Avisos repetidos colocam falhas na proteção sob escrutínio
A polícia sul-coreana está a ponderar a monitorização eletrónica de agressores de violência doméstica, depois de uma série de homicídios ter exposto falhas entre as ordens de afastamento, os dispositivos de emergência e a resposta recebida pelas vítimas. Numa reunião interinstitucional na Casa Azul, a 15 de outubro de 2026, a polícia apresentou propostas para alargar o uso de tornozeleiras eletrónicas, facilitar os pedidos de detenção preventiva e substituir sanções administrativas por penas criminais em algumas violações de ordens de proteção.
Índice
- Avisos repetidos colocam falhas na proteção sob escrutínio
- O que mudaria com a monitorização eletrónica
- Detenção antecipada e sanções criminais
- O intervalo perigoso entre ordens
- Oito queixas e uma chamada de verificação sem resposta
- O que revelam os números dos relógios inteligentes
- Acusação e análise de casos fatais
- Um alerta de uma experiência anterior de monitorização
- Planos policiais mais amplos exigem coordenação
- Pontos principais
As propostas surgem na sequência de ataques em Seul, Jeju e Jeonju envolvendo pessoas que já tinham pedido proteção policial. Em Jeonju, uma mulher denunciou o marido de quem estava separada oito vezes entre abril e setembro. A polícia classificou-o como apresentando um risco elevado e verificava semanalmente, por telefone, se ela estava em segurança. Ainda assim, ele acabou por matá-la.
Uma base de dados da Agência Nacional de Polícia da Coreia, apresentada ao deputado do Partido Democrático Yang Bu-nam, regista 17 homicídios envolvendo pessoas a quem foram atribuídos relógios inteligentes de proteção entre 2022 e 12 de outubro de 2026. Outra contagem citada no debate aponta para cerca de 150 homicídios da mesma vítima por alguém anteriormente identificado como suspeito num crime relacionado com uma relação, ao longo de três anos e meio.
A polícia e o Ministério da Igualdade de Género e da Família querem aproximar as medidas de proteção contra a violência doméstica das aplicadas nos casos de perseguição. Grande parte do pacote exige alterações legislativas. Não foi anunciada qualquer data de implementação nem a redação final das alterações propostas.
O que mudaria com a monitorização eletrónica
Os tribunais já podem ordenar a monitorização eletrónica como medida provisória nos casos de perseguição. A polícia está a analisar alterações à Lei relativa à colocação de dispositivos eletrónicos, para criar uma base legal comparável nos casos de violência doméstica, incluindo proteção antes de uma decisão judicial definitiva.
Uma tornozeleira eletrónica localiza a pessoa que a usa. Um relógio inteligente de proteção tem outra função: permite à vítima enviar à polícia um alerta de emergência e a sua localização. Segundo a abordagem proposta, as autoridades atribuiriam uma parte maior da responsabilidade pela monitorização à pessoa que representa a ameaça, em vez de dependerem sobretudo de a vítima pedir ajuda.
O Ministério da Justiça gere as tornozeleiras eletrónicas, enquanto a polícia gere os relógios inteligentes de proteção. As autoridades estão a discutir se os sistemas poderiam medir a distância entre um agressor e uma vítima, emitindo avisos à medida que qualquer um deles se deslocasse. Para o pôr em prática, seria necessária a coordenação entre as duas entidades na gestão dos dispositivos e na partilha de informações de localização.
Oh Yoon-sung, professor de Administração Policial na Universidade de Soonchunhyang, descreveu um possível sistema de alerta automático:
Por exemplo, quando se aproximam a menos de 100 metros da vítima, o sistema pode alertar automaticamente a esquadra competente e a vítima....
O exemplo aborda uma fragilidade prática da monitorização limitada a uma casa ou local de trabalho: as vítimas também se deslocam, fazem compras e visitam outros locais. Um alerta baseado na distância entre duas pessoas poderia acompanhar essas deslocações. A polícia teria então de transformar o alerta numa separação física antes de ocorrer um ataque.
Detenção antecipada e sanções criminais
A polícia também quer facilitar os requisitos para pedir a Medida Provisória n.º 5, ao abrigo da Lei de Punição da Violência Doméstica. Esta medida permite que um suspeito seja detido numa cela policial ou num centro de detenção enquanto o processo decorre.
Segundo os requisitos atuais descritos pela polícia, o pedido depende da violação de uma medida provisória em vigor, como uma ordem para abandonar a casa ou manter a distância, juntamente com o risco de nova violência. A alteração proposta permitiria apresentar um pedido com base no perigo de violência repetida, mesmo antes de ocorrer tal violação.
As medidas provisórias de emergência abrangem outra fase urgente. A polícia pode emitir ordens para que alguém abandone uma residência ou mantenha a distância quando houver risco de a violência se repetir e a espera por uma decisão judicial demorar demasiado. A violação dessas medidas de violência doméstica é atualmente punível com uma sanção administrativa até 3 milhões de won.
Em comparação, a violação de uma medida de emergência num caso de perseguição pode ser punida com até um ano de prisão ou uma multa criminal até 10 milhões de won. A polícia está também a ponderar sanções criminais para as violações relacionadas com violência doméstica. O limite máximo da multa por perseguição é mais de três vezes superior à atual sanção administrativa por violência doméstica, e as violações relacionadas com perseguição também podem levar à prisão.
O intervalo perigoso entre ordens
O ataque de 11 de outubro no distrito de Songpa, em Seul, ilustra como a proteção pode falhar durante o processo de renovação de uma ordem. Um homem na casa dos 20 anos terá matado a sogra e raptado a mulher, que estava a pedir o divórcio.
A ordem de afastamento contra ele caducou a 30 de setembro. A polícia voltou a pedir medidas provisórias a 6 de outubro, seis dias depois, mas o ataque ocorreu antes de o tribunal decidir. A polícia não tinha pedido imediatamente a prorrogação porque não se verificara nenhum comportamento particularmente ameaçador durante o mês anterior.
As principais datas mostram como se desenvolveu o debate sobre a proteção:
- 30 de setembro de 2026: Caducou a ordem de afastamento do suspeito de Songpa.
- 6 de outubro: A polícia voltou a pedir medidas provisórias.
- 11 de outubro: O homicídio e o rapto em Songpa ocorreram antes de uma decisão judicial.
- 12 de outubro: Uma mulher na casa dos 40 anos foi morta em Jeju, após queixas anteriores sobre o ex-companheiro.
- 13 de outubro: O presidente Lee Jae-myung pediu, numa reunião do Conselho de Ministros, alterações às condições que obrigam as vítimas a abandonar a vida quotidiana e a esconder-se.
- 15 de outubro: A polícia apresentou as suas propostas na reunião interinstitucional de resposta ao crime, e o ministério da família abordou alterações legislativas numa conferência de imprensa.
O homicídio de Jeonju foi datado de 14 de outubro no relato que descreve as propostas da polícia e de 13 de outubro no relato sobre o historial de proteção da vítima. Ambos descrevem uma mulher morta pelo marido de quem estava separada, apesar de queixas repetidas e de restrições ao contacto dele com ela.
Oito queixas e uma chamada de verificação sem resposta
As oito queixas da vítima de Jeonju diziam respeito a contactos e visitas repetidos do marido. Ele estava sujeito a restrições que o proibiam de se aproximar e de a contactar, incluindo a proibição de chegar a menos de 100 metros.
A polícia afirmou ter recomendado um relógio inteligente de proteção e a mudança de residência, mas ela recusou. Disse também que a vontade dela de não o ver punido influenciou a aplicação de medidas mais rigorosas, incluindo a detenção e a monitorização eletrónica nas circunstâncias do caso. O historial dela incluía queixas tanto de violência doméstica como de perseguição, que têm vias legais de proteção distintas.
No dia do homicídio, a polícia não conseguiu contactá-la por telefone. Não se deslocou a casa para verificar se estava em segurança. A polícia afirmou não existir um procedimento escrito que indicasse o que fazer quando uma pessoa protegida não atendia e que os agentes pensaram que ela estaria a trabalhar, planeando voltar a contactá-la no dia útil seguinte.
Park Hyun-ho, professor de Administração Policial na Universidade de Yong In, defendeu a definição de critérios para visitas quando não é possível contactar as vítimas e a criação de medidas de proteção alternativas quando alguém recusa um relógio inteligente. O caso de Jeonju coloca estas decisões quotidianas ao lado das reformas legais propostas: quem faz a chamada seguinte, quando é que os agentes se deslocam a casa e o que acontece quando a verificação habitual de segurança falha.
Outros casos revelaram fragilidades semelhantes em diferentes fases. Em Bucheon, em março, a polícia separou uma mulher do companheiro após uma queixa de violência doméstica, dois dias antes de ele a matar. A polícia invocou a ausência de agressão física e a vontade dela de não pedir que ele fosse punido. Em Seongnam, em julho, uma mulher morta pelo ex-namorado tinha obtido uma ordem de afastamento, mas ele não fora classificado como apresentando um risco elevado que justificasse medidas adicionais.
O que revelam os números dos relógios inteligentes
A base de dados da Agência Nacional de Polícia, intitulada Situação dos casos de homicídio e tentativa de homicídio após a atribuição de relógios inteligentes, foi apresentada a Yang Bu-nam para a Comissão de Administração Pública e Segurança da Assembleia Nacional. Regista cinco homicídios em 2022, um em 2023, um em 2024, cinco em 2025 e cinco desde o início de 2026 até 12 de outubro.
A mesma base de dados regista 10 tentativas de homicídio: duas em 2022, quatro em 2024 e quatro em 2025. Entre os motivos para a proteção estavam 14 casos de violência doméstica, 10 de perseguição, oito de violência no namoro e um de violência sexual. As categorias sobrepõem-se, uma vez que uma pessoa pode sofrer mais de um tipo de abuso.
Os 17 homicídios e as 10 tentativas de homicídio perfazem 27 casos registados após a atribuição de relógios inteligentes. Não foi indicado o número total de pessoas a quem estes dispositivos foram atribuídos, pelo que não é possível calcular, com base nestes dados, uma taxa relativa a todos os destinatários.
A vítima de Jeju apresentara quatro queixas envolvendo perseguição e violência sexual contra um ex-companheiro na casa dos 60 anos. A polícia afirmou que algumas queixas terminaram com avisos ou foram arquivadas depois de ela ter recusado a investigação e de as provas se terem revelado insuficientes. Recebeu um relógio inteligente, mas o agressor arrancou-lho durante o crime.
Homicídios anteriores também envolveram várias camadas de proteção. Uma mulher morta em Ansan, em junho de 2022, tinha um relógio inteligente, estava registada no sistema de emergência 112 e era abrangida por patrulhas direcionadas. Também estavam em vigor medidas de proteção para vítimas de violência doméstica mortas em Seul, em junho de 2023, e em Ilsan, em abril de 2024. A questão prática que atravessa estes casos é saber como garantir que um alerta ou uma ordem judicial dá origem a uma intervenção suficientemente rápida para manter a vítima em segurança.
Acusação e análise de casos fatais
O Ministério da Igualdade de Género e da Família afirmou, na conferência de imprensa de 15 de outubro, que existem desajustes entre as medidas de proteção contra a violência doméstica e as aplicadas nos casos de perseguição. Pretendia pressionar outros ministérios quanto à monitorização eletrónica e às regras que regem a acusação quando a vítima não quer que o agressor seja punido.
Nos crimes sujeitos a essa regra, a oposição expressa pela vítima pode impedir a acusação. O ministério identificou a aplicação continuada dessa regra nos casos de violência doméstica como uma questão a reformar, em contraste com os casos de perseguição. A orientação proposta permitiria avançar com a acusação independentemente dessa oposição, nos crimes abrangidos por uma alteração legislativa.
Kim Sang-kyun, professor na Universidade de Baekseok, alertou que o agravamento das penas também poderia levar algumas vítimas a hesitar em denunciar os abusos. O dinheiro, os filhos e os laços familiares que se mantêm podem influenciar a decisão de pedir ajuda à polícia. A sua preocupação coloca o apoio às vítimas a par de sanções mais severas, uma vez que a denúncia é muitas vezes a primeira via de acesso à proteção.
O ministério está também a preparar um sistema de análise, caso a caso, de mortes que envolvam violência em relações íntimas. Está em curso um estudo-piloto, cujas conclusões se destinam a orientar a conceção do sistema. Estas análises incidiriam sobre o historial que conduziu à morte e as alterações necessárias para evitar outra.
Um alerta de uma experiência anterior de monitorização
Os avisos eletrónicos para casos de violência doméstica têm uma longa história. Um relatório de investigação legislativa do Connecticut, datado de 4 de fevereiro de 1994, analisou pequenos programas-piloto nos condados de Arapahoe, Dover, San Diego e Norfolk. O Gabinete de Investigação Legislativa da Assembleia Geral do Connecticut descreveu dispositivos que alertavam um centro de monitorização quando um agressor se aproximava do equipamento instalado na casa da vítima.
Em Dover, no New Hampshire, as ordens de proteção exigiam geralmente que os agressores se mantivessem a 500 pés da residência, enquanto os alarmes disparavam aos 125 pés. Na altura, o programa custava cerca de 12 dólares por dia e envolvera 10 participantes e duas violações. A polícia não deteve nenhum dos infratores em casa, mas ambos foram detidos posteriormente e condenados por desrespeito ao tribunal.
George Wattendorf, procurador da polícia de Dover, apontou como vantagem a possibilidade de documentar as violações. Descreveu também limitações: o equipamento protegia apenas a zona em redor da residência e a pulseira podia ser manipulada. O programa de San Diego, aplicado após a condenação, custava 15 dólares por dia e exigia participantes disponíveis para pagar a monitorização e o acompanhamento psicológico. Apenas uma pessoa o tinha concluído.
Denver decidiu não avançar devido a preocupações relacionadas, entre outras coisas, com a nova tecnologia, a manipulação dos dispositivos e a seleção de participantes adequados. Um comité consultivo do Minnesota também recomendou que não fossem definidos padrões para a tecnologia então disponível, apontando problemas com as ligações telefónicas, os avisos limitados à residência e os dispositivos vulneráveis a interferências.
Estas conclusões dizem respeito à tecnologia de 1994. O debate na Coreia do Sul centra-se na localização e na possibilidade de emitir avisos com base na distância entre pessoas em movimento. As tarefas operacionais continuam a ser concretas: detetar uma aproximação, emitir um alerta que possa ser utilizado e levar ajuda até à vítima.
Planos policiais mais amplos exigem coordenação
O pacote de 15 de outubro abordou também a violência em espaços públicos. A polícia planeia mapear os locais e horários com maior concentração de denúncias de posse de armas, mobilizar agentes em conformidade e aumentar as patrulhas visíveis em instalações movimentadas. Está a ponderar verificações mais frequentes de pessoas avaliadas como apresentando um risco elevado, incluindo algumas libertadas após condenações por crimes violentos.
Um ataque com uma faca, a 13 de outubro, num grande complexo comercial em Incheon, feriu 10 pessoas. O suspeito tinha sido anteriormente condenado a quatro anos de prisão por tentativa de homicídio e usava uma tornozeleira eletrónica durante o ataque. O caso coloca os procedimentos de resposta rápida e supervisão no centro do debate mais amplo sobre monitorização.
Kim Sang-kyun afirmou que as patrulhas concentradas em zonas com frequentes crimes violentos poderiam ter um efeito preventivo a curto prazo, mas questionou uma mobilização baseada estritamente nas denúncias de posse de armas. Bae Sang-hoon, professor na Universidade de Woosuk, afirmou que o reforço das patrulhas fixas após os ataques nas estações de Sillim e Seohyeon, em 2023, deslocou a criminalidade para outros locais. Observou também que as pessoas podem deslocar-se para fora do distrito policial responsável pela sua monitorização.
Bae defendeu uma resposta conjunta da polícia e dos serviços de reinserção social aos riscos avaliados, enquanto a legislação está a ser elaborada. O presidente Lee pediu também a criação de um organismo governamental para coordenar a resposta e as verificações dos equipamentos de proteção e da gestão das pessoas que representam um risco elevado.
A polícia pediu separadamente aos ministérios competentes que alargassem o internamento administrativo de pessoas com doenças mentais, criassem um serviço de transporte público para quem necessitasse desse tipo de cuidados e reforçassem os serviços de emergência de saúde mental. O Ministério da Saúde e da Segurança Social apresentou planos relativos à gestão da saúde mental e à resposta de emergência. Estes foram elementos distintos das discussões mais amplas sobre a resposta ao crime.
Pontos principais
- A polícia propôs alargar aos casos de violência doméstica a monitorização eletrónica ordenada pelos tribunais, numa reunião interinstitucional realizada a 15 de outubro de 2026.
- Outras propostas facilitariam os pedidos de detenção preventiva e introduziriam penas criminais por violação de ordens de emergência relacionadas com violência doméstica.
- A ordem relativa ao suspeito de Songpa caducou a 30 de setembro; a polícia voltou a apresentar um pedido a 6 de outubro, mas o ataque de 11 de outubro ocorreu antes de uma decisão judicial.
- A vítima de Jeonju apresentara oito queixas e a polícia não se deslocou a casa depois de uma chamada de verificação de segurança sem resposta, no dia em que foi morta.
- Os dados da polícia registam 17 homicídios e 10 tentativas de homicídio após a atribuição de relógios inteligentes de proteção, entre 2022 e 12 de outubro de 2026.
- O ministério da família está a promover alterações às regras de acusação e a preparar análises de mortes que envolvam violência em relações íntimas.
- As principais reformas exigem legislação, enquanto a coordenação entre a polícia e os serviços de reinserção social e procedimentos mais claros para verificar a segurança são prioridades imediatas apontadas por especialistas identificados.






