Verbas de recuperação terão de ser devolvidas após anos de gastos limitados
Um tribunal de Seul ordenou a duas organizações que representam comunidades afetadas pelo derrame de petróleo de Taean, em 2007, que devolvam cerca de 285,2 mil milhões de wons à Community Chest of Korea, por considerar que os seus projetos de desenvolvimento regional estavam parados, enquanto os salários e outras despesas de funcionamento absorviam a maior parte do dinheiro gasto.
Índice
- Verbas de recuperação terão de ser devolvidas após anos de gastos limitados
- Porque diferem os montantes a devolver
- Do derrame de 2007 às verbas atribuídas em 2018
- Duas organizações ao serviço de diferentes comunidades costeiras
- O que revelam os valores gastos
- Auditorias revelaram problemas antes da ação judicial
- Tribunal centrou-se na capacidade de executar os projetos
- Recurso após tentativa de mediação sem acordo
- Residentes pedem uma nova estrutura de gestão
- Principais pontos
A decisão, proferida a 1 de outubro de 2026 pela 31.ª Secção Cível do Tribunal Central de Seul, presidida pelo juiz Nam In-su, deu parcialmente razão à ação da instituição de solidariedade contra a Fundação West Coast Association e a Cooperativa Social Hebei. A cooperativa anunciou que tenciona recorrer.
Segundo a discriminação detalhada da sentença, a cooperativa terá de reembolsar 185 074 448 715 wons, acrescidos de juros de mora. A fundação terá de pagar 1 552 250 529 wons, também acrescidos de juros de mora, e devolver outros 98,6 mil milhões de wons, mediante aprovação do ministro dos Oceanos e das Pescas. No total, os montantes principais ascendem a 285 226 699 244 wons.
A conclusão central não foi a de que todo o fundo tivesse desaparecido. O tribunal considerou, antes, que as organizações não estavam a executar os projetos de interesse público para os quais o dinheiro tinha sido atribuído. No final de 2021, a fundação tinha gasto apenas 4,4% da verba que lhe coube e a cooperativa cerca de 7,8%. A maior parte dessas despesas serviu para sustentar as próprias organizações.
Esta distinção é importante para os residentes afetados: a existência de um saldo avultado nas contas bancárias não prova que uma organização consiga prestar a assistência prometida. A decisão incide sobre a capacidade da gestão do fundo e dos planos dos projetos para cumprirem os seus objetivos, mas ainda são necessários outros passos legais e administrativos para recuperar todo o dinheiro.
Porque diferem os montantes a devolver
As notícias referem que o total a devolver ronda os 280 mil milhões, os 285 mil milhões ou os 283,674 mil milhões de wons. As condições de pagamento discriminadas na decisão ajudam a explicar parte dessa variação. O valor de 283,674 mil milhões de wons resulta da soma do montante arredondado de 185,074 mil milhões a devolver pela cooperativa com os 98,6 mil milhões em património básico da fundação, mas exclui os 1,552 mil milhões de wons adicionais que a fundação foi condenada a pagar.
O património básico é constituído por bens formalmente reservados como parte da base financeira permanente de uma fundação. Neste caso, o tribunal considerou que a fundação não podia dispor dessa parcela sem autorização do ministério que a supervisiona.
Assim, a fundação foi obrigada a pedir autorização para alienar os 98,6 mil milhões de wons e para alterar os seus estatutos, de modo a que o dinheiro deixasse de ser classificado como património básico. O pagamento desta parcela depende dessas aprovações. Esta condição explica por que razão a decisão representou uma vitória parcial para a instituição de solidariedade, embora o tribunal tenha aceitado os principais fundamentos para recuperar as verbas.
A maioria das notícias aponta para um total de cerca de 100,1 mil milhões de wons a devolver pela fundação. Uma notícia em inglês refere, em vez disso, aproximadamente 110 mil milhões, valor que não corresponde à decisão detalhada. Os montantes divulgados são valores principais; a responsabilidade financeira final inclui também os juros de mora determinados pelo tribunal.
Do derrame de 2007 às verbas atribuídas em 2018
A catástrofe começou a 7 de dezembro de 2007, quando um navio-grua colidiu com o petroleiro Hebei Spirit ao largo do condado de Taean, na província de Chungcheong do Sul. A maioria das notícias indica que foram derramados 12 547 quilolitros de petróleo, o equivalente a 12,547 milhões de litros. Outra refere 10 900 toneladas. São medidas de volume e de massa, respetivamente, e não podem ser comparadas diretamente sem informação sobre a densidade do petróleo.
Também há diferenças na identificação dos navios. A maioria associa o navio-grua à Samsung Heavy Industries e descreve o petroleiro como estando registado na China. Outra notícia identifica o petroleiro como registado em Hong Kong e o navio-grua como o Samsung No. 1, ligado à Samsung C&T. Estas divergências não alteram a questão decidida na ação judicial de recuperação do fundo.
A versão predominante sobre o acordo de financiamento é a de que a Samsung Heavy Industries acordou, em fevereiro de 2016, com 11 grupos representantes dos residentes afetados contribuir com 290 mil milhões de wons através da Community Chest of Korea. Uma notícia distinta refere um compromisso anterior, de novembro de 2013, no valor de 360 mil milhões de wons. As notícias não esclarecem como esse valor anterior se relaciona com o acordo posterior.
Segundo o relato detalhado da doação subsequente, o total das contribuições destinadas a fins específicos em 2018 foi de cerca de 306,7 mil milhões de wons. Cerca de 104,2 mil milhões foram atribuídos à fundação e 202,4 mil milhões à cooperativa. Estes valores arredondados somam 306,6 mil milhões de wons, ligeiramente abaixo do total arredondado divulgado.
Algumas notícias apresentam o acordo de 2016 como a própria doação, enquanto o relato mais detalhado situa em 2018 a contribuição destinada a fins específicos e a sua distribuição. Também há divergências quanto ao ano de criação das organizações: 2016 ou 2018. Todas as notícias concordam que ambas receberam as respetivas verbas em novembro de 2018.
Duas organizações ao serviço de diferentes comunidades costeiras
A Cooperativa Social Hebei foi criada por grupos de Taean, Seosan, Seocheon e Dangjin. A Fundação West Coast Association reuniu grupos de Boryeong, Sinan, Yeonggwang, Hongseong, Gunsan, Buan e Muan. O fundo abrangia, por isso, comunidades de várias zonas costeiras, e não apenas Taean.
O dinheiro destinava-se a apoiar o bem-estar dos residentes, a recuperação das comunidades e a atividade económica regional. Não era simplesmente um orçamento para a remoção imediata do petróleo, apesar de algumas descrições do litígio o apresentarem como dinheiro desaparecido destinado à limpeza. As verbas só chegaram às organizações quase 11 anos depois do derrame.
A cooperativa afirma ter mantido projetos como o funcionamento de estruturas de cuidados e a libertação de juvenis de moluscos. Afirma também que cerca de 180 mil milhões de wons em ativos líquidos estão distribuídos por várias instituições financeiras. Estas declarações refletem a versão da cooperativa sobre a sua atividade e situação financeira; não significam que o tribunal tenha considerado adequada a sua gestão.
A abrangência geográfica das duas organizações também é relevante para as propostas de uma nova gestão. Um plano centrado em Taean teria ainda de atender aos interesses dos residentes das outras comunidades a que as verbas se destinavam.
O que revelam os valores gastos
No final de 2021, a fundação tinha gasto 4,6 mil milhões de wons dos cerca de 104,2 mil milhões que lhe foram atribuídos. Desse total, 3 mil milhões foram para salários e outras despesas de funcionamento da instituição. Com base nestes valores arredondados, as despesas de funcionamento representaram cerca de 65% do total gasto, restando 1,6 mil milhões para outras despesas.
A cooperativa tinha gasto 15,8 mil milhões de wons dos cerca de 202,4 mil milhões que lhe couberam. A maioria das notícias aponta para 9,4 mil milhões em despesas de funcionamento, ou cerca de 59% do total gasto. Outra refere 9,8 mil milhões. As notícias também arredondam de forma diferente a taxa de execução das verbas: 7,7% ou 7,8%.
Os valores mais citados para 2021 mostram que as duas organizações gastaram, em conjunto, 20,4 mil milhões de wons, dos quais 12,4 mil milhões em despesas de funcionamento. Isto significa que cerca de 61% das despesas registadas se destinaram a manter as instituições. Trata-se da proporção das despesas, não de uma afirmação de que 61% do fundo doado tenha sido consumido.
Os valores posteriores mostram um aumento das despesas, mas mantêm o mesmo desequilíbrio. Dados do Ministério dos Oceanos e das Pescas obtidos pelo deputado Lim Ho-seon indicam que, no final de 2022, a cooperativa tinha gasto 22,6 mil milhões de wons, ou 11,2% da verba que lhe foi atribuída. As despesas de funcionamento ascenderam a 12,9 mil milhões, contra 9,7 mil milhões em projetos.
Face ao final de 2021, as despesas acumuladas da cooperativa aumentaram 6,8 mil milhões de wons. Ainda assim, os custos de funcionamento continuavam a exceder em 3,2 mil milhões os gastos com projetos. O total gasto pelas duas organizações foi indicado como sendo de 28,8 mil milhões de wons, de um total de 306,7 mil milhões, ou cerca de 9,4%, embora a notícia tenha arredondado a taxa para 9,5%.
Auditorias revelaram problemas antes da ação judicial
As contestações da comunidade surgiram por volta de 2021. Uma comissão de investigação de residentes de Boryeong contestou os salários dos administradores e os processos de recrutamento da fundação, pediu a sua dissolução e exigiu a demissão da direção. Em 2022, pediu ao Ministério dos Oceanos e das Pescas que investigasse se os projetos estavam a ser executados sem participação suficiente dos residentes afetados.
O ministério analisou documentos e realizou averiguações no terreno, embora uma inspeção tenha sido interrompida por falta de cooperação da fundação. Auditorias e investigações detetaram despesas de deslocação indevidas, empréstimos desnecessários e atrasos na criação da assembleia geral de delegados da cooperativa.
O Conselho de Auditoria e Inspeção realizou uma auditoria no terreno à cooperativa em 2022. Identificou problemas na estrutura de execução dos projetos e a falta de medidas corretivas eficazes, tendo pedido um plano que permitisse concluir os projetos dentro do prazo previsto.
Um relato das conclusões de auditorias anteriores refere o pagamento de 237,33 milhões de wons em remunerações, ao longo de nove meses, a seis responsáveis cujos mandatos tinham terminado, bem como 51 milhões de wons em ajudas de custo para reuniões pagos indevidamente. Foram tomadas medidas para recuperar esses montantes.
Separadamente, foi noticiado que o presidente e o secretário-geral da fundação tinham sido acusados formalmente de crimes que incluíam desvio de fundos ao abrigo da Lei sobre a Punição Agravada de Crimes Económicos Específicos. Uma acusação formal não equivale a uma condenação. Esse processo penal é distinto da decisão cível que ordena a devolução das verbas atribuídas.
Tribunal centrou-se na capacidade de executar os projetos
Em agosto de 2023, a instituição de solidariedade notificou as duas organizações de que iria recuperar as verbas que ainda lhes restavam. Depois de estas contestarem a decisão, avançou com uma ação cível. Os fundamentos contratuais invocados, segundo as notícias, foram o artigo 6.º, n.º 2, pontos 6 e 7 do acordo de atribuição, relativo a projetos interrompidos ou à incapacidade de cumprir os seus objetivos, bem como a problemas graves na execução dos projetos ou dos orçamentos.
O pedido de doação, datado de 5 de novembro de 2018, também indicava que a Samsung Heavy Industries concordava que os montantes não gastos pudessem ser convertidos em donativos gerais de solidariedade, de acordo com as regras internas da Community Chest. A decisão, porém, não deve ser interpretada como o anúncio de um novo plano de distribuição. Não foi identificado qualquer programa substituto definitivo.
A 31.ª Secção Cível do Tribunal Central de Seul explicou que a fundação parecia dar prioridade às despesas com pessoal em detrimento da conclusão dos trabalhos previstos:
Em vez de concluir os projetos previstos dentro do prazo, a Fundação parece ter utilizado os rendimentos gerados pelas verbas atribuídas, como os juros, para cobrir despesas, incluindo custos com pessoal.
O mesmo tribunal considerou que os conflitos internos da cooperativa impediam a tomada eficaz de decisões e a execução dos projetos:
As divisões internas impediram o funcionamento da assembleia geral de delegados da Cooperativa, e os conflitos graves entre a sede e as delegações, bem como no seio da própria sede, impossibilitaram a execução adequada dos projetos.
O tribunal considerou ainda que os planos dos projetos eram inadequados face à dimensão das verbas. A sua fundamentação incidiu na capacidade das organizações para cumprirem os objetivos contratuais, e não na necessidade de concluir que todo o dinheiro tinha sido roubado.
Recurso após tentativa de mediação sem acordo
O presidente da cooperativa, Guk Eung-bok, anunciou que tenciona recorrer e negou que a cooperativa tenha desviado ou utilizado indevidamente o fundo. Argumentou que o dinheiro foi obtido graças a anos de esforço dos residentes afetados e afirmou que a organização irá resolver os problemas que lhe foram apontados.
A cooperativa atribuiu alguns atrasos ao litígio. O tribunal considerou, em contrapartida, que a situação interna da organização era a causa fundamental da paralisação dos trabalhos. As notícias apontam como provas dessas dificuldades a falta de convocação de uma comissão de seleção de projetos, a ausência de planos de execução concretos e a discussão sobre a divisão das delegações.
Antes da sentença, o tribunal propôs uma mediação que envolvia a nomeação de administradores e alterações aos estatutos da cooperativa. A cooperativa afirmou que os seus procedimentos internos, incluindo uma assembleia de delegados, dificultavam uma aceitação rápida. A mediação terminou sem acordo a 23 de julho.
As principais datas mostram a evolução do litígio:
- 7 de dezembro de 2007: ocorreu o derrame de petróleo ao largo de Taean.
- Fevereiro de 2016: a Samsung Heavy Industries celebrou o acordo de 290 mil milhões de wons referido com 11 grupos de residentes.
- Novembro de 2018: as duas organizações receberam as verbas que lhes foram atribuídas.
- 2021 e 2022: queixas da comunidade e auditorias oficiais analisaram a gestão e as despesas.
- Agosto de 2023: a Community Chest notificou as organizações da recuperação das verbas.
- Dezembro de 2023: foi apresentada a ação cível, segundo uma notícia.
- 23 de julho de 2026: a mediação terminou sem acordo.
- 1 de outubro de 2026: o tribunal proferiu a decisão.
- 6 de outubro de 2026: um antigo presidente do conselho do condado de Taean propôs a gestão pública do dinheiro devolvido.
A cooperativa tem duas semanas, a contar da notificação da sentença, para apresentar recurso. Não foi indicada a data da notificação nem a data de uma eventual audiência de recurso. O anúncio da cooperativa exprime, portanto, a intenção de recorrer, mas não confirma que o recurso já tenha sido apresentado.
Residentes pedem uma nova estrutura de gestão
Kim Jin-kwon, antigo presidente do Conselho do Condado de Taean, propôs a criação de uma comissão pública de gestão do fundo numa conferência de imprensa a 6 de outubro. A proposta reuniria a Community Chest, o condado de Taean, o conselho do condado, a província de Chungcheong do Sul, o Ministério dos Oceanos e das Pescas, os residentes afetados e especialistas.
A comissão debateria a preservação do capital devolvido e dos juros, as prioridades dos projetos de interesse público, a participação dos residentes, as auditorias externas e as normas de divulgação de informação. Kim afirmou que ponderaria percorrer a pé cerca de 160 quilómetros entre Taean e a Community Chest caso as conversações formais não avançassem ou fossem adiadas. Recordou também ter caminhado até Seul e feito sucessivas prostrações em 2012 para exigir uma contribuição da Samsung.
Uma notícia distinta identifica Park Soo-hyun como governador de Chungcheong do Sul e refere que apoiou a gestão pelos residentes, mostrando-se disponível para uma intervenção e mediação por parte da província. A mesma notícia indica que a província não tem poderes diretos para gastar o fundo. A disponibilidade para intervir não equivale, portanto, a uma transferência aprovada do controlo financeiro.
As questões imediatas ainda por resolver são saber se a cooperativa apresenta recurso, se o ministério autoriza a alienação do património básico da fundação, quando será efetivamente recuperado o dinheiro e que modelo substituirá a gestão contestada. Nenhuma das propostas divulgadas constitui uma decisão definitiva sobre a utilização das verbas. Os residentes presentes na leitura da sentença manifestaram receio de que novos processos prolonguem a espera por ajuda.
Principais pontos
- A decisão detalhada ordena a devolução de cerca de 285,23 mil milhões de wons em capital, acrescidos de juros de mora.
- A devolução dos 98,6 mil milhões de wons em património básico da fundação depende de autorização ministerial.
- No final de 2021, as organizações tinham gasto apenas 4,4% e cerca de 7,8% das verbas que lhes foram atribuídas.
- As despesas de funcionamento representaram cerca de 61% do total combinado gasto nesse ano.
- O tribunal considerou que os planos inadequados para os projetos e os problemas de governação interna justificavam a recuperação das verbas.
- A cooperativa tenciona recorrer, mas não foi indicada qualquer data para uma audiência de recurso.
- Foi proposta a criação de uma comissão de gestão pública, mas não existe ainda um plano definitivo para redistribuir as verbas.






