irrigação cria outro problema: os agricultores têm de garantir a circulação da água e manter a área de cultivo desimpedida.
A estimativa da revisão de 11 dias de limpeza por hectare e por ano provém de investigação em planícies aluviais cultivadas do Mekong, perto de Kratie, no Camboja. A esse ritmo, a manutenção de cinco hectares afetados exigiria 55 dias de limpeza por ano. O cálculo mostra como um problema recorrente de infestantes pode consumir tempo necessário para semear, cuidar das culturas e fazer a colheita.
O gado também perde zonas de pastagem, e a vegetação densa pode impedir o acesso à água. A revisão regista uma redução da produção da pesca perto de planícies aluviais invadidas, acrescentando mais um meio de subsistência à lista de atividades afetadas.
As alterações à circulação da água fazem com que o problema ultrapasse os limites de cada exploração agrícola. A revisão descreve uma redução dos caudais e uma maior acumulação de sedimentos nas zonas invadidas, com as planícies aluviais a transformarem-se em matagal. Quando a vegetação lenhosa densa substitui uma zona húmida mais aberta, o acesso à terra e à água muda em simultâneo.
O que o estudo tailandês sobre as aves encontrou realmente
Bung Boraphet situa-se na província de Nakhon Sawan, na planície aluvial do Chao Phraya, numa bacia hidrográfica diferente da do Mekong. Com cerca de 212 quilómetros quadrados, é a maior zona húmida de água doce da Tailândia e é importante para a pesca, o abastecimento de água, a agricultura e o controlo de cheias.
Um estudo sobre as populações de aves aquáticas, publicado na revista Tropical Conservation Science, analisou as aves residentes na zona entre 2003 e 2014. Os investigadores realizaram levantamentos repetidos de barco, mensalmente durante os primeiros dois anos e, a partir de 2005, de 15 em 15 dias. Analisaram 28 espécies com registos suficientes.
As aves aquáticas residentes diminuíram 27% durante o período do estudo. Os patos registaram a maior redução, de 56%, enquanto as grandes aves limícolas diminuíram 25% e as que se alimentam de vegetação cerca de 8%. As aves que se alimentam de peixe e as pequenas aves limícolas sofreram flutuações sazonais, mas mantiveram populações estáveis ao longo do período.
A análise da paisagem abrangeu o período de 2001 a 2014. A área dominada por vegetação de mimosa-gigante aumentou 81%, enquanto a superfície coberta por massas de água diminuiu 31%. As zonas residenciais e as pisciculturas aumentaram ambas 27%.
Os investigadores encontraram menos grandes aves limícolas nas zonas com vegetação invadida pela mimosa. A análise também associou diferentes grupos de aves a diferentes pressões ambientais. A diminuição de 27% diz respeito à população de aves residentes de Bung Boraphet; a conclusão específica sobre a mimosa refere-se às grandes aves limícolas e à vegetação invadida.
A profundidade da água e os pântanos também influenciam a sobrevivência das aves
As pequenas aves limícolas e as que se alimentam de vegetação tornaram-se menos abundantes quando a profundidade média da água ultrapassou cerca de 1,8 metros. Entre as pequenas aves limícolas contam-se espécies como os borrelhos e os pernilongos. As aves que se alimentam de vegetação, incluindo jacanas e frangos-d'água, encontram alimento entre as plantas das zonas húmidas.
A profundidade da água altera os locais onde estas aves conseguem chegar ao alimento e utilizar o habitat. As aves que se alimentam de peixe responderam a outra característica: eram mais abundantes quando o oxigénio dissolvido ultrapassava 5,5 miligramas por litro. O oxigénio dissolvido é o oxigénio presente na água de que os peixes e outros animais aquáticos necessitam.
A presença de zonas pantanosas estava associada a uma maior abundância de patos, grandes aves limícolas e aves que se alimentam de vegetação. A expansão das zonas residenciais estava associada a uma diminuição destas últimas. Os investigadores recomendaram a preservação de habitats pantanosos importantes, a manutenção de níveis e qualidade da água adequados, a remoção de espécies invasoras e a limitação de novas construções junto às zonas húmidas.
Os resultados de Bung Boraphet fornecem aos responsáveis pela gestão dados locais que apoiam estas medidas. Os autores recomendaram testar as conclusões noutros locais antes de as aplicar a paisagens mais vastas. No Mekong, a lição prática é investigar de que forma a mimosa interage com as condições da água e a utilização dos habitats em cada zona húmida afetada.
Dados de África mostram a dimensão da transformação dos habitats
As planícies aluviais de Kafue, na Zâmbia, são outro exemplo de expansão rápida. A revisão de 2023 regista que a mimosa-gigante ocupava dois hectares em 1980, 100 hectares em 1986 e 2 500 hectares em 2003. Estes valores correspondem a um aumento para 1 250 vezes a área inicial em 23 anos.
A revisão cita também uma comparação entre 20 000 aves em zonas com vegetação nativa e 314 em zonas invadidas pela mimosa, a par de uma redução de 50% no número de espécies de aves. A comparação diz respeito a diferentes áreas de habitat, enquanto o estudo tailandês acompanhou a evolução ao longo do tempo numa única zona húmida.
A mimosa-gigante substituiu as gramíneas anteriormente dominantes na planície aluvial de Kafue. A copa densa limita a entrada de luz sob o arbusto, enquanto a vegetação espinhosa restringe a circulação dos animais e o acesso à margem. Estas alterações ajudam a explicar por que razão a substituição da vegetação aberta das zonas húmidas por matagais pode mudar as espécies que utilizam uma determinada área.
A ajuda invisível sob as raízes
O sucesso da mimosa-gigante também envolve organismos que vivem junto às suas raízes. A revisão descreve associações com rizóbios, bactérias que ajudam as plantas a obter azoto. O azoto é um nutriente necessário ao crescimento das plantas, e estas bactérias transformam o azoto do ar em formas que a planta hospedeira pode utilizar.
Os estudos citados na revisão concluíram que a mimosa-gigante consegue manter estas associações em condições de inundação. Investigação realizada em Taiwan e na Austrália identificou bactérias parceiras com elevada atividade de fixação de azoto, o que poderá explicar o crescimento vigoroso da espécie fora da sua área de origem.
Os fungos associados às raízes também podem ajudar o arbusto a obter água e nutrientes. Estas relações chamam-se mutualismo, porque ambas as partes beneficiam. Somam-se às vantagens do crescimento rápido, da produção abundante de sementes e da existência de relativamente poucos inimigos naturais em algumas regiões invadidas.
Estudos laboratoriais concluíram que material foliar e extratos de mimosa inibiam a germinação ou o crescimento de várias outras plantas. Esta interação química chama-se alelopatia. A revisão sugere que a folhada em decomposição pode libertar no solo substâncias que inibem o crescimento; estimou-se uma queda anual de folhada de 758 gramas por metro quadrado. A investigação analisada não conseguiu determinar quais eram exatamente as substâncias químicas responsáveis pelos efeitos.
Porque é que a remoção exige anos de acompanhamento
Os herbicidas são o principal método de controlo descrito na revisão, sendo aplicados à folhagem, aos cepos cortados ou ao solo. Entre os métodos mecânicos contam-se o arranque manual, o corte, o uso de bulldozers e o derrube de formações maiores. A escolha depende, em parte, da dimensão e da localização da infestação.
O fogo tem efeitos variados. Após um incêndio, as plantas podem voltar a crescer a partir da base dos caules, e o calor pode estimular a germinação das sementes no solo. Os tratamentos mecânicos e químicos também exigem atenção às plantas e aos animais nativos que partilham o local.
O controlo biológico utiliza inimigos naturais selecionados para atacar a infestante. Na Tailândia, as duas espécies estabelecidas de gorgulhos-do-feijão alimentam-se das sementes da mimosa. Na Austrália, uma traça cujas larvas perfuram os caules, a Carmenta mimosa, tornou-se um dos agentes mais eficazes, enfraquecendo as plantas e reduzindo a produção de sementes.
Os resultados de um programa de tratamento que abrangeu 128 hectares apoiam a combinação de métodos. Os tratamentos isolados foram ineficazes, enquanto as combinações de herbicidas, fogo, esmagamento e controlo biológico limparam os matagais com maior eficácia e favoreceram o estabelecimento de vegetação nativa concorrente.
Num exemplo de gestão, a revisão indica que é necessário manter o controlo durante pelo menos sete anos para impedir a regeneração a partir de sementes enterradas. Outras observações, incluindo o aparecimento de plântulas uma década após a limpeza, mostram por que razão a inspeção e o acompanhamento continuam a ser necessários. Também é preciso tratar as pequenas infestações isoladas, que podem crescer enquanto os esforços se concentram nas manchas maiores.
Para os agricultores e os responsáveis pela gestão das zonas húmidas, o sucesso não consiste apenas em remover os arbustos visíveis. Implica voltar para eliminar a rebentação, reduzir a produção de novas sementes e restabelecer uma vegetação capaz de ocupar o terreno limpo. A história da mimosa-gigante transforma uma tarefa de limpeza aparentemente simples num compromisso que dura muitas épocas de crescimento.
Pontos principais
- A mimosa-gigante chegou à Tailândia, vinda da Indonésia, em 1947, para fins agrícolas; a investigação genética indica que foi introduzida mais do que uma vez.
- Uma revisão de 2023 cita investigação anterior que indica a presença da espécie em mais de 30% das zonas de planície aluvial do Mekong.
- Uma investigação perto de Kratie, no Camboja, estima em 11 dias por ano, em média, o trabalho de limpeza por hectare afetado.
- As plantas podem produzir até 220 000 sementes por ano, e algumas permanecem dormentes durante 26 anos.
- Em Bung Boraphet, na planície aluvial do Chao Phraya, o número de aves aquáticas residentes diminuiu 27% entre 2003 e 2014. As grandes aves limícolas eram menos abundantes na vegetação invadida pela mimosa.
- A combinação de métodos de controlo e o acompanhamento repetido oferecem melhores perspetivas do que um tratamento isolado.






