Investigadores identificam unidades por detrás dos ataques contra civis
Investigadores das Nações Unidas identificaram algumas unidades militares de Myanmar e as respetivas cadeias de comando envolvidas em ataques aéreos contra civis, alargando a investigação para lá do registo da destruição e procurando determinar quem poderá ser responsabilizado criminalmente. O seu oitavo relatório anual, referente ao período entre julho de 2025 e junho de 2026 e publicado a 11 de agosto de 2026, descreve uma escalada dos ataques antes das eleições organizadas pelos militares em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, seguida da continuação da violência após o fim da votação.
Índice
- Investigadores identificam unidades por detrás dos ataques contra civis
- Como as táticas aéreas reduzem o tempo de aviso
- Criticar as eleições passou a ser crime
- Investigações sobre tortura vão além dos militares
- Ataques em Rakhine expõem pessoas já deslocadas
- Relatos de Sagaing e Karen descrevem novos bombardeamentos
- Novos deslocamentos dificultam o regresso dos rohingya
- Diferentes números de vítimas medem perdas diferentes
- As provas chegam aos tribunais, mas os veredictos são outra questão
- Principais pontos
O Mecanismo Independente de Investigação para Myanmar (IIMM, na sigla em inglês) afirma ter documentado ataques deliberados contra habitações, escolas, instalações médicas, edifícios religiosos e campos de deslocados. As investigações abrangem também detenções arbitrárias, tortura e violência sexual por parte dos militares e de forças aliadas, bem como alegados crimes graves cometidos por grupos armados que combatem essas forças.
Nos excertos oficiais do relatório de 2026, o mecanismo confirma que os investigadores identificaram algumas unidades responsáveis por ataques aéreos e analisaram as respetivas cadeias de comando. Refere também progressos na investigação de crimes relacionados com detenções ao abrigo de uma lei de 2025 que criminaliza as críticas às eleições, bem como de alegações de violência reprodutiva contra mulheres e raparigas detidas.
As conclusões baseiam-se em informações recolhidas junto de mais de 1600 fontes, incluindo mais de 750 depoimentos de testemunhas, bem como fotografias, vídeos, provas forenses e imagens de satélite. São conclusões de uma investigação, não condenações penais. O mecanismo recolhe e preserva provas para os tribunais, mas não acusa os arguidos.
Nicholas Koumjian, responsável pelo IIMM, descreveu o sofrimento humano por detrás desse trabalho:
Por detrás de cada elemento de prova que recolhemos estão pessoas cujas vidas foram devastadas por estes crimes.
A distinção entre preservar provas e obter uma sentença é importante: identificar uma unidade ou rastrear ordens pode ajudar a construir um processo, mas cabe ainda a um tribunal avaliar a responsabilidade à luz da lei aplicável.
Como as táticas aéreas reduzem o tempo de aviso
A investigação descreve a utilização crescente pelos militares de paramotores, autogiros e drones para lançar explosivos não guiados a baixa altitude. Um paramotor é um parapente motorizado; um autogiro é uma pequena aeronave cujo rotor gira com o fluxo de ar. Estas aeronaves permitem realizar ataques com equipamento mais barato do que os aviões de combate convencionais.
Na parte superior da região de Sagaing, os investigadores estão a analisar alegações de que pilotos de paramotores desligaram os motores antes de chegar aos alvos. Aproximarem-se silenciosamente a planar de uma comunidade pode deixar os residentes com pouco tempo para fugir ou procurar abrigo. As alegações dizem respeito a incidentes específicos sob investigação, não constituindo uma conclusão de que todos os ataques seguem este método.
O IIMM descreve também ataques repetidos em que um segundo ataque se segue ao primeiro, aparentemente visando socorristas, pessoas que ajudam os feridos ou civis que tentam escapar. Estes ataques podem prolongar o perigo para lá da explosão inicial e expor quem presta assistência a novos danos.
Os investigadores analisaram tanto as munições utilizadas como a forma como foram dadas as ordens para os ataques aéreos. Esse trabalho estabelece uma ligação entre as provas materiais recolhidas nos locais dos ataques e as organizações militares responsáveis. Os excertos oficiais não identificam as unidades ou os comandantes em causa, nem apresentam uma contagem completa dos ataques aéreos durante o período abrangido pelo relatório.
Criticar as eleições passou a ser crime
O aumento da violência aérea ocorreu ao mesmo tempo que a repressão associada às eleições de dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Um partido apoiado pelos militares venceu a votação, que governos ocidentais e organizações de defesa dos direitos humanos rejeitaram por não ser livre nem justa. Min Aung Hlaing tornou-se posteriormente presidente.
O IIMM está a investigar casos de detenção relacionados com uma lei aprovada em 2025 que criminaliza as críticas às eleições. As penas previstas podem chegar aos 20 anos de prisão ou à pena de morte. Entre os casos descritos em reportagens contam-se pessoas punidas por comentários críticos publicados na Internet ou por distribuírem panfletos contra a votação.
Assim, as eleições surgem na investigação de duas formas distintas: como o período em torno do qual os ataques aéreos se intensificaram e como objeto de uma lei usada para deter críticos. A coincidência temporal não permite, por si só, estabelecer a motivação de cada ataque ou detenção.
Os investigadores afirmam que os ataques continuaram depois de a votação terminar, em janeiro. Os relatos de outubro sobre ataques em Sagaing, Rakhine e no estado de Karen são posteriores ao período abrangido pelo relatório anual, de julho de 2025 a junho de 2026. Devem ser considerados incidentes noticiados posteriormente, não acontecimentos já avaliados nesse relatório.
Investigações sobre tortura vão além dos militares
O mecanismo reuniu provas substanciais de detenções arbitrárias, tortura física e sexual e mortes em instalações controladas pelos militares. Os excertos oficiais do relatório referem também alegações de violência reprodutiva contra mulheres e raparigas detidas. A expressão diz respeito a violência que afeta a saúde ou a autonomia reprodutiva; os excertos não especificam os atos alegados em cada caso.
A maioria das provas diz respeito aos militares e às milícias aliadas, mas os investigadores estão também a analisar crimes alegadamente cometidos por grupos armados da oposição. Entre eles contam-se alegações de violência sexual relacionada com o conflito.
No estado de Rakhine, a investigação abrange membros do Exército de Arakan, que controla grande parte do estado e combate os militares. Entre as alegações relatadas contam-se violações e outros atos de violência sexual contra mulheres rohingya, execuções sumárias, recrutamento de crianças e destruição de mesquitas.
Os excertos oficiais descrevem investigações alargadas sobre detenções arbitrárias, deslocações forçadas e restrições à ajuda humanitária que afetam os rohingya, os rakhines e outras comunidades. Incluem expressamente alegados autores pertencentes ao Exército de Arakan. Investigar várias partes não significa que a sua conduta, a dimensão dos abusos ou a responsabilidade sejam idênticas. Cada alegação exige provas próprias.
Os militares não responderam de imediato à investigação anual nem às alegações separadas de ataques em agosto em Rakhine. Anteriormente, afirmaram atacar alvos militares legítimos e acusaram as forças de resistência de terrorismo. Essas declarações não resolvem as conclusões dos investigadores sobre os ataques a alvos civis.
Ataques em Rakhine expõem pessoas já deslocadas
O Exército de Arakan afirmou que ataques aéreos dos militares em três municípios de Rakhine mataram cerca de 20 civis e feriram 22 entre 1 e 11 de agosto. Segundo relatos, um dos ataques envolveu até oito aeronaves e durou cerca de uma hora. Estes números são atribuídos a uma das partes no conflito e não são apresentados como totais confirmados de forma independente.
Relatos posteriores descrevem ataques a campos de deslocados no município de Ponnagyun, em outubro. Um relato indica oito mortos e 13 feridos em dois ataques: seis mortos e 11 feridos no domingo, seguidos de dois mortos e dois feridos na manhã de segunda-feira. Outro também refere pelo menos oito mortos, mas a sua descrição identifica seis mortes no ataque de domingo e uma num ataque separado de uma aeronave Y12. Essa discriminação não explica o total indicado no título.
Kyaw Win Tun, porta-voz da Associação de Jovens de Ponnagyun, descreveu os residentes dos dois campos:
São todos civis deslocados.
O escritor rakhine e trabalhador humanitário Wai Hun Aung afirmou que os campos ficavam longe da zona de combate ativa. Os pormenores dos ataques não foram verificados de forma independente, e um porta-voz do Governo não comentou de imediato.
Segundo relatos, um ataque a 28 de setembro perto de um mercado no município vizinho de Kyauktaw matou 50 pessoas e feriu pelo menos 58. Um relato separado indica o mesmo número de vítimas num ataque a um mercado em Rakhine, mas sem data exata; por isso, os números não devem ser somados como prova de dois incidentes distintos. Há também relatos de um ataque em dezembro a um hospital em Mrauk U que matou pelo menos 30 pessoas.
Relatos de Sagaing e Karen descrevem novos bombardeamentos
Em Sagaing, relatos dos ataques de 11 e 12 de outubro descrevem três vagas de bombardeamentos contra o complexo do mosteiro na aldeia de Seikkhun, município de Shwebo, seguidas de 30 ataques contra quatro aldeias do município de Wetlet. Um dos relatos regista pelo menos cinco civis mortos e 23 feridos ao longo dos dois dias.
Os ataques de outubro ao mosteiro foram também descritos num relato que indica seis mortos e cerca de 21 feridos. Ambos os relatos concordam que duas pessoas morreram e oito ficaram feridas no mosteiro. A divergência diz respeito às vítimas em Wetlet. Os residentes afirmaram que não houve combates durante os ataques em Wetlet.
O mosteiro acolhia civis deslocados e pessoas idosas. Segundo relatos, foram destruídos edifícios que homenageavam o mestre budista Mahasi Sayadaw, embora os relatos divirjam quanto à extensão dos danos no complexo. Um ataque separado, a 21 de agosto, contra um mosteiro no município de Myaung terá matado 15 pessoas.
No norte do município de Kawkareik, no estado de Karen, fontes locais e combatentes da resistência descreveram três dias de ataques, de 6 a 8 de outubro, com aviões de combate, aeronaves Y12 e drones armados. Segundo relatos, foram lançadas pelo menos 50 bombas na manhã de 8 de outubro, enquanto uma bomba de 500 libras atingiu a aldeia de Kwimaungtaing a 7 de outubro.
Segundo relatos, mais de 2000 residentes estavam deslocados desde setembro de 2025. Muitos aldeões fugiram antes de os bombardeamentos se intensificarem, o que dificulta a avaliação das vítimas e dos danos materiais. Estes relatos posteriores descrevem aeronaves e alvos civis semelhantes aos analisados pelo IIMM, mas os seus pormenores não podem ser automaticamente considerados conclusões confirmadas da investigação anual.
Novos deslocamentos dificultam o regresso dos rohingya
A violência em Rakhine está também a levar a novas deslocações para o Bangladesh. Números da ONU citados em reportagens indicam que chegaram ao país mais de 154 000 rohingya desde o início de 2024. Mais de 1,2 milhões de rohingya vivem em campos em Cox's Bazar, após sucessivas vagas de perseguição e deslocação.
Mais de 720 000 fugiram da campanha militar iniciada em agosto de 2017. O número mais recente de chegadas corresponde a cerca de um quinto daquele êxodo, com base nos limiares divulgados. Os números referem-se a períodos diferentes e não devem ser entendidos como uma medida exata do número de pessoas que continuam deslocadas.
Durante uma visita de seis dias ao Bangladesh, Koumjian reuniu-se com refugiados rohingya e falou sobre as investigações em curso relativas a crimes em Rakhine. O responsável do IIMM descreveu o âmbito da investigação:
O Mecanismo está a investigar alegações de crimes internacionais muito graves atualmente cometidos no estado de Rakhine por autores de diferentes etnias, religiões e filiações políticas.
Disse também que os testemunhos recentes de refugiados eram cruciais para fazer avançar as investigações. Os ataques contínuos, as deslocações forçadas e as restrições à ajuda impedem um regresso seguro, independentemente das negociações sobre a repatriação.
O problema ficou patente durante as negociações de repatriamento da Malásia em outubro. A Malásia informou ter repatriado 10 493 cidadãos de Myanmar durante 2026, enquanto Min Aung Hlaing afirmou que a sua administração aceitaria apenas pessoas cuja cidadania de Myanmar fosse confirmada. Esta condição poderá excluir muitos rohingya, a quem sucessivos governos negaram a cidadania.
Diferentes números de vítimas medem perdas diferentes
A dimensão da guerra em Myanmar não pode ser resumida a um único balanço. Estimativas gerais apontam para cerca de 100 000 mortos desde o golpe de Estado de fevereiro de 2021, enquanto a Associação de Assistência aos Presos Políticos (AAPP, na sigla em inglês) contabiliza mais de 8000 civis mortos e mais de 31 000 pessoas detidas pelas forças de segurança.
São medidas diferentes, não necessariamente contagens contraditórias. A estimativa geral das mortes na guerra e o registo da organização de mortes de civis atribuídas às forças de segurança abrangem categorias distintas. Não devem ser somadas.
Uma base de dados separada sobre massacres regista pelo menos 5358 mortos em 510 incidentes atribuídos às forças militares desde 14 de março de 2021. Define massacre como um incidente em que morreram pelo menos cinco pessoas. Este limiar exclui ataques com menos mortos, e os números poderão sobrepor-se a outros registos de vítimas civis.
Os relatos apresentam também estimativas diferentes de deslocados: mais de 3,5 milhões num caso e quase 3,8 milhões noutro, que cita as Nações Unidas. As datas e o âmbito dessas estimativas não coincidem, pelo que a diferença não permite concluir que tenha havido um aumento de 300 000 pessoas.
Uma breve cronologia distingue a investigação anual de crimes anteriores e ataques posteriores:
- Agosto de 2017: Uma campanha militar levou mais de 720 000 rohingya a fugir para o Bangladesh.
- Fevereiro de 2021: Os militares derrubaram o Governo civil eleito, desencadeando protestos e resistência armada.
- Julho de 2025 a junho de 2026: Período abrangido pelo oitavo relatório anual do IIMM.
- Dezembro de 2025 a janeiro de 2026: Realizaram-se eleições organizadas pelos militares enquanto os investigadores registavam a escalada dos ataques.
- Janeiro de 2026: Nas audiências públicas do processo da Gâmbia contra Myanmar foram citadas provas partilhadas pelo IIMM.
- 11 de agosto de 2026: Foram publicadas as conclusões anuais.
- Outubro de 2026: Novos relatos descreveram ataques em Rakhine, no estado de Karen e em Sagaing.
As provas chegam aos tribunais, mas os veredictos são outra questão
Criado pelo Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas em 2018, o IIMM recolhe provas dos crimes internacionais mais graves cometidos em Myanmar desde 2011. O seu trabalho apoia processos no Tribunal Penal Internacional (TPI), junto das autoridades argentinas e no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ).
Estes órgãos têm funções diferentes. O TPI e os tribunais penais nacionais analisam a responsabilidade penal individual. O TIJ resolve litígios entre Estados, incluindo a alegação da Gâmbia de que Myanmar violou a Convenção sobre o Genocídio no tratamento dado aos rohingya durante as campanhas de 2016 e 2017.
Os excertos oficiais do relatório indicam que o IIMM partilhou provas e análises substanciais com as equipas que representam ambos os Estados e que esse material foi amplamente citado nas audiências públicas de janeiro de 2026. A sua utilização demonstra que as provas estão a chegar a processos judiciais, não que exista uma decisão judicial definitiva sobre as alegações.
A Argentina abriu um processo em 2024 ao abrigo do princípio da jurisdição universal, que permite aos tribunais nacionais analisar certos crimes internacionais graves cometidos noutros países. Separadamente, uma queixa por genocídio apresentada na Indonésia contra Min Aung Hlaing foi recebida pelos procuradores a 6 de abril de 2026. A receção de uma queixa não equivale à abertura de um processo-crime nem a uma condenação.
Os excertos do relatório não identificam as unidades militares visadas pela investigação aos ataques aéreos, não anunciam acusações decorrentes dessas conclusões e não indicam a data da próxima audiência. A importância jurídica deste trabalho reside na preservação das provas e na ligação entre os crimes alegados e os seus responsáveis, cabendo aos tribunais decidir os processos.
Principais pontos
- O relatório de agosto de 2026 do IIMM abrange o período entre julho de 2025 e junho de 2026 e identifica algumas unidades militares e cadeias de comando responsáveis por ataques aéreos.
- Os investigadores afirmam que os ataques se intensificaram antes das eleições de dezembro e janeiro e continuaram depois.
- As investigações abrangem tortura, violência sexual, detenções relacionadas com as eleições e alegados crimes cometidos por grupos armados da oposição.
- Relatos posteriores descrevem novos ataques contra campos de deslocados, aldeias e mosteiros, com divergências em alguns números de vítimas.
- Segundo relatos, mais de 154 000 rohingya chegaram ao Bangladesh desde o início de 2024, enquanto a violência impede um regresso seguro.
- O mecanismo preserva e partilha provas para processos judiciais; as suas conclusões não são condenações penais.






