Daca coloca a extradição a par do repatriamento de reclusos
O Bangladesh tenciona pedir o regresso da antiga primeira-ministra Sheikh Hasina, do antigo ministro do Interior Asaduzzaman Khan Kamal e dos suspeitos do assassínio de Sharif Osman Bin Hadi durante o quinto diálogo consular com a Índia, em Daca. A reunião poderá levar para as conversações uma disputa que envolve condenações à morte e asilo político, juntamente com questões relativas a vistos, cidadãos detidos e pescadores à espera de regressar a casa.
Índice
- Daca coloca a extradição a par do repatriamento de reclusos
- Uma disputa que se prolonga desde 2024 até às conversações propostas
- O que decidiu o tribunal
- O que exige o tratado de extradição
- Crimes políticos e motivos para recusar
- Índia afirma que a análise jurídica continua
- Planos de regresso de Hasina e o caso Hadi
- Reclusos à espera de confirmação da nacionalidade
- Pescadores, travessias de fronteira e regras de viagem
- Pontos principais
Hasina e Kamal foram condenados à morte à revelia em 17 de novembro de 2025 por crimes contra a humanidade relacionados com a repressão da revolta de 2024. Hasina permanece na Índia desde que fugiu do Bangladesh, em 5 de agosto de 2024. O Bangladesh pediu formalmente a sua extradição pela primeira vez através de uma comunicação diplomática, em dezembro de 2024, e renovou o pedido após as condenações.
Segundo fontes diplomáticas nas duas capitais, esta será a primeira vez desde a revolta que Daca apresenta estes pedidos de extradição no âmbito do diálogo consular formal. O Bangladesh propôs o final de outubro, enquanto a Índia preferiu o início de novembro, devido às celebrações de Durga Puja. Ainda não foi anunciada uma data definitiva para o diálogo nem uma possível visita do primeiro-ministro Tarique Rahman à Índia.
A agenda vai muito além de Hasina. Um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh afirmou que 1 448 cidadãos bangladechianos cumpriam penas em prisões indianas. A Índia pretende que regressem a casa 25 cidadãos indianos cuja identidade foi confirmada e que já cumpriram as penas no Bangladesh. Outra lista inclui 121 reclusos alegadamente identificados como indianos e cujas penas terminaram, embora em muitos casos ainda não tenham sido concluídas as verificações de nacionalidade.
Para os dois governos, as conversações juntam duas tarefas distintas: decidir se devem ser entregues pessoas procuradas pelos tribunais e organizar o regresso de pessoas cuja nacionalidade ou situação de libertação tem de ser confirmada.
Uma disputa que se prolonga desde 2024 até às conversações propostas
O Bangladesh e a Índia criaram o diálogo consular em 2017. Realizaram quatro rondas, a mais recente em Nova Deli, em maio de 2024, antes da revolta que pôs fim ao Governo de Hasina. A próxima ronda terá lugar ao nível dos diretores-gerais, enquanto os dois países prosseguem uma série mais ampla de contactos bilaterais.
Um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh afirmou que já se realizou uma reunião comercial no âmbito dos preparativos para um possível encontro entre os líderes nacionais. A extradição tornou-se uma questão central nessas conversações, em vez de ser tratada apenas através de correspondência diplomática.
- Maio de 2024: a Índia acolheu em Nova Deli o quarto diálogo consular.
- 5 de agosto de 2024: Hasina fugiu do Bangladesh e entrou na Índia durante a revolta em massa.
- Dezembro de 2024: Daca pediu formalmente a extradição de Hasina através dos canais diplomáticos.
- 17 de novembro de 2025: o Tribunal Internacional para os Crimes do Bangladesh condenou Hasina e Kamal à morte.
- 26 de novembro de 2025: a Índia reconheceu publicamente ter recebido um pedido de extradição e afirmou que este estava a ser objeto de análise jurídica.
- 16 de agosto de 2026: o Bangladesh instou a Índia a extraditar Hasina para ajudar a criar condições para a visita proposta por Rahman.
- Final de outubro ou início de novembro: os dois lados propuseram períodos diferentes para o quinto diálogo consular.
Em 16 de agosto, o Bangladesh apelou à criação de um «ambiente propício» à visita de Rahman. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, A.K.M. Shahidul Karim, exigiu também o regresso dos suspeitos do assassínio de Hadi, acrescentando outro processo criminal a uma agenda diplomática já delicada.
O que decidiu o tribunal
A sentença de novembro de 2025 considerou Hasina culpada de incitamento, de ordenar assassínios e de não ter impedido atrocidades durante os protestos estudantis de 2024. Kamal recebeu a mesma pena. O antigo chefe da polícia Chowdhury Abdullah Al-Mamun, que testemunhou a favor do Estado, foi condenado a cinco anos de prisão.
As condenações à morte de novembro intensificaram os esforços de Daca para garantir o regresso dos antigos dirigentes. Uma análise publicada em 20 de novembro de 2025 pelo Instituto de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Nacional de Singapura, da autoria do investigador Amit Ranjan, descreve como o veredicto alterou o argumento do Bangladesh: de pedir a entrega de pessoas acusadas para pedir a entrega de pessoas já condenadas.
O então conselheiro dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh, Md Touhid Hossain, afirmou após a sentença que a conclusão do processo tinha alterado a situação.
«O processo judicial foi concluído e foram condenados».
Hasina rejeitou o processo. Em resposta a partir de Nova Deli, a antiga primeira-ministra afirmou:
«As sentenças anunciadas contra mim foram proferidas por um tribunal manipulado, criado e presidido por um Governo não eleito e sem mandato democrático».
A equidade do processo e a pena aplicada também suscitaram preocupação fora do Bangladesh. Meenakshi Ganguly, diretora adjunta para a Ásia da Human Rights Watch, afirmou:
«Há uma raiva e uma angústia persistentes no Bangladesh devido ao regime repressivo de Hasina, mas todos os processos penais têm de cumprir as normas internacionais de julgamento justo».
O gabinete dos direitos humanos das Nações Unidas saudou a sentença como um momento importante para as vítimas, mas opôs-se à pena de morte. Após o veredicto, o procurador do tribunal, Gazi Monawar Hossain Tamim, afirmou que o tribunal se preparava para pedir a ajuda da Interpol, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh, para trazer Hasina e Kamal de volta.
O que exige o tratado de extradição
O tratado de extradição de 2013, publicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia, foi assinado em Daca em 28 de janeiro de 2013. Estabelece a obrigação de entregar pessoas acusadas ou condenadas por crimes abrangidos pelo tratado, sujeita às condições e exceções previstas no acordo.
O artigo 2 estabelece um limiar básico: a conduta tem de ser punível nos dois países com uma pena de prisão de, pelo menos, um ano. Os juristas designam este princípio por dupla incriminação. Em termos simples, ambos os países têm de considerar criminosa a conduta em causa. As respetivas leis podem dar-lhe nomes diferentes ou enquadrar o crime em categorias jurídicas distintas.
Esta disposição é importante porque um pedido relativo a crimes contra a humanidade exige a análise dos atos subjacentes à acusação, incluindo alegados assassínios, incitamento ou participação. O artigo 2 abrange também tentativas, auxílio, instigação e cumplicidade.
O artigo 10 exige que os pedidos sejam apresentados por via diplomática, acompanhados de informações que permitam identificar a pessoa, dos factos relativos ao crime e da legislação aplicável. No caso de alguém já condenado e sentenciado, exige um certificado da condenação e da pena, bem como uma declaração que indique a parte da pena que ainda falta cumprir.
Responsáveis indianos afirmaram que o pedido do Bangladesh inclui os documentos jurídicos necessários. A Índia pode pedir mais informações se os elementos fornecidos não forem suficientes para tomar uma decisão. O tratado identifica o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia e o Ministério do Interior do Bangladesh como autoridades centrais.
O acordo original inclui também procedimentos para a detenção provisória urgente. Uma pessoa detida ao abrigo dessa disposição tem de ser libertada ao fim de 60 dias se não tiver chegado um pedido formal de extradição. Um pedido posterior pode ainda dar origem a novos procedimentos.
Crimes políticos e motivos para recusar
O artigo 6 permite recusar um pedido quando o crime tem natureza política, mas exclui expressamente dessa categoria o homicídio, o homicídio involuntário ou culposo, as ofensas graves à integridade física, o rapto e o incitamento ao homicídio. As tentativas, conspirações e formas de participação nos crimes enumerados também estão abrangidas pelas exclusões.
Os crimes contra a humanidade não são expressamente mencionados nessa lista. A análise jurídica depende, por isso, da conduta alegada, das disposições aplicáveis e das restantes garantias previstas no tratado. No caso de Hasina e Kamal, as alegações relacionadas com assassínios e incitamento tornam particularmente relevante a redação do artigo 6.
O artigo 8 prevê uma garantia distinta contra acusações apresentadas de má-fé e sem respeito pelos interesses da justiça. Abrange também situações em que a extradição seria injusta ou opressiva devido à passagem do tempo ou à natureza insignificante de um crime, bem como certos crimes militares e casos de absolvição ou condenação anteriores.
A análise jurídica do ISAS de Ranjan identifica a secção 29 da Lei da Extradição indiana de 1962 como outra possível base para recusar um pedido que envolva má-fé, considerações políticas ou os interesses da justiça. O estudo regista ainda que a Índia e o Bangladesh alteraram o artigo 10.º, n.º 3, em julho de 2016 para acelerar os procedimentos de extradição, pelo que o texto original do tratado deve ser considerado em conjunto com essa alteração.
O artigo 7 prevê outra possibilidade: o país a que é dirigido o pedido pode recusar a entrega se tiver competência para julgar a pessoa. Nesse caso, tem de remeter o processo às autoridades competentes para que estas ponderem a instauração de um processo penal. Se decidirem não avançar com a acusação, o pedido de extradição tem de ser reconsiderado.
Índia afirma que a análise jurídica continua
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia, Randhir Jaiswal, confirmou publicamente em 26 de novembro de 2025 que Nova Deli tinha recebido o pedido do Bangladesh. Ao explicar o estado do processo, afirmou:
«Sim, recebemos o pedido. E este está a ser analisado no âmbito de processos judiciais e jurídicos internos em curso».
Desde então, responsáveis indianos têm salientado o papel dos tribunais e a necessidade de determinar se a conduta alegada constitui crime ao abrigo da lei indiana. Os procedimentos de extradição da Índia permitem ao Governo nomear um magistrado para conduzir um inquérito. A Divisão Consular, de Passaportes e Vistos do ministério trata dos assuntos de extradição.
Se considerar que há indícios suficientes para prosseguir nessa fase, o magistrado pode recomendar a extradição. Se esse limiar não for atingido, ordena a libertação da pessoa. As exceções previstas no tratado e os poderes legais também fazem parte do processo, pelo que tanto a análise judicial como a atuação do Governo têm um papel a desempenhar.
Membros da Liga Awami afirmaram que contestariam a sentença do tribunal no âmbito dos procedimentos de extradição na Índia, incluindo o facto de ter sido proferida durante a administração interina liderada por Muhammad Yunus. Responsáveis indianos descreveram também intensas conversações diplomáticas com Daca, refletindo a ligação entre o pedido jurídico e as relações entre os dois governos.
Planos de regresso de Hasina e o caso Hadi
Hasina aproveitou uma conferência de imprensa em 5 de agosto de 2026 para criticar as condições no Bangladesh e falar sobre o seu regresso ao país. A antiga primeira-ministra afirmou:
«O medo entrou nas casas, nos locais de trabalho e nos campus universitários».
Questionada sobre o regresso, Hasina referiu-se ao mês em que se comemora a vitória do Bangladesh na guerra de libertação de 1971.
«Dezembro é o nosso mês da vitória, por isso quero regressar em dezembro».
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh respondeu acusando-a de ser responsável pela morte de civis, incluindo crianças, durante a revolta de julho e agosto de 2024. O regresso que Hasina propõe coloca dezembro no calendário diplomático, enquanto o pedido de extradição continua em aberto.
O caso de Hadi envolve outros suspeitos. Morreu em Singapura, em dezembro de 2025, depois de ter sido baleado em Daca. Segundo relatos, os suspeitos do seu assassínio fugiram para a Índia. Daca tenciona pedir a extradição destes, juntamente com a de Hasina e Kamal, durante o diálogo consular.
Os suspeitos do assassínio de Hadi são procurados enquanto suspeitos, ao passo que Hasina e Kamal já foram condenados. Os documentos jurídicos e as provas necessários para cada pedido dependem dessa situação e dos procedimentos de extradição aplicáveis.
Reclusos à espera de confirmação da nacionalidade
O pedido da Índia para que regressem 25 dos seus cidadãos diz respeito a pessoas que já cumpriram as penas e cuja identidade foi confirmada. Continuam detidas no Bangladesh, aguardando o repatriamento após a libertação: a tarefa seguinte é organizar o seu regresso, não completar uma pena de prisão.
O Bangladesh apresentou também uma lista de 121 reclusos alegadamente identificados como indianos e cujas penas já terminaram. A Alta Comissão da Índia afirma que muitas entradas não incluem dados pessoais suficientes. Pediu acesso consular para verificar a nacionalidade e aguarda uma resposta de Daca. Alguns casos com informação suficiente continuam a ser verificados.
Não foi especificada a relação entre a lista dos 121 e o grupo dos 25, pelo que não é possível somar os dois números para obter um total. Cada caso confirmado pode avançar para a emissão de documentos de viagem e a organização de uma entrega acordada.
O Bangladesh enfrenta problemas de identificação semelhantes nas listas enviadas pela Índia. Um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Bangladesh afirmou que algumas entradas continham nomes repetidos ou informação insuficiente para identificar a pessoa. Daca diz ter repatriado as pessoas cuja identidade conseguiu confirmar e que a sua política é receber de volta os cidadãos bangladechianos que residem ilegalmente no estrangeiro.
Os 1 448 bangladechianos que cumprem penas na Índia encontram-se numa situação diferente da das pessoas que já terminaram de cumprir a pena. No primeiro caso, a prisão continua; no dos reclusos já libertados, é necessário organizar a saída da custódia e a travessia da fronteira.
Pescadores, travessias de fronteira e regras de viagem
A Índia está também a pedir que se acelere o repatriamento de pescadores. Um responsável da Alta Comissão da Índia afirmou que Nova Deli partilhou com Daca um projeto de protocolo para agilizar o regresso por razões humanitárias.
O responsável explicou que os pescadores podem atravessar por engano a fronteira marítima, uma vez que não há uma linha visível no mar. Mesmo uma detenção breve interrompe o seu rendimento. Um protocolo poderia estabelecer um procedimento acordado para tratar estes casos e organizar os regressos.
O Bangladesh tenciona abordar os incidentes em que pessoas terão sido empurradas para o seu território vindas da Índia desde a revolta. Por seu lado, a Índia queixou-se de que o Bangladesh ainda não repatriou as pessoas identificadas como cidadãos bangladechianos detidos. A discussão juntará as práticas fronteiriças ao trabalho concreto de confirmação de identidades e nacionalidades.
Os serviços de vistos, o auxílio judiciário mútuo, outros casos de extradição e a renovação do Acordo de Viagem Revisto também constam da agenda. O acordo de viagem expirou em 2023 e tem sido prorrogado de seis em seis meses. A sua renovação diz respeito às regras que regem as viagens entre os dois países.
O diálogo proposto poderá, assim, levar a várias decisões concretas: processar os regressos de reclusos com identidade confirmada, resolver registos de identificação incompletos, analisar o protocolo relativo aos pescadores e rever os acordos de viagem. O caso de Hasina tem maior peso político, enquanto essas decisões administrativas afetam diretamente pessoas que aguardam detidas ou tentam atravessar legalmente a fronteira.
Pontos principais
- O Bangladesh tenciona abordar a extradição de Hasina, Kamal e dos suspeitos do assassínio de Hadi no quinto diálogo consular, em Daca.
- Hasina e Kamal foram condenados à morte em 17 de novembro de 2025, após julgamentos à revelia.
- O tratado de 2013 exige a análise de condutas criminosas reconhecidas nos dois países e prevê motivos para recusar a extradição.
- A Índia confirmou ter recebido o pedido e afirmou que está a decorrer uma análise jurídica.
- A Índia pede o regresso de 25 cidadãos com identidade confirmada que já cumpriram penas no Bangladesh; uma lista de 121 reclusos também exige verificações de nacionalidade.
- Serão igualmente discutidos os pescadores, os movimentos na fronteira, os vistos e a renovação dos acordos de viagem.






